sábado, 31 de janeiro de 2009

Sem-Fim '2006

Tinto duriense — vem do Cima Corgo — produzido pela Vallegre. Que, curiosamente, não o inclui na lista de tintos secos que disponibiliza online. Cor rubi. Fruto vermelho, esteva e baunilha no aroma. Tudo pouco saturado. Boca mediana em força e corpo. Bagas maduras e mais baunilha. Fácil, mas comedida na doçura. Ter-lhe-ei notado uns pozinhos de barrica? Acidez discreta. Final curto. Trata-se de um vinhito lúrido e muito simples, mas que consegue ser agradável. Fez-me lembrar de uma passagem d'«O Casarão Verde», de Ricardo Ferrer da Silva: «... e viu a mulher com cara de menina em expressão suave, como se estivesse dormindo». Penso que vá bem com comida ligeira — eu, pelo menos, gostei da forma como acompanhou os hambúrgueres de atum do post do passado dia 28. Dei por ele à volta de 2,50€, numa das «promoções» do Elefante. 15

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Niepoort — LBV '2004

Proveniente de vinhas velhas do Cima Corgo, vinificado em lagares com pisa a pé e envelhecido durante 4 anos em tonéis de madeira usada, é o mais recente Late Bottled Vintage da Niepoort.

Ficha técnica, aqui.

.
.
.

Cor rubi — naturalmente.

Aroma directo e bastante intenso a frutos negros e chocolate amargo.

Mais tarde, na boca, também passas e figo seco, em conjunto denso, coeso, que já evidencia alguns sinais de maturidade. Comparado com a maioria dos LBV novos que tenho experimentado, pouco doce. Corpo cheio, dotado de boa viscosidade. Álcool pronunciado, embora não completamente deselegante, e taninos que talvez um dia serão sedosos.

.
.
.

Precisa de tempo, sem dúvida. E não é mau, nada mesmo, mas gosto de Porto mais macio e suave.

15€.

16

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Primavera — Special Selection (Bairrada) '2003

Bairrada DOC das Caves Primavera.

O rótulo afirma tratar-se de um vinho moderno, resultado de «um lote combinado de uvas das castas Baga e Touriga Nacional».

Das 13350 garrafas produzidas, calhou-me a nº 11000.

De cor granada, este vinho possui um nariz complexo e até bonito, apesar de nem por um momento se mostrar efusivo e de um breve algo indefinido, acre, que deixa, desde o primeiro instante, adivinhar uma acidez elevada. Com o passar do tempo no copo, a fruta vermelha — doce mas ácida, fria e nunca gulosa — levanta-se de entre os aborrachados iniciais e demais impressões voláteis, na sua maioria «verdes», ganha presença, complexidade, e vai-se tornando mais quente, mais envolvente, à medida que, primeiro a folha de eucalipto seco, depois as notas de cacau, tabaco e folha de chá preto vão tomando os seus lugares. Sugestões de azeitona verde um pouco por toda a parte; tranfiguram-se depois em casca de laranja cristalizada.

Na boca é, acima de tudo, robusto. E muito vivo, muito enérgico — por via daquela acidez que refresca — mas também desafia o palato. Taninos maduros, mas que nunca serão realmente aveludados. Morangos e framboesas um pouco ácidos dão, com o tempo, lugar a mais generosas cerejas, cacau e figos secos.

Custou 5,20€ — grande RQP!

16,5


P.S. — A Blue Wine deu-lhe 16,5 valores em Fevereiro de 2007.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Hambúrgueres de Atum + Arroz de Tomate + Picante Caseiro

Hoje comemos macios — e pouco calóricos! — hambúrgueres de atum. Ficaram óptimos. Surpreenderam. Pelo que aí vos deixo a receita.




Numa taça, misturam-se 360g (3 latas de 120g) de atum de conserva (em água), escorrido, com 80g de miolo de pão triturado, dois ovos, 35g de farinha de trigo, uma cebola e um dente de alho, ambos picados, uma colher (das de chá) de sal, outra de pimenta preta moída e mais meia de fermento Royal, e uma colher (de sopa) de azeite. Mexe-se bem. Com a massa resultante, fazem-se bolinhas, que se espalmam e fritam em manteiga, 8 a 10 minutos de cada lado, em lume brando.


Comemo-los com arroz de tomate, que se faz assim:

Refogam-se em azeite uma cebola e um dente de alho, picados, a que se juntam 200ml de arroz agulha e meia folha de louro. Deixa-se o arroz fritar um pouco, mexendo sempre, e tempera-se de sal: duas colheres de chá devem ser o suficiente. Por fim, adicionam-se ao cozinhado cinco colheres (das de sopa) de massa de tomate e meio litro de água, deixando cozer em lume brando.


E delicioso molho picante...

Cozem-se (em água) 200g de malaguetas frescas, inteiras e com caule, até ficarem moles. Então escorrem-se, removem-se os caules e trituram-se com a varinha mágica. Junta-se à pasta resultante 500ml de massa de tomate, 1 colher (de sopa) de alho em pó, 1 colher (de sopa) de açúcar mascavado e outra (das de chá) de sal. Leva-se ao lume até engrossar. Deixa-se arrefecer e está pronto!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Valle Pradinhos '2005

Um clássico, este Vinho Regional Transmontano, de Macedo de Cavaleiros, produzido e engarrafado no Casal de Valle Pradinhos, propriedade da família de Manuel Pinto de Azevedo, empresário portuense que, fascinado pelas altas terras de Trás-os-Montes, adquiriu a propriedade em 1913.

Para saber mais sobre o legado do supracitado cavalheiro, talvez este seja um bom lugar — a estalagem era de sonho: em puto, passei lá uma noite com os progenitores; regressávamos das frias praias da Corunha, via Ourense... :\


Oh well, whatever, nevermind...


Tinta Amarela, Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional são as castas utilizadas na elaboração deste vinho. Quanto a estágio em barrica — e é certo que o teve —, nada consegui apurar.

