quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Gelado de Chocolate

Na sequência deste, ainda outro.



Ingredientes:

250ml de leite gordo;
250g de bom chocolate de leite;
200ml nata;
16 colheres (de sopa) de leite em pó gordo;
2 colheres (de sopa) de rum — ainda Havana Club velho.




Preparação:

1. Enriquecer o leite com o leite em pó, tendo o cuidado de produzir uma mistura tão homogénea quanto possível.

2. Congelar parte da dita numa cuvete de gelo (15 - 18 cubos de tamanho regular) e guardar o resto no frigorífico.

3. Passadas umas horas, tempo suficiente para o leite guardado no congelador ter solidificado por completo, derreter 150g de chocolate juntamente com a nata e 2 colheres (de sopa) de rum. Deixar arrefecer.

4. Triturar o leite congelado. Adicionar-lhe primeiro o leite que se guardou no frigorífico, depois a mistura de chocolate e rum.

5. Levar ao congelador. Ir mexendo de hora a hora.

6. Quando começar a espessar, juntar-lhe 100g de chocolate partido em pedacinhos ou ralado grosso.

7. Gelar de novo (mexendo mais uma ou duas vezes) até acabar de congelar.

terça-feira, 28 de Julho de 2009

Quinta da Fata — Clássico '2006

Ainda ando a beber Dão, agora de colheitas mais recentes.

Este vinho veio da Quinta da Fata, sita próximo de Vilar Seco — Nelas.

Consiste num lote de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen e Trincadeira. Foi fermentado em lagares de granito e estagiado durante um ano em barricas de carvalho francês. Abri a garrafa nº 2890 de 9000.

Cor bonita, rubi avermelhado. Nada de muito opaco ou escuro. Nariz simples e coeso. Em primeiro plano, fruta vermelha bem casada com sugestões vegetais de carácter vagamente acídulo. Mas também álcool e ligeiro tostado. O corpo, mediano em volume e comprimento, de sabor jovem, mostrou bom equilíbrio entre fruta e acidez, álcool bem integrado e taninos finos, um pouco secos. Nota-se feito para acompanhar comida. Encontrei-o vivo ao segundo dia — e tendo mantido o perfil, di-lo-ia mais redondo.

Em suma, apesar da sua marcada simplicidade de carácter, achei este vinho de pouco menos de 5€ bastante convincente.

15

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Quinta das Marias '2003

E este, o terceiro.

Da Quinta das Marias. Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen. Estagiado 12 meses em madeira. De Allier e americana. Garrafa nº 4724 de 6600.

Escuro. Começou delicadamente arborizado, agradavelmente mentolado. Com notas estranhamente apelativas de gordura e sabão, que de alguma forma conseguiam ir realçando os aromas menos verdes. Só para se notar que o bom fruto negro se encontrava oprimido por carradas de madeira...

Boca encorpada, de ataque sólido. Intenso. Agressivo, até. Fruta e madeira. Demasiada madeira. E uma acidez... A exigir comida. Pelo menos. Taninos maduros. Depois, como que de surpresa, tudo se exsolveu rapidamente em nada.

Melhorará com a idade? Talvez... De qualquer forma, estava à espera de mais.

Custou 8€.

14,5

domingo, 26 de Julho de 2009

Primavera — Special Selection (Dão) '2003

Este, o segundo.

Produzido pelas Caves Primavera, consiste num lote de Tinta Roriz, Touriga Nacional e Alfrocheiro Preto. Foi vinificado em lagares e estagiado durante 7 meses em barricas de carvalho Allier. Abri a garrafa nº 4678 de 11000.

Ameixa negra e bagas, menta, pinho seco, terra e cogumelos no aroma. Fino. E em consonância com a boca, de sabor rico e equilibrado, com taninos de boa qualidade, mas (infelizmente) a dar a ideia de terminar mais em ácido do que em fruta.

O Mangualde do dia anterior pode ter-me tocado mais, mas este é objectivamente melhor. 8€.

16

Foral D. Henrique — Touriga Nacional '2003

Bebi nos últimos dias vários Dão de 2003. Este foi o primeiro.

Monocasta Touriga Nacional da Adega Cooperativa de Mangualde, foi elaborado com uvas provenientes de cepas com uma idade média de 13 anos. Após a vinificação, acerca da qual nada consegui apurar, estagiou durante 6 meses em cascos de carvalho americano.

