sábado, 31 de Maio de 2008

Prato Rápido e Comestível de Batatas e Atum

Às vezes acontece-me ser tardíssimo e ainda não ter jantado. Nessas alturas, raramente apetece cozinhar. Mas a fome, a fome!...

Ontem à noite (hoje de madrugada) foi um desses dias. Então pus-me a pensar em como fazer algo com batatas e atum enlatado que não fosse vomitante. Acabou por sair isto:

Cortei às rodelas 6 batatas grandes de casca branca (e fina) e cozi-as, aproveitando a casca, em água e sal.

Enquanto as batatas coziam, misturei o conteúdo de duas latas grandes, escorridas, (ou seja, mais ou menos 300g) de atum com o de uma lata (de 250g), escorrida, de milho e meia dúzia de palitos de delícias do mar cortados (também) às rodelas. Numa taça à parte, preparei o molho: misturei 4 colheres de sopa, bem cheias, de maionese com o sumo de meio limão, um dente de alho picado miudinho e um fio de azeite, e mexi até ficar tudo bem misturado.

Escorri as batatas, fiz com elas uma "cama" no fundo do prato, cobri com a mistura de atum e, no topo, maionese.

Não é dietética, mas o tempo que esta receita demora a preparar acaba por ser o tempo de cozedura das batatas, não dá trabalho nenhum e quase não suja louça. No fim, regada com muita cerveja, acaba por ser uma delícia.

sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Empadão de Batata com Carne de Vaca

Ingredientes:

6 batatas grandes;
400g de carne de vaca picada;
1 cebola grande;
70ml de massa de tomate;
1 ovo;
manteiga (aprox. 50g);
azeite;
1/2 cálice de vinho do Porto (usei Ramos Pinto tawny);
azeitonas;
sal, pimenta preta, piri-piri e colorau q.b.




Preparação:

Cozem-se as batatas com bastante sal, escorrem-se e amassam-se com um garfo ou algo do género. Junta-se-lhes a manteiga e mexe-se até esta ter desaparecido. Num tacho, deita-se a cebola picada e um pouco de azeite e põe-se ao lume. Adiciona-se a carne picada quando a cebola estiver dourada. Seguidamente, adicionam-se os temperos: sal, pimenta, malagueta seca e pimentão doce a gosto. Depois, a massa de tomate. Tudo isto enquanto se vai mexendo.
Quando a carne estiver a começar a cozinhar, deita-se o vinho do Porto e deixa-se apurar (engrossar) o molho. Convém preparar a carne com o lume sempre no máximo para 1) esta não ficar muito "húmida" e 2) o molho poder engrossar sem a carne cozer demais.

Seguidamente, numa travessa funda capaz de ir ao forno, deposita-se uma camada de batata, outra de carne, e finalmente outra de batata. Alisa-se a superfície do empadão com uma espátula e, com um garfo, fazem-se uns sulcos (para o ovo entrar). Por fim, deita-se o ovo batido por cima e decora-se com azeitonas.

Vai ao forno a 230/240ºC até o ovo ficar dourado.

quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Terras do Suão '2003

Tinto alentejano (D.O.C.) produzido pela Cooperativa Agrícola de Granja. Costumo gostar muito dos vinhos que eles fazem. Infelizmente, este foi excepção.


Cor granada, denotando evolução.

Aromas a fruta muito doce e especiarias, também em compota e provavelmente em passa, com a inegável presença de um traço acre, bafiento até, (forte acidez volátil; convém decantá-lo pelo menos um par de horas) que, com o devido arejamento, se converte em cacau amargo.

Enche a boca de fruta doce, com acidez bem vincada e um incontornável traço de oxidação. Encorpado, dotado de bons taninos, longos e firmes; álcool bem integrado.

Final de fruta abafada e doce, talvez em compota, talvez apenas sobremadura, de persistência razoável.

Não é mau, mas estava à espera de mais.

Custou à volta de de 7€.

14

Yangmei

Estou a comer Yangmei secas.

São muito, muito boas.

Para quem tem preguiça de seguir links, são os frutos da myrica rubra, uma árvore de tamanho médio e folha perene, nativa da Ásia, onde é cultivada há milhares de anos (blah blah). Os frutos são doces e têm um sabor característico e muito agradável, que não se parece com nada que eu conheça, embora a S. insista que sabem a cherry cola. São ricos em vitamina C e têm inúmeras aplicações.


Comprei numa lojinha na baixa, um pequeno mini-mercado chinês, muito fixe.
Fomos atendidos por um rapazinho simpático, que não poupava palavras a tentar explicar no seu parco português o que era cada coisa. E a conseguir. Comprámos pasta (molho) de camarão tailandesa (talvez um dia vos fale dela), estes frutinhos a que dedico o post. E arroz. Um quilo e meio de autêntico arroz thai, de bago curto e fino, semi-transparente, um pouco gomoso e de aroma inconfundível, soberbo, que nada tem a ver com os arrozes que se vendem como "thai/jasmine" nos supermercados.

O rapaz ainda nos ofereceu duas embalagens, digo, duas doses individuais de peixe para comer simples, à laia de snack.

Duas como essa aí da fotografia. Têm cheiro e sabor intenso a peixe curado ao sol. Não gostei, mas a S. adorou. (Comeu as duas.)