Em jeito de prova, posso dizer que o vinho é de tom rubi bem escuro e algo opaco.

E aroma mais denso que intenso, e um bocado austero. Demora a soltar-se. Depois mostra-se doce, mas pouco. Predominam, límpidos, os frutos vermelhos, mas também mostra qualquer coisa de verde — talvez feno —, e rosas e outras flores, madeiras cheirosas, especiarias e muita tosta de barrica. Com o tempo, surgem no copo sugestões de caramelo de leite...

Na boca, surpreende — aparece gordo e cheio de força, bem mais intenso do que o nariz deixa adivinhar, e à sua maneira austero, mas sem que isso o torne nem menos tenso, nem menos elástico. É um tinto elegante e, sem dúvida, muito saboroso.

Termina longo e firme, a evocar chocolate amargo, madeira, grafite...

Adivinho-o durável, talvez por mais de dez anos [mas já vi quem adiantasse que poderá vir a durar vinte ou mais].

Custou — apenas — cerca de 9€.

17

Bôla de Fiambre e Paio York

A receita que nos levou a fazer esta bôla, vimo-la aqui. A massa é idêntica. Apenas reduzimos a quantidade de recheio, de modo a ficar mais ao nosso gosto.


Posto isto, a massa levou os seguintes ingredientes:

600g de farinha;
5 ovos;
4dl de leite morno — nunca a mais de 35ºC;
60g de manteiga derretida;
40g de fermento de padeiro;
sal q.b..


E o recheio,

200g de queijo;
100g de fiambre;
100g de paio york.




Verteu-se o leite na cuba da máquina de fazer pão e nele se dissolveu o fermento. Juntou-se uma pitada de sal, a manteiga e metade da farinha. Deixou-se levedar durante 45 minutos. Juntaram-se os ovos e a restante farinha, e mandou-se a máquina amassar.

Para o processo de elaboração da massa sem recorrer à máquina de fazer pão, pode sempre consultar a página de onde tirámos a receita — o enlace está lá em cima.

Na receita original, o recheio, mais farto, é disposto em duas camadas. Dado que nós gostamos de sabores muito menos concentrados, reduzimos substancialmente a quantidade de carnes frias. Assim, achámos apropriado colocar o recheio todo junto, numa só camada — o que até simplificou a feitura da bôla.

A massa resultante estendeu-se sobre uma superfície enfarinhada de modo a formar um rectângulo com cerca de 1,5cm de espessura e não mais de 15cm de comprimento — a largura de uma fatia de fiambre, mais ou menos — no lado menor. Depois cobriu-se com os ingredientes do recheio, previamente limpos de cascas e gorduras, enrolou-se e deixou-se levedar durante meia hora num tabuleiro untado.

Foi ao forno, a 200ºC, até ficar dourada — o que demorou 35-40 minutos.



P.S.

Uma curiosidade que me pareceu interessante: segundo o Instituto Português da Qualidade, paio york é um «produto constituído por carne magra de suíno da perna, pá, lombo ou suas misturas, na globalidade em pedaços com dimensão superior a 30mm, adicionado de pimentão e outros condimentos e aditivos legalmente autorizados podendo ser ensacado, envolvido por rede ou atado, sujeito a tratamento térmico por cozedura podendo ou não ser fumado, com formato cilíndrico».

Podem consultar o documento completo, escrito num Português hórrido e disponibilizado no muito conveniente formato PDF, aqui.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Evel '2005

Douro DOC da Real Companhia Velha. Rubi escurinho. Aromas simples e discretos. Travo de ginja em álcool; corpo estreito, taninos farinhentos, fraca persistência.

3,80€.

13

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Álvaro Castro '2007

Cor rubi. Fruta doce e fluida, repleta de notas de cera. Boca de porte justo, razoavelmente macia, com a acidez levemente desenquadrada. Final médio.

7,50€.

15

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dias cinzentos; o céu encobre-se num instante. Um tipo está bem; de repente faz-se quase noite e o barulho das gotas lá fora... Meu Deus, como me oprime esta chuva! As coisas que ela traz!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Callabriga (Douro) '2005

Dezassete anitos; era caloiro. Aconselhado por um primo que se tinha por bon vivant, foi a primeira botelha que comprei com o «meu» dinheiro. Gostei. Logo se tornou, e durante muito tempo, fiel companheira de tantas grelhadas, de tantas charradas... Não era grande apreciador de vinho, não. Mas sabia aquilo de que gostava, e gostava muito dele. Entretanto, não sei porquê, deixei de beber. Passam dois, talvez três anos. Reencontro o vinho, desta vez com redobrada curiosidade. Agora não me basta apreciá-lo como quem lê um volume de amena literatura: sinto que me provoca, quero conhecê-lo melhor. Assim volta o «velhinho» Callabriga, quase uma necessidade. E embora as coisas lá fora tenham mudado, aquilo que encontro dentro do copo não deixa de me parecer familiar.

Enfim. Seguindo em frente, para a página do, digamos, produtor, link; para a da marca, link; para a ficha técnica deste vinho em particular, link.

Do reencontro (em jeito de cata), retive as impressões que a seguir disponho:

Cor rubi; daqueles rubis «sangue de pombo», escura.

Nariz longo e suave, rico e profundo; mas os aromas insistiram em surgir misturados, como se numa sopa. Notei-lhe fruta vermelha e negra — framboesas e cerejas, muitas. Também feno e cacau amargo. Cedro e fumo. Madeira abundante, tanto na quantidade como na diversidade das suas manifestações. Vincada, não excessiva.

Intenso, suculento mas nunca guloso, o sabor sugeriu-me, acima de tudo, cerejas, doces e amargas, em licor. Redondinhas. Etanol, cheiroso mas frio. Mato seco e chá. E baunilha, cedro, pinho, fumo — de novo, bastante madeira — com alguma adstringência associada. Depois, chocolate semi-amargo e mais madeira, que só se dissipou com a última réstia de sabor — demorou.