Cor granada. Aroma de frutos silvestres muito doces e violetas. Lado a lado com destacado componente vegetal, a fazer lembrar folhas secas de hortelã-pimenta e erva-cidreira. Que não parou de evoluir ao longo da prova: primeiro tornou-se fortemente balsâmico (e um pouco almiscarado), depois mostrou mais café e caramelo torrado, depois sugestões de folha de tabaco... Sempre intenso e cheio de vida, inegavelmente maduro mas sem qualquer sinal de decaimento, que nariz fantástico!

Infelizmente, a prestação deste vinho na prova de boca não se revelou tão convincente. Não que não se tenha mostrado correcto e bem dimensionado, ou que apresentasse algum defeito... Nada disso. O sabor, até o achei agradável, assente em fruta pouco doce (mas sólida) e excelente acidez, temperado por uns pozinhos de fruto seco. Muito gastronómico! O problema foi ser tão curto e discreto que invariavelmente acabou por não conseguir evitar parecer algo desvanecido face à exuberância do nariz. Notei ainda que alguns dos taninos já não vão arredondar. Encontrei-o vivo ao segundo dia, praticamente igual a como estava quando o deixei a pernoitar no frigorífico, vedado apenas com a rolha virada ao contrário.

Globalmente, pareceu-me deveras interessante. Dos mais originais que bebi nos últimos tempos! A nota não reflecte o quanto realmente gostei dele. Custou 7€. 16

sábado, 25 de Julho de 2009

Becket t ices [A]

«Hand in hand with equal plod they go. In the free hands — no. Free empty hands. Backs turned both bowed with equal plod they go. The child hand raised to reach the holding hand. Hold the old holding hand. Hold and be held. Plod on and never recede. Slowly with never a pause plod on and never recede. Backs turned. Both bowed. Joined by held joining hands. Plod on as one. One shade. Another shade.

Hand in hand with equal plod they go. In their free hands..... No: the free hands are empty. With their backs turned, and both bowed, with equal plod they go. The child has its hand raised to reach the hand holding it, to hold the old holding hand, to hold and be held. They plod on and never recede. Slowly with never a pause they plod on and never recede, with their backs turned and both bowed, joined by held joining hands. They plod on as one — as one shade. (That's another shade.)

Head sunk on crippled hands. Clenched staring eyes. At in the dim void shades. One astand at rest. One old man and child. At rest plodding on. Any others would do as ill. Almost any. Almost as ill.

The head is sunk on crippled hands, its clenched eyes staring at shades in the dim void: one shade standing at rest, one an old man and child (plodding on, but at rest). Any others would do as ill. (Almost any others would do as ill — almost as ill.)



They fade. Now the one. Now the twain. Now both. Fade back. Now the one. Now the twain. Now both. Fade? No. Sudden go. Sudden back. Now the one. Now the twain. Now both.

They fade away — now the single shade, now the twain, now both together. Then they fade back — now the single shade, now the twain, now both together. But do they fade? No, they go suddenly, and suddenly come back: now the single shade, now the twain, now both together.

Unchanged? Sudden back unchanged? Yes. Say yes. Each time unchanged. Somehow unchanged. Till no. Till say no. Sudden back changed. Somehow changed. Each time somehow changed.

Are they unchanged? Have they come back (suddenly) unchanged? Yes, I'll say yes, they're unchanged. Each time they are unchanged, somehow unchanged. Till no: till I say no. Now they return (suddenly) changed — each time they are somehow changed.»


Samuel Beckett — Nohow On — Worstward Ho (1983)

Adega de Pegões — Cabernet Sauvignon '2006

«Localizada em Pegões velhos, sul de Portugal, a cooperativa agrícola de Santo Isidro de Pegões, produz e engarrafa vinhos de qualidade desde 1958 data da sua fundação. Elaborado com base na casta Cabernet Sauvignon, produzida por vinhas perfeitamente identificadas em solos arenosos, as uvas são colhidas em miados de Setembro, quando a maturação fenólica é atingida.
Vinificado em cubas-lagar de Inox com maceração pelicular prolongada, seguido de estágio de 6 meses em meias pipas de carvalho, resultou um vinho denso, macio, aveludado, com aromas típicos da casta, que se pode consumir desde já ou guardar por mais alguns anos.
Acompanha bem pratos de carne, queijos e pratos de peixe bem cozinhados.»

Diz o rótulo, que é bonito e está recheado de informação interessante... e até podia ser porreiro, bastava uma ligeira revisão. Nada de profundo... maiúsculas/minúsculas, pontuação e o miau (minhau, meow, meao) do gato.

A versão em inglês também tem que se lhe diga, mas (curiosamente?) menos. Lá irei, se me lembrar, quando chegar a hora de introduzir mais algum vinho da casa e não me ocorrer nada mais... útil (talvez, e cenas, ou isso).

