quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016





terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Casa da Passarella — Abanico, Reserva '2011

50% Touriga Nacional, completada com Alfrocheiro e Jaen. Após vinificação em cubas de cimento, com macerações pré e pós-fermentativa, parte do lote final estagiou, durante um ano, em barricas de 225 litros, novas, de carvalho francês.

A pequena estória que aparece no contra-rótulo (e no sítio do produtor na internet) é engraçada: "Conta-se que um dia um escultor ficou com o olhar preso num conhecido fenómeno da natureza: um pavão exibia o seu manto majestático de penas, só para chamar a atenção da fémea e saciar as suas vontades proibidas. O espectáculo fora de tal forma esplêndido, que dois dias mais tarde tinha já o artista esculpido uma peça baseada no que tinha visto. Deu-lhe o nome de leque. E para poder sobreviver, deu-lhe também uma utilidade simples. E os leques foram-se reproduzindo pelas modas, pelas gentes, pelos palácios, pelas óperas e pelas épocas, como um adereço imprescindível. Mas o mundo haveria sempre de usar o leque para expulsar o calor, nunca para o deter dentro de si. O mundo, excepto uma mulher: Teresa. Teresa sempre fora uma rapariga tímida e reservada, mas aos 21 anos recebeu um presente secreto, uma carta e um leque de um admirador, um nobre que vivia em Sevilha. Na carta, concedia-lhe o absoluto e em troca apenas lhe pedia que dormisse sempre com o leque por perto. No momento em que, pela primeira vez, pegou no leque, Teresa tornou-se numa imperatriz. Todas as noites sonhava com estranhos pavões a saciarem as suas vontades proibidas."

Agora que nada é verdadeiro, e por conseguinte, tudo é permitido, ainda mais que quando, no passado, se começou a materializar aquela vontade proibida, inerente ao espírito de cada um, de viver livre do jugo de outras vontades, mais ou menos inquestionáveis e mais ou menos invisíveis também, provindas directamente de Deus e concretizadas pelo verdugo, se necessário, temos TV em directo, web 2.0 e toda uma porrada de invenções que progridem no sentido da aproximação; sobrevivemos ao esvaziamento de todos os valores, e continuamos tão enfermiços de alma que acabamos a esmiufrar, novamente, as observações dos antigos, tamanha a necessidade auto-imposta de encontrar algo diferente, nem que para tal seja necessário regressar à prisão, interrogo-me se porque "isto que temos" nunca é bom que chegue ou se, simplesmente, para variar.

Quanto ao vinho, que é por causa dele que todas as observações supra aqui estão, encontrei-o repleto de frutos negros, sobretudo ameixa, junto com generosos apontamentos balsâmicos, fumados e especiados que, a todos os títulos, só poderia considerar interessantes. Está mais intenso que encorpado, bem mais longo que complexo e muito, muito fresco. Dão e Touriga quanto baste, tem a individualidade das coisas que sugere a perder-se, fundida, no todo, e isso, junto com ser assim "grande" sem depois possuir opulência a condizer, muito ajudam à percepção global de elegância, que será aquilo que dele mais facilmente fica, pelo menos neste momento.

7€.

16,5

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Histórias da mamã (1)

Inverno. Noite cerrada, o galo canta. Importa chegar cedo à feira: julgando estar prestes a romper o dia, X levanta-se, albarda a mula e sai.

Atalha caminho fora da estrada, por entre pinhais. A dada altura, nota que o vento traz cheiro a fumo. Vislumbra um clarão ao longe, que rapidamente se faz perto, como se corresse contra si. Momentos depois, estremece ao sentir-se agarrado por uns braços frios. Encontra-se já entre elas.

São mulheres, velhas e novas, que se agitam em redor de uma grande fogueira, os corpos nus cobertos de gordura e porcaria. Apesar de lhe tocarem, cantam, dançam e rezam, aparentemente indiferentes a qualquer possível acção por parte de X, que flutua pela cena como num sonho.

Uma delas está sentada no chão, à beira do fogo. Pele pálida, cabelos loiros e olhos tristes, ela mesma quase uma criança, segura no colo um bebé, completamente negro, que embala em silêncio.

É dela que X se aproxima. E ela, como se o esperasse, encara-o com doçura e pede-lhe que segure o menino.

X acede, impelido por uma força maior, a mesma que o prende ali, a mesma que parece parar o tempo e isolar do resto do mundo o fragmento de espaço onde se encontra.

Dominado mas pelo menos parcialmente lúcido, X nota com horror que as mãos da criança largam cinza e carvões em brasa. Balbucia e ri, à medida que lhe vai queimando a pele.

E X queixa-se baixinho, sem se atrever a esboçar um movimento: "por favor não faça isso, menino, que me está a queimar".

Mas a provação arrasta-se. As mulheres continuam a dançar, as vozes cada vez mais altas, os movimentos mais frenéticos, em crescente histeria. "Valha-me a Santíssima Trindade! Por favor não faça isso, menino, que me está a queimar!"