É bom constatar que continua potente e contido; manteve a traça clássica. Acredito que a madeira se suavize com o passar do tempo. Não acredito que evolua positivamente em garrafa durante apenas cinco anos (vd. a versão inglesa da ficha técnica; o elo está lá em cima). Custou 16,50€.

17

sábado, 17 de janeiro de 2009

Fontanário de Pegões '2005

Palmela DOC da Coop. Agrícola de Santo Isidro de Pegões.

.
.
.

Puro Castelão das areias, mostra-se quente e melado, fiel à casta e ao terroir.

Os 9 meses de estágio em meias pipas de carvalho transmitiram-lhe certa complexidade abaunilhada, certa austeridade por via de impressões fumadas e, acima de tudo, uma boca menos doce, de maior peso.

.
.
.

Nada mau! Mas continuo a preferir a juventude exuberante deste.

2,90€.

14,5

Pães de Alho / Pães de Chouriço

Mais duas execuções culinárias muito simples e porreiras de ter à mão uma vez chegada a hora de receber gente em casa. A mesma massa serve de base a estes dois pãezinhos.

Na cuba da máquina de fazer pão, dissolvem-se 20g de fermento de padeiro em 300ml de água morna. Depois juntam-se duas colheres (das de chá) de sal e 450g de farinha de trigo T65. Manda-se a máquina amassar os ingredientes e levedar a massa resultante, que depois se divide. Uma parte constituirá a base dos pãezinhos de alho e a outra, a dos de chouriço.


Os pãezinhos de alho fazem-se assim:




Picam-se 6 dentes de alho e misturam-se com manteiga e uma pitada de orégãos — de forma a que a pasta resultante tenha «muito alho, pouca manteiga e ainda menos orégãos» e não o contrário! Fazem-se bolinhas pequenas com a massa de pão, polvilham-se e abre-se-lhes uma cavidade ao centro (com uma tesoura, acho que é o ideal), que se preenche com um pouco da pasta de alho e manteiga. Deixam-se levedar uma segunda vez e vão ao forno a 180ºC durante mais ou menos 35 minutos.


E os de chouriço, assim:




Estende-se a massa de pão e cobre-se com rodelas de chouriço. Enrola-se — deverá formar-se um rolo relativamente comprido, que se divide em porções mais ou menos iguais. Fecham-se as pontas (as partes por onde se cortou) a cada pãozinho de chouriço e polvilha-se. Deixam-se levedar uma segunda vez — meia hora deve chegar. Vão ao forno a 200ºC durante 30 minutos.

Quinta de Cabriz «Superior» '2000

Comprado no morno lugarzinho do costume, onde tanto gosto de ir beber os meus Yauco Selecto AA com água das Pedras, este tinto velho — feitas as contas, deve estar no mercado desde 2001 — vem das frias terras do Dão, mais especificamente da Quinta de Cabriz, propriedade do gigante que é a Dão Sul. Perante o meu cepticismo, garantiram-me ter sido guardado em boas condições, o que verifiquei ser verdade. Só por isto, nota positiva para o produtor — que, neste caso, embora de forma só mais ou menos directa, também foi quem mo vendeu.

Diz o rótulo:

«O designativo "Superior" está previsto na legislação vinícola portuguesa, mas, inexplicavelmente, raramente é utilizado pelos produtores. Entendemos que na colheita de 2000 se justificava para este vinho, que consideramos de acordo com o termo! Tendo por base as castas Alfrocheiro [50%], Touriga Nacional e Tinta Roriz, foi estagiado cerca de 6 meses em barricas de carvalho francês de segundo ano e outro tanto em garrafa, antes de ir para o mercado. Nós ficámos muito contentes com o resultado e mais ficaremos se merecer a sua preferência.»




A cor pareceu-me algures entre um rosado escuro e o granada, de concentração discreta.

O aroma suave, fresco e delicado, axaropado pela idade, rapidamente lhe denunciou as origens — tivera-me cruzado com ele em prova cega, não teria, contudo, qualquer dúvida acerca de se tratar de um Dão rico em Alfrocheiro. E que mais dizer? Que ofereceu um bouquet limpo e agradável, embora de largura limitada? Ok, seja — para além da fruta axaropada, havia muito cabedal suave e sugestões várias a malte e afins, manteiga (excesso de diacetilo? — mas um excesso na conta certa!), bolos e frutos secos...

Na boca, uma surpresa: estava tenso, com tudo no lugar, com força, nada como esperava encontrá-lo depois daquele nariz. O corpo ainda cheio, com a acidez a notar-se pronunciada; a fruta em xarope com nuances de flores e couro — pobre caricatura do inimitável sabor de um bom vinho velho, a que tento pintar! —, persistente. Os taninos ainda secos. Que estrutura!

Custou 15€.

17

Tapada do Chaves — Reserva «Vinhas Velhas» '1999

Ok, o necessário update ao que se tem bebido.

Para começar, depois deste, outro vinho da Tapada do Chaves, este o topo de gama da marca.

Foi vinificado a partir de uvas das castas Trincadeira, Aragonês, Castelão e Tinta Francesa, provenientes de uma vinha muito velha — a mais antiga da Tapada, dizem —, com mais de 85 anos, e estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho português e 5 anos em garrafa antes de ter sido lançado no mercado.

Cor granada; orla a acastanhar.

Aroma denso, algo melado, cheio de fruta vermelha e negra, numa festa de matizes — fruta muito madura, ainda ligada ao corpo-mãe pelo pedúnculo, fruta demasiado madura, talvez a apodrecer no chão, fruta em compota, fruta em calda e fruta em passa... No fundo, e muito discreta — muitíssimo mais que no «Reserva» comum —, surge folha de tabaco e alguma madeira do estágio, a fazer lembrar seivas e balsâmicos doces e suaves: talvez resina de pinheiro «estagnada» — algum dos meus queridos leitores alguma vez guardou durante meses umas «nozes» de resina de pinheiro coagulada? Pois foi a esse balsâmico que me cheirou.

