segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Herdade do Meio — Cabernet Sauvignon & Syrah '2004

Vinho Regional Alentejano da Casa Agrícola João & António Pombo, de Portel, vila muito antiga — fundada em 1261, recebeu foral em 1262! — pertencente ao distrito de Évora.

Feito a partir «de uma rigorosa selecção de uvas das castas Cabernet Sauvignon e Syrah», estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês. Foram produzidas 15000 garrafas.

Cor rubi, concentrada. Aroma rico, intenso e envolvente. Notas de PVC no ataque, a fazerem lembrar aquela lona com que se cobrem as piscinas. Depois, muita fruta em compota, pimenta preta e madeira. Bem enlaçadas, mas não na perfeição. De alguma forma, notei-lhe por toda a parte uma sensação mineral que fazia lembrar brisa marinha a correr sobre extenso relvado numa manhã fresca. Húmida e salgada, vibrante, etérea mas perpassante — em claro contraste com a fruta carregada, como que lhe indiferente. Cheiinho na boca, onde as características do nariz se prolongam. Acidez vincada, taninos agradáveis e 14% de álcool bem integrado. Final quase opulento, bastante marcado pela madeira.

Pode custar menos de 8€ — se comprado no Continente — ou quase 40€ — se no Jumbo. Uma diferença abismal que «eles» nem se preocupam muito a tentar mascarar. Já me apercebi de que, curiosamente:

1. Quase ninguém repara;

2. Metade dos que reparam não se importam;

3. Daqueles que se importam, a maioria aplaude — vinho bom e barato é vinho bom e barato!;

4. Os que não o fazem invocam que se está a desvalorizar o vinho e interrogam-se a que preço.

De facto, aparentam perguntar coisas legítimas. Porém, porque se havia de desvalorizar o vinho?

4.1. Por a empresa estar num (muito) mau momento, porventura o derradeiro. Os que gostam de alimentar histórias especulativas poderiam ver no facto de a página da empresa estar «em construção» desde sempre (mais) um indício negro dessa eventual realidade. Eu, pessoalmente, duvido.

4.2. Marketing agressivo e algo mais. Em tempos, parece que o projecto HdM foi apoiado (sim, dinheiro) pelo universo Sonae. Naturalmente havia de haver alguma forma de retorno. Já para não dizer que, assim, se está a popularizar um produto que, dado o preço, não teria, à partida, assim tantos compradores. Mas... não fica a sensação de faltar algo?

Que se lixe. Pessoalmente, sou adepto do lema do penny, «mind your business». Como tal, não só acho que não vale realmente a pena pensar «nisto» como... adivinhem lá onde é que vou continuar a comprar os bons vinhos desta casa?! 16,5

domingo, 26 de Outubro de 2008

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Moqueca de Camarão

A moqueca é um cozinhado de origem indígena, e originalmente feita numa grelha de varas ou ainda apenas folhas de árvores cobertas por cinzas quentes (o que era chamado moquém). A diferença básica da moqueca baiana para a capixaba é que a baiana leva azeite de dendê [óleo de palma] e leite de coco. (Fonte: Wikipédia)




1Kg de camarão cal. 10/20;
200g — ou seja, um «sabonete» — de creme de coco (creamed coconut);
2 tomates grandes;
2 cebolas médias;
3 dentes de alho;
sumo de 1 limão e meio;
5 colheres de sopa de óleo de palma;
3 colheres de sopa de azeite;
35g de coentros frescos;
sal e malagueta seca a gosto.


Cortam-se as cebolas e tomates em quartos e juntam-se ao alho, aos coentros e à malagueta seca dentro de um triturador de qualquer tipo. Desfazem-se.

Numa panela grande e, se possível, de barro, aquecem-se em lume forte o azeite e a gordura de palma. Junta-se-lhes o preparado anterior e deixa-se refogar um pouco. Tempera-se com sal e junta-se o creme de coco, cortado em fatias finas. Reduz-se o lume para o mínimo. Espera-se que o creme de coco se desfaça e junta-se o sumo de limão.

Adicionam-se os camarões e mexe-se. Deixa-se cozinhar em lume brando, de panela tapada, mexendo apenas de vez em quando, durante mais 5 ou 6 minutos. Os camarões estarão prontos quando adquirirem aquele característico tom alaranjado. Deixam-se repousar mais um pouco, sempre com a panela tapada. Querendo, pode deitar-lhes por cima uns coentros frescos, cortados aos bocadinhos na altura, antes de servir.

Comemo-los só assim, com cerveja.

Ainda do artigo da Wiki, não resisto a transcrever mais este bocadinho:

A primeira menção da moqueca num documento histórico foi numa carta do padre português Luís de Grã, datada de 1554, onde ele afirma que "quando se dispunham a comer carne humana, os índios assavam-na na labareda", isto é, no moquem.

sábado, 25 de Outubro de 2008

Luxus — Reserva '2005

Ao contrário dos outros vinhos da Península de Setúbal que por aqui têm passado, este é produzido na Quinta de Catralvos, no sopé da Arrábida, cuja proximidade se faz sentir, não só ao nível do solo, mas também do clima, mais húmido, mais ameno — sendo, assim, natural que lá se façam vinhos de perfil mais fresco, mais ligeiro, mais ácido, de aromas menos maduros que os produzidos nas areias de Palmela.

Leituras interessantes sobre os vinhos desta zona, descobri na página da Rota de Vinhos da Península de Setúbal — sobretudo os mapas, que são deliciosos — e aqui.

Quanto a este vinho, e começando por fora, pelo rótulo, devo dizer que a S. lhe achou (muito) mais piada que eu. É um bling, porra.

Já o conteúdo da garrafa, que, afinal, é quase a única coisa que importa — combinação, evelhecida durante 8 meses em carvalho francês, de Cabernet Sauvignon, Aragonês, Syrah e Touriga Nacional — foi uma agradável surpresa. A cor, rubi, escura. O ataque evocou aromas de Porto Ruby. Depois, esvaecida boa parte do álcool volátil, ficou fruta negra madura, ainda jovem (!), violetas, algum vegetal a fazer lembrar ervas e folhas secas, e madeira. Alguma! De boca, achei-o fresco, com bom volume. A madeira e os verdes iam surgindo juntos, sobrepondo-se à fruta. Depois, elementos florais, aliados a algum álcool, iam fazendo lembrar tintura de genciana. A madeira, bem presente, ficou sempre no fundo, a transmitir austeridade, e para o fim, este longo, com retrogosto a sugerir frutos de casca rija. Muito interessante. Pena certo desequilíbrio entre as partes.

