segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Alain Graillot — Crozes Hermitage "La Guiraude" '2005

Sobre o produtor, um bom pedaço de informação aqui.

Típico Syrah carnento do norte do Ródano, integra em estranho equilíbrio terra, bosque e frutos vermelhos, azeitona parda, pimenta e um vago sem-fim de outras especiarias.

No palato, cerejas amargas e acidez definem um todo de estrutura considerável, longo e fresco, agradável, apesar dos taninos ainda muito pronunciados.

Aparenta ter potencial. Aliás, mesmo no momento presente, a uns três ou quatro anos do seu melhor, embora difícil, já tem o seu quê de gratificante.

Ligou muito bem com um conjunto baseado em perna de cabrito assada.

35€.

17

domingo, 30 de Maio de 2010

Sorvete de Melancia e Groselha

Ingredientes:

1,2Kg de melancia, descascada e sem pevides;
150g de açúcar;
100ml de água;
4 colheres (de sopa) de xarope de groselha;
3 colheres (de sopa) de sumo de limão;
2 folhas de hortelã-pimenta (Mentha × piperita) fresca;




Preparação:

Dissolver o açúcar na água e juntar as folhas de hortelã. Aquecer a mistura em lume brando até ter fervido 3 minutos. Adicionar o sumo de limão e o xarope de groselha. Desligar o lume. Remover as folhas. Juntar o preparado à melancia. Triturar. Deixar arrefecer à temperatura ambiente e levar ao congelador até cristalizar.

Terras do Suão — Reserva '2007

Alentejano da zona de Mourão, produzido pela Coop. Agrícola de Granja.

Sobre as castas que o compõem, respectivo processo de vinificação e tempo e natureza do estágio a que terá sido submetido, nem uma palavra.

Mais simples e menos concentrado que o esperado, a fazer lembrar, por esta ordem, frutos pretos bem maduros, com uma mão cheia de sugestões compotadas pelo meio, passas e ligeiras notas de especiarias, tosta, café e chocolate, num conjunto curto, de índole cálida, razoavelmente polido e equilibrado, mais que pronto a beber.

Aliás, perturbadoramente similar a este, não obstante os seis anos de diferença...

4€.

14,5

sábado, 29 de Maio de 2010

quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Couteiro-Mor — Colheita Seleccionada '2008

Proveniente da zona de Montemor-o-Novo, este vinho foi feito a partir das castas Aragonês, Trincadeira e Castelão. Estagiaram-no durante 4 meses em barricas de carvalho francês.

O produtor tem presença na internet.

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Cor rubi, escura e concentrada. De porte e comprimento médios, é um vinho de razoável profundidade, cálido, maduro e untuoso, muito frutado e envolvente. Alentejano de perfil moderno, dá bastante prazer agora, embora se possa guardar alguns anos.

3,50€.

15

terça-feira, 25 de Maio de 2010

Quinta de Foz de Arouce — Vinhas de Santa Maria '2001

Do contra-rótulo:

A designação "Vinhas de Santa Maria" tem origem não só nas lendas e na religiosidade do Povo, mas também na extraordinária qualidade dos vinhos produzidos na região e que a Condessa de Foz de Arouce tão bem exaltou nestes versos:

"Nossa Senhora fez vinho, / Com uvas de Foz de Arouce. / Pô-lo numa cantarinha, / E a cantarinha quebrou-se.

Ficou triste a Nossa Mãe, / E chorou bem de mansinho. / Mas Jesus por lhe querer bem, / Do seu pranto fez mais vinho.

Comeu o Pão a Senhora, / E bebeu da cantarinha. / E a partir d'aquela hora, / Do Pão e Vinho é Rainha."

O produtor tem página web.

Baga de vinhas velhas, com mais de 50 anos, é um vinho maduro e concentrado, repleto de fruta espessa, cereja e ameixa, doce, profunda, bem combinada com excelente tosta das barricas onde estagiou e sugestões várias de terra negra e couro, tabaco e especiarias. Longo e encorpado, muito saboroso, possui uma bela estrutura de taninos, firmes mas sedosos, finamente conjugados com óptima acidez.

Jovem, está tão vigoroso quanto equilibrado: muito bom, sem dúvida. E pode ser que ainda cresça. . .

30€.

18

domingo, 23 de Maio de 2010

Reguengos — Reserva '2007

Alentejano (DOC) da Coop. Agrícola de Reguengos de Monsaraz.