A dada altura, carvão em brasa cobre-lhe os pés.

Encontraram-no no dia seguinte, já a tarde ia alta, inanimado, à beira de uma picada. A mula e a carga desapareceram. Quando voltou a si, nem ele parecia saber o que acontecera. Uma qualquer comoção, um desmaio. Curiosamente intacta, no entanto, a recolecção de um sonho singular.

Dizem que o cabelo lhe embranqueceu em poucos dias. Morreu meses depois, atingido por uma pernada que se soltou de um castanheiro, deixou dois filhos pequenos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Château Cardonna Lahourcade '2012

Este tinto consiste num lote composto por Merlot e Cabernet Sauvignon, em partes quase iguais, 50-48%, respectivamente, junto com 2% de Cabernet Franc, como que em jeito de tempero. O produtor é Les Vignerons d'Uni-Médoc, uma cooperativa agrícola sediada na localidade de Gaillan-en-Médoc.

Groselha preta e cereja, ligeira baunilha e toque lácteo, nem por sombras tão pronunciado como no Porrera do post anterior, mas presente, sobretudo no final. Servido directo da garrafa, pareceu-me um Bordéus simples, de presença apenas mediana, mas bem acabado e, o mais importante, bem agradável. Não me pareceu distante, quer em estilo quer em execução, deste Vieux Labarthe de 2011, mas mais sumarento, limpo e preciso: superior. Apesar do toco de borracha com que veio vedado, mostrou o suficiente para fazer acreditar que poderá valer a pena guardá-lo um par de anos.

O preço médio dele ronda os 5-6€, mas tive oportunidade de comprar várias garrafas numa promoção de supermercado, onde estavam lado a lado com coisas foleiras, por pouco menos de três. Ora, se o vinho é feito e vendido para dar lucro a cada um daqueles por quem for passando, até chegar ao consumidor final, como é que, considerados todos os custos, mesmo estando a escoar excedentes, pode ter valido a pena vendê-lo tão barato? Pressões logísticas, poderão dizer alguns: a necessidade de esvaziar as prateleiras para dar lugar a coisas novas.

Neste caso em concreto, poderia afirmar que dadas as "coisas novas" para as quais este e outros vinhos do mesmo naipe tiveram de fazer espaço à pressa, mais valia os senhores da distribuição terem ficado quietos. Mas tanto quem fez este formoso vinho como quem o vendeu aparenta, ainda, prosperar. Então, apesar de tudo, terá valido a pena. São políticas que não vão mudar tão cedo — aproveitemos, na nossa pequenez, sempre que algum dos elos da cadeia se lembre de depreciar algo fixe. Como ratos.

16

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016



sábado, 30 de janeiro de 2016

Cims de Porrera — Vi de Vila '2009

A DOCa Priorat coincide com uma pequena zona montanhosa, com uma superfície aproximada de 18000ha, dos quais apenas 1600 se encontram ocupados por videiras, situada na província de Tarragona. É delimitada a norte, este e oeste pelas serras de Montsant, Molló e La Figuera, respectivamente, e a sul, pelo rio Ciurana, afluente do Ebro.

O clima é mediterrâneo, moderado pelas montanhas que rodeiam a região, tanto em relação à influência do mar como a parte dos ventos continentais, com amplitudes térmicas consideráveis, e regra geral, o vinhedo, implantado em socalcos, necessários face à inclinação acentuada das encostas, costers, onde se situa, assenta em solos pouco profundos, pobres em matéria orgânica, constituídos pela chamada llicorella, uns calhaus angulosos e quebradiços que resultam da desagregação das camadas de ardósia da rocha matriz, eficazes a reter o calor do sol e por entre os quais as raízes das plantas penetram em busca de água e nutrientes.

Cims de Porrera, o produtor deste vi de vila, está firmemente engranzado com a cooperativa agrícola da localidade: é aos seus sócios que as uvas são compradas e é nas suas instalações que elaboram os vinhos. Depois da lengalenga supra, ficava bem um daqueles tintos valentes, de Caranyana e Garnatxa de vinhas centenárias, que encantaram Robert Parker e tornaram, em menos de vinte anos, uma região com cujo vinho ninguém contava em uma das duas denominaciones de origen calificada de Espanha, mas o espécime de que trata o presente, mais modesto, veio de vinhas novas.

Ainda assim, é um tinto escuro, amplo e intenso, vivo de álcool e acidez, mas também muito macio, com taninos empoeirados. Não explode no nariz, mas cheira bem quanto baste, a frutos vermelhos envolvidos em notas lácteas, como se tivesse misturado batido ou gelado de bagas frescas, daquele feito em casa, coisa que há muito tempo não encontrava, com esta dimensão, num vinho. Depois há a barrica onde passou um ano, e seus tostados, que por melhor que se tenham integrado, continuam a marcar o conjunto, apenas não de maneira excessiva ou, a meu ver, por qualquer outro motivo desagradável; as pimentas, o alcaçuz e o cacau, tudo no devido lugar, a aparecer com calma, com uma discrição que entendo muito bonita, mas que também lhe interdita outros voos.

