quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Criminality is not a perverted disposition to do evil rather than good. It is merely a childish tendency to take shortcuts. All crime has the nature of a smash and grab raid; it is an attempt to get something for nothing. The thief steals instead of working for what he wants. The rapist violates a girl instead of persuading her to give herself. Freud once said that a child would destroy the world if it had the power. He meant that a child is totally subjective, wrapped up in its own feelings and so incapable of seeing anyone else’s point of view. A criminal is an adult who goes on behaving like a child.

But there is a fallacy in this childish morality of grab-what-you-want. The person who is able to indulge all his moods and feelings is never happy for more than a few moments together; for most of the time, he is miserable. Our flashes of real happiness are glimpses of objectivity, when we somehow rise above the stifling, dreamlike world of our subjective desires and feelings. The great tyrants of history, the men who have been able to indulge their feelings without regard to other people, have usually ended up half insane; for over-indulged feelings are the greatest tyrants of all.

Crime is renewed in every generation because human beings are children; very few of us achieve anything like adulthood. But at least it is not self-perpetuating, as human creativity is. Shakespeare learns from Marlowe, and in turn inspires Goethe. Beethoven learns from Haydn and in turn inspires Wagner. Newton learns from Kepler and in turn inspires Einstein. But Vlad the Impaler, Jack the Ripper and Al Capone leave no progeny. Their ‘achievement’ is negative, and dies with them. The criminal also tends to be the victim of natural selection — of his own lack of self-control. Man has achieved his present level of civilisation because creativity ‘snowballs’ while crime, fortunately, remains static.


Colin Wilson, A Criminal History of Mankind, Granada Publishing, 1984.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Château Vieux Labarthe '2011

Feito pela SARL Château Cafol, este bordalês da margem direita do Dordogne é composto por 75% de Merlot e 25% de Cabernet Sauvignon, provenientes de cepas com uma média de idades que ronda os 30 anos, implantadas em solos argilo-calcários, na comuna de Saint-Pey-d'Armens.

Apresenta a designação de Saint-Émilion Grand Cru, non classé, tal como mais umas centenas de marcas da região, o que não corresponde a um degrau superior no sistema classificativo da denominação de Saint-Émilion, mas sim uma denominação diferente, apesar de geograficamente coincidente, que na prática representa rendimento na vinha um pouco mais limitado e um estágio de pelo menos 14 meses antes do lançamento no mercado, entre outras minhoquices (as regras, em francês, podem ser consultadas aqui).

De cor granada, trouxe recordações de morango e cereja, algo circunspectos mas agradáveis, com toque especiado e de folha de tabaco, mentolados e bastante madeira: azeitona, baunilha e côco. Madeira que não estando mal integrada, de tal forma que não tapa, sequer, as especiarias do Merlot, está, está sempre. É um vinho que se deixa beber muito bem, fresco e equilibrado, de sabor agradável, apesar dos taninos mais marcados no final. Persiste moderadamente.

No dia em que foi para a mesa, esqueci-me de deixar algo a descongelar, quando saí de manhã. Assim, acabou a acompanhar coisas simples, mas que me são caras: a sopa da semana, desta vez com cenoura e lentilhas, pão de centeio e os queijos que tinha cá por casa. Foi um dia em que não comi a carne de nenhum animal, e apesar de isso em nada ter influído no estado das coisas no mundo, trouxe-me uma paz interior bastante singular. Talvez assim valha a pena.

5€.

15

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

LCD Soundsystem

Andava a chafurdar nos discos "antigos" e encontrei isto.



I'm losing my edge.

I'm losing my edge to the kids whose footsteps I hear when they get on the decks.
I'm losing my edge to the internet seekers who can tell me every member of every good group from 1962 to 1978.

I'm losing my edge to the art-school Brooklynites in little jackets and borrowed nostalgia for the unremembered eighties.

But I'm losing my edge.
I'm losing my edge.