Basicamente, caro leitor, estive a dar-lhe «palha».

Perdão... perdão. . . e sem mais delongas, falemos do sumo:

Intenso, ainda pejado de sinais de juventude, mostrou cor rubi carregado, frutos negros maduros e notas vegetais aciduladas — beringela, rama de tomateiro — temperadas por especiarias (indefinidas) e ligeiras sugestões tostadas. Corpo mediano, suficiente para envolver os taninos (maduros q.b.); acidez vincada; álcool decentemente integrado. Bom final. Dos muitos varietais do produtor que por aqui têm sido consumidos, foi (talvez) o que até à data encontrei mais potente. 6€. 15,5

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Adega de Pegões — Colheita Seleccionada '2005

Nariz de complexidade razoável, embora relativamente indefinido, com dulçor característico. Nele predominam cheiros que evocam frutos negros bem maduros, à mistura com múltiplas matizes florais e de especiarias, café, chocolate, caramelo e tosta.

O corpo é macio, fresco e bem proporcionado. Mediano em comprimento, estrutura e profundidade. O sabor, que apesar de bem frutado surge agradavelmente contido no que toca à doçura, traz ainda algumas sugestões de tosta e especiarias.

Nota-se um vinho bastante polido. Embora não atinja a excelência em nada, o facto é que também não consegui encontrar-lhe pontos fracos. Encontra-se mais ou menos ao nível do da colheita anterior e está pronto a ser bebido, mas não vejo porque não há-de durar mais 4 a 6 anos. Custou pouco menos de 6€. 16

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Sanduíche... v3

Se é verdade que o calor nos tira o apetite, ainda mais que nos deixa sem vontade nenhuma de cozinhar. Em consequência disso, temos recorrido cada vez mais ao «rápido & fácil». Ontem comemos algumas destas ao almoço. Como ficámos extremamente satisfeitos com o resultado, aqui deixo a receita para alguém que ache valer a pena experimentar:




1. Grelhar um bife de frango, de preferência fino, apenas com alho e sal.

2. Tostar na chapa, ao de leve, uma fatia de pão de Rio Maior, cortada ao meio.

3. Entretanto, misturar crème fraîche e maionese, numa proporção de 3:1 em volume.

4. Pincelar uma das faces de cada uma das metades da fatia de pão com azeite de tomilho.

5. E barrá-las com queijo creme.

6. Montar da seguinte forma:

Uma fatia de pão, face temperada voltada para cima — rúcula — molho de crème fraîche e maionese — um bocadinho de ketchup — o bife, sobre o qual se mói um pouco de pimenta preta apenas aquando da montagem — mais molho de crème fraîche e maionese — fatias finas de pepino — a outra fatia de pão, face temperada voltada para baixo.


Para acompanhar, Murphy's Irish Red.

sábado, 18 de Julho de 2009

Condessa de Santar '2006

Há muito que sonho com uma cidade enorme e que é sempre a mesma. Uma cidade que se estende do mar aos montes, e para lá deles, sobre as planícies. De velhos bairros medievais e grandes torres de aço e vidro escuro. É uma cidade de túneis superlativos, uma Houston ideada por extraterrestres. É uma cidade de colinas imensas e por vezes sombrias, um Rio de Janeiro em tons pastel. E o porto — meu Deus, que porto! — simplesmente não pode existir.

É uma cidade sem ponta de sol. Não sonho com dias de sol. Quando acordo, regresso de entre castanhos industriais, laranjas de ferrugem, cinzentos, brancos e amarelos sujos... Só existem cores brilhantes ao longo dos túneis, lá bem no fundo. Túneis que vão do mar ao deserto.

Frio. Existe um véu de tristeza russa nas paisagens que trago dentro de mim.

Era noite. Jantávamos. Prato leve, carne branca, tempero simples — é aqui que entra este vinho. Encruzado, Cerceal e Arinto, sem barrica e a caminhar para os três anos de garrafa. Nunca o tinha provado, podia apenas fazer uma vaga ideia do que ia encontrar, mas pareceu-me apropriado. Ou, em última análise, porque não?

Refrescado, aberto, vertido, límpido. A cor clara, tão clara, apresentava uns primeiros tons de oxidação. Aquele amarelo, dourado, aquele laranja acastanhado...

Cheirei. Estava vivo. Jovem, até. Frio e discreto, todo ele lima e limão. E maçã ácida, marmelada, casca de laranja amarga e banana seca, perfumadas por notas que faziam lembrar baunilha e nougat.

