segunda-feira, 30 de Março de 2009

Arroz de Pato

Então vamos lá falar daquilo com que empurrei o vinho do post anterior — a promise is a promise.

Tinha no frigorífico uns restos de pato assado que havia preparado para o jantar do dia anterior. Arranjei-o de forma muito simples: cozi-o em água temperada de sal e louro durante duas horas, tendo reservado a água da cozedura num tupperware, no frigorífico. O animal foi depois ao forno (45 minutos a 220ºC), tendo sido temperado apenas com pimenta branca e preta, bem como alho em pó, colocados sobre a pele. Nessa mesma noite comi-lhe as pernas e os lombos — isto dito assim até parece outra coisa :| — tendo ficado com uma excelente base para a arrozada do dia seguinte.




Assim fiz: desossei o bichinho com muito cuidado, descartando também todas as peles e cartilagens. Aproveitei o fígado, coração e moela, mas deitei fora os pulmões.

Depois fui ao frigorífico, ao recipiente onde no dia anterior tinha guardado a água da cozedura do animal. Sem supresa, dado ser bastante gorda, encontrei-a — por acção do tempo e do frio, sobretudo deste último — dividida em duas fases: uma delas, gelatinosa, essencialmente composta por água e, no topo desta, um monte de gordura solidificada. Tirei mais ou menos o equivalente a uma colher de sopa de gordura e com ela refoguei uma cebolinha (bastante grande, por sinal) e dois dentes de alho, ambos picados, e 150ml de bom arroz carolino. Depois refresquei o refogado com 400ml de água da cozedura do pato — digo, 300 ou 350ml da fase aquosa e os restantes 50 ou 100ml de gordura — e temperei com sal. Levei o cozinhado a lume brando até o arroz ficar um pouco húmido, altura em que lhe juntei o pato e transferi tudo para uma taça de barro. Por fim, decorei com meia dúzia de rodelas de bom chouriço do Fundão e levei ao forno (a 220ºC) até o topo ter ficado levemente estaladiço, o que terá demorado 20 ou 30 minutos.

Uma maravilha, digo-vos!

Quinta de Foz de Arouce '2005

Oriundo de não muito longe da Lousã — a designação de origem é «Vinho Regional Beiras» —, este tinto consiste num lote de uvas das castas Baga e Touriga Nacional, sujeitas a desengace total e fermentadas em cubas de inox (com maceração pós-fermentativa), tendo o vinho daí resultante estagiado durante seis meses em meias pipas de carvalho francês e português de primeiro e segundo ano. O produtor tem página web e fornece uma ficha técnica deste vinho aqui. Pena não ter a loja da adega sempre aberta: sempre ajudava a trazer uns souvenirs dos passeios que muitas vezes damos ao bonito parque de pique-niques que fica lá perto (na praia fluvial da Bogueira) — o lugar perfeito para fumar umas ganzas; tem baloiços e tudo!


Do vinho propriamente dito, para ser breve, não desgostei.

O aroma está compostinho, com flores, fruta (preta) e acidez — entre outras, consegui descortinar umas sugestões engraçadas de romã, por exemplo —, tudo bastante fresco e contido no que à doçura toca. Também se lhe nota sem qualquer esforço alguma tosta de barrica. Na boca, não é um vinho propriamente fácil. Destaco-lhe, aliás, a acidez pronunciada — para além do limite do puramente fresco, por assim dizer — e os taninos a precisarem de tempo. Também o toque terroso... O final é mediano em intensidade e persistência. Com a comida certa — vou falar disso no próximo post —, pode dar a ideia de ser bastante elegante. A solo, infelizmente, pareceu-me um pouco vazio.

Custou 12,50€.

15,5

domingo, 29 de Março de 2009

Omelette de Pinhões

Uma omelette de pinhões muito leve e aromática.




Dourei no forno (a 200ºC) uma colher e meia (das de sopa) de miolo de pinhão, o que demorou aproximadamente 10 minutos.

Parti dois ovos para dentro de uma taça. Temperei com sal e pimenta, juntei duas colheres (de sopa) de água e mexi muito bem. Juntei os pinhões e voltei a mexer.

Coloquei um fundo de óleo de amendoim numa frigideira larga — com cerca de 30cm de diâmetro — que levei a lume forte, deixando aquecer bem, sem ferver. Nessa altura, retirei a frigideira do lume, descartando o excesso de óleo, de tal forma que apenas restou uma fina película do dito a revestir-lhe completamente o fundo e as paredes.

A ideia por detrás deste passo, evidentemente, foi reduzir ao máximo a quantidade de óleo com que se vai cozinhar. Aumentando a temperatura deste, diminuí também a sua viscosidade, tornando assim possível descartar maior quantidade de óleo quente do que aquela que seria possível encontrando-se ele à temperatura ambiente.

A frigideira voltou ao lume, o óleo voltou a aquecer bem. Juntei então o ovo, pus o lume no mínimo e tapei. Assim que o ovo se começou a soltar das paredes laterais da frigideira, desliguei o lume e tapei, deixando o calor residual cozinhar a parte de cima da omelette.

Passados uns minutos, quando a omelette já estava morna — e por isso mesmo, com uma consistência capaz de suportar este último passo sem problemas —, enrolei-a e levei-a para a mesa.


P.S.

Como o aportuguesamento do termo aparenta ser gerador de polémica — omelete, omeleta, omolete ou omoleta? —, fiquei-me pelo original em francês. E que os deuses tragam uma valente praga de sífilis tanto aos que por isto me acharem snob como àqueles que tiverem a ousadia de me chamar luso-excluído ou algum outro termo afim da moda. Aos que simplesmente acharem que estou a ser parvo, claro está, o meu bem-haja — gosto de gente lúcida.

sábado, 28 de Março de 2009

Velharias (9)

De 9 de Setembro de 2005.