But I was there.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Casa dos Zagalos '2009

Muito tempo depois, volto a abrir um vinho da Quinta do Mouro, de Estremoz. Os solos são xistosos e o clima, mediterrâneo continental. O proprietário, dentista de profissão, adquiriu a quinta em 1979 e plantou as primeiras vinhas em 1989. Participou numa espécie de entrevista online, no antigo fórum da "NovaCrítica Vinho & Gastronomia", que vale a pena ler.

Composto por 50% de Trincadeira, 30% de Aragonez, 10% de Alicante Bouschet e 10% de Cabernet Sauvignon, este tinto estagiou, durante um ano, em barricas de carvalho francês e português.

Tem cor escura, ameixa e outros frutos negros, bem maduros, com profundidade, redondura, concentração e persistência quanto baste. As marcas do estágio em madeira ainda se notam, a par de sugestões de tabaco e especiarias. Tudo bem ligado: a caminho da meia dúzia de anos, ainda sem sinais de cansaço.

Poderá não me ter inspirado a dizer muito, mas bebi-o com verdadeiro gosto, tanto com pão e umas fatias de chouriço de Pamplona e cachaço curado em vinha d'alhos, como com o lombo de porco, estufado, mais uns cogumelos porreiros, que a S preparou para o jantar desse dia.

Dos alentejanos que conheço, será dos mais convincentes, pelo menos entre os vendidos a menos de 20€. Se a ideia foi fazer um vinho fácil de entender, mas bom, de toque clássico, amigo da mesa e capaz de permanecer assim durante dez anos, então está plenamente concretizada.

12€

16,5

sábado, 22 de agosto de 2015

Ponte das Canas '2008

Combinação do Alicante Bouschet que serve de base ao Mouchão "clássico", plantado em solo argiloso, de aluvião, com Touriga Nacional, Touriga Franca e Syrah, de vinhas novas, supõe-se que seja o vinho de recorte mais moderno do produtor de Casa Branca, Sousel, que mais em concreto, fica aqui. Fermenta em lagar e estagia durante um ano em madeira, pelo menos.

Está um vinho maduro e redondo, muito macio, com fruta de boa qualidade, bonita e concentrada, temperada por notas de barrica bem integrada, mas ainda presente como tal (acredito que esta edição tenha passado bem mais de um ano em barrica).

Os cheiros remetem a basta madurez, com ameixa e cereja, muito maduras, em doce e em licor, chocolate, mentol, mato seco, tabaco, baunilha e mais, da madeira. Apresenta algum peso na boca, mais que persistência, e acidez suficiente para não parecer morno.

Apesar das marcas daquele Alicante, não se parece com nenhum dos outros Mouchão. Comercialmente, faz todo o sentido colocar uma coisa diferente a preencher o vazio que existia entre o D. Rafael e o Mouchão, dois tintos de espírito, para não dizer perfil, semelhante, qual "grand vin" e respectivo segundo, com as edições especiais, mais limitadas, ainda que recorrentes, um degrau acima. Realça a diferença.

14€

16,5

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Filmes (62)




O conceito é simples e a execução não compromete: está bem produzido e fotografado, e os atores têm os seus momentos. Poderá tornar-se aborrecido com o passar do tempo, caso não se esteja na disposição certa para o ver, coisa a que não serão alheios o ritmo algo lento e, mais ainda, talvez, uma quase completa falta de sumo.

domingo, 16 de agosto de 2015

Lustau — Los Arcos, Amontillado

Amontillado é um tipo de Xerez com origem em uvas Palomino Fino, criadas em solos de albarizas, ricos em carbonato de cálcio. Os mostos, uma vez fermentados, desenvolvem o chamado véu de flor, que lhes transmite pungência e secura características: muito resumidamente, é nisto que consiste a crianza biológica — e estática — do vinho. Com o passar do tempo, estas leveduras, que cobrem o interior das barricas onde o vinho estagia, morrem, deixando o líquido muito mais exposto à influência do oxigénio do ar. Aí começa a fase oxidativa do estágio, muito importante para a cor e complexidade do produto acabado, e que por norma se associa ao estágio "dinâmico" em criaderas e soleras (merecem um link), que garante a uniformização do nível de qualidade, de colheita para colheita, e que, no caso de amontillados velhos, pode durar muitos anos.