Feito a partir das castas Aragonês, Trincadeira, Alicante Bouschet e Tinta Caiada. As uvas foram desengaçadas e fermentadas por acção de leveduras seleccionadas, a temperatura controlada, com curtimenta de 15 dias. Parte do vinho resultante estagiou em depósitos durante um a dois anos, tendo o restante passado 12 meses em barricas de carvalho português e francês.

Cor rubi. Ao mesmo tempo firme e macio, razoavelmente encorpado, surgiu-me mais fresco e objectivamente frutado que os precedentes '2005 e '2006. Fruta negra, madura, quase sumarenta, acompanhada de difusas notas de baunilha e outras especiarias. Madeira na conta certa: presente, mas não impositiva. Sugestões ensanguentadas no fim de boca, de comprimento suficiente.

Surpreendentemente bom.

4€.

16

sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Filmes (17)





Zombies templários, votados a Satanás, que saem à noite para caçar. Cegos, que os corvos comeram-lhes os olhos. Ali ao pé da fronteira, no Guadiana. Medo, iá.

quinta-feira, 20 de Maio de 2010

Domaine Bonnard — Sancerre '2007

Branco, monocasta Sauvignon Blanc, proveniente do centro de França, mais especificamente do nordeste do Vale do Loire, da região de Sancerre, que se situa na margem esquerda do rio, nas imediações da cidade com o mesmo nome, e que, juntamente com Pouilly Fumé, na margem direita, de onde veio, por exemplo, este formoso exemplar, recentemente provado, constituem a zona usualmente designada por Loire Superior.

Cor citrina, clara. Apresentou-se ao nariz com delicadas notas florais, brancas, a comporem um núcleo essencialmente vegetal, pouco ou nada doce, que ia emanando copiosas sugestões de espargo, limonete e pomelo. Na boca mostrou-se polido e muito fresco, com bom volume e um final mediano.

Bebi-o a acompanhar um bloco de foie gras, em jeito de lanche.

12€.

15,5

quarta-feira, 19 de Maio de 2010

Terras do Pó '2008

Vinho Regional das Terras do Sado, produzido pela Casa Ermelinda Freitas.

Maioritariamente composto por Castelão proveniente de vinhas implantadas no solo arenoso de Fernando Pó, levou, desta vez, um ligeiro "tempero" de Touriga Nacional e Syrah. Fermentou a temperatura controlada, em cubas-lagar de inox, com prolongada maceração pelicular. Estagiou durante 4 meses em meias pipas de carvalho francês.

Cor rubi. Muito jovem, vinoso, com travo adocicado. De perfil praticamente idêntico ao do ano anterior, talvez um pouco mais focado na fruta, porventura um pouco menos estruturado.

É um vinho fácil e simpático, "para relaxar" — recentemente, após um dia cansativo, enquanto via TV e ia trincando rodelitas de fuet com pão de Rio Maior, acabei por beber uma garrafa inteira, quase sem dar por isso.

4€.

14,5

terça-feira, 18 de Maio de 2010

D'Avillez — Grande Escolha '2005

Alentejano de Portalegre, lote de Trincadeira, Aragonês e Alicante Bouschet, produzido na Herdade dos Muachos.

Do mesmo produtor, já por cá passaram este e este.

Intenso e taninoso, profundo na fruta, marcadamente maduro e amadeirado, mas portador de uma dose de frescura que não o deixa tornar-se chocho. Corpo e persistência razoáveis. Precisa de tempo de garrafa para se integrar.

10€.

15,5


E agora, porque me perturba a ideia de o texto não possuir volume suficiente para acompanhar as dimensões da fotografia, é impensável redimensionar o que quer que seja e também não tenho nada a acrescentar ao post, não me apetece estar a debitar "palha" sobre Jorge d'Avillez, o Alto Alentejo e decisões comerciais, vou limitar-me a repetir a frase com que comecei, mas desta vez em código hexadecimal, só para encher.

41 6c 65 6e 74 65 6a 61 6e 6f 20 64 65 20 50 6f 72 74 61 6c 65 67 72 65 2c 20 6c 6f 74 65 20 64 65 20 54 72 69 6e 63 61 64 65 69 72 61 2c 20 41 72 61 67 6f 6e ea 73 20 65 20 41 6c 69 63 61 6e 74 65 20 42 6f 75 73 63 68 65 74 2c 20 70 72 6f 64 75 7a 69 64 6f 20 6e 61 20 48 65 72 64 61 64 65 20 64 6f 73 20 4d 75 61 63 68 6f 73 2e

Pronto.

segunda-feira, 17 de Maio de 2010

Cimarosa — Cabernet Sauvignon '2009

Chileno, varietal Cabernet Sauvignon da colheita de 2009. O rótulo refere que provém do Valle Central daquele país, o que, dada a extrema pequenez do dito, sem dúvida constitui uma fiável indicação de origem.

