terça-feira, 27 de abril de 2010

Adega Cooperativa de Borba — Garrafeira '2001

Foi o primeiro "Garrafeira" da Adega Coop. Borba. Proveniente de uvas das castas Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, passou por longas macerações peliculares e fez a maloláctica em inox. Estagiou durante 18 meses em antigos tonéis de madeira exótica — qual ou quais? — e barricas de carvalho americano.

Cor granada, com halo atijolado.

No nariz, aromas essencialmente terciários: couro, tabaco, graxa, farmácia antiga. Pouca fruta, negra, muito madura, a surgir ainda com relativa limpidez por entre notas de transformação, adocicadas, com toque oxidado — alicorados.

Na boca é fresco, fino, bonito, equilibrado, sem arestas ou pontas soltas: elegante. Porte mediano, idem no que toca ao final.

Está bem bom, mas já terá começado a curva descendente.

13€.

16

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Velharias (21)

Hora e meia de conversa de chacha no Príncipe Real

— 1 fragmento (tema, variação)




1)


27/9/2003

21h56'



1.1)


Uma parede-espelho com cerca de dois metros e meio de altura por uns sete ou oito de comprimento.

Um chão de mármore polido, imaculadamente negro, sobre o qual repousam seis mesas agrupadas aos pares, paralelas relativamente ao espelho, um pouco afastadas umas das outras.

Uma das quais ocupada.

Um par de cadeiras: imitação de cedro polido e cabedal esbranquiçado.

Um par de telefones celulares, um par de maços de tabaco, um molho de chaves, uma esferográfica.

Um cinzeiro acristalado, de aparência frágil.

Um isqueiro Zippo, rosa-violeta-rosa, e duas carteiras de homem.

Tralha espalhada sobre uma pasta de pele gravada a preto e branco; lá dentro, umas cinquenta folhas.

Apontamentos esparsos, desenhos, um exemplar das Nuclear Wallet Cards.

Dois cafés, duas garrafas de Pedras, um pires cheio de chocolates, guardanapos, pipocas.

Salgadas.

Purple Rain.

Um empregado, discreto e eficaz,

(claramente homossexual),

que regressa lentamente para detrás do balcão, a pelo menos dez metros de nós.

Para logo depois se enfiar no reservado do bar, deixando-nos

de novo a sós,

e (quase) em silêncio.



1.2)


Quebre-se o silêncio;

Falemos

De tudo e de nada, só para matar o tempo

que se repete.



1.3)


A partir de hoje, não inventarei mais novos nomes para as personagens que comigo constroem os seus dias. Ou de quem faço os meus. . .



1.4)


O passado resume-se a um jantar opíparo: pata negra com maçã, salmão grelhado, bifes com pimenta verde, profiteroles e um cheesecake mais que vulgar, ou a necessidade de borrar a pintura por parte do cozinheiro de serviço.

E Martini branco, algumas cervejas, duas garrafas de Mouchão, colheita de '89. . .

E aqui, agora, o café.

Por vezes sinto-me feliz por já não ter nada realmente interessante para dizer aos outros. Ou não conversaríamos a legitimidade do TPI.


— Mas não lhe chamaria um mal necessário. . . não acho que seja mau.

— Hmm. . . Um produto da globalização, dizias tu? Pois sim, como tudo o que actualmente faz mover as massas. As pessoas tendem a juntar-se; acaba por ser a tendência natural das coisas. Mas a globalização-conceito, tal como a usam para fazer política, é uma treta. Convém ter os termos bem definidos. . .

— Bem definidos! Então bastará dizer que os homens são mesquinhos. Daí em diante, o resto faz-se acontecer; ponto final.


Enfim, fala-se.

De bridge, do Tiago, do olhos fechados e da Sandra, dos cães com pulgas que agora infestam a alta da cidade, daquela rapariguinha do Kuarenta. . . Do caso Elf e de LeFloch-Pringent.

De Bush. — Pá! Deve ser a primeira pessoa má que conheço e não curto!

Da chuva.

Pausa. Suspiro. Mais uns minutos de silêncio. Mais um cigarro. Mais um sorriso que desponta quando começamos a dizer mal dos nossos amigos comuns.

— E o Zé Pedro?

— O ZP? Tornou-se um mito urbano. Não conseguiu aguentar a pressão. Deixou de existir como homem, passou a ser só alma.


Risos.


— Morreu?

— Sim. Teve de ser!...

— E os outros?


A condição necessária é um animal grande que estrebucha na agonia da morte. Que pensamento cheio de energia! Como foder uma pitinha de perfil fino e pele ebúrnea enquanto sofre um ataque cardíaco. . .


— Todos mortos. E a Mariazinha também.

— Há quem diga que não. . .