Ainda um aparte engraçado: a S. quase comprava um pacote de nacos de carne de vaca seca — confundiu-os com rebuçados! Pois imaginem: um pacote de plástico com o desenho de uma menina sorridente num prado verde, cheio de embrulhinhos de papel prateado, brilhante, pequeninos e todos do mesmo tamanho, com a forma de rebuçados. E a S. a perguntar ao moço se aqueles rebuçados eram bons! E ele, sem nos querer enganar e já aflito por não estarmos a perceber, ia repetindo "cá'ne vácá... cá'ne.. é cá'ne vácá!"

Enfim, uma pequena surpresa na baixa de Coimbra, tem coisas difíceis de encontrar por estas bandas. Prometo que deixo aqui a morada quando lá voltar e reparar exactamente onde fica porque gostei muito.

segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Magnólia

Floresceu numa manhã.


(...)


A magnólia, / o som que se desenvolve nela / quando pronunciada, / é um exaltado aroma / perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico / desfolhando relâmpagos / sobre mim.


(Luiza Neto Jorge, 1966)


domingo, 25 de Maio de 2008

Nick Drake — Pink Moon

Falling fast and falling free you look to find a friend
Falling fast and falling free this could just be the end
Falling fast you stoop to touch and kiss the flowers that bend
And you're ready now
For the harvest breed





*
+

sábado, 24 de Maio de 2008

Arroz de Carqueja + Dom Hermano — Garrafeira '1995

Como o revivalismo plastificado serrano-matarroano da interioridade parece estar na moda, tal como a maioria dos revivalismos, diga-se de passagem, não faltam por aí receitas de arroz de carqueja.

Este pitéu, nas suas mais variadas versões, ainda não há muito esquecido pela urbanidade, não só renasceu e conquistou a cidade como aparenta proliferar um pouco por toda a parte.

Graças a Deus que assim é.

Ingredientes:

Água;
flores de carqueja, secas;

frango do campo em pedaços, com sangue. Como não tenho galinhas, comprei no Jumbo uma embalagem de "Cabidela d'Avó", da qual não aproveitei as patas nem o pescoço (a sério, são lixo). Foi também nessa embalagem que veio o sangue, higienizado e normalizado, num saquinho, como a ASAE deixa ser. Dado que, pescoço e patas fora, restava pouca carne na embalagem de frango para cabidela e eu gosto de uma proporção carne/arroz generosa, comprei ainda 4 cotos (a minha parte preferida) de frango do campo;

325ml de arroz carolino;
2 cebolas médias;
3 dentes de alho;
4 colheres de sopa de azeite;
2 colheres de sopa de banha;
2 folhas de louro (sem a nervura central);
20/30g de salsa fresca;
sal e pimenta preta q.b..


Como se faz:

A quantidade de infusão de carqueja necessária é aproximadamente o triplo do volume de arroz que se pretende usar. Como tencionava comer cerca de 325ml de arroz, preparei 1 litro de infusão de carqueja. A proporção utilizada no preparo da infusão foi a seguinte: 2 colheres de sopa (bem cheias) de flores de carqueja secas para 1 litro de água.

Deita-se a carqueja no fundo de um recipiente resistente a variações térmicas bruscas (um jarro de pyrex com tampa é o ideal) e cobre-se com o dito litro de água a ferver, ou seja, escalda-se a carqueja. Tapa-se o recipiente e deixa-se ficar de infusão umas horas. Como 1) tenho horários "esquisitos" e 2) gosto de aromas intensos, deixei de um dia para o outro.

Tendo preparado a infusão, está tudo pronto para preparar o arroz.

Deita-se numa panela o azeite, banha, as folhas de louro partidas, a cebola e o alho picado miudinho. Refoga-se até a cebola comecar a ficar transparente e junta-se a pimenta.

Adicionam-se então os pedaços de frango ao refogado, tendo o cuidado de os ir virando para irem dourando de ambos os lados. Quando o frango estiver dourado, tempera-se com (bastante) sal.

Antes de o alho começar a queimar, junta-se água ao refogado, aos poucos, copo a copo. Ou seja: deita-se, lentamente, um copo (200ml), espera-se que ferva e só então se deita outro copo. Isto até cobrir o frango. Deixa-se cozinhar no máximo até que a água tenha fervido uns cinco minutos. Depois, baixa-se o lume para o mínimo e tapa-se. Deixa-se cozinhar mais ou menos meia hora.

Quando o frango já estiver guisado, escorre-se o caldo onde cozinhou. Reserva-se um copo e meio desse caldo.

Leva-se então novamente ao lume o frango, juntamente com esse copo e meio de caldo e a infusão de carqueja. Deixa-se ferver.

Junta-se o arroz e mexe-se um pouco (para o arroz não ficar no fundo). É nesta altura que se junta a salsa fresca, cortada aos bocadinhos com uma tesoura. Rectificam-se o sal e a pimenta e deixa-se cozer o arroz, que deve ficar bem molhado.

Por fim, tira-se do lume e junta-se o sangue (que, ao ser de compra, já tem anticoagulante), mexendo lentamente e com cuidado para não granular.

E pronto, é só isto. Fica muito, muito bom. Consegui comê-lo todo, sozinho — "Sangue?! Nem pensaaaaaar!" — ao jantar. E olhem que costumo comer como um pisco.


Acompanhei-o com um D. Hermano, Garrafeira de 1995.