Já o tinha visto várias vezes nas prateleiras dos hipermercados. Mas, se não fosse ela, nunca lhe teria pegado. De alguma forma, ainda bem que o fiz.

Custou pouco menos de 5€.

15

quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Quinta das Baceladas '2004

De não muito longe daqui, da Bairrada, da zona de Cantanhede, vem este tinto, sem dúvida um dos mais interessantes do produtor, as já históricas Caves Aliança.

Foi elaborado a partir de Baga, Cabernet Sauvignon e Merlot, e estagiou durante um ano em barricas novas de carvalho francês. Foram produzidas 37901 garrafas.

Em 2006, levou 17,5 valores (e prémio «Melhor Compra») numa prova da Revista de Vinhos e 91 pontos no livro de Aníbal Coutinho «220 Melhores Vinhos Para 2007».

Foi decantado 1h antes de ser servido a 16ºC.

Aroma cheio, intenso, generoso, com muitos frutos silvestres, vermelhos e negros, maduros e compotados. Ligeiro balsâmico e notas de fumo e tosta completam o cenário.

Dotado de boa presença na boca, mostra fruta densa e complexa, nem doce nem amarga. Depois, chocolate e (bastante) madeira. Encorpado, não pesado. Álcool bem integrado. Taninos ainda um pouco adstringentes. Final longo e saboroso.

Adivinha-se um vinho de boa longevidade, que ainda não atingiu o apogeu, como é, aliás, comum na Bairrada. Para já, e para os 10€ que custa, só posso dizer que me parece muito bom!

É o segundo Bairrada à maneira de Bordéus que provo em relativamente pouco tempo — parece que existem parecenças a não desprezar entre os dois terroirs — e gostei muito de ambos. E por mais que goste dos bairradinos clássicos, tenho de reconhecer que este é um caminho muito interessante que certos produtores estão a seguir... pode ser que algo muito grande aguarde nas sombras, ainda em estado incipiente...

17

quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Duas Quintas — Reserva '2004

Acompanhou o coelho este Reserva da Ramos Pinto, tinto duriense elaborado com uvas Touriga Nacional (80%), Touriga Franca (15%) e Tinta Barroca (5%), provenientes das duas quintas que dão o nome ao vinho, Ervamoira e Bons Ares.

A primeira «localiza-se na região do Douro, sub-região do Douro Superior, na freguesia de Muxagata, Vila Nova de Foz Côa. Possuindo 200 ha de área total, que oscila entre os 110 m e os 340 m de altitude, esta Quinta detém 150 ha de área de vinha onde estão plantados cerca de 450 000 pés de videira com uma média de 15 anos de idade.»

A segunda, igualmente no Douro Superior, próxima da outra, situa-se contudo a muito maior altitude — 600m — sendo assim mais fresca durante o Verão, o que não só a torna mais indicada para o armazenamento e envelhecimento dos vinhos — é lá que este Reserva envelhece durante um ano, depois de engarrafado — como leva à «produção de uvas mais ácidas e frescas que as produzidas na outra quinta, mais maduras e concentradas, com as quais se atinge um extraordinário blend.»

Envelheceu durante 18 meses em tonéis e barricas — novas e de segundo ano — de carvalho francês. Para satisfazer a curiosidade no que tocar a outros detalhes, pode sempre consultar a ficha técnica disponibilizada pelo produtor, que está aqui.

Cor carmim muito escura. Aroma profundo e complexo, mostrando, como que por camadas, frutos silvestres intensos mas não muito doces, passas, mato e chocolate amargo, baunilha e resinas de madeira, fumo e tosta de barrica. Textura interessante, cheia, com muitos taninos finos, mas sem chegar a poder considerar-se cremosa. Álcool muito bem integrado e acidez perfeitamente afinada, a manter tudo sempre muito fresco, vibrante, a ajudar à sensação de mineralidade. Final saboroso e prolongado, mas não opulento. Cheio mas muito fresco, potente mas contido, elegante acima de tudo, é um vinho bem diferente das poderosíssimas torrentes de fruta e químico a que o novo Douro «bom» nos tem habituado. Ainda tem uns anitos pela frente.

Com os cerca de 25€ que custa, será muito difícil encontrar melhor.

18

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Coelho & Tinto + Arroz de Cogumelos

Com três horas de antecedência, marinaram-se quatro pernas de coelho com 6 dentes de alho e 3 colheres de sopa de azeite.




Chegada a hora de as cozinhar, levaram-se a lume forte, num tacho largo, 2 colheres de sopa de banha de porco, uma cebola grande, picada, e a marinada do coelho. Estando a mistura a ferver, juntaram-se-lhe as pernas, que, virando-se conforme necessário, se deixaram alourar de ambos os lados. Deitou-se, então, no tacho uma colher de café de malagueta seca, desfeita, 3 folhas de louro, 4 colheres de sopa de massa de tomate, 1 colher de chá de colorau, 1 colher de café de cominhos moídos e sal a gosto. Continuaram a ir-se virando as pernas, de modo a que os temperos se pudessem dissolver uniformemente no cozinhado. Estando tudo bem dourado, verteu-se para dentro do tacho meio litro de vinho tinto e voltaram a virar-se as pernas. Por fim, passados mais ou menos 15 minutos, juntou-se mais meio litro de água e baixou-se o lume para o mínimo. Cozinhou em lume muito brando durante hora e meia: de tacho tapado durante os primeiros 40 minutos, e destapado — para o molho reduzir — o resto do tempo. Foram-se ainda virando as pernas de vez em quando, de modo a proporcionar-se-lhes uma cozedura tão uniforme quanto possível.

