quarta-feira, 31 de março de 2010

Velharias (20)

Notinha pessoal:


O que mais aprecio num homem, eis algo que já me perguntaram mais do que uma vez. E àqueles que perguntaram, respondi sempre da mesma maneira: que saiba quando estar calado, bem como a quem perguntar.



&



Poesia em inglês


Above the Fire


Above the fire a man floats in a boat.

Above the fire a woman is devoured by a snake,
unseen.

The leaves are yellow alongside & in the wake

the trunks & branches
mirror one another, black, rain-soaked.

And now he's old. He trails a hand until it snares
a leaf
saw-toothed.

Clouds break above the buildings
where there had been none.

The snake is old, its jaw completely
unhinged for the swallowing.

What now?

There was a continent.

Below, the last gods bum along with their last
offerings


no smoke, no film, no evidence.

The gold-shagged blizzard of the willow

spills again.

Climb down. Prevent.

He leans back & the oar drips like no other memory.



Peter Sacks, 2002.



(24/12/2004)

terça-feira, 30 de março de 2010

Comportillo de Autor '2005

Rioja "Crianza" das Bodegas Ontañón, de Logroño, feito a partir de uvas das castas Tempranillo (90%) e Graciano, provenientes de cepas com mais de 50 anos, plantadas a 700m de altitude. Fez a fermentação alcoólica em lagares e a maloláctica em barricas novas de carvalho, onde foi posteriormente estagiado durante doze meses. De 29700 garrafas produzidas, coube a esta o número 4721.

É, neste momento, um vinho escuro, quase retinto. Resinoso ao primeiro impacto, demora algum tempo a livrar-se da capa de madeira que o encobre, isto para depois revelar bom fruto negro, cereja madura de fundo amargo, limpa, complementada por ligeiras nuances de fumo e coco — madeira americana? — toques balsâmicos e ferrosos, ensanguentados, químicos e minerais. Na boca é fresco e carnudo, longo, os taninos a aparecerem já bem domados.

Pronto a beber, poderá, contudo, guardar-se mais uns anos.

Acompanhou (quase) na perfeição uma intensa feijoada.

14€.

16,5

segunda-feira, 29 de março de 2010

Reminiscências da Janela dos Gatos — Neura 2

(Aqui e agora. Os ratos piam.)


A alma deixa-se possuir por sentimentos contraditórios, a razão esbate-se e só fica o vazio. Aquele que lá esteve, naquela noite, não era eu. Nem nas outras que se seguiram.

Recordo a história da árvore eternamente escusa do mundo, derrubada por uma tempestade em algum bosque remoto. Ninguém a viu cair, ninguém a viu caída. Terá mesmo caído? Passa-se o mesmo com estes gatos. Não possuem identidade. Para quem existem eles? E quem vai procurá-los? Sonho... com famílias pobres sustentadas pela doce ilusão de uma vida melhor para os seus filhos, aqueles que fugiram lá para longe, para o desconhecido, as quentes cidades do sul, feitas de terra, pólvora, cascalho e ácido.

Reminiscências da Janela dos Gatos — Neura 1

(À janela daquela casa onde sei que enlouqueci.)


Chego-me à janela e vejo um imenso monte de gatos adormecidos, amontoados na via férrea. São todos os gatos que morreram atropelados pela automotora ao longo daquele ramal, desde que foi construído. Ouço um apito. Vem lá a velha automotora, vem já a uma boa velocidade.

O céu escurece repentinamente. Chove sangue. A automotora afasta-se com um assobio triunfal, deixando atrás de si um vasto pântano de carne destruída. São todos os gatos que morreram atropelados pela automotora ao longo daquele ramal, desde que foi construído.