Produzido pela Casa Agrícola Herdeiros de Dom Luís de Margaride, é um vinho do Ribatejo (D.O.C.) com 13% de vol. alcoólico.

Rubi-alaranjado à vista, já com reflexos acastanhados, é um vinho evoluído, de aroma quase completamente terciário, ainda com frutos vermelhos maduros — e transformados — e flores, cabedal, tabaco, café e sugestões de frutos secos. Na boca, corpo médio e taninos já muito evoluídos (corpo em franca regressão, aliás). O final, muito mais ou menos. Seria um belo vinho se não se mostrasse já um pouco acídulo, com os aromas a desbotar. Os seus melhores dias passaram, disso não haja dúvida . . .

Porém, acabou por constituir uma experiência de que não me consigo arrepender. Posso até dizer que ligou bem com a arrozada.

Existem no mercado melhores relações qualidade/preço. Mas, numa época em que a moda é beber vinhos jovens e destes se vêem cheias as prateleiras das lojas, encontrar um vinho velho ainda bom a um preço aceitável também tem de ter o seu valor!
A mais ou menos 10€ no Ponto Fresco,

14,5

Da sobremesa falamos depois.

sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Herdade dos Grous '2006

Vinho Regional Alentejano, de Albernôa, produzido por estes senhores. 14% Vol. alcoólico.

Apresenta-se quase opaco, com uma bela cor rubi. Ao primeiro ataque, cheira a um sortido de frutos muito maduros — uvas, cerejas, um toque de tangerina. Deixando-o respirar, os frutos vermelhos impõem-se. Deliciosos aromas secundários: morangos e leitinho, como um batido. Belo corpo, cheio e bastante fresco, de taninos redondos, bem presentes, que dão profundidade à boca deste vinho. No fundo, amargo bom, que ora se diria madeira, ora evoca azeitona verde. Uma delícia.

Mas —

Como não há bela sem senão:

Nota-se uma certa ligeira presença alcoólica, que não ofende mas também não ajuda. O final, saboroso, é de persistência apenas mediana.

Ainda assim, o mais difícil é, sem dúvida, não beber a garrafa toda de uma só vez.

A pouco menos de 10€ numa garrafeira aqui da terra, vale todos os tostões que custa — e mais.

16,5

sábado, 17 de Maio de 2008

Quinta de Pancas (Tinto) '2005

Vinho Regional da Estremadura, produzido pela Companhia das Quintas.

Muito fechado, pouco expressivo. Mas agressivo. Alguma, ténue, fruta vermelha. Alguma matéria vegetal... Pimento verde e aromas fumados. Cacau em bruto. Estrebaria... ou curral. E bafio. Cheirando directamente a garrafa pelo gargalo, nota-se ligeiro lácteo. Na boca, estrutura redonda. Não é por aí que agride. Sabor plano, sem complexidade, consistente com os aromas: mais cacau, mais fumado. Grande presença alcoólica para um vinho com apenas 13,5% vol. O arejamento de nada lhe serviu. Um pouco menos mau se for ligeiramente refrescado: servido a 18ºC, como recomendado na própria garrafa, achei-o quase imbebível. Aliás, não consegui bebê-lo todo: deixei mais de metade para o dia seguinte, quando acabei por deitá-lo fora.

Achei este vinho muito fraco. Mesmo muito inferior ao de 2004. É possível que a garrafa que abri não estivesse nas melhores condições. Possível, mas improvável. Fiquei sem vontade de comprar vinhos desta casa nos próximos tempos.

11

sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Velharias (2)

Esta foi de uma altura em que dávamos uns passeios fixes. Andar aí pelos cus de Judas a fumar charros e tirar fotografias, parar em tascos ao calhas... Bonito, era muito. Não sei porque não foi mais divertido.


*


Ah, a bela Coimbra e seus
arredores...


Passear, fumar charros (ou não) em locais ermos (ou não), tirar fotografias onde e quando calha...


Kundera, na sua Insustentável Leveza do Ser, adverte-nos (de mansinho) que as férias só duram dois anos. É mentira.


Continuamos cínicos e desocupados...


A páginas tantas, assim fala no seu diário o quinto Hauberk de uma Novela de Huxley: Meia dúzia de pensées em meia dúzia de anos. Neste passo, se eu quiser encher um volume, terei de sobreviver aos patriarcas. Lastimo a minha preguiça, mas consolo-me em pensar que os meus semelhantes são demasiado desprezíveis para que eu perca o meu tempo a instruí-los ou entretê-los.

Grande atitude, palavras sábias.


Posto isto, meus queridos, até um dia destes.


*


Meus queridos, até um dia destes.

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Bolo Mármore

Depois da papinha salgada, a sobremesa.

Neste caso, um bolo mármore fácil, para a máquina de fazer pão.


Ingredientes:

2 xícaras e meia (325g) de farinha de trigo para bolos;
1 xícara (200g) de açúcar;
3 ovos;
1 pacote (200ml) de natas;
2 colheres de sopa (bem cheias) de margarina;
2 colheres de chá de fermento em pó (Royal);
1 colher de chá de essência de baunilha;
Cacau magro em pó (usei Pantagruel) q.b.


Confecção:

Não podia ser mais simples.