Nota: O tempo de cozedura depende, naturalmente e pelo menos, da intensidade da chama — fogões diferentes têm «máximos» e «mínimos» diferentes — e do tamanho e constituição da panela. Tendo isto em conta, talvez seja conveniente, a partir de dada altura, quando se suspeitar que o coelho poderá já estar cozido, espetar-se-lhe um garfo à superfície do músculo, tentando depois, na sequência desse gesto, separar um pedaço de carne do resto da perna. Quando o dito pedaço vier atrás do garfo sem oferecer grande resistência, como se a perna se desfiasse, o coelho está pronto.

Uma vez preparado o coelho, apagou-se o lume e deixou-se descansar, tapado, durante cerca de 15 minutos antes de se servir.

Enquanto o coelho ia cozinhando, preparou-se o arroz de cogumelos. Em lume forte, refogou-se uma cebola pequena, picada, e duas colheres de sopa de azeite. Juntaram-se ao refogado 200ml de arroz carolino, 150g de cogumelos frescos cortados em metades, duas conchas de molho do coelho e um pouco de sal. Por fim, 650ml de água, e deixou-se cozer destapado, em lume brando, sem mexer. Tendo o arroz já pouca água, apagou-se o lume.

Depois foi só servir e acompanhar com um vinho giraço do Douro. Muito bom!

Palha-Canas '2006

Este vem da Casa Santos Lima, uma vinícola bastante antiga do concelho de Alenquer. Como tantas outras empresas familiares, com muitas terras e alguma história, cheias de potencial por realizar, apostou a dada altura na comercialização de vinhos engarrafados de qualidade. Assim, e realizados os melhoramentos na adega que são costumários nestas situações, reentrou no mercado em 1996 e, hoje em dia, exporta a grande maioria — 90%, dizem! — do vinho que produz.

O terroir é o típico da zona. Encostas suaves situadas a altitude moderada — 100 a 200m — de solo argilo-calcário capaz de reter bem a água, e depois muito sol, moderado pelas brisas do Atlântico próximo, sendo as Primaveras chuvosas e os Verões secos.

Foi vinificado a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Castelão e Camarate. Parte do lote final foi envelhecido em meias-pipas de carvalho francês e português. Ficha técnica, aqui.

Não o decantei. Cor rubi de intensidade moderada. O ataque, achei-o fortemente animal, o que surpreendeu. Depois, esvaído todo aquele ensanguentado, couro e suor de animais de pêlo — ratos e afins — revelou-se fruta doce, madura, diria eu vermelha, alguma dela em compota, e chocolate, mais perceptível na prova de boca. É vinho de estrutura ligeira e final discreto, mas ainda assim muito agradável, muito sugestivo, que não cansa.

Custa pouco mais de 4€.

14,5

Quinta do Infantado — Vintage '2003

Pois é, voltámos.

Vamos lá, então, pôr a pinga em dia.

Já devem ter reparado que se fazem uns quantos bolinhos cá por casa. E agora digo-vos que ainda são mais os que vêm da rua. Sim, raramente dispensamos algo doce à sobremesa. Que gosto muito de acompanhar com Porto.

De facto, só não consumo mais para evitar ficar gordo como um porco chino.

Não que tenha assim tantos motivos concretos para me preocupar. Afinal, em 10 anos, passei de uma cintura 40 para uma 42. Que me desculpem a nota, quid sapit pedante, aqueles que por ela se sentirem ofendidos, mas... Calma. O aparte justifica-se. Pela importância da profilaxia.

Adiante.

O Porto que hoje aqui coloco é o Vintage de 2003 da Quinta do Infantado, de Gontelho, no Cima Corgo. Não lhe encontrei página web.

Retinto bonito, com reflexos arroxeados. Denso, doce, profundo. Em camadas, muita fruta — uvas em passa, figo, tâmaras, talvez papaia, abóbora cristalizada. Morangos e xisto na boca. Estrutura de respeito. Banana seca e pinhões no fim.

Ainda é uma criança. Vai durar mais que eu!

25€, mais ou menos.

Foi a garrafa nº 11812

17

domingo, 19 de Outubro de 2008

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terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Pão de Cerveja

Muito bom!




Na cuba da máquina de fazer pão deitaram-se, por esta ordem, os seguintes ingredientes:

330ml de cerveja pilsener — ou seja, uma lata de Super Bock — à temperatura ambiente;
1 colher (de chá) de sal;
1 colher (de chá) de açúcar;
50g de margarina;
550g de farinha de trigo T65;
20g de fermento de padeiro.

E mandou-se a maquineta fazer um «pão médio, de cor média» — ou seja, seguir o ciclo padrão. Pronto!

Adegaborba.pt — Reserva '2004

Alentejo DOC da Adega Cooperativa de Borba.

A página supramencionada conta exemplarmente a história do nascimento deste vinho — Ave copy/paste! — Aí vai:

Este vinho tem origem e proveniência em vinhas velhas da região de Borba, especialmente seleccionadas para a elaboração deste vinho Reserva.

Após um controlo rigoroso da evolução de maturação das uvas na vinha, na chegada à Adega as uvas foram esmagas suavemente com desengace total, ao qual se seguiu o processo de fermentação alcoólica em lagar de inox, com pisa mecânica, terminando em maceração durante 10 dias, sob controlo de temperatura a 22-25ºC.

A fermentação maloláctica ocorreu em depósito de inox de pequeno volume. Um estágio de 12 meses em barricas novas de carvalho francês, americano e castanho, antecedeu o engarrafamento e o estágio final em cave de 12 meses em garrafa.

Foram produzidas 24000 garrafas.

Cor rubi, escura.

É frutado e amadeirado. A fruta é negra — muita ameixa, muita ameixa! — profunda e generosa. A madeira surge muito bem colada à fruta. Aparenta qualidade e marca o aroma, mas não o domina. Entre a fruta e a madeira, há chocolate. Um pouco por toda a parte, uma delgada névoa almiscarada.

Tal como o nariz, o sabor consiste, essencialmente, em ameixas muito maduras (mas não demasiado doces) e amadeirados. Tem o seu quê de exótico. Talvez seja a acidez, que entra no conjunto a fazer lembrar maracujá. Muito bom volume na boca. Fresco e macio. Taninos doces e acidez discreta. Um pouco capitoso — deixa certo picor alcoólico no palato mole. Final satisfatório.

