quarta-feira, 13 de julho de 2016

Lagunilla — Reserva '2009

Movido pela boa impressão deixada por este seu "Crianza" da colheita de 2011, resolvi experimentar um "Reserva" do produtor de Cenicero.

80% Tempranillo e 20% Garnacha, este vinho fermentou "a temperatura não superior a 28°C" e estagiou durante 24 meses em barricas de carvalho americano, mais 12 em garrafa, antes de lançado no mercado.

Provado, mostrou mais perfil de Rioja tradicional que o seu irmão mais novo, com bastante frescor e muitas especiarias, pinho e resina — barrica bem presente, mas também bem integrada, sem comprometer o protagonismo da fruta, vermelha, cerejas e bagas, que constitui, sem dúvida, o motor do conjunto.

Aqui, um parêntesis: quando digo Rioja clássico, tradicional, refiro-me a vinhos propositadamente dotados de grande acidez quando jovens, tendo em vista um longo estágio em madeira. Por norma compridos e perfumados, não ostentam grande cor ou corpo (tudo é relativo) e são essencialmente terciários.

Quando digo Rioja moderno, refiro-me a vinhos extraídos, escuros e corpulentos, focados na fruta, não obstante a possibilidade de poderem surgir com a barrica em primeiro plano — coisas da "Parkerização" do estilo, que foi e ainda vai longe em Espanha. Costumam ser mais macios e envolventes, mas também menos frescos e longevos que os primeiros.

E depois há os híbridos, vinhos de recorte clássico e acabamento moderno, ou vice-versa, que também podem ser bem interessantes. Este, sem caparro para se poder considerar um clássico na verdadeira acepção da palavra, será um desses híbridos, de alma mais tradicional, mas com uma alegria na fruta que nos remete para a nova onda.

Para terminar, cumpre deixar registado, porque importa, que o ataque é firme, convincente, o meio, um pouco aguado, e o final, razoável: por assim dizer, "médio mais", com sugestões de café. E que embora não exija comida, me pareceu mais apetitoso na companhia de um bife que a solo.

8€.

16

domingo, 10 de julho de 2016

Reguengos — Reserva '2013

Tinto de dimensões medianas, com mais força que longueur e longueur que corpo.

O sabor é seco e firme, com bastante acidez e muitos taninos, muito levemente amargo.

Generoso na fruta, com recordações de terra seca sobre discreto fundo tostado, pareceu-me ligeiramente vinoso numa primeira abordagem.

No entanto, melhor observado, o que nele parecia vinoso começou a mostrar-se mais e mais madurez, casca de laranja cristalizada, especiarias "quentes", gengibre em açúcar.

Não obstante, algo bidimensional, e se assim não fosse, estaríamos perante um caso sério. . .

Produzido pela Coop. Agrícola de Reguengos de Monsaraz, consiste num lote composto por 50% de Alicante Bouschet, 30% de Aragonês e 20% de Trincadeira.

A ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet diz que fermentou por acção de leveduras seleccionadas, com curtimenta.

Parte do volume final estagiou em depósitos, tendo o demais passado um ano em barricas de carvalho português e francês.

Há muito que aqui não passava um vinho destes: o último foi da colheita de 2009, bebido em 2012, e tanto quanto me lembro, não se parecia nada com este.

Aliás, dos últimos que bebi, fiquei com a ideia que a CARMIM não persegue um perfil definido "pelo mercado", mau grado o que a terra der.

E se realmente assim for, mais interessante será.

4€.

15,5

quinta-feira, 7 de julho de 2016





segunda-feira, 4 de julho de 2016

Altano — Quinta do Ataíde '2012 (Biológico)

Este veio da Quinta do Ataíde, propriedade da Symington localizada no Vale da Vilariça, perto de Torre de Moncorvo — em concreto, aqui: lugar de terreno plano e solo profundo, xistoso, com alguma argila, situado uns 150m acima do nível do mar, extremamente quente no Verão.