Na boca, muito bom. Amplo e equilibrado. Espesso mas fluido, dotado de boa acidez, tornada discreta pela profusão de taninos nobres, suaves como veludo. Gordo, com muito sabor a fruta transformada, temperada por um toque de tabaco e fumo. Persistente, quase pegajoso.

Em suma, não deslumbrou nem desiludiu — embora o esperasse mais falador, de bouquet mais complexo, acabou por se mostrar castiço e cheio de honestidade: é um bom vinho, ao mesmo tempo cheio e elegante, e que ainda terá bastante tempo de vida pela frente.

Se não me engano, custou 25€.

17

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Exercícios — Sugestões (4)

E já agora, que tal apresentar uma posição para que a avaliem, sem dar nenhuma dica? Por exemplo:



Maksimovic — Tatai
Vrnjacka Banja, 1979


Posição após 26. f4




Jogam as negras.

1. Algum dos lados possui vantagem? Qual?

2. Se alguém, então, aquele que está melhor, terá vantagem suficiente para se poder dizer que tem o jogo ganho?

3. Se sim, então, como?

E por agora... chega :P

Exercícios — Sugestões (3)

E outro, este de um jogo mais recente.



Kasimdzhanov — Topalov
San Luis, 2005


Jogou-se


1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.O-O Cxe4 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6
7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8 9.Cc3 Ce7 10.h3 Cg6 11.Be3 Be7
12.Tad1+ Re8 13.a3 h5 14.Tfe1 h4 15.Cd4 a6 16.f4 Th5 17.Ce4
Bd7 18.c4 a5 19.c5 a4 20.Tc1 f5 21.exf6 Bxf6 22.f5 Ce7
23.Cxf6+ gxf6 24.Bf4 Rf7 25.Bxc7 Cxf5 26.Tc4 Cxd4 27.Txd4 Be6 28.Bd6 Ta5 29.Tde4 Bd5 30.Te7+ Rg6 31.Txb7 Tb5 32.Tb6 Tg5 33.Te2




1. As negras, apertadas, fazem valer engenhosos recursos defensivos. Qual é o plano, já iniciado, das negras?

2. Então, dentro desse plano, o que é que jogam agora?

Exercícios — Sugestões (2)

Claro que o exercício também pode ser dificultado fornecendo-se, simplesmente, combinações mais complexas. É nesse grupo que vejo este clássico, cuja solução os computadores ainda mostram relativa — embora cada vez menor — dificuldade em encontrar.



Alekhine — Sterk
Budapeste, 1921


Jogou-se

1. d4 d5 2. Cf3 e6 3. c4 Cf6 4. Cc3 Cbd7 5. e3 Bd6 6. Cb5 Be7 7. Dc2 c6 8. Cc3 O-O 9. Bd3 dxc4 10. Bxc4 c5 11. dxc5 Bxc5 12. O-O b6 13. e4 Bb7 14. Bg5 Dc8 15.
De2 Bb4 16. Bd3 Bxc3 17. Tfc1 Cxe4 18. Bxe4 Bxe4 19. Dxe4 Cc5 20. De2 Ba5 21.
Tab1 Da6 22. Tc4 Ca4...




E agora,

1. Qual é a jogada mais contundente ao dispor das brancas?

2. É a única que ganha?

3. O ataque branco não caiu do céu... aliás, as negras puseram-se bem «a jeito». Quando e porquê?

Exercícios — Sugestões (1)

Depois da breve discussão que tomou lugar aqui, ficou no ar o convite para sugestões de exercícios — ou melhor, tipos de exercício — que, de alguma forma, nos tentassem aproximar um pouco mais daquilo por que realmente passamos quando estamos diante do tabuleiro, temos um gajo (ou menina) a olhar fixamente para nós (ou a passear pelas imediações, muitas vezes em largos círculos), o «tic tac» de muitos relógios como música de fundo, a presença do nosso próprio relógio e, mais importante ainda, apenas uma tentativa para resolver vários problemas que, na altura, nunca parecem fáceis.

Dito assim, parece complicado. E é. Para mais, dado que é a primeira vez que faço isto, vamos lá ver se não sai asneira...

Pensando nas duras vicissitudes — e só nomeei algumas — a que um tipo está sujeito durante um jogo «a sério», torna-se clara uma coisa: há que complicar os exercícios se queremos aproximá-los da prática real! Porém, «complicar um exercício» não significa necessariamente colocar sob a forma de exercício um maior número de lances até um mate forçado... ou coisa que o valha. Pode complicar-se (e muito!) um exercício, por exemplo, propondo situações — que até são as mais comuns — em que nada, ou quase, é realmente forçado... Enfim, adicionar aos exercícios puramente tácticos um chapisco, por assim dizer, de planeamento. Afinal, como um grande jogador disse há muitos anos, «Alekhine's combinations are not that hard to find; if I had the positions he gets, I would find the combinations as easily as he does. The real trick to his games is: "How does he get the positions he manages to wind up with?"». Normalmente, obter posições capazes de exercitar «também isto» implicará, apenas, recuar umas poucas jogadas em relação à posição de partida da maioria dos exercícios puramente tácticos — que, regra geral, são retirados da fase «de execução» das partidas que lhes servem de fonte.


Então, em jeito de exemplo e para começar, um nico da minha produção pessoal:



Alho Prata
Coimbra, 2000



Depois de

1. d4 Cf6 2. c4 g6 3. Cc3 d5 4. Cf3 Bg7 5. e3 O-O 6. cxd5 Cxd5 7. Bc4 Cxc3 8.
bxc3 Cc6 9. O-O Bf5 10. a4 Dd6 11. Ba3 Dd7 12. Cd2 Be6 13. Be2 f5 14. c4 Bf7
15. Tb1 b6 16. Cf3 Tfe8 17. Cg5 e5 18. d5 Ca5 19. e4 c5 20. exf5 gxf5 21. Cxf7
Dxf7 22. Bh5 Dd7 23. Bxe8 Txe8 24. Dc2 e4 25. Bb2 Bd4 26. Tfd1 Dg7 27. Bxd4
cxd4 28. c5 Tc8 29. c6 De5 30. Dd2 d3 31. Dg5+ Rh8 32. Tb5 Tg8,

as brancas tinham o jogo praticamente ganho.