Há dias fomos dar uma volta para os lados de Almeida.






Podia deter-me para falar um pouco de tão interessante lugar, de uma ou outra das suas histórias, do seu ambiente, até da agradável pousadinha, tão acolhedora. Podia falar do vento tão forte lá no alto ou das primeiras chuvas depois do Verão; de uma estrada que serpenteia por entre árvores e pedras, muros de quinta, vegetação calcinada... Cortelhos que não se vêem da estrada, percebe-se mais ou menos onde ficam por causa dos carros que, aqui e ali, surgem parados na berma, naquele lugar ermo, em fim de tarde chuvoso. "Estes carros... parezinhos da queca?" E ela responde-me que não, que são pessoas que vêm recolher o gado, e continua: "Aqui, o lugar do comilanço é a zona industrial. Não estou a gozar, bebé".




De uma cortada de terra batida que dá para o Côa. Um cafézito de hippies, fechado, grades de cerveja e garrafas de gás amontoadas no exterior, os boches velhos e porcos e o resto da trupe estarão a charrar-se em alguma das casitas de pedra que se avistam do outro lado do rio...

De uma caravana (só para evitar utilizar roulotte) psicadélica, de pedras e cada vez mais chuva, da ponte da estrada antiga e, no fim, do imponente viaduto da auto-estrada a cortar o horizonte.




Podia, mas não o farei. Há três ou quatro dias que as manhãs acordam cinzentas. Embora não tenha voltado a chover, sinto-me triste outra vez. E penso que, se estivesse sozinho, passaria o dia de hoje a drogar-me sem pensar sequer em comer, persianas corridas até ao fundo, bule de chá preto e talvez um livro sobre a secretária.

O amargor adocicado que me cresce na boca que, aliás, me atravessa de uma ponta à outra quando recordo tantos outros dias que podiam ter sido hoje, se não fosse a S, a mãe dela, até as cadelas e a gata...

Assim aguento-me. Mas constato, sem sombra de dúvida, que não estou curado. Poderei mitigá-la, mantendo-me distraído, mas esta
malaise é um prego da minha cruz. Vai ficar comigo até ao fim.





Os animais morreram quase todos...

sexta-feira, 27 de Março de 2009

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quinta-feira, 26 de Março de 2009

Adega de Nelas — Touriga Nacional '2001

Foi com este que se fechou a noite — E não creio que o facto de já estarmos cheios que nem uns texugos e muito bem avinhados tenha prejudicado em demasia a sua prova — Já vão perceber porquê — Cor granada e a acastanhar — Puro nariz de Touriga evoluída com os descritores da casta presentes de forma deveras evidente — violetas como que em fumo e folha de tabaco e cabedal em variações diversas — Impressões um pouco abafadas — Fruta apagada — Acidez discreta — Fácil de entender, mas com pouco para dizer — Veio daqui — 8€ — 14.

Fontanário de Pegões — Reserva '2002

O penúltimo a ser aberto e, provavelmente, a estrela da noite —

Aparte a puta da vizinha que tem a mania de se armar em boa cidadã, mesmo que isso implique levantar-se de propósito para chatear quem não deve —

No princípio, tracinho de cheiro lêvedo, acompanhado de sugestões meladas e ensanguentadas, envolvendo a fruta — Que, contudo, rapidamente se torna a peça central do vinho — Passas meladas e fumo — Fundo a fazer lembrar Ceregumil —

Também muito bom na boca — De corpo mediano, fresca e macia q.b., com o carácter do Castelão a sobressair — Pouco doce — Final de comprimento modesto, mas muito agradável —

Em vez de continuar a mastigar palavras à volta do que realmente interessa, o termo definidor, aqui, é integração

Sim, o que torna este vinho interessante é a forma como os seus diversos elementos se combinam, cada um mantendo a sua individualidade, mas sem que isso impeça que se forme um conjunto cheio de sentido —

8€ —

16

Roquevale '2005

Cor rubi intensa — Ameixas negras maduras, cacau, sangue e pozinhos de barrica que criam um conjunto sólido no nariz, embora sem grande finura — Suavizou-se com o arejamento — Boa presença da fruta na boca, razoavelmente ampla e persistente — Também cacau, mais tarde — Bom vinho, aparenta poder vir a crescer qualquer coisa em garrafa — Aliás, gostei mais do de 2003 que bebi recentemente — 5€ — 15

Finca Flichman "Misterio" Shiraz '2006

Talvez a boa surpresa que constituíram os primeiros vinhos que abrimos tenha contribuído para a meia desilusão que representou o que se lhes seguiu, este Argentino de Mendoza produzido numa quinta — que, aliás, é o que a palavra finca significa — pertencente à nossa Sogrape — Varietal Syrah estagiado quatro meses em carvalho, de nariz um tanto indefinido, quente — Fruta madurona e compotada, pouco nítida — Muito ruído — Vegetal seco, legumes, especiarias e ligeira pungência animal — Conjunto até cheiinho, mas pouco apelativo — Na boca, macio, macio de mais, molengo — Chocho — A recordar um pouco aqueles alentejanos de gama baixa que logo ao primeiro contacto mostram todo o pouco que têm para dar — 6€ — 13

Quinta de Fafide — Reserva '2005

Do Douro Superior, combinação de Aragonês, Touriga Franca, Tinta Barroca e Touriga Nacional [30-30-20-20%] com estágio em pipas novas de carvalho americano —

Perfil característico dos vinhos da região — Cor rubi bastante concentrada — Nariz com garra, a incidir sobretudo nos frutos pretos maduros, mas também com bons apontamentos de mato, baunilha, tostados e fumados — Sem ser pesado, a conseguir encher a boca de fruta — Travo amadeirado; mais tarde sugestões de caramelos de leite —