Endossa-nos ainda para a página do distribuidor, que acaba por se mostrar, essencialmente, uma apresentação publicitária, sem qualquer tipo de informação útil a respeito dos vinhos que comercializa.

Quanto ao conteúdo da garrafa, vedado com tampa de rosca, é curto e simples, mas sem defeito. Antes de tudo o mais, percebe-se ser um Cabernet jovem do Novo Mundo. De resto, tem algum corpo e taninos, é macio e apresenta um equilíbrio satisfatório entre fruta e vegetal, álcool e acidez.

Dado o estilo "fácil", bebe-se bem sozinho.

2€.

14

sábado, 15 de Maio de 2010

Velharias (22)

Mais um sobrevivente do holocausto digital que vitimou o velhinho R7. . .




3:38 A.M.

Reflectir de madrugada: olhar para o tecto durante uma hora, analisar o relógio do Windows por uns minutos, enrolar um cigarro de haxixe e fumá-lo na varanda, olhar novamente para o tecto, reiniciar o ciclo. Apontar os resultados.



4:05 A.M.

O pobre pequeno Jorge ficou sozinho e está muito triste, lol.

Originalmente uma contracção de loughing out loud, lol, a palavra-blend, cresceu. Já não significa, necessariamente, um riso daqueles... que se escrevem LOOOL! — ponto de exclamação incluído. Pode ser qualquer riso ou sorriso. Pode ser uma pausa. Um encolher de ombros, um piscar de olhos. Fácil de utilizar, ainda mais fácil de compreender. Só quem nunca perdeu horas em salas de chat poderá duvidar das tremendas possibilidades expressivas deste vocábulo. Palavra-blend, a porra. Portmanteau de pleno direito, este menino bonito da geração sms.

Naaaaaay... não acredito que isto baste para deixar Carrol às voltas no caixão. O homem deve ter-se resignado há muito. Anda por aí bem mais gente a lolar do que a ler a Alice... :)

O pessoal já não lê contos de fadas, apesar de actualmente se consumirem mais cogumelos do que em qualquer outra altura. Agora, o pessoal reclama o direito de construir o seu próprio maravilhoso — sexo fútil, beijinhos bonitos, cházinhos, esplanadas.

Somos todos uns tolinhos.

Hoje, a bacana que me aturou online nos últimos dias resolveu dormir. É nestas alturas que blogo. Filho de má mãe, este coiso — já viram?!

Estas cenas todas que aqui vêem não passam de repetições de um único lugar-comum, dizem as más línguas. Que no entanto, se recusam a tratá-lo pelo nome.

Sim, sim... alguém me picou, e não foi uma "ela". Salvo raras excepções, os jornalistas ganham mal. Ainda bem. Tivessem os ditos uma bolsa à dimensão dos seus egos... e estava tudo fodido.



5:27 A.M.

Que fastio, ai.

Dizem que a droga nos impede de ver o mundo. Não. A droga não mostra nem esconde nada. Só que para nós, tudo é mentira.

Um filme. Francês. De Balasko. Com Victoria Abril. "Gazon Maudit". "French Twist" para os anglófonos. Para nós, portugueses, não é coisa nenhuma. Fica o desafio para a malta intelectual que organiza ciclos de cinema e afins: incluam este bichinho em alguma das vossas mostras. Qualquer uma: a menina Abril, nua, fica bem em qualquer lado. E chamem-lhe, mesmo, (a) "Rata Maldita".



6:12 A.M.

ICQ Search — What you see is what you get!

Olho para ela — a janela! — e só vejo publicidade. É nisto que a web se está a tornar: um reclame global, cada vez mais lento e cheio de bugs.

É nisto que a web se tem vindo a tornar há anos, e ainda ninguém morreu por isso. Relaxemos, portanto.

De vez em quando, a blogoesfera torna-se campo de batalha. E quando os "grandes" se degladiam, quanto sangue, quantas tripas... No fim, desculpam-se sempre. Nunca ficou por dizer que esta coisa dos blogues é uma "brincadeira"... Será que necessitam de descer assim tão baixo para se convencerem a si próprios de que são respeitáveis? Poblecitos.



7:48 A.M.

Diz o Puto Maluko que "se o jornalista fosse um animal... era uma hiena". Discordo. Seria, isso sim e sem sombra de dúvida, um chacal.