Levei-o à boca. Uma maravilha. Potente mas fino, de sabor profundamente cítrico mas ao mesmo tempo tão redondo, tão untuoso sem que lhe conseguisse perceber qualquer vestígio de álcool... Tão leve e tão cheio, tão agradável, tão fácil de beber! E lá no fundo, saídos de algum lugar secreto daquele corpo tão eminentemente correcto, tanto que belo, belo e quase assustador, começaram a despontar alicorados laranja e castanho-ferrugem — até a dama de gelo tem coração.

Após deglutido, insistia em deixar na boca um melado de incrível finura, suave mas percuciente, de doçura limpa e provocadora. Inebriante, talvez mais à alma que aos sentidos.

Quem sabe? (Que importa?)

E não devia. Não devia?, mas levantei-me triste da mesa. Acabei a fumar na varanda, olhos parados sobre a grande avenida quase deserta lá em baixo. Fumar na varanda um pauzinho Dunhill. Como após todos os jantares, em todo o lado, todos os dias, de há uma década para cá.

Mais tarde, já de madrugada, a insónia.

Começa de mansinho, preocupação residual desfocada; também um toque de melancolia, talvez.

Depois instala-se a angústia. Em crescendo, em turbilhão. Agridoce, de travo pegajoso mas frio e fino recorte melado — ouro e ferrugem.

Cansado e alerta — Gotas que caem, portas que batem — O elevador — O vento e o escuro. Um choro distante.

Entretanto, ela dormia.

Quanta estranheza quando experimentamos as coisas que sonhámos ou julgámos sonhar! Que sensação terrível, a de termos passado a vida a construir o filme da nossa própria morte!

Não sei como pôde este nobre vinho trazer-me de volta essas velhas sombras. Talvez tenha calhado, apenas. De estranhas associações se faz o dia-a-dia de um indivíduo e não é saudável acreditar em tudo o que se vê.



Custou 15€.

17,5

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Marqués de Cáceres — Vendimia Seleccionada '2004

Rioja Crianza das Bodegas Marqués de Cáceres. Cor rubi de concentração mediana. Aroma a frutos vermelhos do bosque com sugestões de tabaco e especiarias. Notas de estágio bem evidentes — sobretudo baunilha. No palato destacou-se a sua boa fluidez, textura suave e sabor macio. Final curto, a limpar a boca. Melhor com comida.

Custou à volta de 8€.

15

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Meandro do Vale Meão '2007

Ai meu Deus!, calor moleza!

Como consequência, os vinhos «a publicar» começam a acumular-se.

Adiante.

Este é o segundo vinho da Quinta do Vale Meão.

Que ainda não possui página web, infelizmente.

Elaborado com Touriga Nacional (40%), Tinta Roriz (30%), Touriga Franca (20%), Tinto Cão (5%) e Sousão; estagiado em barricas de carvalho francês.

Cor rubi, concentrada q.b.. Nariz de intensidade aceitável, embora nada de surpreendente, sem grande evolução ao longo da prova — frutos silvestres maduros, baunilha, algumas notas herbáceas e mentoladas, ligeiro maracujá...

Corpo mediano, de sabor agradável, com boa acidez e taninos jovens, tensos mas finos. Globalmente equilibrado, com 14,5% de álcool que se mostra sem agredir e fim de boca médio/longo.

Embora seja um bom vinho, capaz de dar prazer desde já e com algum potencial de envelhecimento, não o consegui achar tão interessante como os de 2005 ou 2006. Se é só impressão minha, a ver vamos mais lá para a frente.

Custou 11€.

16

terça-feira, 14 de Julho de 2009

The Faint — Danse Macabre

Confident with your back to the audience / Tremolo strings begin with your gesturing wrist.

(...)

Leo Slatkin, Dohnányi, Previn, De Paur, Von Karajan, Hampton, Menuhin, Levine...

(...)

Control.




#7 — The Conductor


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domingo, 12 de Julho de 2009

Quinta do Cardo — Síria '2006

Monocasta Síria da região de Figueira de Castelo Rodrigo. O mosto fermentou em inox, onde passou por um breve estágio de dois meses.

Cor palha. Aroma suave, mas firme, com muitas sugestões de fruto de polpa branca, algum marmelo e notas de fundo a fazerem lembrar lima, mel e fumo. Boca elegante, com bom volume e alguma untuosidade. Doçura contida. Bom final.