Porreirinho, apesar de alguma relativa falta de polimento — Para beber com comida — Coisa que não faltava — Todos gostámos bastante dele —

5,50€ —

15

Risco '2005

Risco, colheita de 2005 — Terras do Sado vs. António Saramago para abrir as hostilidades — Baptizado com o nome da serra mais alta da costa continental portuguesa — a sudoeste do maciço da Arrábida, 380m de falésia que cai quase a pique para o mar — Cor rubi razoavelmente densa e escura com um ou outro reflexo púrpureo — Rico em aromas e sabores a frutos do bosque escuros, bem maduros e sumarentos — Também ligeira tosta de barrica — Volume apenas mediano, mas a revelar-se suficiente — Taninos maduros e acidez moderada, refrescante — Tudo muito limpo — Bom com e sem comida, um Castelão que vive da frescura, da suculência da fruta — Bem diferente dos das areias de Pegões — Entusiasmante, apesar de todo aquele haxixe (iec) — 6€ — 15,5

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Saímos de casa para uma voltita e, não interessa como ou porquê, chegamos a Góis ao fim da tarde, já estava escuro — Rolando devagarinho pela vila, reparo num letreiro que diz «Havaneza Goiense» — Loja razoavelmente grande em edifício bonito, de traça antiga, teria algum interesse? — Paramos lá ao lado; à medida que nos aproximamos, começa a perceber-se ser uma espécie de supermercado — Ok, talvez tenham algum bom produto da zona — Zurzidos pela fome, começavam a tomar-nos ideias recorrentes de belos queijos, enchidos, talvez vinho — Mas entramos e damos com um lugarzinho despojado, uma espécie de mini-mercado em ponto grande, quase vazio de gente e imerso na semi-obscuridade — Olhando para as prateleiras, rapidamente nos desiludimos: de comer, nada de jeito — E vinho? Às vezes, as lojitas pequenas proporcionam-nos boas surpresas . . .

Então, de repente, muito alto, num tom algures entre o rude e o simplesmente estúpido, a idosa que aparentava estar a tomar conta do lugar pergunta-nos da caixa: «O que é que andem aí à procura?!»

Lacónica, a S. responde: «Vinho» — A velhota, sem se mover, «Hã!?» — Abençoada mouquice! — Nisto, a S. repete, agora alto e bom som: «Vinho!» — E novo «Hã!?» como resposta! — Foda-se, minha senhora! — Aproximamo-nos e, desta vez, a S. berra-lhe «VINHO!» para cima — A resposta da mulher deixa-nos perplexos: «Ah, entã se quer vinho nã tem d'ir lá pó fundo! O vinho tá aí!» — E aponta para uma prateleira próxima da entrada, por sinal a primeira coisa que havíamos visto — Só que a pobreza era tal que pensei tratar-se de alguma forma de destacar produtos que quisesse escoar mais depressa, tendo-me embrenhado (salvo seja) mais profundamente no estabelecimento à procura da «verdadeira» prateleira das bebidas.

Perante tal cenário, tornou-se evidente que nem uma pastilha lhe íamos comprar — Que outros a ajudem a pagar os fraldões geriátricos, ora foda-se — Sem uma palavra, limitamo-nos a sair — Mas a estranheza do momento não se podia deixar ficar por aí — Enquanto saíamos, a antipática mulherzinha começou a rosnar! — Dinheeeiro . . . dinheeeiro . . . — E fê-lo num tom tão bizarro, tão inumano, que parecia um zombie a vir atrás de nós!

Depois de uma introdução destas, infelizmente, cometemos um erro de julgamento vital — Não nos pusemos imediatamente dali para fora — Logo à esquina da «Havaneza», reparo numa ementa na parede — Ah, um sítio aberto, e logo um snack-bar! — A porta pequenina a dar para uma salinha inundada de quente luz amarela deve ter agido dentro das nossas cabecinhas como contraponto do negrume envolvente, na altura exacerbado pela estranha experiência que acabáramos de ter — Por algum motivo que agora não consigo discernir, o lugar conseguiu parecer-nos promissor — Entrámos.

Vazio, também — O dono, aparentemente simpático, não tardou a revelar-se estranhamente expansivo — E aqui mais um calafrio: que parecença doentia com o psicopata do Wolf Creek! — Não só na aparência, mas em toda a maneira de estar! As piadas forçadas, simpatia de pechisbeque, risadas alarves — Enfim! Tomei café — estava a precisar — e resolvemos ficar para comer qualquer coisa ligeira — Um lanchinho — Nessa altura, ainda aspirávamos ir jantar a um sítio qualquer «melhor» — Mandamos vir pão e um pratinho com rodelas de paio — A empurrar com o vinho da casa — O paio estava bom — Os pãezinhos, infelizmente, eram simples papo-secos, embora frescos — E o vinho, que nos fora apresentado como «bom vinho local, do lavrador» — Bem, que filme de vinho! — Repleto de partículas em suspensão! — Quase mudo de aromas, apenas ligeiro fruto vermelho com traços de iogurte — Para cúmulo, embora bastante espesso, não aparentava ser «nada»! — Fazia lembrar, que Deus me perdoe, água engrossada com um qualquer polímero inerte e levemente perfumada de vinho! — De qualquer forma, e em abono da verdade, já bebi coisas engarrafadas que conseguiram portar-se pior.

Comidos e bebidos, paga a conta, vamo-nos levantando da mesa — E o homem começa a mexer na máquina registadora como se a quisesse esganar — Aparato de modelo antigo, tilintava tanto que parecia uma máquina papa-moedas, daquelas a que os espanhóis chamam tragaperras, a dar o dinheiro do bónus — Depois de tamanha «simpatia», saímos e nem uma palavra nos dirige, só aquele TLIM TLIM TLIM! — Bolas, que perturbador — E foi assim que resolvemos sair dali, rumar à Pampilhosa (da Serra).