Nesta altura, após uns minutos de reflexão, jogaram

33. Dh5




Enfim, um erro.

Vindo de um jogador da craveira do Diogo, ainda por cima com tempo no relógio, não podia, contudo, ser um erro «injustificado». Assim sendo, logo se levantam duas questões:

1. Que pretendia o condutor das brancas com esta jogada?

2. Qual é o plano correcto para ganhar isto?

De volta à partida, seguiu-se

33. ... e3

34. fxe3




3. Esta jogada é forçada? Porquê?

4. E agora, o que é que as pretas fazem?

5. E o que é que conseguem?

sábado, 10 de janeiro de 2009

Zimbro '2005

No rótulo, os seguintes dizeres:

«No coração do Cima Corgo (Tua) de vinhas com 20 anos e da combinação das castas Touriga Franca (30%), Tinta Roriz (30%), Tinta Barroca (30%) e Touriga Nacional (10%) — Zimbro estagiou durante 9 meses em barricas de carvalho francês e americano novo.»

O produtor possui página web, simples mas informativa q.b., aqui.


Sem mais delongas, assim o encontrei:

Cor violácea; opacidade mediana.

O aroma, maduro mas tenso q.b., desde logo deixa claras três coisas:

• O Aragonês está lá, não é pouco e é bom — tantas cerejas! Tantas cerejas daquelas, frescas, suculentas e com caroço!

• O mesmo se pode dizer da Touriga Nacional, apesar de apenas constituir 10% do lote — todas aquelas flores intensas, directas, como que num repente agressivo assim que se leva o copo ao nariz...

• É um vinho que só podia vir do Douro.

E uma curiosidade: sempre que o cheirei lhe notei certo aroma especiado, acre, que achei difícil definir — se não era zimbro, enganava bem.

Denso e aveludado na boca, claramente xistoso, mostra todas as marcas do Douro: o matagal cheio de esteva e feno, límpidas cerejas e bagas roxas e negras, violetas amargas e notas químicas a completarem o conjunto. Muito boa acidez. Sobressai uma pontinha de álcool. Tivera maior persistência, seria vinho para outros voos. (Digo eu.)

Ligou maravilhosamente com o «frango com molho de leitão» da Romy, mas é daqueles que vão bem sem comida.

Custou 7€, talvez mais uns cêntimos.

15,5

Montes Claros — Reserva '2004

Depois deste, mais um tinto da Adega Cooperativa de Borba. Vinho de lote, constituído por uvas das castas Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Tinta Caiada, provenientes de videiras adultas — a maioria das quais, dizem, com cerca de 30 anos — e estagiado durante 12 meses em barricas de 2º e 3º ano, de carvalho francês e americano.

Já muito foi dito sobre ele na blogosfera vínica (de língua portuguesa). Provei-o novo, pouco depois de ter saído, e não me lembro de ter ficado demasiado impressionado. Agora, passados uns anos...

A cor, de intensidade moderada, rubi na altura — se não me traem a memória e as muitas notas de prova que se encontram espalhadas pela rede — está a virar granada.

O aroma está cheio de fruta compotada e confeitada, ou talvez em calda, com algum vegetal misturado, este a evocar legumes. Tudo bastante doce, daquele doce denso, madurão melado pesado que tão facilmente se encontra nos vinhos do Alentejo. E lá muito no fundo, ligeiro fumado e cabedal.

Na boca, mais do mesmo. Fruta pesada, muito doce. Felizmente, a acidez surge com garra, trazendo consigo uma muito necessária impressão de frescura. (Quão enjoativo seria este vinho se, com o tipo de aromas e sabores que propociona, tivesse uma boca pesadona!) De resto, parece equilibrado, tem corpo para toda aquela acidez e para os 14% de álcool que apresenta, com bons taninos, completamente redondos. O final, mediano.

Resumindo, é um vinho relativamente simples, mas bastante vivo e muito bem estruturado. Parece estar em boa altura para ser bebido. Talvez a ideal. Não acredito que uns anos em garrafa lhe possam trazer algo mais de relevante.

Custou pouco mais de 6€.

15,5

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Filmes (6)

The Neighbour no. 13 (Rinjin 13-Gô)



Este é sobre um rapazinho a quem o passar dos anos não esbateu as memórias das coças levadas na escola. Um filme porreiro, lol. Takashi Miike aparece a desempenhar um pequeno papel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pão «Não Sei» — Ou «Fondue dos Pobres»,

aquele em que até o tacho se come...




Tome-se um pão de mistura (ou coisa que o valha) de dimensões medianas e faça-se-lhe um buraco no topo, extraindo-se-lhe por aí a quase totalidade do miolo.

Num copo misturador ou recipiente de função afim, juntem-se os seguintes ingredientes: 200g de queijo mozzarella, 150g de bom chouriço, meia cebola, 3 dentes de alho (de tamanho generoso), 35g de coentros frescos e 6 colheres de sopa de maionese. Triture-se.

Recheie-se o pão com a pasta resultante do passo anterior, envolva-se em folha de alumínio e leve-se ao forno: 40 minutos a 220ºC.

Coma-se bem quente.



Notas:

• O recheio pode comer-se com o pão que o envolve, com tostas, simples [conheço uma pessoa que só gosta dele assim, mas pesa para cima de 120Kg e aposto que tem o colesterol descontrolado, eheh]...

• As proporções dos constituintes do recheio podem variar consoante o gosto de cada um.