Engarrafado em Fevereiro de 2013, após estágio em barricas e inox, é um lote de Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca, que teve origem em uvas de produção biológica, provenientes de vinhas com média de idades de 30 anos

Muito frutado e marcado pelas notas florais (e químicas) da Touriga Franca, trouxe-me à memória alguns dos primeiros "Altano" que bebi, como este, por exemplo, mas mais carregado, mais escuro e mais tostado também, sem dúvida em virtude da passagem mais prolongada por madeira  — a sua ficha técnica refere dez meses.

O paladar, macio e maduro, continua e amplia as impressões transmitidas ao nariz. A acidez é suficiente, os taninos estão bem trabalhados e o final, com toque achocolatado, muito agradável.

O produtor avança-lhe um potencial de envelhecimento de dez anos e, até ver, o vinho nada mostra que o desdiga. Mas, estando agora assim, valerá a pena esperar?

Com o chouriço artesanal que a D costuma comprar a uns amigos do interior profundo, esteve bem; com uma piza de queijos fortes, ode ao exagero de que me quero arrepender, quase divino.

7€.

16,5

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quinta do Sobral — Touriga Nacional '2011

Mais um cromo para a colecção!

Este, produzido pela Quinta do Sobral, de Santar.

Intenso e vivaz, cheio de violetas e frutos silvestres, mega maduros, com corpo e álcool que condizem entre si, é um tinto grande e preto, com 15% de álcool, indubitavelmente focado na extracção — e assim, mesmo agora, com cinco anos, ainda pouco falador.

Mas a acidez que possui, chega, e não é cedo que fica mole, pesado ou chato.

Interessante a expressão da bergamota, carregada, a fazer lembrar chá Earl Grey, a par dos tostados e fumados que lhe denunciam basta permanência em barrica.

Está, no imediato, demasiado pesado para que o consiga sentir tão envolvente ou complexo como aparenta poder vir a ser.

Mas é, também, um vinho que me faz querer acreditar. É que a Touriga Nacional, às vezes, com o tempo, fica mesmo bonita!

E trouxe-me à memória um dizer do inigualável Homer Simpson:

To alcohol! The cause of . . . and solution to . . . all of life's problems!

Acompanhou bife na pedra com batatas fritas e montes de molho de alho.

9€.

16,5

quarta-feira, 29 de junho de 2016








domingo, 26 de junho de 2016

Terras Gauda — O Rosal '2015

Para fechar o ciclo das mini-férias, fica o reparo sobre este Rías Baixas, produzido pelas Bodegas Terras Gauda.

No vale d'O Rosal, a Primavera e Verão de 2015 foram dos mais quentes dos últimos anos. Depois, as chuvas do princípio de Setembro atenuaram a seca, ajudando as vides a completar a maturação da fruta, o que antecipou a vindima face ao habitual e resultou numa colheita considerada "muito boa" pela entidade reguladora.

Desta vez, o lote consistiu em 70% de Albariño, 18% de Caiño Blanco e 12% de Loureiro. Após uma primeira maceração, os mostos lágrima de cada variedade fermentaram em estreme, a baixa temperatura, por acção de leveduras autóctones, em depósitos de inox. O vinho foi estabilizado pelo frio e filtrado antes de engarrafado, em Dezembro de 2015.

O Caíño, que não conhecia, merece um parêntesis. Originário da Galiza, resultado provável do cruzamento de Albariño com Azal tinto, apresenta cachos pequenos, ciclo longo e maturação tardia. Ademais, é sensível e pouco produtivo, mas, dizem, tem como característica especial a capacidade de dar vinhos invulgarmente loquazes na expressão do solo onde cresceu, por isso, mau grado não ser popular, manteve certo interesse.

Bebido com umas vieiras salteadas em manteiga, só com sal e pimenta, que me calharam mesmo bem e que foram muito amiguinhas do feijão verde e das batatas assadas com casca que a S me garantiu que lhes devia juntar no prato, como convenceu!