A minha impressão geral é que, quando de boa qualidade, os brancos com algum tempo em garrafa conseguem mostrar uma coesão, um equilíbrio inacessível aos mais novos. E mais importante ainda, com a idade deixam de ser apenas cítricos, tropicais ou cítricos e tropicais. Considero, portanto, que se tornam menos aborrecidos, mesmo quando não ganham bouquets objectivamente complexos. Por isso espero...

Custou 7€.

15,5

Do mesmo produtor, achei o tinto da colheita de 2005 bem fixe para o preço.

sábado, 11 de Julho de 2009

Herdade Porto da Bouga — Garrafeira '2004

Demasiado fechado nas horas imediatas à abertura, achei-o muito mais interessante após ter pernoitado no frigorífico.

Apresentou um aroma denso, amálgama de madeira tostada e frutos negros com marcas evidentes de sobre-maturação, leves (mas persistentes) notas de fruta podre incluídas, a maior parte das vezes a fazerem lembrar butil-mercaptano, aquilo que se costuma juntar aos gases combustíveis de uso corrente de forma a se lhes transmitir odor.

Fluido, fresco, longo, potente e saboroso quanto baste, não revelou, contudo, grandes sinais de complexidade. Atacou o palato com fruta e firmeza; terminou especiado, algo taninoso e seco.

Continua bom, mas quando me recordo das garrafas que bebia com relativa frequência há dois anos atrás, quando ainda se encontravam com facilidade nas prateleiras dos supermercados, não consigo deixar de pensar que, na altura, me parecia mais viçoso, mais expressivo... melhor. E assim prevalece a dúvida: terá sido só esta garrafa? E se não, tratar-se-á apenas de uma fase burra... ou estará, como aparenta, a extinguir-se?

Custou 10€.

16

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Velharias (12)



Inédita,

E valha-me Agares, o linguista, aquele que destrói dignidades, que gela no tempo os que correm e que pode fazer regressar os fugitivos.





19-11-2005



Parvónia, 16h48

.
.
.

16h49



O comboio vai ganhando velocidade.



16h50



Através da tarde carregada, céu cinzento-húmido, cor de chumbo.



16h53



16h54



Um repetitivo bater metálico corta o falso silêncio da carruagem meio cheia. Faltam mais ou menos quatro horas para o meu destino.



16h58



A cidade da chuva onde todos os caminhos são sempre a subir.



16h59



O telemóvel fica sem rede. Aumenta a sensação de isolamento. Também ela falsa, tal como a solidão.



17h00



Não sei que escrever. Escrevo porque me pediram. A bateria do computador a 89%. Em estimativa, duas horas e cinquenta minutos de vida.



17h03



A prazo, a vida. A dele e as de todos nós. Num momento andamos cá e, no instante seguinte, nada. Nem luz nem sombras. O pseudo-deus desintegra-se. Fica com o aspecto de uma estátua de cera, se o cuidarem. Inerte. Olhamos e percebemos que ali já não habita nada.



17h07



O pseudo-deus pode ter mudado o mundo, mas a sua morte, para o mundo, constitui uma perturbação mínima. O pseudo-deus pode ter mostrado novos mundos dentro do mundo. Mas morreu. Todo o universo que em si habitava se tornou nada num instante.



17h11



Viajo a uma janela virada para o rio. Cor de mercúrio. Na margem, árvores esqueléticas que se debruçam sobre o abismo. Rendilhados de contornos negros que passam num segundo. Elas mesmas já sobreviveram a muita gente. Mas, um dia, o próprio rio perecerá e nem as pedras serão as mesmas.



17h16



As coisas são nada em potência. Pilhas de nada.



17h17



Esperarei pelas 17h40 para fumar o próximo cigarro. Compreende-se, mas é uma pena que tenham acabado com as carruagens para fumadores.



17h18



Não me apetece fumar, há que dizê-lo em abono da verdade. Mas estou aqui, daqui não posso sair, e espero. Não me apetece escrever. Também não me apetece comer, beber, ouvir música ou tomar café. Não me apetece foder. Não me apetece estar aqui, mas este é o caminho. A espera é o caminho. O veículo não tem de ser uma plataforma rolante. Qualquer lugar é a via e o veículo. Qualquer instante é de, ou melhor, a espera. E depois morremos.



17h22



Voltei a ter rede no telefone celular.



17h23



Voltei a ficar sem rede no telefone celular. Está bastante calor aqui dentro.



17h24



O meu irmão fez-me companhia enquanto esperava pelo comboio. Tornou-se um homem. Não devia, mas fiquei bastante surpreendido ao vê-lo um homem feito. Pensava que, para mim, ele seria o eterno puto mais novo. Enganei-me. E a culpa é da distância. Não dos quilómetros ou dos dias, mas da distracção, do esquecimento. Gostei de estar com ele. Pareceu-me um homem bom. Que assim seja.