Mas, antes de tudo o mais, três ressalvas:

1. É aconselhável retirar as pás de dentro da forma da máquina de fazer pão, tendo o cuidado de untar com margarina os apoios destas, dado que não são anti-aderentes. Isto apenas pretende tornar mais fácil desenformar o bolo, uma vez feito.

2. O cacau magro em pó doseia-se mais ou menos a gosto (vai-se juntando até a massa ganhar cor). Terei usado uns 50g neste bolo. É importante não confundir cacau magro em pó com chocolate solúvel para pôr no leite!

3. É comum falar-se de "chávenas", "xícaras", colheres disto e daquilo... etc. como medidas para as quantidades de ingredientes de uma dada receita. Aqui encontrei uma boa página com muitas correspondências úteis.

Posto isto, o bolo faz-se assim:

Batem-se todos os ingredientes durante 5 minutos com uma batedeira. Coloca-se metade da massa resultante na forma da máquina de fazer pão. Adiciona-se à outra metade o cacau magro em pó e deita-se (por cima da outra) na forma da máquina. Como a massa é espessa, mexe-se levemente com uma colher de pau para formar o "marmoreado". Activa-se então na máquina o programa de cozedura durante uma hora, não sendo aconselhável abri-la durante o processo. Depois é só desenformar. Dá um bolo de tamanho médio...


Ei-lo!




Ainda se comeu um segundo bolo...
Na linha do bolo mármore anterior, mas arraçado de bolo fofo:


Ingredientes:

250g de farinha de trigo para bolos;
175g de açúcar;
6 ovos;
1dl de óleo vegetal;
3 colheres de chá de fermento em pó (Royal);
1 colher de café de sal fino;
Cacau magro em pó (usei Pantagruel) q.b.


Confecção:

Procedimento parecido com o anterior...

Batem-se todos os ingredientes durante 7 minutos com uma batedeira. Separa-se a massa em duas partes iguais, a uma das quais se junta o cacau magro em pó. Deitam-se as duas partes na forma da máquina de fazer pão, sendo que a "achocolatada" fica por cima. Mexe-se então, levemente, com uma colher de pau, para formar o "marmoreado". Activa-se na máquina o programa de cozedura durante uma hora e desenforma-se. Dá um bolo (também) de tamanho médio.

Porco & Couve-Flor

O hábito de combinar carne com vegetais é em mim velho porque assim me é mais fácil comê-los.

Adoro carne de porco e a primeira coisa que confeccionei em toda a minha vida foi este prato, que ainda hoje faz sucesso:

Ingredientes:

2 febras (aprox. 200g) de porco;
2 tiras (aprox. 150g) de entremeada;
Couve-flor;
1 copo grande (300ml) de vinho branco (usei Gazela);
4 dentes de alho;
azeite;
sal e piri-piri q.b.


Confecção:

É muito simples e pode ser mais ou menos rápido, dependendo do medo que cada um possa ter dos parasitas.

Prepara-se uma marinada com o vinho branco, o sal, o piri-piri e os dentes de alho laminados. Cortam-se as febras e a entremeada em tiras pequenas. Depois leva-se ao lume (no máximo) um tacho com um fundo de azeite. Quando o azeite estiver bastante quente, adiciona-se a carne, apenas a carne, sem a marinada. Deixa-se então dourar a carne, mexendo de vez em quando. Junta-se a marinada, reduz-se o lume para o mínimo e deixa-se cozinhar destapado durante aproximadamente 30 minutos. Por fim, junta-se a couve-flor previamente lavada e cortada, tapa-se e deixa-se cozinhar no vapor, tendo o cuidado de a não deixar ficar demasiado mole. E é só isto. Para acompanhar, arroz branco de bago longo, de preferência aromático, cozinhado somente em água e sal.

terça-feira, 13 de Maio de 2008

Duas Quintas '2004

Trata-se de um tinto histórico, um vinho que toda a gente conhece e muitos, muitos, muitos apreciam.

Do Douro (D.O.C.), da Casa Ramos Pinto. Como se pode ver pela fotografia, desta vez foi provado (bebido até ao fim) um espécime da colheita de 2004. E assim. . .

No copo, cor granada intensa com orla violeta. Começou fechado. Uns minutos e umas voltitas no copo depois, surgiu um aroma a frutos silvestres (amora, bagas) daquelas coisas que nos deixam, a nós, putos da parvónia, cheios de nostalgia. Enfim. Bastante intenso e agradável. Na boca, taninos sólidos, bem presentes, mas não ofensivos. Não muito encorpado. O final, consistente com os aromas iniciais, só pode ser considerado bom.

E pela milésima vez, ou quase, gostei. É um vinho fresco, mais elegante que espectacular, e que ligou maravilhosamente com umas Maestras grelhadas na chapa.

Custa entre 8,50€ e 10€, e há sempre, está à venda em todo o lado.

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domingo, 11 de Maio de 2008

Frango com Cogumelos e Vinho Tinto

Cá em casa come-se bastante carne branca, isto porque o animal que a menina S. mais gosta de devorar é frango.

Assim, e na sequência do último post, começo o capítulo das papinhas neste blog com um suculento prato de pinto já crescido que ainda não é galo,




cozinhado com cogumelos e vinho tinto. Para 4 pessoas:



Ingredientes:

1 frango partido aos pedaços;
600g de cogumelos (champignons) brancos ou castanhos, frescos;
1 copo (200ml) de vinho tinto (usei o Padre Pedro);
2 cebolas médias;
3 dentes de alho;
1 caldo de carne ou legumes;
sal, piri-piri, azeite e água q.b.