• Partilhando, por assim dizer, a plataforma de base, pode fazer-se uma miríade de entradas diferentes. Basta variar, apenas, a parte «mais animal» do recheio. Por exemplo, substituir o chouriço por camarão e delícias do mar... ou por santola... ou bacalhau, ou atum enlatado... e porque não salmão fumado? [Conservatória, hmpf!]

Ovo cozido... & so on.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Quinta das Tecedeiras — Vintage '2004

Foi o Porto que escolhi para beber na semana do Natal. Vem de um produtor que por estes lados já não é novidade, propriedade da Dão Sul.

Como isto de escrever sobre o que bebo está, cada vez mais, a deixar de ser um exercício de escrita sobre uma coisa, qualquer coisa, só para manter a sanidade... :)

... para se tornar, cada vez mais, numa espécie de trabalho,

ainda que um que faço por e com gosto — perceberam a diferença? A subtil nuance escondida na dualidade «por» / «com»? Huh? Viram a finura? Terei de lhe dar nome? Huh? Huh? Repararam em mim? Em como sou erudito, mas ao mesmo tempo ligeiro e divertido? Huh? Repararam? Então REPAREM!! — Oh, dasse, agora quase polimerizei em Bandeira, aquela que se mostra garbosamente enfunada — cruzando mares de bytes de alegada Filó Sofia, a ninfa — a ninfa loira [kuarenta e tal -ela diz que poucos- anos, um filho dreadalhoco, de calças largas ao fundo do cu e correntes -Cornídeo Asdrúbal de sua graça- engendrado na casa de banho do RazzMatazz -quando este ainda não existia, provavelmente: eles gostam de mexer com o tempo; no sol: assim nascem boas uvas!- e um MBA, claro] que atende na pensão dos piratas e minhoqueiros onde, segundo a canção, já não se serve vinho desde nineteen sixty nine — essa, essa mesmo que, acocada nos cafúndios mais fundos da cova tartárea, lava as patas aos vencedores com água fresquinha do Styx! — Enfim, que me disperso. Perdão.

Isto para vos dizer que não vou reinventar a roda; aí fica, transcrito, o rótulo.

«A Quinta das Tecedeiras situa-se na margem esquerda do rio Douro, 5Km a montante da vila do Pinhão. Quando foram reconvertidas as vinhas da quinta, houve o cuidado de deixar algumas parcelas antigas, com cerca de cem anos, para fazer os vinhos do Porto. As castas são muitas, dominando a Touriga nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Franca e Tinta Amarela e as uvas delas provenientes amadurecem bem e com grande concentração de aromas e sabores.» — Aleluia! Por fim, um rótulo que não aparenta [por completo, calma...] querer matar o Português a coice! —

E um elo para a ficha técnica deste vinho, disponibilizada no site do produtor, embora só tenham, para já, a relativa ao da colheita anterior. [Mas há coisas que nunca mudam... e eu acredito que a utilidade de muitas dessas -digo, as coisas, independentemente da sua mutabilidade- é identitária. Ou seja, que só vai dar de comer às minhocas quando as próprias coisas «em si» também forem.] Sim! Sim! Tantos sims! [Já repararam como «muitos sims» soa a expressão estranha e mal feita ao passo que «muitos nãos» não podia parecer mais normal, comum, familiar? Claro que não vivemos na época dos anal-retentivos. Claaaro que não!]

Contentinhos? Oh, adiante.

Do vinho,

é um típico vintage jovem de boa qualidade. Muito escuro, muito concentrado, muito macio, muito encorpado, muito doce

e não muito ácido :P

Está na fase da fruta pura e simples. Fino e vivaço. Se foi um prazer cheirá-lo, prazer e meio foi bebê-lo.

Custou à volta de 30€.

17

P.S. — Não vale a pena tocar outra vez na velha questão do infanticídio, certo? Afinal, daqui a 40 ou 50 anos, onde (ou melhor, como) já não estarei...

P.P.S — Já repararam na quantidade doentia de gente que se leva demasiado a sério neste mundinho dos blogues — Ah! Fossem só os blogues! — de comeres, beberes e dormires — enfim, «servires»? Céus, a náusea!

E depois... são só uns tristes armados em «chicos experts», a tentar roubar o protagonismo para os seus projectos, alegadamente engendrados por amor ao Vinho, aos clientes, ao bem servir, à excelência, à criatividade, ao próprio Amor, ao Crocodilo Dundee ou a outra merda qualquer de que se tenham lembrado quando chegou a hora de se auto-publicitarem,

hm, promoverem,

mas, alto, sempre com fins lucrativos
embora normalmente discretos e -por vezes- patéticos.

OU então, e estes ainda são piores, aqueles que não servem lá muito bem... mas que entendem não poder dar [como se pudessem fazer alguma coisa para além de ainda parecerem mais en - peru - ados, 'taditos] espaço à crítica «que não percebe porque não está no / vive do
ramo», ignorando que somos nós, os 'badiolas do bon any, quem lhes enche os bolsos... ;)

E esses, só mesmo à estalada.

Quinta dos Quatro Ventos '2005

Vem da quinta que lhe dá o nome, situada no Douro Superior, perto de Vila Nova de Foz Côa.

Foi vinificado a partir das castas Aragonês, Touriga Nacional e Touriga Franca; passou um ano em barricas de carvalho francês (60%) e russo.

Cor muito escura, rubi.

Ataque mineral. As notas da madeira onde o vinho estagiou como que formam um véu fresco de seivas e resinas que, sem esconder, compõe as muitas e doces bagas e cerejas que constituem o cerne do nariz. Tosta de barrica e fumo transmitem-lhe uma ponta de austeridade. De seriedade. Um ligeiro toque de farmácia confere-lhe certo exotismo. Resumindo: aroma firme e sedutor.

Na boca, corpo elegante, cheiinho e aveludado, e um conjunto de sabores muito, muito, muito agradáveis, a fazerem lembrar cerejas muito maduras e caramelo de leite, dotados de boa amplitude e persistência.