Provei-o mais ou menos em jejum — Ó vida! [de vós me aparto!, já agora...] — e depois ao lanche. O que proporcionou a seguinte experiência... que de experiência só tem o princípio. Ora, porra nenhuma, resolvi apontar, por alto, que tal me sabia o vinho com aquilo que estava a comer. Só isso. Duh!

Ficam os resultados:

Primeiro, com queijinho de cabra mal curado, acompanhado por pãezinhos de água da «Padaria São José» (papo-secos de farinha mais grossa, com algum farelo à mistura), notei que os sabores surgiam igualmente nítidos e que o pendor alcoólico se aligeirava. Ganhou qualquer coisa, sim senhor! 17.

Depois, com uma fatia de pão de centeio e um naco de queijo de ovelha amanteigado — coisa mais intensa, mais salgada também, que a precedente — pareceu-me ter-se ressaltado o carácter especiado da bebida. Não ligam nada mal, mas gostei mais da combinação com o queijinho de cabra. 16,5.

E no lanchinho passei às carnes. Pãozinho branco com foie-gras de ganso. Sem surpresa, surgiram sugestões ferrosas. Nada de desagradável, mas... enfim, não sendo um casamento infeliz, também não me pareceu ideal. Um d'Yquem tinha caído melhor! (Sem malícia) 15,5.

Por fim, o regresso ao pão de centeio, desta vez com fatias de presunto ibérico com 18 meses de cura. Impressões similares às anteriores, mas mais acentuadas. Muito pior maridagem que a precedente! 14.


Ah, quase me esquecia! Sem comida, acho que merece p'raí

16

Cortes de Cima '2005

Mais vinho:

Este, Regional Alentejano da Casa Agrícola Cortes de Cima.

A mistura, 67% Syrah, 16% Aragonês (Tempranillo), 12% Touriga Nacional, 5% Cabernet Sauvignon. O estágio, 12 meses em carvalho francês e americano. Dizem os que o fazem, com louvável franqueza, aqui.

Um ponto não objectivamente negativo, mas que não me agradou nada: uma rolha técnica num vinho de 10€.

Do vinho propriamente dito...

Cor rubi, escura e densa.

Aroma quente, generoso, a frutos muito maduros. Ligeiríssimo vegetal, também ele maduro à sua maneira. Tosta de barrica. Guloso, mas um pouco pesado. E não sei se foi filme meu, mas o certo é que lhe notei uma ou outra sugestão de cheiro a caça... digo, do suor daqueles animaizinhos peludinhos que gostam de correr livres pelo meio do mato, sabem?

Boca arredondada. Encorpada. Doce. Capitosa. Muitos taninos. Mas não sedosos, antes algodoados. Boa persistência.

Resumindo: é escuro, quente, doce, directo e guloso. E gostei. Mas não tanto assim.

15,5

domingo, 12 de Outubro de 2008

Penfolds — Bin 407 Cabernet Sauvignon '1996

As uvas a partir das quais são elaborados estes tintos australianos provêm de diversos lugares da Limestone Coast, na região sudeste do país. Investigando um pouco, descobri que a colheita de 1996 procedia, pelo menos maioritariamente, de Coonawarra. O enólogo, John Duval — que agora tem marca própria.

O produtor, um clássico que dispensa apresentações, tem página web aqui. Este Bin 407 surgiu como consequência do aumento de cepas de Cabernet Sauvignon de qualidade nas propriedades da empresa no princípio dos anos 90. É uma espécie de «irmão pequenino» do Bin 707, um dos grandes vinhos australianos. Por fim, parece que 1996 foi um ano excepcional na região... aliás, a última grande colheita de Bin 407... antes de 2004. Do rótulo:

... is a full-bodied but elegant style of Cabernet Sauvignon. The wine shows typical Cabernet varietal characters of blackcurrant and mint, together with superb oak integration resulting from 12 months maturation in French and American hogsheads.

Decantei-o hora e meia antes de servir. No copo, cor granada, intensa, escura, com orla alaranjada, mostrando evolução, mas sugerindo também que este vinho está bem vivo... talvez ainda nem no auge! Mostra intensos aromas varietais: ameixas maduras, bagas em compota, pimentão verde e pimenta preta, num conjunto denso, franco, maduro, completado por notas ácidas que fazem lembrar licor de limão... e aromas de estágio, sobretudo camurça e cabedal, mas também sugestões de malte e tosta de barrica. Saboroso, com muita fruta carregada e pimenta, bem dimensionado, com bom comprimento, taninos suaves, acidez vivaz e 14% de álcool maravilhosamente integrados, está aqui um belo vinho, pleno de saúde e ainda com muitos anos pela frente.

Não é, sequer, um topo de gama do produtor, mas... quantos portugueses temos actualmente com estas características?

Custou apenas 20€.

18

P.S. — Acerca dos «códigos bin» presentes nos rótulos de muitos vinhos australianos, encontrei aqui uma explicação que me pareceu convincente. Parafraseando:

Dizem que não existe código nenhum. Chama-se bin a uma zona de armazenamento numa cave. Do dicionário Merriam-Webster:

Bin,
Pronunciation:
\ˈbin\
Function:
noun
Etymology:
Middle English binn, from Old English
Date:
before 12th century
: a box, frame, crib, or enclosed place used for storage.

Ora, a cada nova colheita, vinhos da mesma natureza — castas, estilo, tempo de estágio — iam sendo arrumados no mesmo lugar — bin. Assim, e com o tempo, um dado nº bin foi-se associando cada vez mais a um certo vinho que lhe ia correspondendo. E deve ter sido assim que os números dos arrumos onde os vinhos eram guardados se tornaram as marcas dos mesmos.

Terras do Pó — Reserva '2005

Depois deste e deste, mais um Castelão da Casa Ermelinda Freitas.

Citando o rótulo:

A Casa de Ermelinda Freitas decidiu criar este vinho Reserva, para dar oportunidade aos admiradores desta marca de poderem apreciar um Castelão mais evoluído, das vinhas de Fernando Pó, que estagiou 8 meses em meias-pipas de carvalho francês e 12 meses em garrafa. Ideal para acompanhar queijos e carnes vermelhas, à temperatura 18ºC.

Problemas de ego é que as senhoras não têm!

Mas o vinho que fazem é bom, e assim... Adiante.