Lucia Joyce nasceu em Trieste, a 26 de Julho de 1907. Era filha de James Joyce, bonita, e também esquizofrénica. Em Outubro de 1934, escrevia ao pai nos seguintes termos:

"Father, if ever I take a fancy to anybody I swear to you on the head of Jesus that it will not be because I am not fond of you. Do not forget that. I don't really know what I am writing Father. At Prangins I saw a number of artists, especially women who seemed to me all very hysterical. Am I to turn out like them? No, it would be better to sell shoes if that can be done with simplicity and truth. And besides, I don't know whether all this I am writing means anything to you."

A fragilidade merece uma flor: qual a sua razão de ser, se não pudermos acariciá-la?

Beauty can only be kissed (reprise)

Porra para as gajas, e mais não digo. Vou dormir. Bom dia!


9/Jun/2004

sexta-feira, 14 de Maio de 2010

Colares Chitas (Branco) '1992

"Branco Velho" da Região Demarcada de Colares, foi produzido por António Bernardino Paulo da Silva a partir de uvas das castas Malvasia, Arinto e D. Branca, provenientes de cepas implantadas em chão de areia.

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Cor palha, a escurecer com a exposição ao ar. De cheiros, evocou canela, açúcar mascavado, abacate com Porto ordinário, passas, iodo, malte. . . Um conjunto diferente, muito interessante, embora nunca o tenha conseguido considerar propriamente apelativo.

Na boca apareceu surpreendentemente mineral, polido, magro e vazio, quase sem fruta, com a acidez, no entanto, a transmitir-lhe ainda alguma vivacidade, a suficiente para se ir prolongando mais e mais, quem diria?, num belo fim de boca.

14€.

16

quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Quinta do Mondego '2006

Lote de Alfrocheiro, Jaen, Tinta Roriz e Touriga Nacional, foi fermentado em inox e estagiado em barricas usadas de carvalho francês.

O produtor tem um projecto de blog.

Arejou durante mais ou menos uma hora antes de ser servido a 18ºC.

Cor rubi. Boa barrica, bem integrada. No entanto, é a fruta, a fazer lembrar ameixas e cerejas e os respectivos caroços, com notas de compota e licor, que dá forma a um todo de porte mediano e recorte moderno, fresco, globalmente equilibrado e bastante amigo da mesa, que apenas peca pela ligeira rusticidade que lhe é transmitida pela presença de um ou outro tanino rebelde.

6€.

15

terça-feira, 11 de Maio de 2010

Mushrooms

Overnight, very
Whitely, discreetly,
Very quietly

Our toes, our noses
Take hold on the loam,
Acquire the air.

Nobody sees us,
Stops us, betrays us;
The small grains make room.

Soft fists insist on
Heaving the needles,
The leafy bedding,

Even the paving.
Our hammers, our rams,
Earless and eyeless,

Perfectly voiceless,
Widen the crannies,
Shoulder through holes. We

Diet on water,
On crumbs of shadow,
Bland-mannered, asking

Little or nothing.
So many of us!
So many of us!

We are shelves, we are
Tables, we are meek,
We are edible,

Nudgers and shovers
In spite of ourselves.
Our kind multiplies:

We shall by morning
Inherit the earth.
Our foot's in the door.


Sylvia Plath; 13/Nov/'59

domingo, 9 de Maio de 2010

Quinta do Vale Meão — Vintage '2007

O produtor dispensa apresentações.

Retinto. Jovem mas desde já francamente harmonioso, tenso, de taninos finos e firmes, muito longo e opulento, embora relativamente comedido na doçura e dotado de distintivo traço herbáceo, de acidez.

É um belo Vintage, muito provavelmente o melhor que alguma vez terá saído da Quinta.

Beba-se agora. . . ou daqui a pelo menos dez anos.

35€.

18

sexta-feira, 7 de Maio de 2010

poesia? de inverno

Às vezes ainda preciso destas manhãs de escrita. Esgravatar: cortar, colar, fingir que crio, sei lá. Às vezes, ainda me dá para isto.


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Foi-se C, caminho agora sem destino à beira-rio. Afinal, tudo, na cidade de ninguém. E vou recordando devagarinho, sem descolar os olhos do chão, sem risos nem passos forçados, alheio às famílias de princípio de tarde que comigo partilham o madeirame do passeio. Contra a água, a sombra das pedras arrasta-me para outro tempo e outro lugar, para algo que vivi. E fazem-me querer chorar, mas não consigo.