Que dispensa comentários — Depois de Góis e de uma porrada de quilómetros de estrada em zig-zag «que vai valer a pena porque aquilo deve ser giro», casas, casas, casas e mais casas, casinhas, casinhotos e casotas — Tudo assoberbado por um puto edifício enorme, com parque de estacionamento a condizer — O quartel dos bombeiros — Apenas — Nove da noite e tudo fechado, não se detectava uma alma de coisa viva na rua — Céus!

Regressámos pela Lousã e ainda tentámos ir papar ao «Burgo», mas encontrámo-lo fechado — Pena, até porque o sítio nos pareceu muito bonito — To cut a long story short, chegámos a casa bastante tarde e meio mortos de fome.

Tínhamos roubado uma couve algures no caminho — Perfeita para caldo verde — Tive ainda um atrofio chato envolvendo chouriço, a procura de chouriço — E para quem me souber dizer onde é que se arranja chouriço de verdade em Coimbra à uma da manhã, o meu contacto está ali na coluna da direita, ao fundo.

Pois apesar das condições adversas, encontrámos um ersatz quase bom — E a sopa fez-se, juntamente com outras coisas.

E se me pusesse a contar como passámos deste aparente ponto de estagnação sem volta a, nem volvidas duas horas, estarmos cinco a comer bifes grelhados na varanda — com muito vinho à mistura, claro — Ninguém acreditaria — Por isso mesmo não o vou fazer (e porque já estou a ficar farto de escrever, também) — Não resisto, apenas, a deixar meia dúzia de impressões de momento, como tentativas de instantâneos por escrito — Ou a diversidade da fauna local — Um drogado inveterado que gosta muito de Cohibas e nos aparece «lá em baixo» num Opel Kapitän com suspensões mexicanas — Um matemático de cabelo revolto e óculos, tipo ainda mais metódico que Mr. Monk e menos sociável que eu . . . que luxo de combinação, que nem na net consegue viver! — A acompanhante do nosso amigo dos carros clássicos, que por isso mesmo dispensa comentários (heh) — A S. e eu, dois baralhos de cartas e a saquinha das drogas — O kit, como lhe chamamos, mas que nada tem a ver com aqueles que dão (ou davam) aos junkies nas farmácias.

Direitos, então, à vinhaça, que o resto não interessa, bebeu-se . . .

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Encosta de Mouros — Garrafeira '1999

Garrafa nº 55787 de 59997 produzidas pela Adega Cooperativa da Mealhada, apenas a partir de uvas da casta Baga. Nada consegui apurar relativamente ao estágio a que terá sido sujeito. Tem 13% de volume alcoólico.

No copo, a cor granada (a acastanhar) de concentração ligeira a mediana surgia com ligeira turbidez, indicando o vinho poder já estar em declínio.

No nariz, aquilo que se me afigurou como uma delgada película de flores e fruta muito transformada abria o caminho para sugestões doces de caramelo, xaropes de açúcar e malte, massas de bolos em cru e um pouco de cabedal. Em suma, bouquet suave e pouco amplo.

Na boca, discreta de dimensões e persistência, quase despojada de fruta e com um piquinho acídulo um pouco irritante, os sinais de velhice excessiva eram mais evidentes. Por fim, há que salientar que, talvez curiosamente, os taninos deste vinho nunca arredondaram por completo...

Gosto muito da Bairrada e sou fã da casta Baga e dos longevos vinhos em que por vezes se converte, mas este exemplar não me convenceu. Acontece!

Custou 5€.

12

quarta-feira, 18 de Março de 2009

Arroz de Chocos

Cozi em água a ferver, durante 3 minutos, 400g de choquinhos congelados. Escorri-os e reservei a água.

Cortei uma cebola grande em cubos finos, piquei 3 dentes de alho e refoguei ambos os ingredientes em azeite. Juntei ao refogado 100g de tomate em lata e temperei com sal e um pouco de malagueta seca. Depois, 250ml de arroz. E por fim, os mini-chocos, abafando então o refogado com (aproximadamente) 625ml da água da sua cozedura. Deixei cozinhar até a água reduzir e o arroz cozer, tendo o cuidado de o deixar ainda húmido — quanto, é questão de gosto.




Antes de servir, cobri com coentros frescos cortados finos. Bebeu-se com um belo branco, mas desse... falarei mais tarde.

segunda-feira, 16 de Março de 2009

Selecção de Enófilos — Alvarinho '2008

Uma última nota, então. Este vinho, «marca Intermarché» diz no rótulo ter sido engarrafado por Quintas de Melgaço. Cor citrina muito clara. No princípio, notas muito levezinhas de anis e erva doce. Tornou-se mais intenso com a evolução no copo, revelando-se essencialmente cítrico — tangerinas maduras e flor de laranjeira — e tropical — melão, abacaxi, batida de coco... Ainda mais tarde, e a temperatura um pouco mais elevada, surgiram aromas mais pesados, a evocar banana seca e canela — esta, por sua vez, a fazer lembrar Gold Strike (calafrios)... De corpo a dar para o delgado, acidez moderada, intensidade de sabores e persistência apenas medianas, deixou-me a ideia de ser um Alvarinho relativamente modesto. Mesmo assim, tendo em conta o preço, bastante bom.

4,50€.

14,5

domingo, 15 de Março de 2009

Quinta da Pacheca '2007 (Branco)

Douro DOC, lote de uvas das castas Cerceal, Malvasia Fina e Gouveio, sem estágio em madeira.

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Muito claro no copo, de tom amarelo palha com reflexos esverdeados.

Aromas e sabores essencialmente cítricos, com sugestões de lima e casca de limão, temperadas por ligeiro floral.