Cor rubi de intensidade mediana. Aroma muito expressivo, com frutos vermelhos — morangos — maduros mas frescos, muito caramelo e nuances maltadas, sugestões ácidas — queijo da serra ainda mal curado e azeitona verde — e apenas uma nesga de tosta de barrica. Corpo fluido, mas com densidade. Boa persistência. É um vinho relativamente simples, mas dócil, fácil de beber e muito saboroso. Extremamente apelativo!

Custou 6,50€.

As garrafinhas de tinto recomendam sempre casamentos com carnes vermelhas e queijos. Mais raramente, a caça vem á baila. Pois este acompanhou na perfeição umas costeletas de porco grelhadas, brócolos cozidos em vapor e batatinhas afogadas em azeite. Aliás, tivera eu de recomendar algo com que o harmonizar, seria precisamente o que acabei de referir.

16

sábado, 11 de Outubro de 2008

Chamuças!

Chamuças! Fritos de origem indiana, que dispensam outras apresentações (mas aí está o enlace para o respectivo artigo da wiki). Excepcionais a acompanhar cerveja, são, juntamente com os ovos cozidos e os cachorros, o pão da noite. Quem achar esta afirmação críptica, pergunte o significado a um vadio qualquer...


Primeiro faz-se o recheio.

400g de bife de frango — acredito que se possa utilizar praticamente qualquer outra carne;
2 cebolas grandes cortadas em cubos grosseiros;
4 dentes de alho;
3 colheres de sopa de massa de tomate;
3 colheres de sopa de óleo de amendoim;
1 ½ colheres de sopa de caril;
½ colher de sopa de óleo de sésamo;
2 colheres de chá de malagueta seca moída;
sal a gosto.


Em lume forte — para permitir a evaporação da maior quantidade possível de água — juntam-se num tacho baixo e largo os óleos, a cebola cortada em cubos grosseiros e a massa de tomate. Adicionam-se depois os demais temperos e a carne picada. Vai-se mexendo até a carne cozinhar, tendo o cuidado de não a deixar cozinhar muito, dado que ainda irá ao forno.

Para fazer as chamuças propriamente ditas, utiliza-se uma embalagem de 250g de massa filo. Esta é produzida pela Sofrabrick e existe na maioria dos hipermercados. Não a encontrando já feita, pode sempre seguir-se uma das muitas receitas disponíveis na web. A que transcrevo em seguida é da autoria do chef espanhol Karlos Arguiñano e foi tirada daqui.

Ingredientes:

500 gr. harina
3 cuchara sopera aceite de oliva
1 huevo
1 pizca sal agua


Elaboración:

Mezclar todos los ingredientes y amasar 10 minutos. Se tiene que conseguir una masa elástica (como la pasta de tallarín). Dividir en cuatro y dejar reposar 30 minutos. Extender tan fino como se pueda (como el papel). Dejar secar una hora antes de utilizar.


E do mesmo sítio, um par de recomendações:

La pasta filo no debe estar nunca o lo menos posible, expuesta al aire.

(...)

La pasta filo puede conservarse herméticamente cerrada, en la nevera o en el congelador. En el primer caso debe sacarse de la nevera unas tres horas antes de trabajar con ella. En el segundo, además, debe estar unas ocho horas antes en la nevera, luego unas 3 horas fuera de la nevera.

(...)

Para que la masa filo no se humedezca y quede cruda en el interior, los rellenos deben ser bastante secos. — O que, naturalmente, não se aplica no caso destas chamuças, que, contudo, também ficarão bem estaladiças.






Os diagramas ficaram um pouco toscos, mas enfim... acho que se percebem. Ora vejamos... Primeiro corta-se a folha de massa — que é quadrada — ao meio. Assim:


Pega-se numa das metades, coloca-se uma colher de sopa de recheio (aquela coisinha castanha que parece... na figura) no seu canto inferior direito e dobra-se no sentido da seta.


Ficar-se-á, então, com algo semelhante ao ilustrado pela imagem seguinte. Depois é só dobrar em triângulos.


As setas apontam a direcção e sentido em que se dobra. Os pontinhos vermelhos representam os pontos de partida e chegada de cada dobragem, por assim dizer.


Não será má ideia treinar com um lenço de papel, por exemplo, antes de se deitarem mãos à massa... Foi assim que aprendemos.


Continuam as dobragens...


Por fim, «fecha-se» a chamuça. Assim:


Mais fácil (aqui para nós) que fazer os diagramas a tentar explicar como se dobram... é dobrá-las.

Uma vez concluído esse passo, enche-se uma tigela com óleo de amendoim, onde se submergem, uma a uma. Colocam-se então no tabuleiro do forno — lado a lado, sem se sobreporem — e vão cozer a 200ºC, durante 30/40 minutos. Quando saem do forno, depositam-se numa travessa coberta de papel de cozinha, só para secarem um pouco. Querendo, também se podem cobrir com papel absorvente — para quem gostar delas realmente secas...

No fim, ficaram assim. Muito estaladiças, perfeitas para acompanhar com muita cerveja e um jogo de futebol.






Estes ingredientes renderam 16 unidades.

Quinta da Pacheca '2006

Tinto. Douro DOC. Tinta Barroca, Aragonês e Touriga Nacional. A quinta tem página web aqui.

Uma das mais antigas propriedades do Douro — consta que a primeira referência ao nome da quinta data de 1738, quando usado pela sua então proprietária, D. Mariana Pacheco Pereira — foi adquirida em 1903 por D. José Freire de Serpa Pimentel, um apaixonado pelo vinho que também o produzia e terá visto na Pacheca um bom ponto de apoio para a expansão do negócio. Actualmente, tanto produz vinho do Porto como vinhos de mesa, branco e tinto, que coloca no mercado com marca própria. Ademais, é um espaço aberto de formas muito interessantes ao turismo rural e possui ainda arquivos de inegável valor. Para os interessados, mais e melhor já foi dito, por exemplo aqui. Mas vamos ao vinho.

Cor rubi. De aromas, bastante completo: frutos vermelhos de boa intensidade e esteva, ligeiro balsâmico, uma ponta de olor químico, rebuçado, madeira e cabedal. Corpo robusto: acidez moderada, taninos um pouco secos. Sabor a fruta muito agradável, apenas temperado por um pouco de madeira. Final frutado, de bom comprimento.