Ananás, banana, maracujá, mais um toque de flor de laranjeira e algo verde e aromático, talvez louro e lima — é um vinho de contrastes: essencialmente tropical, mas tropical delicado, contido, tanto na intensidade como na doçura, está também intensamente fresco e tenso, com finíssima agulha a espalhar-se pela boca com um "punch" de acidez limonada que se prolonga. Ao mesmo tempo, tem aquele toque encorpado, vagamente cremoso, característico do Alvarinho.

No princípio, parece só bonzinho, nada de especial. Mas entranha-se depressa. Talvez pelo perfil aromático, dá a ideia de ter calhado uma coisa porreira, a milímetros de outra que podia perfeitamente ter saído bem vulgar. No entanto, colheita após colheita, têm resultado sempre coisas porreiras. E isso não pode ser coincidência.

Engarrafado há pouco mais de meio ano, está já perfeitamente integrado — para beber jovem.

A qualidade dos vinhos impressiona face à dimensão do projecto: em 1990, o produtor encheu 37000 garrafas com o resultado da sua primeira colheita; deste 2015, que não é o único vinho do portefólio da casa, abri a garrafa nº 165845 de 915000 produzidas.

12€.

17

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Fiuza — Cabernet Sauvignon '2014

Vinho Regional do Tejo, produzido e engarrafado por Fiuza & Bright. As uvas provêm da região de Almeirim e Santarém, coligindo o produtor a localização das suas propriedades no seguinte mapa.

Fermentou em cubas de inox, a 25°C, com maceração prolongada e subsequente estágio, de 8 meses, em barricas de carvalho francês e americano, novas e usadas. Da colheita de 2014, resultaram 100000 garrafas.

Cabernet simples e muitíssimo correcto, mostra-se intenso na fruta, tendencialmente vermelha, e possuidor de carácter varietal (vegetal) suficente para, mesmo às cegas, se lhe perceber facilmente a origem.

Um toque tostado transmite-lhe interesse adicional e teve potência e persistência suficientes para aguentar a companhia de um bife com pimenta verde, sem tibiezas.

Pareceu-me daqueles vinhos que é fácil subvalorizar por não se mostrarem "especiais" em nada, mas cujo maior valor consiste na simplicidade, na coesão, na versatilidade, na facilidade em agradar. E disso, ele tem de sobra.

5€.

16

segunda-feira, 20 de junho de 2016



sábado, 18 de junho de 2016

Borges — Quinta de Simaens '2014

Ainda outro branco do Norte, abatido à beira do riacho de que já vos falei. O acto do seu consumo foi singularmente parco de notas. Citando: "fresco e ligeiro, bananeiro — dito assim, quase remete ao mundo do futebol",

seguido de "tenho cada vez mais firme a convicção de que bebida e natureza ligam maviosamente. Dito isto, se alguma vez tiver de ser um freak sem terra, procurarei, obviamente, ser um dos do campo, onde as agruras são temperadas com uma beleza que na cidade não há".

Nessa noite, fomos até um lugar com wifi e baloiços. E que momento, quando aguém não muito longe de nós se pôs a ouvir Joaquín Sabina, alto, a começar logo nesta!

Mas lembro-me perfeitamente do vinho e continuo sem muito que dizer. Um magro harmónico, simples e limpo, que aromaticamente remeteu ao verde, quando frio, e se tropicalizou com o subir da temperatura.

Agradável, apesar de não possuir grande presença ou expressividade. Se o ano em garrafa poderá ter feito bem ao Ribeiro do post anterior, suavizando-o, com este poderá ter acontecido o contrário, dado que fica a ideia de que o esmaeceu.

A Quinta de Simaens, sita nas imediações de Felgueiras e que inclui 40ha de vinha com uma média de idades de 15 anos, implantada em solo argilo-xistoso, pertence à Soc. dos Vinhos Borges.

As uvas, Alvarinho, Avesso e Loureiro, fizeram maceração pelicular, em câmara frigorífica, antes de prensadas. Após a prensagem, o mosto foi arrefecido e decantado, fermentando depois a 12-14ºC. No final da fermentação, o vinho foi trasfegado e iniciou o estágio sobre as borras finas, que se prolongou 4 meses.

4€.

14,5