Confecção:

Leva-se ao lume um tacho com um fundo de azeite. Cortam-se as cebolas em cubos e juntam-se ao azeite, deixando refogar. Deitam-se os pedaços de frango sobre a "cama" de cebola quando esta começar a ficar dourada, junta-se sal e piri-piri a gosto e aguarda-se um pouco para deixar o frango ganhar cor. Depois adiciona-se o vinho e deixa-se cozinhar destapado, em lume brando, durante aproximadamente 40 minutos.

Enquanto o frango cozinha, vão-se cortando em metades os cogumelos frescos, que não devem ser lavados. Deita-se noutro tacho um pouco de azeite e os dentes de alho, laminados. Leva-se ao lume, forte, e quando o azeite estiver bem quente, adicionam-se os cogumelos, mexendo de vez em quando e vigiando sempre. Acrescenta-se então meio copo de água e um caldo de carne ou legumes e deixa-se cozinhar, tapado, uns 10 minutos. Por fim, escorrem-se os cogumelos e adicionam-se ao frango. Tapa-se e deixa-se cozinhar em lume brando durante mais 10 minutos.


Acompanhámo-lo com arroz branco, outro dos eternos favoritos cá de casa.
Influências do Oriente, talvez.

Casa Cadaval — Vinha Padre Pedro '2005

Tinto ribatejano de 2005. O de 2003 foi considerado pelos críticos do New York Times a melhor compra a menos de $10. Mas isso foi há muito tempo.

Cor intensa.

Cheira a frutos vermelhos,. um pouco especiado, talvez.

Corpo médio. Equilibrado. Final decente.

Vinho fácil. Deu prazer. Foi bem com a papinha do jantar. Já falamos da papinha do jantar. Se lá do outro lado do oceano custa à volta de 10$, aqui fica-se por metade do preço. E para o preço, está bem.

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sábado, 10 de Maio de 2008

Bifinhos de Peru Panados com Arroz de Feijão + Nelus — Reserva '2005

Hoje houve almoço (levantámo-nos de manhã). Que consistiu nuns bifinhos de peru panados com muitos orégãos, acompanhados por arroz de feijão. Ficaram muito bons e não deram trabalho nenhum.

Segue a receita...

Primeiro, o arroz de feijão:

Ingredientes:

350ml de arroz carolino;
uma lata de feijão branco (peso escorrido: aprox. 500g);
massa de tomate (150ml);
1 cebola média, finamente picada;
azeite;
louro (2 folhas);
sal e pimentas preta e verde q.b.

Preparação:

Numa panela que não convém ser muito baixa, põe-se a cebola a dourar num fundo de azeite. Tempera-se com sal, pimenta em grão, moída na altura, e louro. Junta-se o arroz quando a cebola estiver dourada. Com o lume no mínimo, para o arroz não queimar, espera-se apenas o tempo necessário para que este fique um pouco mais transparente e junta-se-lhe então a massa de tomate. Mexe-se. Acrescentam-se 5 copos (ou seja, aprox. 1 litro) de água, calmamente, e quando o arroz estiver quase cozido, junta-se-lhe o feijão e mistura-se tudo com uma colher de pau. Desliga-se o lume e tapa-se a panela, deixando o feijão acabar de cozer no vapor.

Enquanto o arroz de feijão coze, levam-se os bifinhos ao forno, dado que demoram mais ou menos o mesmo tempo a cozinhar.

Ingredientes:

500g de bife de peito de peru;
2 limões;
1 dente de alho, picado;
óleo de amendoim;
pão ralado;
gengibre em pó (1 colher de chá);
sal, malaguetas secas, pimenta preta, orégãos e colorau q.b.




Preparação:

Faz-se uma marinada com o sumo de limão, 3 colheres de sopa de óleo de amendoim, o alho picado, pimenta preta, gengibre, orégãos (1 colher de sopa), colorau e sal. Marinam-se os bifes por cerca de duas horas, nunca muito mais, para não ficarem demasiado intensos (com demasiado sabor a limão). Tiram-se da marinada, garantindo, contudo, que estão bem húmidos (bem impregnados), passam-se por pão ralado e põem-se num tabuleiro de ir ao forno com um fundo de óleo de amendoim (para não pegar). Polvilham-se com orégãos a gosto e vão ao forno a 250ºC durante 30minutos. Convém ir vigiando esta etapa da confecção, uma vez que os bifinhos podem demorar mais ou menos tempo a dourar, consoante a espessura.





Acompanhei-os — no singular: a S. não gosta de vinho tinto — com um Dão (D.O.C.) Nelus Reserva '2005.

Produzido pela Adega Cooperativa de Nelas, é um vinho simples mas bem estruturado, com aromas agradáveis, algumas notas de evolução e uma persistência porreirinha. Talvez a sua maior virtude seja não ter nenhum defeito (demasiado) evidente.

Custou mais ou menos 3€.

13,5

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

JJ72 — I to Sky

Existem por aí incontáveis bandas boas com uma, duas, ou até meia dúzia de canções porreiras. Mas sempre achei difícil encontrar álbuns fixes princípio ao fim, sem nenhuma faixa obviamente fraca pelo meio. Sem cansar. Este é dos poucos que me soam assim.