É um vinho intenso, dotado de algum interesse, mas que de forma alguma surpreende. Está bem para imprimir alguma variedade a um consumo quotidiano, mas acredito que muita gente o ache caro para esse papel. Custou 8€.

Um dia destes abro o Reserva.

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Sexy '2006

Depois da boa impressão que me havia deixado o de 2005 — a primeira nota de prova deste blogue! — ansiava encontrar este à venda.

Vinho Regional Alentejano da FitaPreta Vinhos, feito a partir de Touriga Nacional (50%), Aragonês (25%), Cabernet Sauvignon (15%) e Syrah. Estagiou 9 meses, 50% em barricas de carvalho francês e o restante em cubas de inox. Tem 14,5% vol.


Cor rubi. Primeira impressão de índole vegetal bem patente no nariz: cipreste-português, relva fresca e pimentão verde. Depois vem a fruta, sob a forma de licor de ginja... E mais álcool, a potenciar sugestões balsâmicas que, por si só, seriam muito discretas. A fechar o conjunto, impressões mais quentes, mais envolventes: caramelos de leite e café. Está fresco e bem dimensionado na boca, com taninos redondos e acidez na conta certa. Os sabores surgem com boa concentração, frutados e vegetais, com predominância dos segundos. Um pouco alcoolizado. Tal como na colheita anterior, o final é interessante, mas curto.

É um alentejano invulgar. Mais verde, mais frio que o da edição anterior. Ganhou finura, mas perdeu calidez, generosidade — tipicidade. Como se uma Gia Carangi se submetesse a um makeover e saísse transformada em... Nico. Bem, talvez já esteja a divagar.

Custou 7€.

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Álvaro Castro '2006

E outro Dão de Álvaro Castro.

Cor rubi de boa intensidade. Abri-o sem decantar e encontrei relva cortada, chocolate e bafio. Muito. A fazer a fruta esconder-se. Nada de bom. Tirei um copito, rolhei o resto e deixei-o passar a noite no frigorífico.

No dia seguinte, parecia outro vinho. A fruta mostrou-se farta, sumarenta, deliciosa, no ponto ideal de maturação. E o chocolate continuava lá, abrindo caminho para algumas notas de tosta de barrica, perfeitas para completar o conjunto. Bastante denso na boca, com acidez vincada e bons taninos, cheios de presença. O final, mais que decente para um vinho desta gama.

Uma boa surpresa... após basto arejamento.

Custou pouco mais de 6€.

15,5

sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Lavradores de Feitoria — Três Bagos '2005

Mais um da Lavradores de Feitoria.

Com a arte e o engenho lotar, complementámos as características muito próprias de cada vinho, quinta e «terroir», para criar um Três Bagos moderno que mostra toda a riqueza e complexidade do Douro — reza o rótulo.

Cor arroxeada. Aroma que sugere bagas pretas e roxas, esteva, balsâmico e chocolate, algum etanal volátil, verniz e bastante madeira. Muito intenso de sabores — acidez acentuada — revela fruta de boa qualidade, saborosa, mas que amarga um pouco. Muitos taninos, algo farinhentos. Álcool por vezes indiscreto. Final razoável.

Impressionou-me menos que o Gadiva — apenas pelo preço, confesso-o — não deixando, contudo, de ser uma boa opção para o dia-a-dia. Custa cerca de 6,50€.

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quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

What is the Word

folly
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what is the word
folly from this
all this
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given
folly given all this
seeing
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what is the word

what is the word



Samuel Beckett,
What is the Word,
1989

quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Sopa...

Esta sopa tanto pode ser comida antes do prato principal como, até, sê-lo. Tal como a maioria das sopas, é muito fácil de fazer e tem a vantagem de possuir uma parte animal que garante a sua aceitação entre os comedores de carne inveterados. Aqueles que, como eu, tendem a torcer o nariz às sopas puramente vegetais...




Faz-se assim:

1. Abrir e escorrer uma lata grande — daquelas com 800g de peso líquido — de grão-de-bico. Reservar. Cortar 275g de linguiça em pedaços grandes. Reservar.

2. Descascar 2 cebolas grandes e cortá-las aos cubos para dentro da panela onde se vai fazer a sopa. Juntar azeite — não muito — e levar a lume forte.

3. Quando o azeite começar a ferver, adicionar a linguiça. Deixar refogar durante 5 minutos.

4. Juntar ao refogado 2ℓ de água, uma pitada de sal e metade do grão escorrido. Com a escumadeira — ou o que mais puder servir para o efeito — retirar a linguiça para dentro de um recipiente à parte e reservar. Deixar ferver a sopa durante 20 ou 25 minutos, até a cebola e o grão se notarem cozidos, sempre de panela destapada.

5. Passar um pouco a sopa com a varinha mágica.

6. Juntar o resto do grão, a linguiça que se tinha posto de parte e 500g de couve coração-de-boi (é uma espécie de repolho). Deixar cozer até a couve estar bem mole — à volta de 10 minutos, no nosso caso.

7. Servir. Depois de servido, gosto de juntar ainda mais um bocadinho de azeite ao «prato», como se pode ver na foto. Eu gosto assim!


P.S. — Parece que há quem ache estranhas estas aventuras de menino & menina à solta na cozinha, ainda por cima sendo nós novinhos, sem putos e cheios de alternativas. Pois bem: fazemo-lo porque gostamos. A meu ver, este tipo de cooperação entre duas pessoas que estão juntas só tem vantagens... e não deixa de ser bonito de se ver.

Duas Histórias de Don Hertzfeldt

Do mesmo autor,





Ou "Nunca detestei um homem ao ponto de devolver-lhe seus diamantes" — Zsa Zsa Gabor

e

um bocadinho de Rejected, filme que realmente dá que pensar.





"Não é com sangue que se há de sufocar a razão", disse um dia o grande Maxim Gorky.

O autor, Don Hertzfeldt. Se gostaram, há mais aqui.

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Croissants Austríacos

Não fomos nós que os inventámos — oh, duh! — e também não nos lembramos de onde tirámos a receita. Como (afinal, segundo parece) as ditas não têm direitos de autor, enfim, tanto faz. Para quem quiser, aí ficam, apenas como modesto contributo para um lanche diferente. Ficam muito ligeiramente adocicados, logo vão bem com doces e salgados. Nós gostamos.