Este vinho que serve de mote ao post, em concreto, é um amontillado comparativamente modesto, inserido comercialmente na linha "popular" do produtor, as Bodegas Lustau, de Jerez de la Frontera. Não sei se era fresco: quando procurei a garrafa, para tentar aferir a data de engarrafamento a partir do número de lote lá impresso, descobri que a tinha deitado fora. Frio, acabado de sair do frigorífico, e logo depois de aberto, fez lembrar tawny velho, por força da cor ambarina e do carácter melado, bem terciário, com toque de doçura, a untuosidade definida, mas nada frutado e de presença menos alcoólica, rico em canela e frutos secos, com notas de iodo e casca de laranja. De secura e salinidade muito mais comedidas que qualquer Fino — passou por aqui este, do mesmo produtor — não é necessariamente vinho para tapas ou sobremesa, de tal forma que acompanhou com sucesso este franguinho de que tanto gosto.

Um pouco mais quente, ganhou outro poder, outra envolvência, mas começou também a parecer menos fino e preciso, pelo menos na boca. Aí, empurrou uma fatia de bolo xadrez e um palmier, sem cobertura, da Vasco da Gama. Desta primeira incursão, sobrou quase meia garrafa, abatida com o lanche do dia seguinte: pão, manteiga, queijos Brie (Président, bonzinho) e Pecorino Romano (Zanetti, uma pilha de sal), fiambre e mortadela, tendo encaixado sempre bem. Veio vedado com uma simples rolha capsulada, semelhante às que se encontram no Porto corrente, mas apresentava algum depósito.

16€

17,5

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

López de Heredia — Viña Tondonia, Reserva '1999 (Branco)

Vinho velho entre jogos velhos (já sabem o que aí vem). Parece que ando mais ocupado a tentar eternizar pedaços da merda que fui que a polir a que sou — o que, dito assim, parece fodido: adiante.

Feito de Viura (90%) e Malvasia, este branco da colheita de 1999 fermentou em grandes tinas de madeira, antigas, sem controle de temperatura, estagiou durante 6 anos, em barricas de carvalho americano, submetido a duas trasfegas por ano, e foi engarrafado sem filtrar. Interessante que tenha sido dos últimos "Reserva" do produtor a sair para o mercado: o mais recente é de 2001, e ainda existe um "Gran Reserva".

Esta filosofia de cultivar um estilo que consiste em fazer vinhos estupidamente duráveis e aguardar que atinjam um ponto de maturação muito aceitável — há quem diga ideal, mas se assim fosse, evoluiriam bem em garrafa por tantos anos quantos os decorridos da vindima até ao seu lançamento no mercado, o que evidentemente não acontece — antes de os vender, dá que pensar. Mesmo com o desconto de este perfil ainda ser, por si, imagem de marca da região e os volumes, os mercados, os números serem diferentes, não poderia ver-se mais por esse mundo fora? Estou convencido de que sim.

O vinho, intenso e complexo, tem baunilha, creme de pasteleiro e notas de madeira. Claro que o primeiro plano fica para a fruta, maçã e banana frita, e toda uma acidez perpassante, cítrica, que o guia e permanece na boca até bem depois de ele ter ido. Mais para a frente, adquire certo carácter balsâmico e surgem frutos secos. Com 12,5% de teor alcoólico, de forma alguma é gordo, mas firme e seco, sem dúvida, de tal forma que a S chegou a achá-lo abrutalhado. E se aqui tenho de discordar dela porque estes Rioja clássicos são todos muito finos, lol, também me quis parecer que ele, por carácter, insiste e persiste.

A força, a acidez, o tempo de que precisou para se libertar, tudo indica que ainda dure bastos anos em garrafa. Já relativamente às vantagens sobre o que temos agora, não sei. Talvez um dia descubra, e se este boteco ainda existir, certamente direi algo.

20€

17,5

sexta-feira, 7 de agosto de 2015