— Oh. Merda para eles. Adoro estas luzes. Adoro este espelho. Fico bonito!

— O puto giro aqui sou eu!

— Mas tu és gay, por isso não contas.

— Ahhh! Dis-cri-mi-na-ção!

— Hm. . . não sejas patético.



1.5)


— Sabias que foi precisamente a esta mesa que surgiu a ideia de fundar o "Solar Obelix dos Ácidos"? Há. . . dois ou três meses atrás; já não me lembro. . .

— Não. Mas foi aqui que te ensinei a deitar água das Pedras no café.



2)


— E o Pinto Gouveia?

— Vai bem. Almodovar havia de gostar muito do penteado dele.


De facto. . .



2.1)


— Tu não vais fazer isso.

— Ai. . . queres ver?

— Tu és um menino muito soft. . . muito soft. . .

— BORN TO BE WIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIILD!

— Oh! Beeeeesta!



3)


"Some say they come looking for drugs, dirty dancing, and pounding-pounding techno music."



3.1)


— Isso do vestir, pá. . . se fosse só por aí. . .

— Foda-se, tem pulgas!

— Merda, pá. Estou farto.

— Não é bem estar farto. Farto. . . de quê? É um abismo. . . um vazio. . .

— Um vazio fodido. Um imenso fastio de tudo. . . E agora? Porque não agarrar-me a outro filme?

— Porque não estudar?

— Porque não. Tu vais?

— Não. Estou doente, pá.

— O mundo não deixa. . .

— Se calhar somos inviáveis. Estamos condenados a morrer.

— Pá, mas resignar-me a mais uns meses de alienação consciente em nome de outro falso fim e que, naturalmente, culminará num novo down? Porque eu sei que vai ser assim!

— Consciente não, pá. . . volitiva, como diria o PG!

— Oh sim, toda volitiva. . . toooooda volitiva!

— Ao menos gostas mesmo dela?

— Não.


Sonhar, voar. . .



3.2)


— Ei! Isso é bués!

— Quinze por cento. Isto é classe. . .

— Isso não é uma gorjeta, são dois copos partidos.

— Já que insistes, podemos levar o cinzeiro.

— A Ana é que faz isso!

— Merda! É verdade.


Vou ter saudades deste lugar. O parque das putas, os viadutos, a linha, a tasca da Natália. . . isto, à noite, é lindo.


— Pá, dar-me? Não! Distraio-me, e depois? Mas não ter nada por que lutar é anti-humano. Ah, puta de vida. . .

— Peço mais dois?

— Sim. Vou mijar. Já volto, 'tá?

domingo, 25 de abril de 2010

Quintas de Melgaço — Alvarinho '2008

Alvarinho produzido por Quintas de Melgaço — Agricultura e Turismo, SA. Fermentou em inox, a temperatura controlada, não tendo passado por madeira.

.
.
.

Foi bebido a 12ºC.

.
.
.

Aroma amplo, embora nem por sombras exuberante, com sugestões de lima e flores brancas, maçã, banana, e ainda manga e ananás, uma hora depois de aberto e quase meia dúzia de graus centígrados acima da temperatura de serviço.

Seco e mineral, gordo mas firme, sempre muito fresco, de final longo e vivo. Em termos de perfil, diria que está entre este e este.

8€.

17

sexta-feira, 23 de abril de 2010

The Wild Flower's Song

As I wander'd the forest,
The green leaves among,
I heard a Wild Flower
Singing a song.
"I slept in the earth
In the silent night,
I murmur'd my fears
And I felt delight.

In the morning I went,
As rosy as morn,
To seek for new joy;
But I met with scorn."


William Blake,
Poems From the Rossetti Manuscript (Part I),
1793-1818.


Uma nota histórica interessante: quando Elizabeth Siddal morreu, em 1862, este Manuscript acompanhou-a na sua última viagem. Foi desenterrado em 1869 . . . Dante G. Rossetti achou que valia a pena publicá-lo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Akyles '2006

Catalão, oriundo de vinhas situadas a 300m de altitude, produzido por Viñedos de Ithaca a partir das castas Garnacha Tinta (42%) e Peluda (18%), Cariñena (25%) e Cabernet Sauvignon. Fermentou, parte em inox, parte em barricas, à antiga, sem controlo de temperatura. Barricas essas onde se realizou a maloláctica do conjunto, sucedida por um ano de estágio.

Foi servido a 16ºC, após breve arejamento.

Curiosa primeira impressão, nem coberto por barrica nem objectivamente orientado para a fruta, que acaba por crescer quase sem se dar por isso, negra, madura, simples e directa, plantada em xisto, ou talvez ardósia, com toque anisado. Embora nunca exuberante, é um vinho vigoroso e persistente q.b., fácil, macio, de taninos nobres.