Enquanto viver, e deverá aguentar mais 4 ou 5 anos, sem problema algum, vai ser sempre bom, mas nunca espectacular. Acompanhou um franguinho preparado neste espírito, com um arroz — para este fim, descobrimos preferir o Koshihikari ao Carolino, mas Bomba também serve bem: percebem a ideia? — de espigos de couve, com tomatinho.

15€.

17

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

The Doors

Gravado em Agosto de 1966 e lançado no fim do mesmo ano, foi o primeiro álbum da banda que tem o mesmo nome.



A terceira faixa, The Crystal Ship,

Oh tell me where your freedom lies / The streets are fields that never die / Deliver me from reasons why / You'd rather cry, I'd rather fly

aparenta ser mais uma de várias (candidatas a?) canções de despedida de mestre Jim à primeira gaja com quem andou, passe a expressão, a sério:

The darkness she says she had seen from the start was overtaking him, and she didn't want to watch him explore his self-destructive bent. She felt he had swallowed her identity. Whatever he liked, she liked. "I had to go out and see what parts of that were me. I just knew I had to be away from him. I needed to be by myself, to find my own identity." She enrolled in art school. The day Jim helped her move to a new apartment, she told him she needed a break. "He clammed up after that. I really hurt him. It hurts me to say that. I really hurt him." They split up in the summer of 1965 — a deixa é perfeita para linkar aos arquivos do St. Petersburg Times.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Vallado '2014 (Branco)

Estou a conseguir não vir aqui com enorme facilidade, outra vez. Virá aí modorra?

Em todo o caso, o dia 24/1/2016 começou luminoso, o céu quase limpo, com muito sol. Talvez o dia mais bonito do mês, até ver. Um Domingo de eleições!

Não fomos lá. Acordámos tarde, joguei um bocadito na net, fomos para a cozinha. A S apareceu com uns hambúrgueres de vegetais que me pareceram bastante engraçados; talvez venha a falar mais deles aqui, no futuro.

Com esses hambúrgueres bebemos Vallado branco, servido frio, directo da garrafa, sem preocupações. Focado, incisivo q.b. no ataque ao nariz, essencialmente cítrico e floral; depois instalou-se certa tropicalidade. Agradável, mas, definitivamente, não muito amplo.

Melhor na boca, mostrou-se bem fresco, equilibrado e persistente, apesar de algo ligeiro de substância. Sem encantar, tem o seu interesse.

Fundada em 1716, a Quinta do Vallado situa-se pouco antes da foz do Corgo, junto de Peso da Régua — mais em concreto, aqui. É uma quinta histórica do Douro que tem conseguido, com regularidade, colocar no mercado propostas de excelente relação custo-benefício, ainda que não objectivamente baratas.

Este branco que, se a memória não me atraiçoa, pouco difere deste seu antecessor de 2010, é um dos básicos da casa, vinificado em bica aberta, com fruta de vinhas novas, predominantemente Arinto, Códega, Gouveio, Rabigato e Viosinho, e engarrafado sem passar por madeira.

6€

16

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Eu vs Comp. (11)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Baltasar Gracián — El Héroe '2013

A denominação de origem Calatayud situa-se na parte mais ocidental da província de Zaragoza. É composta por 46 municípios, circundantes da cidade que lhe dá o nome e onde se encontra o respectivo conselho regulador.

O produtor deste varietal Garnacha, as Bodegas San Alejandro, de Miedes de Aragón, indica origem em vinhas com 50 anos de idade, situadas "até 1000m de altitude", e 10 meses de maturação em barricas de carvalho francês (30%) e americano.

Tem mais cor, mais escura e densa, que outros abates recentes da mesma casta: este e este, por exemplo. Cheira muito bem, a Garnacha floral e alegre, como se quer — sem, no entanto, se dar logo toda.

Como disse, traz flores. Mas é a fruta que domina, silvestre, gulosa, vermelha e preta, por vezes a tomar formas curiosas, tropicais, como manga e banana. Em pano de fundo, só um bocadinho de tosta. Esperava mais rebuçado, mas não faz mal. A dada altura, quando já estava no copo há bastante tempo, ficou "todo balsâmico", muito, muito bonito.

Na boca, tem mais intensidade que corpo e um ponto de amargor. Grau e álcool solto na prova não coincidem necessariamente — a maturação — mas este vinho, sem ser quente ou morno, é capitoso. Quanto a persistência, na minha humilde opinião, apenas mediano.

Está super agradável, mas não valerá a pena dar-lhe guarda. Algo nele me trouxe à memória certo tinto da Coop. de Pinhel, feito com Marufo e Rufete, que em tempos bebia bastante, apesar de nunca ter chegado a falar dele aqui.

8€.

16,5