17h30



A distracção e o esquecimento são, aliás, culpados de muitas coisas. Mas só daquilo de que os culpamos. E sempre aceitam as nossas culpas, tornando-nos mais fácil desculparmo-nos. Sem qualquer queixume ou objecção. São coisas de deus. Ou do diabo.



17h33



Desde as 17h30 que penso que está quase na hora de ir fumar.



17h35



Logo à noite vou querer beber, drogar-me e foder. Talvez venha a querer jantar, mas comi tanto que, de momento, isso ainda não me passa pela cabeça.



17h36



Depois de fumar, vou ao bar tomar café. E Pedras. E depois outro cigarro.



17h37



Penso em lamber-lhe o rabo. E comer uns camarões ou qualquer outra coisa ligeira e do mar, talvez. Ainda ontem lhe descrevia ao pormenor o minete, comparando-o à degustação de uma ostra crua, servida no seu próprio suco, com sumo de limão. Desta vez, porém, caso nos drunfemos, será conveniente lembrar-me de que é má ideia morder-lhe o clítoris. E um pensamento acessório, mas talvez não de todo escusado: a mãe dela conhece o paradeiro destas notas. Será que as lê?



17h40



The time is now!



17h56



Abrantes. Em breve chegará a altura de mudar de comboio, descansar. Paguei no bar com uma nota de vinte e em troca recebi dezoito moedas de um euro. Trago uma tonelada no rabo. A cadela Kika a mijar no meio das urtigas numa praça em Espanha. A cona, inchada, parecia um morango ainda verde. Foi a minha quase sogra que no-lo mostrou. Aconteceu há uma fracção de eternidade — enorme para tão insignificante acontecimento. Ontem também me lembrei disto. E antes, há dias. Mais uma coisa a conversar com o psiquiatra.



18h02



Pausa forçada, mas bem-vinda.



19h16



Novo comboio, mais merda da mesma. Estas "primeiras" classes já eram relativamente desconfortáveis. Têm vindo a piorar.



19h19



A privacidade também piorou, pelos vistos. Não compreendo o mecanismo que me leva a retrair-me face à possibilidade de alguém olhar para este... relatório de viagem. Mas, como o sinto! Com o tempo, perdi a estaleca. Lembro-me de viajar ao lado de um juiz obeso, feio, feio, feio!, aparentemente escandalizado com o meu logbook. Também me lembro de ir escrevendo mais e pior merda (merda?) e de achar a sua indignação tão cómica. Foi há muitos anos. Enfim.



19h24



O revisor. Lugar 26, carruagem 11. Não lhe olhei para a cara. Mais um estorvo. A ansiedade social não mata, mas mói.



19h25



Sem bateria. Merda. Não contava com isto. De meia carga para 3%, standby automático. A putinha ter-se-á viciado? É pena. Não vou poder elaborar sobre como a minha bem-amada esposa se encontra prestes a segregar langonha suficiente para ensopar uma travessa cheia de ostras. Fica para outra altura.



19h30



Embrenhar-me em (ainda mais) auto-referências. Isso é de evitar.



19h34



Chegarei em cinquenta minutos, mais coisa menos coisa. A bateria ainda vive. Talvez não esteja anémica, afinal. Apenas... Como o dono.



19h36



Escrevo. Ora curtinho, ora como um paneleiro de letras. De onde saiu esta ideia?



19h39



Lembrei-me de um sonho antigo. Na minha outra casa. Persianas escancaradas. Tarde cinzenta, daquele cinzento. Ele (e quem era ele?) jogava com uma consola ou computador qualquer que não existe. Só nos sonhos. Atirei dois copos pela janela, não sei porquê. Não sei onde fui, mas regressei. Olhei pela janela e vi que alguém varria os cacos lá em baixo. Conseguia ouvir o barulho, apesar da distância. Desinteressei-me. Deitei-me, adormeci.



19h40



Acordei na minha cama, cabeça diante do computador. Tarde igualmente carregada. Como a de hoje. Mas algo estava simplesmente errado. Programas errados, software alienígena. Chamei-o e ele não veio. O messenger tinha sido modificado. Interface para crianças. Desenhos naive, estilizados, ursinhos, patos de banda desenhada. O nick do culpado (sim, eu SABIA que era ele o culpado) surge, na janela, em gordas letras brancas colocadas sobre uma pomba idêntica à da IURD, em azul-bebé.