Passa discreto pela boca, revelando-se, contudo, um pouco mais acídulo que o ideal, a amargar.

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Enfim, bebe-se!

3,50€.

14

sábado, 14 de Março de 2009

Aveleda Follies — Chardonnay & Maria Gomes '2005

Vem da Bairrada — quem diria? — esta combinação de 70% de uvas Chardonnay com 30% de Maria Gomes. As duas castas foram vinificadas em separado, tendo as uvas Chardonnay fermentado e estagiado em barricas de carvalho francês e as de Maria Gomes, em inox — ambas durante oito meses. Amarelo citrino no copo com reflexos dourados. O nariz apresentava ligeiro floral e apontamentos de pêssego, alperce e uma «sopa» de frutos tropicais com ponta cítrica. A boca, muito suave e levemente untuosa. Aqui e ali despontavam sugestões meladas, cítricas e tostadas. Final de longura razoável. Vinho muito correcto, irá melhor sem comida, refastelado na sombra de uma esplanada qualquer. Se ar de mar em tarde quente e boa companhia, melhor ainda.

7,50€.

15,5

sexta-feira, 13 de Março de 2009

Aveleda Follies — Trajadura & Loureiro '2005

Verde Branco da sub-região do Sousa,

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Composto por 35% de Trajadura, 60% de Loureiro e 5% de Alvarinho; fermentado e estagiado durante quatro meses em inox.

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Nariz delicado, composto por aromas herbáceos e cítricos, estes a evocarem limão. Simples e agradável. Boca muito fresca, consistente com o nariz. Ligeira agulha;

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Foi bem com rissóis de frango, em jeito de entrada.

7,50€.

14,5

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Santola em Cama de Legumes

Cozi duas santolas frescas, cada uma delas com cerca de 1Kg, apenas em água a ferver, durante 15 minutos. Depois extraí-lhes a carne branca — sem esquecer, naturalmente, o recheio das pinças e patas —, que reservei.

Verti duas colheres (de sopa) de óleo de sésamo e três de óleo de amendoim no fundo de uma panela larga. Juntei sal, um pouco de raspa de gengibre, uma colher de sopa de picante caseiro levemente agridoce, três dentes de alho (picados), a raspa da casca de ¼ de limão, meio pimento verde, duas cebolas aos cubinhos e um alho francês e meio, cortado em rodelas finas. Deixei cozinhar um pouco em lume forte, mexendo. Quando pronto, juntei-lhe três colheres de sopa de sumo de limão.




Por fim, coloquei a carne da santola sobre a cama de legumes e acompanhei com vinho branco.

Munda (Branco) '2006

Hoje já consegui sair em t-shirt e não me sentir demasiado bizarro ou deslocado. Definitivamente, este sol não é de Inverno... Bom mote para umas garrafitas de branco.

Este vem do Dão. Engarrafado pela Fontes da Cunha (Vinhos), é um monocasta Encruzado com seis meses de barrica.




Amarelo-limão no copo. Aromas que levam tempo a abrir... primeiro balsâmico, depois mais cítrico, a evocar raspas de limão. Madeira bem presente. Boca sóbria, mas longe de discreta, primeiro cítrica, depois mais melada. Ampla, dotada de excelente acidez. Final longo, com travo abaunilhado. Vinho sólido e vigoroso. Começo a render-me aos brancos. E com exemplares destes, não creio que a progressão do gosto venha a ser difícil.

8€.

16,5


P.S.Robert Parker classificou-o com 85 pontos (Dez. '2008).

quarta-feira, 11 de Março de 2009

Catchorro '2006

Ok, mais um ainda hoje, que não vejo maneira de pôr isto em dia...


De Manuel dos Santos Campolargo,

puro Tinto Cão bairradino de cor rosada escura e nariz essencialmente herbáceo — cipreste-português, erva-príncipe e flores de tomilho-limão — mas também rico em sugestões balsâmicas quentes e frias, mentoladas e de resina, verniz, almíscar e outros que tais. Também as notas especiadas se deixavam descortinar com limpidez, evocando, sobretudo, cominhos. No todo, muito fresco. As sugestões frutadas surgiram muito discretas e apenas em pano de fundo, sob a forma de exemplares maduros de arando ácido. Boca congruente com o nariz. De sabor suave, pouco doce, com um fundinho tostado que muito me agradou. A evolução no palato revelou ainda ligeiras notas de cacau. Acidez, corpo e álcool muito bem balanceados. Achei-o prontíssimo a beber, mas é provável que melhore com a idade. Fino e gastronómico, apesar da relativa dureza dos taninos. Enfim, um vinho diferente, extremamente interessante.

Custou 10€.

16,5

terça-feira, 10 de Março de 2009

Herdade dos Muachos '2005

Valha-me Deus, que tenho bebido tanto e escrito tão pouco que não sei como vou conseguir pôr tudo aqui! Adiante.

De vinhas — parte delas com mais de 25 anos — localizadas nas cercanias de Urra, freguesia do concelho de Portalegre, vem este lote de Trincadeira, Castelão e Cabernet Sauvignon, estagiado em madeira nova de carvalho francês e americano. Isto segundo informações constantes do rótulo e da página web do produtor.

Cor rubi de concentração mediana.

Trouxe-nos muitas sensações de lagar — azeitonas esmagadas, azeite e seus subprodutos — e pastelaria, sobretudo massa folhada. A fruta, silvestre, vermelha, madura, surgiu discreta. Tudo junto, formavam um nariz franco, dotado de boa presença e inquestionavelmente original. Nada de exuberante, mas sólido q.b..