domingo, 28 de março de 2010

The Golden Palominos — Dead Inside

I feel the motion of the car before I open my eyes. The air is blue-black, brown-black, black-black. Smell of gas, oil, animals. I'm in the trunk. My wrists and ankles tied. Tape over my mouth, it almost covers my nose, but I can breathe barely. I must have been here for hours, everything's stiff and my head throbs like someone's drumming on china. The car stops. He turns off the motor — but there are no traffic sounds. No people sounds. No wind. What place has no wind? I turn my head towards the sounds like people watch radios when something terrible happens. My palms are sweating. Where am I? The trunk squeaks as he lifts it up and the sun blinds me. He almost looks like a faceless Jesus surrounded by light. He pulls me out of the trunk and bangs my head against the door. I try to cry out, but it comes like a hum. He drags me, half-standing, along a dirt road into a house. I can't see any other houses and it looks like a farm. The screen door bangs behind me and I feel a deep, deep pressure inside. All the rules have changed here. I'm dragged down a hall like a bag and I look for a phone, other doors. Nothing but bare floors and brown boxes in small rooms. He pulls me into the bathroom and I almost crack my head as he pushes me onto the floor. Tilts his head to the side and gazes at me as if I was a pet then walks out. I'm lying there for a long time, trying to get the tape off of me. My eyes are tearing. I don't make a sound. I can't get up and I keep rolling from side to side, trying not to make noise. I've got to get him to talk to me. If I can get this thing off my face I can talk to him. I'll tell him my name. Have you killed other women in here? I'm thinking you've got hundreds of them nailed down, hung on walls, hanging from ceiling fans swinging dead in summer wind. Why did you pick me? If I had stayed to finish at the library, I would have been there twenty minutes longer, maybe I'd have been OK. Would have rushed into the house, books piled up in my arms like a baby, and blurted explanations why I was sorry. So sorry I'm late everyone. Would you have waited for me anyway? Would you have picked another woman? Would I have read about her in the paper and said oh my god, I was there that night... and called all my friends in a panic. Telling them then how much I loved them as if I'd never have the chance again. I wonder what everyone is doing now. Putting up signs. Showing my picture on the evening news. Calling old friends. Maybe I'm not even considered missing yet. The family will fall apart and my parents will go crazy. Slowly. My brother will be so quiet at the funeral and insist the casket be closed. (I never even told anyone what kind of funeral I wanted when I died.) Maybe years from now they'll find my skeleton on the floor here and they'll have to use dental records to identify me. My family will say "At least we know now. We always hoped she was alive somewhere. We just hope she's in peace." When I sleep my dreams are crazy — I'm flying over fields. I don't think I sleep for more than twenty minutes and when I wake up, it feels like I'm under a heavy blanket. I'm still here. As I wake up I hear a dog barking in the distance and I think I'm in my parents' house in South Carolina. When I open my eyes, there's a shotgun pressed between them. I'll never get married. I'll never have kids. I'll never go to Europe. I'll never learn to play piano. I'll never write a book. The last thing I hear is a click.




#1, Victim.

Fala Nicole Blackman. Como a capa do disco não tem nada de mais que se lhe diga, é preta com umas letrinhas, deixo aí uma foto da narradora, recolhida algures na web.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Mouchão '2000

Alentejano de Casa Branca, Sousel. 70% Alicante Bouschet. O resto, Trincadeira.

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Granada.

Longo e poderoso. Macio e corpulento. Cálido mas ácido.

Compota? Negra. Negra a fruta. Fruta e caruma. Eucalipto? Talvez também cipreste. . . Árvores.

Pele, almíscar, frutos secos. Nozes com ranço.

Pede tempo à mesa.

Gostei mais deste.

40€.

17

terça-feira, 23 de março de 2010

Mais Caixas (Modulares) de Origami

Depois destas. . .


1. Hexagonal (12 módulos)



Instruções sobre como dobrar e montar a base, aqui; a tampa, aqui ou aqui.



2. Octogonal (8 módulos)



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Base, aqui; tampa, aqui.



3. Quadrada (8 módulos)



Base e tampa, aqui.



4. Quadrada, outra versão (8 módulos)



Base e tampa. . . aqui.



Biblio:

Tomoko Fuse — Fabulous Origami Boxes, ISBN 978-0870409783;
Tomoko Fuse — Origami Boxes, ISBN 978-0870408212.

Patê(s) de Fígado de Frango

Patê (pâté), uma das mais deliciosas formas de aproveitar entranhas.

500g de fígado de frango,
150g de manteiga,
1 cebola grande,
1 dente de alho,
1 botão, seco, de cravo-da-índia,
2 colheres (de sopa) de gordura de pato,
2 colheres (de sopa) de brandy,
3 colheres (de chá) de pimenta verde, moída,
½ colher (de chá) de gengibre em pó,
sal a gosto.


1. Marinaram-se os fígados durante mais ou menos duas horas numa mistura de brandy, gengibre e alho.

2. Refogou-se a cebola em 3 colheres de sopa (+-45g) de manteiga, até ficar mole.

3. Juntaram-se os fígados, o cravinho, sal e dois terços da pimenta. Cozinhou mais 5 minutos.

4. Juntou-se a marinada, bem como a gordura de pato, e deixou-se cozinhar em lume médio, destapado, até o interior dos fígados estar rosado — talvez 10 minutos.

5. Processou-se o conteúdo da panela com um robot de cozinha e adicionou-se-lhe o resto da manteiga, tendo o cuidado de deixar tudo muito bem misturado.

6. Enfrascou-se o preparado resultante, que se cobriu com a restante pimenta e se deixou arrefecer até atingir a temperatura ambiente. Levou-se depois ao frigorífico, de modo a espessar mais um pouco. Tem-se comido ligeiramente fresco.