Ingredientes:

1Kg de farinha de trigo;
330ml de leite morno;
200ml de açúcar branco, refinado;
150g de margarina;
60g de fermento de padeiro;
2 ovos grandes;
1 colher de sopa de sal;
gema de ovo q.b. — para os pincelar;
margarina q.b. — para untar o papel onde vão cozer.



Preparação:

Num tacho, derrete-se a margarina misturada com o leite, sem deixar levantar fervura, e verte-se na cuba da máquina de fazer pão. Depois juntam-se os restantes ingredientes, pela seguinte ordem: açúcar, sal, farinha, ovos, e por fim o fermento. Dá-se uma volta ou duas com uma colher ao conteúdo da cuba, só para misturar um pouco os ingredientes antes de serem amassados, e inicia-se o ciclo «amassar». Que, cá em casa, dura uma hora e meia — mas é provável que os valores variem de máquina para máquina, pelo que este tempo fica como simples indicador.

Terminado o ciclo, estende-se a massa de modo a formar um círculo. Círculo esse que se corta em oitavos, formando triângulos (fig. 1).







Fig. 1


Fig. 2



Depois acertam-se as arestas dos triângulos (corta-se a massa excedente) e enrolam-se segundo o sentido da seta da fig. 2.

Uma vez enrolados os croissants, untam-se com margarina dois pedaços de papel de ir ao forno, cada um dos quais grande o suficiente para forrar a superfície do tabuleiro onde se vão cozer. Isto porque não é possível cozê-los todos numa só fornada, a menos que se possua um forno realmente grande.

Pincelam-se com gema de ovo batida, colocam-se em cima do papel onde irão ao forno e deixam-se levedar durante 1h ou 1h15. Cozem a 180ºC, aproximadamente 35 minutos.


Notas:

• Embora estes croissants tenham sido amassados na máquina de fazer pão, também se podem amassar à mão.

• O açúcar refinado, fundamental para os croissants ficarem bem leves, faz-se facilmente em casa, deitando a quantidade desejada de açúcar em cristais num processador de comida ou moinho de café — ou coisa que o valha — e moendo-o durante cerca de um minuto. Deixe assentar o pó antes de abrir!

• Depois de estarem a levedar em cima do papel untado, deve ter-se o cuidado de transportar os croissants para o forno sem lhes tocar, pegando o papel pelas pontas e depositando-o em cima do tabuleiro — tocando-lhes, é natural que abatam.

• Quem gostar dos croissants com um ligeiro sabor a limão ou laranja, logo no princípio do procedimento, ao aquecer o leite, junte-lhe uma casquita do «aroma» que quiser usar...


Se alguém fizer, esperamos que gostem! :)

domingo, 5 de Outubro de 2008

Calda Bordaleza '2005

Há dias, hora de jantar, na rua e sem a menina, na altura ocupada com outros afazeres, calhou passar ao pé do Ida & Volta, na Calouste Gulbenkian, e ocorreu-me ir ver como era.

Nunca lá tinha ido. Parecia-me um pouco pedante, que Deus me perdoe. Mas entrei e não fiquei nada desiludido. Devo dizer, até, que gostei muito.

É um restaurantezinho muito simpático, pelo menos se não estiver cheio, confortável e onde se come bem. A garrafeira, embora nem por sombras se possa considerar grande, está bem composta, com uma data de vinhos porreiros a preços convidativos. Como já tinha ouvido dizer bem deste — 17,5 valores no guia de João Paulo Martins, por exemplo — e ali o tinha a jeito...

Trata-se, então, de um tinto da Campolargo, de Manuel dos Santos Campolargo, talvez o mais inovador e irreverente produtor da Bairrada — ideia inevitável após a leitura deste interessante artigo.

É uma calda típica da região do Médoc — aliás, como o nome indica — feita a partir de 45% de uvas Merlot, 40% de Cabernet Sauvignon e 15% de Petit Verdot, e que passou 13 meses em madeira nova.

No copo, rubi escuro, opaco. No nariz, ainda um bocado fechado, como que a guardar-se para o futuro. Percebi-lhe, contudo, uma interessante fusão de romãs e frutos vermelhos com relva recém-cortada e pimento verde, fumo e madeira. Tudo suave e bem misturado, agradável. Tal como na boca. Sedoso e redondo, de acidez vincada e álcool perfeitamente integrado. O final, saboroso, podia ser mais persistente.

Fez companhia a um coelhinho à caçador — que também estava muito bom — e deram-se lindamente. Custou 33€: um preço mais que justo — convidativo.

Não terminei a noite sozinho. Enquanto caçava no prato, elas despacharam-se e vieram fazer-me companhia... e comer sobremesas.

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sábado, 4 de Outubro de 2008

Saint Etienne — Foxbase Alpha

Muito bonito.


Ora esta é cover desta. De 1990. Mais, aqui.

Pintas '2003

Aquele sítio do Mouchão que encantou já tinha ficado fisgado para uma futura visita. Assim que possível. Ora, como nem duas semanas teriam ainda passado e eu já estava de volta à parvónia, lá fui fazer o gosto ao dente — por mais que um tipo goste de cozinhar, às vezes sabe bem que nos preparem qualquer coisita, sobretudo quando quem o faz sabe o que está a fazer.

De comer, tudo estava bom. Excepto o patê de faisão enrolado em couve — esse estava divino. Pouco de novo experimentei. Sou um animal de hábitos...

De beber, hesitei bastante entre este Pintas e o Quinta do Vale Meão de 2004. Como os donos do Pintas me parecem ter mais pinta que os outros — fúteis motivos! — e também porque prefiro grandes misturadas de castas autóctones a percentagens bem definidas daquela meia dúzia, ou menos, de raças do costume, sobretudo tratando-se de vinhas velhas...

Pedi que mo decantassem e refrescassem um pouco — o costume. Assim que o abriram, primeiro reparo: que rolha tão grande! Tive de a trazer comigo. E até fiz uma coisa parola só para vo-la mostrar...




Eis pois o altarzinho. Adiante... É melhor!