19h42



Tento apagá-lo, mas o programa não possui essa função. Saio por ele. Ainda joga, tudo parece em ordem no quarto dele. Afinal, parece que tenho visitas. Regresso, ou talvez tenha acordado de novo. Copos partidos, cada vez mais cacos de vidro pelo chão do meu quarto. Tarde cinzenta. Sinto, SEI que fui amaldiçoado. Acordo (terei acordado?) em sobressalto.



19h44



Tudo em ordem. Acordo na minha cama, cara voltada para o computador. Em ordem. Levanto-me. ELE, recolhido no seu quarto, vê ténis na TV. Cravo-lhe um cigarro, regresso. Persianas escancaradas, tarde cinzenta, daquele cinzento. Atiro dois copos pela janela. ELE, um estranho dentro de mim, atira dois copos pela janela, um de cada vez. Assisto a tudo de dentro.



19h44



O ciclo recomeça. Alguém varre os cacos lá em baixo. Ouço o estilhaçar arrastado do vidro pelo chão com uma proximidade sobrenatural. Que coisa tão estranha. Acordei. Engraçado ter-me lembrado de tantas voltas no mesmo sonho ao ponto de conseguir escrevê-lo.



19h45



Já só falta uma estação, creio. Ainda escrevo. Tinha-lhe prometido um quadro pornográfico. Ou porquito. Mas isto é bizarro de péssima qualidade.



19h49



Acho que vou fumar para o caixotinho dos fumadores. Aquele bocadinho de corredor sem cinzeiros que também — e acima de tudo — funciona como zona de passagem — a única — entre carruagens, para as retretes e para o exterior. Que digo? Que escrevo? Incongruências. Em suma, o lugarzinho a que me refiro é uma merda, mas estou prestes a ir para lá e até me sinto bem com isso.



Fim do "relatório".
Talvez se deva manter privado, afinal.





Ela foi buscar-me à estação. Levava uma rosa e uma cadela.

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Quanta Terra — Grande Reserva '2005

Tinto do Douro, produzido por Quanta Terra (Vinhos), de Alijó. Vinificado a partir de uvas das castas Touriga Nacional (65%), Tinta Barroca (18%), Touriga Franca (15%)e Sousão, passou por vasilhames de madeira de diversas características, tendo sido engarrafado em Setembro de 2007.

Antes de tudo o mais, uma palavra acerca do rótulo — bonito!

Quanto ao vinho em si, possui aroma intenso, envolvente e complexo, repleto de marcas que lhe denunciam a origem — assim que vertido no copo, mostrou leves notas de verniz, rapidamente engolfadas por frutos negros, viçosos e densos, misturados com mato seco e evocações de lagar. Também madeira, muita, sob as mais variadas manifestações — desde notas límpidas de baunilha doce a fumo puro e simples, passando por uma panóplia de sugestões de resinas e tostados. Com a evolução vieram ainda notas de caramelo torrado, café e chocolate amargo.

Longo e cheio, de sabor vibrante e robusto, com muitos taninos que se notam necessitados de tempo e acidez bem colocada — tanto que consegue trazer frescura à prova sem que no entanto alguma vez se deixe de reparar nos 14% de volume alcoólico — é notável a forma como enche a boca.

Escusado será dizer que não é fácil atribuir um numerozinho a este. Pelo prazer que deu agora, não mais de 16,5. Mas aquela madeira que para já sabe a excesso há-de acabar integrada num todo macio e coeso — basta esperar. E nessa altura, este vinho ter-se-á convertido num néctar maravilhoso, ainda com longos anos pela frente...

Custou 17€.

terça-feira, 7 de Julho de 2009

Iogurte de Manga / Laranja

Ingredientes:


Iogurte:

750ml de leite gordo;
8 colheres (de sopa) de leite em pó gordo;
4 colheres (de sopa) de açúcar;
raspa de uma laranja grande;
1 iogurte natural — por acaso, desta vez usou-se um probiótico.


Doce:

200g de manga, descascada e cortada aos cubos;
8 colheres (de sopa) de açúcar;
sumo de uma laranja grande.




Preparação:


1. Juntar a manga, o sumo de laranja e o açúcar numa panela ou afim. Levar ao lume.

2. Retirar do lume assim que começar a espessar. Triturar. Depositar no fundo de um pyrex com tampa. Deixar arrefecer até atingir a temperatura ambiente.

3. À parte, aquecer o leite, juntamente com a raspa de laranja, a 50ºC.

4. Adicionar o leite em pó, o açúcar e o iogurte. Bater bem. Coar para dentro do pyrex onde se encontra a base doce. Tapar.