Fez-se posteriormente uma variação do primeiro, que em vez de brandy, gengibre, cravo e pimenta verde, levou apenas Porto (ruby) e pimenta preta.

domingo, 21 de março de 2010

Conventual — Reserva '2006

Tinto "Reserva" da Adega Cooperativa de Portalegre, elaborado a partir das castas Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet. Após desengace total, as uvas fermentaram em cubas de inox a temperatura controlada, tendo o vinho resultante sido sujeito a uma maceração pós-fermentativa de 15 dias e, posteriormente, estagiado durante 8 meses em barricas (novas e usadas) de carvalho francês.

Intenso, de carácter maduro e essencialmente frutado, mais uns ligeiros toques de baunilha e tosta das barricas por onde passou, escurão, meio abrutalhado, um daqueles vinhos puramente meridionais que nos enchem os sentidos de fruta ultra madura e compota, que invariavelmente evoluem para notas de chocolate.

E ainda assim, em virtude da sua acidez vincada, sempre longe de cair nos exageros de calor ou doçura tantas vezes vistos em vinhos de perfil e proveniência similares. De resto, apresenta alguma estrutura e, mais importante ainda, um bom equilíbrio entre volume e concentração. Persiste medianamente.

4,80€.

15,5

quinta-feira, 18 de março de 2010

Unha vez houbo un home que nunca dixo, meu.
Petou nas portas do mundo, chamou no meu corazón.
Falaba con palabras que semellaban pombas.
As cousas á sua beira púñanse brancas.
Nascíalle nos ollos un abrente coma un río de luz, ou coma un mar lonxano de gueivotas.
Un bálsamo de amor tiña aquil home pra ista miña dor sin nome.


Celso Emilio Ferreiro

terça-feira, 16 de março de 2010

Grandes Quintas — Reserva '2007

Mais de 80% deste vinho provém de vinhas velhas. Das castas que o compõem, predominam a Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Amarela. Estagiou durante 18 meses em barricas de carvalho francês, tendo-se enchido 5500 garrafas.

Respirou duas horas dentro de um decantador e foi servido a 16ºC.

A cor, sem ser retinta, desde logo sugere boa concentração. No nariz, a fruta, madura, puxada para a cereja, surge acompanhada de proeminentes notas herbáceas, que já se vão notando características do ano de 2007. Mato seco e especiarias, baunilha e coco da barrica, a par com peculiares sugestões de maracujá, completam um conjunto de boa intensidade, rico e interessante. Na boca é cheio e longo, muito fresco, com a fruta a tomar destaque, amparada por boa acidez. Nota-se, no entanto, certa desafinação, um bocadinho de mais de verde, os taninos ainda não completamente cobertos.

Embora já dê uma bela prova, promete melhorar bastante nos próximos anos.

O PVP deverá rondar os 16€.

16,5

domingo, 14 de março de 2010

Salada (?) de Polvo

Numa panela com um fundo de água a ferver, o lume forte, deitei uma cebola inteira, com casca, uma rolha de cortiça e um polvo ainda congelado. Tapei e deixei cozinhar durante 10 minutos. Escorri o bicho e descartei as demais malambas. No fundo de um pyrex com tampa, coloquei tomilho, alecrim e estragão, uma folha de louro, meia dúzia de dentes de alho e uma cebola fatiada em meias luas. Por cima, a carcaça do cefalópode. Que reguei com 5cl de azeite, tapei e levei ao forno durante hora e meia, a 170ºC.


Saído do forno, deixei o bicho descansar durante mais ou menos 10 minutos. Então tirei-o de entre os sucos que havia libertado durante a assadura, talhei-o e deixei-o à espera.

Acabei por comê-lo já frio, com cebola, salva e salsa, tudo cru, envolvido em mais um bocadinho do excelente azeite da Arrochella.


Nota: O polvo tinha cerca de 1kg.

Grandes Quintas '2007

Do rótulo:

O Grandes Quintas, colheita 2007, foi produzido com uvas das vinhas que a Casa de Arrochella possui em Vale Canivens e na Quinta do Cerval, ambas em Vila Nova de Foz Côa, no Douro Superior, de parcelas com idades de 4 e 22 anos, fermentadas em cuba a 26ºC. Estagiou 17 meses em cuba e 4 em barrica.

Encheram-se 26029 garrafas.

Cor rubi, com alguma concentração. Verificada na boca, onde a acidez vincada marca o conjunto, de resto macio e sóbrio, com a fruta em melhor plano que no nariz, onde notas de esteva e barrica (baunilha&coco) se notam com maior limpidez que o core de ameixa e cereja que acompanham.