Na boca, infelizmente, a suavidade prometida pelo nariz exacerbou-se — deixando-nos a pensar nos deuses sem nome da dispersão e do vazio... Contudo, não se pode dizer que não seja um vinho equilibrado: pouca acidez, pouco álcool, pouco corpo — redondo —, pouco sabor — mas bom, a fruta fresca com leve apimentado — e final curto.

Comprei-o por cerca de 6€.

14

segunda-feira, 9 de Março de 2009

Borba SOVIBOR — Reserva '2006

Alentejano DOC da Sociedade de Vinhos de Borba. Aragonês, Trincadeira e Castelão. Cor rubi intensa. Aroma simples, quase plano: frutos negros muito maduros, frutos negros meio compotados, frutos negros em álcool — e álcool. Corpo em consonância com o nariz: curto, a dar para o delgado, quente, macio, com 13,5% vol. estranhamente agressivos. E é pena, até porque a fruta que mostra é saborosa.

Custou mais ou menos 3,50€.

13

domingo, 8 de Março de 2009

Alvarinho Cêpa Vélha '2006

Este vinho, de que actualmente pouco se ouve falar, é «engarrafado na zona de produção pela Vinhos de Monção, Lda.», empresa fundada em 1938 e que não só foi das primeiras marcas comerciais de Alvarinho a existir como consta ter sido a primeira a investir seriamente em divulgar os vinhos da região.


Lê-se no contra-rótulo da garrafa:

«Nas encostas ensoalheiradas de Monção, região vitícola que a sábia Natureza privilegiou, crescem as videiras cujo vinho patenteia uma personalidade distinta e uma perfeita harmonia entre a delicadeza do aroma e a suavidade do sabor, resultado feliz da combinação entre a Dádiva de Deus, a Arte, a Tradição e o Saber do Homem.»


Quanto ao conteúdo da dita, di-lo-ia simples e delicado, de cor citrina muito clarinha e aroma suave, contido na doçura, a oferecer primeiro notas de jasmim, logo ananás e maçã, e evoluindo depois para algo que me recordou banana seca. Surpreendentemente comprido na boca, tanto que, sem ser delgado, me chegou a parecer esguio. E pode ter começado um pouco ténue, mas terminou no seu melhor. Excelente para acompanhar pratos ligeiros de peixe... e porque não ostras... Boa surpresa, gostei.

Custou 6,50€.

16

sexta-feira, 6 de Março de 2009

Soberana '2004

Lote de Aragonês (30%), Trincadeira (30%), Alicante Bouschet, (20%) Alfrocheiro (15%) e Tinta Caiada produzido no Monte das Soberanas, perto do Torrão, freguesia alentejana do concelho de Alcácer do Sal, incluída, contudo, na região vinícola das Terras do Sado.

Decantei-o uma hora antes de o servir (a 16ºC). Notei que apresentava bastante depósito. Também a cor, uma espécie de rosado muito escuro e opaco, indicava encontrar-me perante o produto de uma elevada extracção dos compostos das uvas que lhe deram origem. Depois vim a averiguar, sem surpresa, que após a fermentação alcoólica, este vinho passou por uma longa maceração que durou três semanas.

No nariz, mais intenso que complexo, predominava o odor de ameixas negras maduras. Também muita barrica de qualidade (estagiou durante um ano em carvalho francês novo), a oferecer um leque razoável de impressões amadeiradas e de especiarias. E, que curioso, pareceu-me ter-lhe notado algumas (leves) sugestões de cheiro a fumo aromático e enchidos de fumeiro.

Na boca, antes de tudo o mais, impressionou a macieza. Contudo, este vinho denso e concentrado não se revelou pesado, guloso ou madurão. Pelo contrário, fluiu muitíssimo bem, a fruta parecia viva, a frescura resultante da sua acidez surgiu sempre limpa e neutra, quase cristalina ao manifestar-se na boca. (Ah, que amigos, os frescos ventos do Atlântico, a cortar a canícula alentejana.) Foi revelando suculentos caramelos de leite à medida que evoluía no palato, terminando longo e amadeirado.

Pareceu-me no ponto, mas nada indica que haja qualquer impedimento a que ainda possa viver uns anitos em garrafa, se guardado em boas condições.

Custou 15€.

17

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Quinta do Castelinho — Porto Reserva

E só mais um, para terminar... Que também por aqui andou uma garrafa de Madeira Meio Seco do Pingo Doce — engarrafado por J. Faria & Filhos, Lda. — tão pobrezinho e ao mesmo tempo tão enjoativo, pouco ácido e tão flat como esta senhora, coitadinho, que... que acho não valer a pena dizer mais sobre ele. Adiante!

Este tawny da Quinta do Castelinho, blend de vinhos «com cerca de 7 anos de idade média» obtidos a partir de uvas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Franca e estagiados em cascos de carvalho, foi, destes todos, o que mais loirinho achei no copo.

Aroma a incidir, acima de tudo, nos frutos secos do costume, bem ligados com sugestões subtis de passas e café, também em licor. Corpo aceitável; discreta a acidez — não tanto a calidez alcoólica que deixa na boca. Mas bastante saboroso.

Foi uma maravilha a empurrar umas broinhas de frutos secos que fizemos no outro dia. Já aí deixo a receita, dê-me Deus não ter puto que fazer suficiente para tal. 11€. 15


P.S.