5. Acto contínuo, levá-lo ao forno. Pré-aquecido a 100ºC, mas já desligado. Deixar o futuro iogurte repousar nestas condições. De hora a hora, ligar o forno a 100ºC durante 5 minutos. Isto até que tenham passado 8 horas.

6. Levar ao frigorífico; achamos que sabe melhor se comido frio.

domingo, 5 de Julho de 2009

Quinta do Infantado '2006

Douro DOC de Gontelho, Sabrosa. Foi vinificado em lagares com pisa a pé e estagiado durante 16 meses — parte em cuba de inox, parte em barricas de carvalho de segundo e terceiro ano. Não foi filtrado aquando do engarrafamento. Das 15462 garrafas produzidas, calhou ter comprado a nº 3648.

Cor quase opaca. Fruto escuro levemente especiado e tosta de barrica num nariz que cresce com a evolução no copo. Ainda uma ou outra sugestão de café. Na boca é encorpado, de sabor longo e rico, bastante fresco. Taninos bem presentes, até de mais... Neste momento, o vinho aparenta encontrar-se envolto num véu de austeridade que talvez se converta em coisas boas com algum tempo de garrafa, embora não me pareça que a fruta que apresenta possua profundidade suficiente para aguentar grande envelhecimento. Talvez daqui a dois ou três anos esteja no ponto. 8€. 15

sábado, 4 de Julho de 2009

Tapada do Chaves '2007

Mais um vinhito (para matar a sede).

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Este branco sem barrica produzido pela Tapada do Chaves consiste num lote de uvas das castas Arinto, Alva (ou Síria, ou Roupeiro), Fernão Pires e Tamarez.

Logo que aberto, mostrou certo cheiro lêvedo pouco promissor, que rapidamente se desvaneceu para revelar notas de pêssego e alperce, erva e frutos tropicais (mas não banana). Corpo denso, untuoso, de sabor essencialmente cítrico com nuances meladas, dotado de boa acidez e um final bastante longo, levemente amargo.

Acompanhou um rico prato de robalo assado, ao fim da noite.

7€.

16

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Cortes de Cima — Syrah '2004 e '2005

Syrah '2004

Há quase um ano que não tocava neste vinho de Cortes de Cima, embora me tenha agradado bastante quando o provei pela primeira vez. Ora, pouco terá evoluído desde então. Tanto a casta como o estilo do produtor se continuam a exibir com pureza. Frutos negros, pimentas, barrica perfeitamente integrada... Cor carregada e corpo denso e guloso, de taninos completamente cobertos, acidez bem colocada, fundamental para impedir o conjunto de se tornar enjoativo, álcool pronunciado e final longo. Sem surpresa, não evidencia ainda qualquer sinal de cansaço.

17


Syrah '2005

Aroma intenso, opulento, com ameixa negra e ginja levemente especiadas e bastantes notas de fumo e tosta. Com a evolução, despontaram notas de chocolate. Também a boca se revelou no estilo do da colheita anterior, embora menos carnuda, menos gulosa, com a madeira a sobressair um pouco mais — e aqui pouco é um pouco demais — O que não se tratará apenas de uma questão de idade. Final apenas razoável. Não deixando de ser um vinho porreiro, falta-lhe a envolvência do maninho mais velho. 12€.

16

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Gelado de Iogurte de Cereja e Cherry Brandy

Na sequência deste, mais um.


Ingredientes:

400g de iogurte caseiro, gordo;
300g de cerejas descaroçadas;
200g de açúcar;
1dl de cherry brandy — usei Bols.


Preparação:

1. Colocar o iogurte no recipiente onde se vai conservar o gelado. Um tupperware grande, por exemplo.

2. Juntar as cerejas, o açúcar e o brandy num tachinho.

3. Levá-lo a lume brando até o açúcar se ter dissolvido por completo e a mistura reduzido um pouco, o que deverá demorar cerca de 15 minutos.

4. Deixar arrefecer até à temperatura ambiente e incorporar no iogurte.

5. Levar ao congelador, mexendo de 40 em 40 minutos, até gelar (ponderadas as variáveis devidas, 3 ou 4 horas deverá ser um bom valor de referência para o tempo necessário). Dada a presença alcoólica e o seu elevado teor de gordura, este gelado fica muito cremoso, nunca chegando a congelar por completo.


Quem o fizer, experimente comê-lo à noite, quando já corre um ventito fresco, e acompanhá-lo com um belo copo de vodka bem gelada. Destas, Finlandia é a minha grande favorita de sempre, mas a Moskovskaya não lhe fica muito atrás. Quanto às outras, passo a maioria.