É um vinho que se faz fácil — que se nota feito para se fazer fácil — mas não consegui entendê-lo por completo. Pelo menos de momento, parece, sei lá, um tanto desorganizado. Aparenta precisar de tempo.

O preço deverá andar à volta dos 7€.

14,5

quarta-feira, 10 de março de 2010

Entre II Santos '2006

Bairrada DOC de Manuel dos Santos Campolargo. Baga, Castelão e Pinot Noir. Fermentou em pequenos lagares com pisa mecânica, fez a maloláctica em balseiros e estagiou "até seis meses" em barricas de segundo e terceiro ano.

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Modernaço, feito para agradar ao maior número possível de potenciais bebedores. Focado na fruta, vermelha e negra, madura, sugestiva, se bem que um tanto aguada. Ainda leve toque especiado. Suave na boca, redondinho, com a acidez da Baga a emprestar-lhe alguma seriedade. Curto. Para beber enquanto novo.

4€.

14,5

terça-feira, 9 de março de 2010

Lavradores de Feitoria '2007

Fermentado em cubas e lagares; não passou por madeira.

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Verdoengo.

No mais, ligeiro e pouco persistente, com taninos agressivos.

E ainda assim conta uma história. As sugestões de ameixa madura da Tinta Roriz, as flores da Touriga Nacional, as veladas evocações a algo químico e doce da Touriga Franca, a esteva do Douro.

Carrascão, mas não de todo.

3€.

14

segunda-feira, 8 de março de 2010

Filmes (16)





De Dario Argento. A banda sonora, a cargo de uma banda chamada Goblin, é notável.

domingo, 7 de março de 2010

Quinta da Fata — Touriga Nacional '2005

Fermentou em lagares de granito e estagiou durante um ano em barricas de carvalho francês. Produziram-se 1500 garrafas; abri a nº 455.

Deixei-o arejar durante mais de uma hora antes de me fazer a ele.

Não fora a espuma arroxeada, di-lo-ia preto. No nariz mostra-se pujante, de madurez vincada. O cheiro abafado, terroso, das violetas, o travo acídulo da bergamota, a amora silvestre quase em compota, a ameixa negra carregada. . . uma nesga de madeira resinosa, outra de tosta. . . qualquer coisa de vegetal seco, sugestões de café. E na boca não destoa. Aparece extremamente concentrado, ao mesmo tempo ácido, alcoólico e taninoso, cheio, longo e encorpado.

É um vinho de casta, não de terroir — logo um semi-desnaturado que, ainda por cima, muitos poderão achar demasiado agressivo.

No entanto, pessoalmente, gosto muito dele. Por um lado, dê-se-lhe a comida adequada (pratos fortes) e ele fluirá maravilhosamente. Por outro, mesmo a solo o acho tão saboroso que não consigo deixar de pensar que, de alguma forma, terá conseguido encontrar equilíbrio no excesso. E isso é admirável.

Acho que já está muito bom agora, mas aguentará perfeitamente mais meia dúzia de anos em garrafa.

15€.

17

terça-feira, 2 de março de 2010

Buisson Renard '2004

AOC Pouilly-Fumé das imediações de Saint-Andelain, Nièvre, puro Sauvignon Blanc fermentado e estagiado em barrica, criado pelo genial, por má ventura, precocemente desaparecido, Didier Dagueneau.

Lê-se-lhe no contra-rótulo: "Depuis longtemps, bien longtemps, trop longtemps, une parcelle était connue sous l'appelation malencontreuse de Buisson Menard. Par la grâce inspirée d'un immense dégustateur Français, elle est désormais Buisson Renard. Indéniablement, Renard est plus fûté que Menard. Qu'il en soit donc fait selon sa volonté, ce nom, nous l'avons adopté."

Cor palha.

Complexo e deliciosamente perfumado, dominado no ataque ao nariz por sugestões de flores e — surpresa?! — do mais puro e cheiroso mel de acácia que se possa imaginar. Mel, digo. . . Mas um mel impossível, tão rico e denso e ao mesmo tempo tão leve, fresco e colorido!

E depois, na boca, impecavelmente seco, preciso e cristalino. Aqui o verdor característico da casta aparece na conta certa. Isto é, só o encontramos se soubermos onde procurar. E a madeira, felizmente, idem. Pêssego amarelo, de polpa rija. Damasco. Canela. E o cheiro do sílex quando raspado a prolongar-se ao longo de um final de travo salso e muito, mas mesmo muito longo.

Sério, mas ao mesmo tempo cheio de alegria. Entusiasmante!

60€.

19


P.S. — Para os curiosos, o eminente crítico que terá dado o primeiro passo em direcção ao rebaptismo, Michel Bettane.