#2, Formulae.

domingo, 4 de Maio de 2008

Kopke (Tinto) '2005

Mais pinga:


Kopke, tinto duriense (D.O.C.), colheita de 2005.

Cor rubi profunda. Surge primeiro um aroma muito ligeiro a frutos vermelhos, que se intensifica um pouco ao voltear o vinho. Notas de ligeira compota. Depois, elementos minerais. Ou melhor dito, aquilo a que chamo podrum. Será terra húmida? Terra húmida cheia de vida, cheia de elementos de suporte à vida? Não me entendi lá muito bem com ele. Depois, na boca, é um vinho elegante, de elementos bem integrados, mas que peca pela falta. De força. De exuberância. De complexidade. Os sabores surgem ambíguos, algo difíceis de identificar. Existem subtilíssimas, quase virtuais, notas de frutos vermelhos. Algum vegetal seco. Mas o que predomina são os tons castanhos... Restolho, terra húmida, xisto molhado. Coisas da terra que remetem para uma paisagem de terra e chuva, folhas mortas molhadas, amarelos dourados e castanhos, sol encoberto de Outono... E do final, só posso dizer "beh".

Baratucho, custou à volta de 5€, também no Continente.
Mas há vinhos de 2/3€ muito superiores, porra.

Com comida, só foi bem com patê de fígado e trufas. E pãozinho, claro. Coisas da terra que puxam coisas da terra. Não é o meu estilo.

12,5

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Velharias (1)

Velharias: coisas bonitas (ou não) de outro tempo e lugar, quando o estilo era outro e os interesses, talvez, também. Como se de antiquíssimos artefactos se tratassem, desenterrados de blogues antigos, abandonados. Recupero-as porque são coisas minhas que já não faço. Como se precisasse de me salientar certas diferenças para me encontrar.

Esta é a primeira que reciclo. Ou talvez só lhe tenha limpo um pouco o pó antes de a recolocar numa montra. Para os corajosos, um brinde à iniquidade! Aí vai:




5.


Conjunto de variações sobre um tema. Uma página de diário que também é um presente. Para a pessoa mais especial do mundo,

Fim de tarde à varanda. Aquele céu aquela luz, o teu sorriso que nem um milhão de anos há-de apagar.

S — Nós somos como esses brilhantes (aponta para o parapeito da varanda) que caem da droga. É uma conclusão triste, ou talvez seja triste apenas pensar nisto, mas as coisas são mesmo assim. O parapeito é a vida. Nós caímos na vida e apagamo-nos.

J — Será? Uma vez, disseram-me que o objectivo da vida era continuarmos vivos. Vivemos, não porque sim, mas para continuarmos vivos. A vida é em cada um de nós e no todo, tanto para nós como para o todo... Não somos elementos largados ao acaso num ambiente...

Vivemos para a morte.


J — A unidade, também. Acho eu. Lembro-me de que, quando andava no meu segundo psiquiatra, na consulta em que falámos disto, foi logo na primeira, me esforcei por deixar bem claro que achava que viver para a vida não diferia de viver porque sim. Ele concordou.

Devia estar distraído.


J — Talvez. Ele gostava muito de brincar com o cachimbo. Às vezes perdia-se. Pelo menos, quando falava comigo...


Esse alheamento parece-me saudável.


J — (Rio-me, rodo a unidade à S.) O melhor dos homens pode ser o pior dos cidadãos, já dizia Platão... Ou isso. Morrer para o mundo e assim chegar à verdadeira vida. Será que ele o conseguia durante as consultas?

S — Acontece connosco e somos felizes.

S — Tu julgavas que a forma mais correcta de escrever connosco era só com um "n".

J — Verdade, bebé. E verdade, vida! Não somos porcos. Estou a bem com a minha consciência.

Silêncio...

S devolve-me a unidade — Porcos são os homens maus. Os virtuosos sem princípios.


O Satã de Milton, o Zaratustra de Nietzsche... Mas Nietzsche não tinha consciência disso. Mas, enfim, são esses que fazem coisas acontecer, para bem, ou, como falávamos, para mal.


J — Ou então, não. Os parolos não têm alma, ao contrário dos homens maus. Esses possuem sempre uma certa nobreza de espírito, não importa quão anormais possam ser, e, embora nos pareça tão confortável que nos sintamos constantemente tentados a isso, poderemos julgá-los? Hum, que moca. Que tagarela, que chato fico quando isto me dá...

S — Bebé, não fumes mais. (A unidade volta para S.)

Então a Sara põe-se a discutir o estilo do LU, apaixonado e triste por amor, ou pior ainda, diz ela, pelo vazio do não-amor — e aqui transparece uma singela verdade que nem sempre quero ver: o LU é sincero, aquilo que escreve é mesmo a sua verdade — embora eu diga à Sara que não, pode ser que ele já tenha passado essa fase e consiga, afinal, dramatizar sem sentir — que é outra faceta da fina arte de inventar. Escrever o que se sente, escrever o que não se sente: descrever o que acontece, inventar o que não acontece, rever o que aconteceu, imaginar caminhos possíveis e nunca tomados. Redescobrir o que aconteceu sem saber ao certo se aconteceu ou não... Fazer coisas acontecer, eventualmente. Tudo se pode resumir a uma questão de técnica, de jeito, e de um bocadinho pequenino de filha da putice.