O vinho propriamente dito não desapontou, nem pouco mais ou menos. De cor, continua muito escuro. Ou muito me engano, ou há ali pinga para muitos anos. De aromas, a destacar uma intensidade contida, uma discrição boa na forma como se foi mostrando ao nariz, que muito me agradou. Do Douro, tem tudo. As flores são brisa, não perfume. A fruta não explode nem surge em calda de açúcar, mas nota-se madura e muito apelativa. O mato seco também lá está, mas muito discreto, como que a abrir caminho para outros aromas — algum cacau, seivas e tosta de barrica. Fresco na boca, mostra grandes e suaves taninos, 14% de álcool perfeitamente integrado e uma acidez vibrante, mas domada na perfeição — ou quase. Gordo, muito redondinho, extremamente elegante, dotado de mineralidade límpida, nobre. E um belo final, longo e muito saboroso. Está impecável, sem dúvida, embora 100€ seja um bocadinho puxado (na verdade, nem por isso, dado que o costumo ver nas garrafeiras a mais de 60€)...

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Só falta o bláblá «contextualizante» do costume. Aí vai:

Da Wine & Soul, este vinho foi produzido a partir de uma trintena de castas diferentes, misturadas num encepamento tradicional para Porto Vintage, numa vinha com 70 anos. Estagiou durante 18 meses em barricas de carvalho francês, 70% das quais, novas. Encheram-se 5000 garrafas de 75cl.

Foi muito bem acolhido pela crítica:

Jancis Robinson: «Floral and intense. Very rich and dark. Violets and density. Ripe, round, and confident. Tannins almost completely buried. Really dry port! Vivacious.» 18,5+,

a que se podem juntar os 92 pontos dados pela Wine Spectator, o «Prémio de Excelência» da Revista de Vinhos e o segundo lugar — a par do belíssimo Aalto PS '2001 e atrás do Quinta Sardonia de 2003 — na «Prova dos Dois Douros» em 2005.

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Altano '2006

Douro DOC da Symington. Página web... aqui.

Feito de Aragonês (70%) e Touriga Franca. 80% do lote envelheceu em cascos usados de carvalho americano e francês.

Provei há tempos o de 2005 e fiquei encantado. Repeti-o muitas vezes com prazer. Infelizmente, o de 2006 não me parece tão bom.

Cor rubi. Mostra flores, frutos e mato seco no aroma. Está mais vegetal e menos balsâmico que o da colheita passada. Não é muito encorpado, mas mostra boa intensidade gustativa. Ganhou em acidez o que aparenta ter perdido em profundidade — abrutalhou-se um bocadito... Taninos redondos, beba-se já. Final agradável.

Perdeu parte do encanto, mas continua bem fixe. O preço manteve-se — 2,69€.

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Mais logo, duas boas pomadas que bebi recentemente «na rua».

Lavradores de Feitoria — Gadiva '2005

Lavradores de Feitoria são uns senhores vinhateiros do Douro que se juntaram há uns anitos num projecto de contornos deveras engraçados. Têm uma página, muito bem feita, aqui.

Este vinho, que resultou de uma parceria com o grupo Jerónimo Martins, foi vinificado a partir de uvas das castas Aragonês, Touriga Nacional e Touriga Franca, provenientes de todas as três sub-regiões do Douro. Parte do lote estagiou durante 6 meses em barricas usadas de carvalho francês.

Cor rubi, intensa. Aroma aceso — muita fruta madura — marcado pela madeira — fortemente abaunilhado — e por algum álcool. Ligeira vinosidade. Corpo mediano, taninos com aresta (irão amaciar?) e vívidas impressões de groselhas e cerejas, caramelos de nata e baunilha no palato. Um tanto ou quanto capitoso, apesar dos 13,5% vol. Pontinha de verniz. Final saboroso, mas não muito prolongado. Interessante. 4€.

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Quinta de Saes — Colheita Exclusiva '2007

Dão (DOC) produzido por um dos grandes enólogos portugueses da actualidade — Álvaro Castro.

Cor rubi de intensidade moderada.

Aroma jovem e original, dulcíssimo e ligeiramente vinoso. Cheio de perfume de figo em mel no ataque, evolui depois para nítidas notas de cera e banana seca, por entre as quais apenas se conseguem adivinhar ligeiras sugestões de cassis.

Boca equilibrada a revelar muita fruta sumarenta num registo «doce» e fácil de beber. Taninos arredondados e final discreto.

Está bem feito e é um vinho muito, muito fresco. Não é grande, não é profundo, não tem potencial para envelhecer. É um tinto para ocasiões de branco, para quem não gosta de brancos... como eu.

Para o preço, menos de 3€, é uma óptima aquisição.

Do mesmo produtor, cá em casa gostamos muito deste.

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quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Quinta dos Carvalhais — Touriga Nacional '2000

Continuemos com um vinho... polémico. Pesquisando a web, poucos encontrei que se tivessem deslumbrado com ele. Já críticas, vi bastantes. Enfim, serão gostos...

Pois bem: este vinho, a mim, tocou-me.

Cor avermelhada com orla a fugir para o laranja. Nariz fresco e suave, verdadeiramente perfumado, cheio de frutos vermelhos muito bons, muito doces, a par com belas notas florais — bergamota e lótus branco — surgindo por fim as notas de cabedal típicas dos «Touriga» envelhecidos, alguma especiaria e ligeira tosta. Tal como no nariz, entra fresco na boca. É um vinho de corpo apenas mediano, mas muito macio, muito equilibrado, de presença delicada, delicioso, com sabores pronunciados, muito engraçados, a manga e maracujá, a elevarem-se antes das framboesas, dotadas de agradável acidez, vendo-se o conjunto coberto por finíssima tosta de grande elegância. Com 12,5% vol., não sobressai ponta de álcool, e o final, apesar de muito aprazível, é curto — e foi este o maior defeito que lhe encontrei.

Há quem diga que a Touriga Nacional não sabe envelhecer sozinha. Não deve ser verdade. Pelo menos a acreditar no que este vinho — tão incompreendido — me mostrou...

Da região do Dão, a Quinta dos Carvalhais pertence ao Grupo Sogrape. Ficha técnica deste vinho, em PDF, aqui.

Custou 20€.

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