Gostei. Agora falta abater um Odysseus.

17€.

16

sábado, 17 de abril de 2010

Castelo Rodrigo — Touriga Nacional '2004

Consumido no mesmo dia que o do post anterior, outro varietal da Cooperativa de Castelo Rodrigo. Garrafa nº 14808 (de 27200).

Foi decantado meia hora antes de servido. Apresentou-se ao nariz com aromas de frutos silvestres, vermelhos e negros, bem maduros, mas não compotados, entremeados com sugestões vagamente florais, evocações de violetas. Fortemente terroso, com laivos ensanguentados, a barrica a pouco se fazer notar. . . como um Côte-Rôtie impossivelmente maduro. . .

Gordo q.b. na boca, apesar de o sabor ter surgido um pouco menos intenso que o prometido pelo nariz. Mais definido com o tempo de abertura, a fruta em crescendo, a culminar em belas sugestões de frutos silvestres, doces, pouco ácidos, deliciosos, que foram perdendo o brilho à medida que se mesclavam com as notas de chocolate que iam despontando.

É um Touriga diferente, agradavelmente austero. E no ponto.

5€.

16,5

terça-feira, 13 de abril de 2010

Castelo Rodrigo — Touriga Franca '2003

DOC Beira Interior, monocasta Touriga Franca da Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo, foi bebido na sequência de uma viagem recente à terra de onde é natural. Das 13600 produzidas, abri a garrafa nº 5652.

E passo a transcrever as impressões que na altura deixei no caderninho negro:

«Escuro. Neste vinho, a casta mostra-se mais abertamente doce, com a fruta a surgir mais denunciada que na generalidade dos seus (mais comuns) congéneres do Douro. É macio e equilibrado, embora se note estar a perder fulgor. Evolui para notas compotadas, à mistura com nuances de frutos secos.»

Depois da desilusão que para mim constituiu o "Colheita Seleccionada" desta Adega (também de 2003), confesso que fiquei agradavelmente surpreendido.

E ainda assim, o melhor estava para vir.

4€.

14,5

domingo, 11 de abril de 2010











sábado, 10 de abril de 2010

Montecielo — Crianza '2005

Lote de Tempranillo, Garnacha e Graciano, Rioja "Crianza" produzido pela Bodega Isidro Milagro, de Alfaro.

Cor granada.

Nariz simples, de intensidade modesta, tipicamente riojano, com a fruta, essencialmente cereja amarga, a surgir por entre notas abaunilhadas e de madeira resinosa. Juraria ter-lhe também detectado alguma ligeira forma de sugestão ferrosa, a fazer lembrar sumo de bife cru.

Boca de ataque incisivo, muito provavelmente por via da acidez. Mas, no todo, pobre e desinteressante. Parca na fruta, a madeira saliente, aparenta já ter perdido o vigor da juventude. Termina curto e taninoso.

Mudo ao segundo dia, blergh.

4€.

13

domingo, 4 de abril de 2010

Pausa — Reserva '2005

Vinho Regional Alentejano, lote de Petit Verdot, Tinta Barroca, Touriga Nacional e Tinto Cão, produzido por ILEX Vinhos na Quinta da Margalha (Gavião) — um lugar que por sinal é montes de giro, vale a pena visitar.

Dark and ripe, o nariz a fazer-se de frutos negros compotados, a ameixa em destaque, à mistura com outras sugestões vegetais, tão confusas como características de vinhos de zonas quentes e baixas. . . é redondo, de textura cremosa, volume mediano, acidez discreta, 13.5% de álcool que parecem mais, a barrica ainda bem evidente. . . só um toque de especiaria, outro de doçura. Depois cacau. Podia perdurar mais.

Correcto e previsível, faz lembrar aquelas pessoas formatadas que se compram nos supermercados. É o tipo de bebida que levaria para um jantar com aqueles amigos que não gostam (mas bebem) vinho.

10€.

16

O "Banger"

Se o merdas conseguisse bufar-se pela pila,




teria, sem dúvida, passado a vida a comer gajas.

sábado, 3 de abril de 2010

Dona Berta — Rabigato "Vinhas Velhas" '2007

Rabigato da Quinta do Carrenho — Freixo de Numão (V.N. de Foz Côa).

As uvas vieram de vinhas velhas e novas, plantadas em altitude.

Não passou por madeira.

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Amarelo (quase palha).

Flores, espargos, palha e frutos de polpa branca. Toque tropical. Despontam notas meladas com o tempo de abertura.

Vivo mas suave, mostra grande equilíbrio entre frescura e untuosidade. Nem doce nem amargo, sabe ao que cheira. Termina longo e mineral.

13€.

17