Mais um belo vinho das Caves Aliança, e de novo a um preço muito razoável — cerca de 10€.

17

sábado, 3 de janeiro de 2009

José de Sousa Mayor '2000

É o alentejano de topo da José Maria da Fonseca.

As uvas com que foi feito — 55% Trincadeira, 33% Aragonês e o resto Grand Noir — provêm de vinhas velhas, plantadas na década de 1950 na Herdade do Monte da Ribeira, perto de Reguengos de Monsaraz, então propriedade da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes, que foi comprada pela JMF em 1986 e cujo lendário Tinto Velho de 1940 tem servido, desde então, como modelo para estes vinhos.

Foram pisadas a pés em lagares de granito, tendo a fermentação do mosto ocorrido em ânforas de barro — seguindo a tradição romana, dizem. O vinho resultante estagiou ainda em meias pipas de carvalho novo durante 12 meses, tendo sido engarrafado em Janeiro de 2002. Produziram-se 25052 garrafas.

Cor granada de boa intensidade.

Aroma complexo, cheio de bagas e passas. Excelente bouquet, de grande amplitude, com muitas notas balsâmicas e a ceras, madeiras e ervas secas várias, cabedal e folha de tabaco. Apresentou ainda um interessante componente mineral, a fazer lembrar barro.

Encorpado na boca, de taninos aveludados e com o álcool e a acidez em (quase) perfeita harmonia. Em duas palavras, fluido e elegante. De sabores, bem seco, mas rico e delicado. Diria ser daqueles vinhos em que o nariz cresce realmente com a prova de boca.

Final longo e complexo.

Tenho acompanhado este vinho desde que comecei a beber. Gosto muito!

Custou à volta de 18€.

17,5

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Herdade do Meio — Garrafeira '2003

Vinho Regional Alentejano da Casa Agrícola João & António Pombo, de Portel.

Do rótulo:

«Este é um vinho de qualidade superior, produzido a partir de uma selecção de castas Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet e Castelão. Foi vinificado em lagares com curtimenta completa, e submetido a um estágio de 12 meses em carvalho francês e americano.»

Decantei-o uma hora antes de o levar para a mesa. Foi servido a 17ºC.

Cor granada profunda.

O aroma surge intenso e torna-se exuberante com o continuar do arejamento — primeiro e acima de tudo, muita fruta compotada. Assente em rico bouquet, de onde, aqui e ali, um aroma se define um pouco mais e quase salta para fora do copo — cogumelos, trufas, cabedal, tabaco, ervas de cheiro secas, melaços, especiarias... E terra, quanta!

Na boca é gordo mas flexível — e cheio de garra —, muito concentrado, muito saboroso, dotado de estrutura e acidez notáveis e 14,5% vol. perfeitamente integrados no seu denso e aveludado corpo.

O final, achei-o rico e persistente.

Acompanhou um prato de bacalhau com natas, tendo proporcionado imenso prazer.

Comparando-o com outra garrafa consumida há mais ou menos um ano atrás, notei-lhe evolução: está diferente, mais trufado, mais terroso. E ainda tem muitos anos pela frente.

Custou 20€ — custam sempre 20€ no Continente, sem qualquer tipo de promoção — mas podia ter custado o dobro, ou mais: bastava tê-lo comprado noutro sítio qualquer.

17,5

P.S. — Do mesmo produtor e desde que o blogue existe, já bebi este e este.

Vale do Rico Homem '2007

Vinho Regional Alentejano produzido no Monte dos Perdigões em exclusivo para o grupo Jerónimo Martins, com uvas provenientes da vinha do Vale do Rico Homem, onde estão plantadas as castas Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Syrah, Tinta Caiada, Touriga Nacional, Aragonês e Petit Verdot.

Cor violácea. Aroma simples, fresco, jovem e bastante discreto — mato fresco, flores silvestres, árvores e frutos vermelhos ao natural.

Sabor coerente com as impressões do nariz. Corpo ligeiro, de estrutura suave. Acidez refrescante, taninos um pouco secos e álcool ligeiramente desenquadrado. Termina curto.

Nariz tímido e corpo com arestas. Nota-se franco, mas não consegui achá-lo interessante.

Custou quase 3,50€.

13,5

Cimarosa — Carménère «Gran Reserva» '2005

Acerca da região de origem: Valle del Rapel, uma das quatro sub-regiões do (enorme) Valle Central chileno. Situa-se entre Rancágua e San Fernando, subdivide-se em outros dois vales — Cachapoal e Colchagua — e deve o nome ao rio que por lá passa. É neste que se situa o principal lago artificial do Chile, reservatório com 695M m³ de uma barragem hidroeléctrica construída nos anos 60.

Acerca da casta: Carménère, uva tinta originária da região de Bordéus, foi uma das castas «mais amplamente cultivadas em inícios do século XIX no Médoc e Graves», tendo sido dizimada pela filoxera na década de 1860. «Julgada extinta, foi redescoberta em 1994» no Chile, para onde terá sido levada por engano, tendo-se tornado uma das castas vínicas mais populares do país, que é, actualmente, o seu maior produtor mundial.

O rótulo revela-se mudo no que toca à elaboração do vinho — de concreto, apenas diz que foi engarrafado pelo Via Wine Group.

Uma muito breve nota de prova:

Cor rubi de intensidade moderada. Carácter marcadamente vegetal, com muitas notas de ervas e legumes verdes a tirarem a evidência à fruta negra que surge suculenta no nariz. Na boca, no que toca a sabores, idem. De resto, pareceu-me equilibrado, de corpo mediano, bastante aveludado e com boa integração alcoólica. Final relativamente curto.

Embora simples, não me pareceu mal feito. Gosto deste tipo de vinho. Se tivesse só um bocadinho mais de densidade de aroma e sabor, tê-lo-ia adorado. Assim...

Achei-o algo parecido com este.