E ela continua a dizer que não, que se nota quando o dito é sentido, pelo que me disponho a tentar.


Reverso "Night & Day", Diálogo de Opostos Deslizantes e Mudanças de Fase:


Imaginemos, pois, que um belo meio de tarde desperto lúcido, regressado de uma estranha estrada que sobe uma colina rente ao mar, assombrada por um não mais acabar de vagas e nuvens negras e chuva. Paralela às fachadas a pique de prédios enormes cujas traseiras dão para o Paraíso e que parecem pirâmides aztecas com escadas e corredores ajardinados em todos os degraus, e a cada degrau corresponde um andar, e aí há sol, tão perto da tempestade. O tempo é de guerra e caem coisas estranhas do céu, dos aviões militares que largam pedaços de motores J-85 e anéis moderadores de neutrões que parecem chupa-chupas gigantescos e muito leves, desenhados por algum génio louco com uma fixação pela Hello Kitty. Acordo com a impressão de já ter estado naquele lugar — acordo assim tantas vezes, e um sonho é apenas um sonho, não preciso de inventar premonições. Basta-me sentir, para lá do susto de um mau acordar, o nada. A doçura do nada, mas um nada fértil, uma névoa que ganha forma à medida que vou ficando mais e mais desperto, o retorno à vida, depois a consciência, "bebé", dizes..., e assim regresso ao mundo, com um sorriso, entre beijinhos e um abraço teu.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto... Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras - acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo — porque podemos. Antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já, mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto. Contudo, sei também que só posso morrer, morrer já, mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Nada está objectivamente mal, mas podia sentir-me melhor. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. E se me iludir? E se, por dentro, já estivermos mortos? Pergunta-me novamente o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras — acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Porventura teremos pensado que sim. E se nos enganámos? Para que lado nos enganámos? Estaremos mesmo enganados? Afinal, que sinto? Afinal, que sentes tu, meu amor? Dúvidas... tão profundamente humanas. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a premissa maior do nós. Juntos, sempre. Faz calor: destapo-me. Apenas o brilho do televisor ilumina o quarto.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já,mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto... E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras — acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria... Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo — porque podemos. E antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.

Frases sobrepostas. Coisas que pensamos, dizemos, fazemos. Colamo-las de maneiras diferentes, pintamos quadros diferentes. Momentos diferentes. Já nos sentimos assim. Já nos sentimos de muitas outras formas. Não passa de um esboço planeado em jeito de exercício por um menino inseguro acerca do tributo a prestar a quem mais ama. Podia (poderia?) ter escrito melhor. Podia não ter corrido o risco de te magoar, bebé. Mas preferi assim. Por sabê-las limitadas, quis estas linhas especiais. Quis escrever algo vivo. Como? Assim. Num esboço auto-referente, capaz de se descobrir. Como? Combinando de formas diferentes uma mão cheia de expressões do que somos ou fomos em dados momentos. Estas linhas somos nós. Estas linhas que podemos misturar tanto quanto quisermos. O número de combinações é imenso. Imenso o número de quadros por pintar — aquilo que até agora leram não passa de uns quantos exemplos. Este texto podia nunca mais acabar. Como nós. Como nós, saudavelmente bipolares. Inegável que existe algo de patológico nestas linhas. Dia e noite, uma infinidade de reversos. Um modesto ricercare inflamado, ora pelo amor, ora pela cólera, ora pelo desânimo, ora pela mais transluzente esperança. No fim, constato mais uma vez o evidente. Somos uns malucos, mas uns malucos fixes. Poderia haver melhor?

Por vezes ocorrem-me coisas estúpidas que, no momento, parecem demasiado verdadeiras. Lembro-me dos dias que passava só e de copo cheio no meu lobby favorito: debicar as batatas fritas e deixar metade da tosta, ler o FT de uma ponta à outra, entretanto beber dois ou três capuccinos e sentir-me mal e salvar-me. Mas essas são lides a que já não posso, não quero regressar. Matei os meus maus amigos, desamores deslavados — enterrei as frustrações, renasci contigo. E o mau gosto de outros frustrados matou o meu lobby bar de estimação. Fui lá pela última vez há alguns meses, no Verão passado. A sala permanecia intacta, mas os homens de negócios e os de aspecto literato tinham sido substituídos por turistas sexagenários vestidos de florões em cores berrantes, túnicas, camisas jamaicanas, sandálias. O Pedro das visitas guiadas e freepasses inventados para os lugares da noite já lá não trabalhava há muito. O barman, um velho detestável, de fraque e rabo-de-cavalo grisalho à Pacheco Pereira "século XXI e meio"... Foi nesse último dia que descobri que a cidade já não tinha mais nada para me oferecer. Visitei os sítios da praxe mais uma vez, um por um, como se procurasse alguém. Não encontrei a diversão pretendida, mas compreendi o que se passava. Não conseguia ter paz. Era a minha culpa. E a falta. A minha velha vida, omnipresente falta. Falta de amor verdadeiro, de quem aceitasse os meus defeitos e me desse a provar os seus sem querer esconder. Falta de um objectivo para a vida, o eterno regresso ao nada. Dantes, não importava muito se só ou acompanhado — tudo era solidão, tudo era Eu. Um pobre Eu transbordante de orgulho — e tão só — que tu salvaste! Assim enterrei parte de mim, a pior de todas elas. Estava podre, estagnado, não havia amanhã. Enquanto fui louco, ou me quis parecê-lo, nunca pensei que pudesse haver vida nova num outro dia. Ainda bem. Cresci desapaixonado, lúcido. Horrendamente lúcido. Tinha de tornar-me humano, enterrar essa lucidez podre para aspirar a uma vida nova. E com ela, tantos outros lugares.