A S. descobriu montes de jogos novos para a DS, o tasco daqui de cima sempre a mesma merda, o Café Com Arte tem andado a saber tanto a oco, os ratinhos lá têm as vidas deles e a net tem andado uma seca... Poh, vida de cão! :\

Quinta do Infantado — Reserva «Dona Margarida»

Quanto se tem falado deste tawny! Ah, sim, tawny tanto pode ser adjectivo como nome. Porém, parece que o nome, que designa o mesmo ser/estar que o adjectivo, pesem as mudanças próprias da diferença de função do termo, só surgiu mais tarde. Etimologicamente, então, o adjectivo tawny — que significa fulvo, aloirado, amarelo torrado, castanho-amarelado — vem do Anglo-Normando tané, tauné — tostado, bronzeado — E tudo isto para poder mandar mais um coice de amargurado, que anda por aí muita gente a grafar a palavra com letra maiúscula no meio das frases, como se de nome próprio se tratasse. Parem lá de fazer isso, pá. Bem, mas falava-se do que se tem falado — ugh! — deste «Reserva Dona Margarida». Levou 17 valores da Revista de Vinhos. Deu que falar em fóruns e, que eu tenha visto, convenceu de suas virtudes o autor do sempre tão interessante Pingas no Copo — olhem que arrancar-lhe um 16 não é pêra doce! Face a uma promoção desta envergadura, tinha de experimentá-lo — Pessoal, vêem? Em Vós confio, «em Vossas mãos me abandono saciado como a criança que acabou de mamar» — Aroma compostinho: predominância de frutos secos, sobretudo nozes, com ligeiro toque râncido — para mim, esta foi uma coisa boa. E melaços e caramelo, passas e especiarias. Razoavelmente complexo, portanto. Consistente. Bastante fino e persistente. Custou menos de 8€ — para o preço, de facto, está muito bem.

15,5

Quinta da Pacheca — LBV '2002

Ora diz o produtor ser este um vinho resultante das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Tinto Cão, provenientes de vinhas que dizem velhas — com 25 anos — quando se poderá considerar uma vinha velha, afinal? — interessante questão, mas vamos ao que importa (para aqui) — vinho esse posteriormente estagiado durante mais ou menos dois anos em cascos usados de carvalho português. Macio, bastante encorpado, essencialmente frutado e relativamente pouco doce, evoca muitas passas, também alguma tosta de barrica — e xisto molhado. Expressão engraçada da difícil questão da mineralidade: não lhe tendo encontrado nenhum cheiro objectivamente xistoso, não podendo dizer com clareza que me soube a xisto e, muito menos, sendo ele possuidor de taninos xistosos ou farinhentos, apenas posso concluir que, das duas uma: ou a referida sensação mineral, tão clara, esteve apenas na minha cabeça, ou na sua alma. Final longo e sólido, com picor alcoólico a que não consegui ficar indiferente. Pena. Bebi-o numa noite, sozinho e com um queijo de cabra bem suave, enquanto lia uma versão impressa disto. Vuuu!

14€.

15

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Quinta das Tecedeiras — LBV '2001

Provém de vinhas com mais de 55 anos, daquelas ditas velhas e que consistem em muitas castas autóctones misturadas, com predominância de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Tinto Cão. Levou quase quatro anos de barrica, dizem eles na ficha técnica que disponibilizam online.

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Impacto inicial a apontar flores e certo bafio peculiar que só me consegue sugerir queijo. Fruta invulgarmente fresca, pinho e cânfora, especiarias, madeira tostada, grafite. Complexo, mas reservado. Ademais, trata-se de um LBV realmente encorpado, amplo na boca como poucos, de taninos quase impressionantes, quase bem maduros, fresco, muito vivo e persistente.

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"Potência contida" podia muito bem ser a epígrafe da região do Douro. E este, um espécime modelo. Bom, bom! Então com este bolo, tem sido de chorar por mais.

15€.

16,5

Portos de abrigo

Cada vez mais isolado, sempre a mais, sempre o mau, sempre mal, assim me encontro. Tento e nada funciona. Sinto novamente que a vida é um fio de tempo que se escoa para não sei onde — e atrás de si, apenas cinzas — meia dúzia de recordações amargas — a galeria de retratos desfocados, a vergonha das coisas que se fizeram — o amargor daquelas que ficaram por fazer.

Tardes passadas a escrevinhar solidão num lar que não...

BUH

Oh, que nota introdutória deprimente. Lixo. Nada mais que lixo!

Enfim, sem mais me alongar naquilo que a ninguém interessa, digamos apenas que continuo meio deprimido porque na minha vida nunca acontece nada realmente novo. Tenho, contudo, encontrado algum alívio nos vinhos generosos. Aí fica um punhado de impressões acerca dos que me têm acompanhado nestas últimas noites.

terça-feira, 3 de Março de 2009

Muralhas de Monção '2007

E a Sara não me acompanha a bebê-lo (mais uma vez, diz que não gosta) — Pede antes quatro coisas que, constando da lista, o restaurante já não tinha — Lá acaba por se resignar a um verde branco muito simples, quase proletário — De aroma herbáceo, herbáceo de ervas de cheiro — Sobretudo anis-estrelado e erva doce — Algures entre o cítrico e o tropical, pejado de impressões de melão e tangerina, limão e pêssego — Muito suave na boca — A fugir para o delgado, até — Um pouco oco, convenhamos — E levemente gaseificado — Mas, mesmo assim, com acidez suficiente para segurar o prato de bacalhau — Vinho de cooperativa, mistura de Alvarinho e Trajadura sem madeira — Numa palavra, di-lo-ia fácil — 14,5 — 4,50€ por garrafa de 375ml — Bem-aventurados os condutores responsáveis!



In conspectu Dei...


Para abreviar este chorrilho de merda, apenas vos direi que saímos de lá sem sobremesa — Não tinham nada de jeito — Metemo-nos de novo ao caminho — Os peculiares acontecimentos que se seguiram talvez venham a ser assunto para outro post.