Foi comprado no LIDL por 4€.

14,5

O Natal é das Crianças

Como é bonito este rapazinho sentado num banco do jardim das Tulherias! Os seus olhos atrevidos dardejam qualquer objecto invisível, ao longe, no espaço. Não terá mais de oito anos, e no entanto não se diverte como seria conveniente. Pelo menos, devia estar a rir e a passear com um amigo qualquer, em vez de estar só; mas não é esse o seu feitio.

Como é bonito este rapazinho sentado num banco do jardim das Tulherias! Um homem, movido por oculto desígnio, vem sentar-se a seu lado, no mesmo banco, com modos equívocos. Quem será? Não preciso de o dizer, pois ireis reconhecê-lo pela sua tortuosa conversa. Ouçamo-los, não os perturbemos:

Em que estás tu a pensar, menino?

Estava a pensar no céu.

Não precisas de pensar no céu; já basta pensar na terra. Estás cansado de viver, tu que ainda há pouco nasceste?

Não, mas todos preferem o céu à terra.

Ah, mas eu não. É que, se o céu foi feito por Deus, como a terra, podes estar certo que encontrarás lá os mesmos males deste mundo. Depois da tua morte, não serás recompensado segundo os teus méritos, porque, se forem injustos contigo aqui na terra (como mais tarde hás-de sabê-lo por experiência), não há qualquer razão para que o não sejam também na outra vida. O melhor que tens a fazer é não pensares em Deus e fazeres a tua própria justiça, visto que os outros ta recusam. Se um dos teus colegas te ofendesse, não gostarias de o matar?

Mas é proibido.

Não é assim tão proibido como julgas. Só o que é preciso é não te deixares enganar. A justiça das leis não vale nada; o que conta é a jurisprudência do ofendido. Se detestasses um dos teus colegas, não ficarias infeliz só por imaginares que em cada instante podes ter o pensamento dele diante dos teus olhos?

Isso é verdade.

Ora aí tens um dos teus colegas a tornar-te infeliz toda a vida; pois, ao ver que o teu ódio é só passivo, não deixará de continuar a fazer pouco de ti e a causar-te mal impunemente. Só há, portanto, um meio de acabar com a situação: desembaraçares-te do teu inimigo. Era aqui que eu queria chegar para te fazer compreender em que bases está fundada a sociedade actual. Todos devem fazer a sua própria justiça, senão são imbecis. Aquele que vence os seus semelhantes é o mais astuto e o mais forte. Não gostavas um dia de dominar os teus semelhantes?

Sim, sim.

Então tens de ser o mais forte e o mais astuto; e já a partir de hoje podes usar a astúcia, que é o mais belo instrumento dos homens de génio. Quando o pastor David atingiu o gigante Golias na testa com uma pedra lançada com a funda, não é admirável notar que foi só pela astúcia que David venceu o adversário, e que se, pelo contrário, tivessem entrado em luta corpo a corpo, o gigante o teria esmagado como a uma mosca? O mesmo se passa contigo. Em guerra aberta, nunca poderás vencer os homens, aos quais desejas impor a tua vontade; mas, com astúcia, poderás lutar sozinho contra todos. Desejas riquezas, belos palácios e a glória, ou enganaste-me quando me afirmaste essas nobres pretensões?

Não, não, não o estava a enganar. Mas gostava de adquirir o que desejo por outros meios.

Então não hás-de adquirir nada. Os meios virtuosos e bonacheirões não levam a nada. É preciso utilizar alavancas mais enérgicas e mais sábios enredos. Antes de te tornares célebre pela virtude e de atingires o teu objectivo, haverá cem que terão tempo de fazer piruetas por cima das tuas costas e de chegar ao fim da corrida antes de ti, de tal modo que deixará de haver lugar para as tuas ideias estreitas. É preciso saber abarcar com mais amplitude o horizonte do tempo presente. Nunca ouviste falar, por exemplo, da glória imensa que as vitórias alcançam? E, no entanto, as vitórias não surgem sozinhas. É preciso que o sangue corra, muito sangue, para serem geradas e depostas aos pés dos conquistadores. Sem os cadáveres e os membros esparsos que vês na planície onde se desenrola sabiamente a carnificina, não haverá guerra, e sem guerra não haverá vitória. Estás a ver que, quando alguém se quer tornar célebre, tem que mergulhar graciosamente em rios de sangue, alimentados com carne para canhão. O fim justifica o meio. Para ser célebre, a primeira coisa é ter dinheiro. Ora, como tu não o tens, terás de assassinar para o adquirires; mas, como não és suficientemente forte para utilizares o punhal, faz-te ladrão, enquanto te engrossam os membros. E, para que engrossem mais depressa, aconselho-te a fazeres ginástica duas vezes por dia, uma hora de manhã e uma hora à tarde. Deste modo, poderás tentar o crime com algum êxito a partir dos quinze anos, em vez de teres de esperar até aos vinte. O amor da glória desculpa tudo, e talvez mais tarde, senhor dos teus semelhantes, lhes venhas a fazer tanto bem como de início lhes fizeste mal!...

Maldoror percebe que o sangue fervilha na cabeça do seu jovem interlocutor: tem as narinas inchadas, e dos lábios escorre-lhe uma leve espuma branca. Toma-lhe o pulso; as pulsações estão apressadas. A febre conquistou aquele corpo delicado. Fica a temer as consequências das suas palavras; esquiva-se, o pobre, contrariado por não ter podido conversar mais tempo com aquela criança. Quando na idade madura é tão difícil dominar as paixões, oscilando entre o bem e o mal, que não será num espírito ainda cheio de inexperiência, e que quantidade proporcional de energia não será precisa a mais? O rapazinho teve de ficar de cama durante três dias. Queira o céu que o contacto materno leve a paz àquela flor sensível, frágil invólucro de uma bela alma!


Isidore Ducasse (Lautréamont), Cantos de Maldoror, 1869.