Frases curtas: ideias breves e poderosas, sentidas como facadas: a tensão da verdade dolorosa que só aos poucos vai conseguindo sair. Frases longas, orações encaixadas entre vírgulas e space dashes... a paz de espírito sempre provoca certa languidez a quem conta... e tudo está OK, mas fica sempre algo em suspenso... há mais por debaixo do véu. O silêncio. Espaços em branco. Algo vazio, mas tanto nos diz... há qualquer coisa que morre em cada ponto final. Do ânimo, quanto melhor, mais fluido o discurso. Nova vitória de Eros, yee!... E daí por diante... Sorrio-te, bebé — digo. Bebé lerá estas linhas e acabará também por sorrir. Afinal, que é isto, este texto, eu a escrevê-lo? Será arte? Isso apenas depende das emoções. E aposto que serão fortes. Evocações que ajudam a instalar a dúvida. Ora tudo parece bem, ora mal. Mas a vida é mesmo assim. Para poder ser sincero, tenho de me ver ao espelho. Não posso desculpar-me perante a minha própria pessoa para que a imagem transmitida não seja uma verdade que implora. A verdade não deve nada a ninguém senão a si mesma e estas linhas querem-se verdadeiras. E quem disse que a auto-referência tinha de ser um labirinto circular? Se só nós vamos duvidar de certas coisas e sentirmo-nos mal com isso por via desta mensagem, também o prazer de termos superado esse "mal" (em todo o caso, antigo e já conhecido), de o vermos como assunto encerrado, como algo para aqui chamado, ao fim e ao cabo, para divertir, bem como o cocktail de substâncias que segregaremos quando estivermos ora a atrofiar, ora a desatrofiar, e que nos farão sentir estranhos... Serão prazeres apenas nossos. As endorfinas não são nada de desprezar. E eu segreguei umas quantas à medida que ia escrevendo isto. Atrofiei. Acho que estou "velho" para fazer de mim cobaia mais uma vez, para experimentar de novo em mim próprio a ténue linha entre o génio e a loucura. Se me sinto inseguro? Comparado com como era dantes, sim. Porquê? Porque agora tenho algo a perder, e não quero. Mas isso não significa, precisamente, que, entretanto, ganhei algo? Pois claro que sim. Ora... E é só por causa disto que é porreiro escrever apenas para mim e para os meus, ou, melhor dizendo, para a minha one and only. Deixei de ter queridos leitores. Para eles, vós, a história acabou. Ou talvez acabe aqui, caso a minha doce menina aceda a que se publique tamanha colecção de incertezas para quem se quiser dar ao trabalho de pensar em mim e nela. Mas não o façam, não precisamos. Pensem antes em vós: um acto de coragem. Não vos devo nada. Vocês jamais nos ajudariam se precisássemos. Porque hei-de entreter-vos mais, então? Bebam estas palavras... Daqui, eu aceno a uns, levanto o punho a outros, mas estou-me borrifando para todos.. Pois bem, hoje faz anos que nasceu aquela que me livrou de um pesadelo que aparentava não mais terminar. Não pensem que "temos" sido um mar de rosas. Às vezes sofremos. No princípio, amávamo-nos, mas tive de apostar a minha vida contra a tua timidez, meu amor. Correu bem, juntámo-nos. E nunca mais nos largámos, nunca mais sobrou uma aberta para algo que não o irresistível, infindável, incondicional amor que tenho por ti. E é doce, tão doce, saber que posso esperar o mesmo de ti, sempre. * No dia da vida, falo da morte. Até de nós, mortos. Que pretenderei? A explicação mais simples costuma, também, ser a verdadeira. Ou, enunciando, one should not increase, beyond what is necessary, the number of entities required to explain anything. William of Occam. E agora? A chave está nas coisas simples... o filme não se deve deixar crescer para além do estritamente necessário à sua existência. Na maioria das vezes... Ora. As dúvidas fazem sofrer. E este texto tresanda a dúvida, mas, afinal, onde está ela? Nas nossas cabeças? Na verdade, é simples. Somos pessoas simples, queremo-nos assim. E no dia em que, para celebrar a vida, desenterrei tanta morte, termino com um sorriso nos lábios. Porque, como alguém disse há muito tempo, os mortos não mandam; quem manda é a vida, e depois da vida o amor.

Para a Sara, que para sempre possamos sonhar juntos.

Maio de 2005




Ao ler isto novamente senti-me como aqueles adolescentes que levam a namorada lá a casa pela primeira vez e vai daí acabam no sofá com a mãe a mostrar à menina a quem mais querem parecer galifões mauzões os álbuns de fotografias de quando eram pequeninos: bebés roliços, birras, sovas, joelhos rasgados, aparelhos nos dentes, mijadas... Só que em vez de protestar "Oh mãe!" e tentar afastar-me do perigo, republiquei.