Luís Pato — Vinha Barrio '2000

Estacionamos então no quintalzito ajardinado (ou isso) do restaurante — Tudo muito parcamente iluminado e nem vivalma — Mas o mundo é quase sempre previsível, quase chato, e bastou aplicar um pouco de senso comum para, pouco depois, já nos encontrarmos comodamente instalados junto à lareira de uma salinha acolhedora e, mais importante ainda, completamente às moscas — Chegada a hora de escolher a bebida, folheio a carta, dou com este Vinha Barrio e, que estranho, caramba, que nunca de tal tinha ouvido falar — Acabo a pensar tratar-se, provavelmente, de um Vinha Barrosa mal grafado — Olha só que básicos, merda para eles — Mas por via das dúvidas, e como também não me importava nada de empurrar o naco de vaca que entretanto decidira que ia ser o meu jantar com um Vinha Barrosa de 2000, chamo o empregado e atiro à queima: este Luís Pato — Aponto para a entrada na lista — É o Vinha Barrosa ou é outro? — Era outro — Sancta simplicitas! — Outro mas também muito bom, a surgir num tom granada pouco opaco que fazia adivinhar algo mais ligeiro e evoluído do que aquilo que realmente ali tinha — Bouquet de fundo terroso, bem constituído, repleto de sensações suaves de madeira e castanhas — Delicado (mas firme) suporte aos aromas florais finos e muito persistentes — E que acidez! Que capacidade de se bater com um tornedó com queijo da serra sem, no entanto, por uma única vez parecer verdadeiramente cheio, objectivamente intenso! — Quanta elegância a deste Baga que (vim depois a descobri-lo) veio de uma vinha que já não existe — À transparência, ainda se lhe notavam cerejas, e muitas! — 33€ — 17,5.

EN334

Saímos ao fim da tarde sem destino traçado — É assim que gostamos dos nossos passeios, às vezes capazes de proporcionar gratas surpresas, quase sempre repletos de lugares desilusórios — Começamos por rumar a Norte, na direcção das terras dos leitões — Depois subimos a serra do Buçaco; paramos no Luso para tomar café, criar também a «oportunidade urbana» fora de Coimbra à nova peta impingida pelo telefone a meus ilustríssimos progenitores — Pois claro que sim, que estou muito doente, muito desanimado — E veja-se só, injustiça das injustiças, aguardo um autocarro urbano de fim-de-semana, apinhado, claro, só pode — É esta a minha aproximação romantizada ao cúmulo do azar — Pois encontrava-me sozinho em casa e muito deprimido e fui comprar qualquer coisinha à Telepizza por estar incapaz de cozinhar uma merda qualquer — E como se tal não chegasse, estar sozinho em casa enquanto a Sara apajeia (a duzentos quilómetros de distância!) a pobre mãe moribunda, ainda chuvisca e os cães ladram e os drogados e mitrosos passam com aqueles seus ares de quem me mataria de bom grado só para me roubar as moedas naquela sinistra paragem de autocarro perdida no quase escuro de lugar nenhum — Que filme à H.P. Lovecraft! — Mas a coisa pega, pega sempre, beijinhos beijinhos e as melhoras para vocês também, e desligo, vamos tomar café e resolvemos subir até ao Buçaco para tirar umas fotografias — Na verdade, o crepúsculo adivinha-se glorioso e há que aproveitar a luz.



Monumento à Batalha do Buçaco


Foi apenas o início de uma longa noite — Muitas voltas depois — Olha, caralho, tão giras as luzes lá em cima! É aquilo a adega da Quinta do Encontro! Não é o máximo? E ela responde-me que «para adega é gira, mas...» — Oh!, vamos mas é encostar e sair e fotografá-la também — E ao homenzinho que lá dentro, tão diminuto por força da distância, como que nos vigiava os movimentos — É que nós tínhamos zoom e ele não — Ou pelo menos era o que pensávamos! — Partimos em direcção ao mar mas paramos num cruzamento algures numa terriola próxima só porque sim ou para voltar para trás — Ou não, mas é assim que me lembro das coisas — Por fim (salvo seja), volvido um bom bocado, claro está, repleto de situações do mesmo género, capazes de encher o momento mas, objectivamente, dotadas de pouco interesse, de alguma forma acabamos mais uma vez na estrada que parte de Anadia e vai dar a Mira e que pelo caminho atravessa Vilarinho do Bairro, entre muitas outras pequenas terriolas mais ou menos engraçadas.





E é a Sara que vê o pequeno letreiro, discreto na sua ténue luminosidade branca, a anunciar qualquer coisa como «O Chicote, Restaurante Típico» — A princípio deixamo-lo passar — Não deve ser nada de especial, vamos antes voltar para trás e comer no hotel do (de!) Luso ou em algum daqueles monstruosos processadores semi-industriais de porcos bebés na Mealhada ou noutro sítio qualquer — Mas nem meia hora depois estamos de regresso.

domingo, 1 de Março de 2009

Bolo Nuvem de Chocolate

Ingredientes:

Bolo: 360g de farinha; 300g de açúcar; 100g de cacau magro em pó; 5 ovos médios; 1,5dl de óleo; 3,5dl de água morna; 1 colher (de sopa) de fermento.

Cobertura: 100g de chocolate de culinária em barra; 200ml de nata.




Bolo:

Barrar e polvilhar uma forma. Juntar os ovos, o óleo, o açúcar, o cacau e metade da água morna no copo de um liquidificador ou afim. Bater bem. Peneirar a farinha para dentro de uma tigela — para evitar a formação de grumos —, acrescentar o fermento e misturar. Adicionar ao conteúdo do copo do liquidificador, juntamente com o resto da água, e envolver delicadamente sem bater — utilizando a colher de pau, por exemplo. Verter na forma — usei uma com chaminé — e levar ao forno durante 50 minutos a 180ºC. Deixar arrefecer antes de desenformar.




Cobertura:

Levar o chocolate a lume brando juntamente com a nata, mexendo sempre até a mistura engrossar um pouco; verter por cima do bolo. Deixar arrefecer. Comer.

Cowboy Junkies — Trinity Revisited