Noite
sem lua
húmida
nevoeiros localizados
luzes perfeitas
almas desfeitas
corpos consumidos
percorridos ao largo por carros
vazios
para mim, breves traços
luminosos ecos que rasgam a escuridão
por onde vagam almas
perdidas
ansiosas por fazer ouvir os seus gritos
evocando chamas
estrelas
restos de céu
linhas direitas
cinzas
de sonhos teus e meus
é noite e vaga C
sozinha
pela encosta do burgo acima
escondida das palavras mal entendidas
entra num café onde a não aguardo
e os nossos olhos tocam-se
pinta minha noite com duas palavras apenas
e sai tão fugazmente como chegou
qual enguia, desliza
para o frio da noite lá fora
chuvisca
escorre
volta
novos desejos anseia
enredos
novelos
mordaz e percuciente
sempre ciente
de falsas certezas
vidente
donzela imaculada de birras e ares
adivinhará quem lhe mente?
tanto faz
saio
entro
subo
em casa prepara-se o remédio segundo a prescrição antiga
uma linha de pó castanho e água
transparente
como o vidro quebrado
diante de nós
espraiado
o reflexo retorcido de toda uma geração
de sonhos perdidos
de redundâncias
de frustrações
mágoas, traições
pois sejamos y! —
destruamos o paraíso com um simples click
destruamo-lo em nome do amor
apaguemos a luz da vida
mais ainda
mais ainda que o sal das lágrimas que há muito saboreamos
no escuro
enquanto esperamos
em silêncio
e pensamos
penso
procuro pensar
e sinto que já nada sei
que aquilo que sinto
por maior que seja
de nada passa também
sonhar?
os sonhos são rascunhos de caminhos futuros
com que semeamos dia após dia
a incerteza de bem querer
amemo-los, não os possuamos
que só se pode amar aquilo que se não tem
ouvem-se passos

volta C
abre a porta
passa
surge vulto negro
urde teias
meias de seda em pezinhos de lã
perde-se por momentos contra a parede, agora em silêncio
devolve-me a mirada brilhante
lacrimosa
vai-te C,
fecha meus olhos para te não ver
discreta carícia que não se sente
docemente
traga-me a morte um instante
seja ele de teus olhos feito
infinitamente distante
mais passado que presente
talvez
mas por ora
livra-me Deus do amargor
de ver outros à tua roda
e torno ao meu canto
sozinho
sombrio
odeio
odeio tudo
e rio-me.

12/3/2004


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Rio-me. Satanice estouvada, já a estou a imaginar, delfim do mal a cavalgar as trevas, sangue, dores, carvão, a espalhar o desespero, a espelhar o desespero, a morte, Jesus!

E mais loguito, enfim, voltar ao mundinho da vidinha e ir trabalhar.

terça-feira, 4 de Maio de 2010

J. L. Chave Sélection — Mon Coeur '2007

Lote de Grenache e Syrah, este Côtes du Rhône nasceu de uma parceria entre Jean Louis Chave, mais conhecido pelos afamados Hermitage da sua família, e Eddie Gelsman.

Muito resumidamente, a ideia por detrás do projecto terá sido a seguinte: antes de tudo o mais, encontrar pequenos produtores na (vasta) região (do Ródano) que cultivassem e vinificassem segundo certos princípios orientadores, afins aos que o próprio J. L. Chave aplica na produção dos seus vinhos: agricultura orgânica, baixas produções e, mais que apenas respeito, enfoque na tipicidade regional. . .

Depois, localizados esses domaines — e foram quatro: em Visan, Buisson, Vinsobres e Estézargues — tratar de negociar acordos com os seus proprietários, de forma a poder acompanhar a maturação das uvas e produção dos respectivos vinhos, comprá-los, estagiá-los nas suas caves de Mauves, loteá-los (os Chave são conhecidos pela finura com que loteiam) e, por fim, vendê-los como J. L. Chave "Sélection".

Daqui se percebe facilmente que, sendo este Mon Coeur um vinho "de négociant" na mais estrita acepção do termo, é também um vinho que se quer típico e bom; acima de tudo, que seja capaz de reflectir a terra que lhe deu origem.

Que lengalenga, hein?

O vinho foi arejado (para aí) duas horas antes de servido, mais ou menos a 16ºC. Violáceo no copo, trouxe consigo aromas que faziam lembrar amora preta e cereja, fruta limpa e doce, de concentração suficiente, mas nem um pouco mais que isso. . . azeitona preta, a ponta de acidez. . . ligeira especiaria, indefinida, os apimentados quentes e acres, tão característicos dos vinhos do Norte do Ródano, talvez com notas de cravo à mistura, talvez de mato seco. . . e, claro, o toque carnoso típico do Syrah plantado em zona fria. Verde, neste, não vi.

Na boca, o prolongamento natural da prova de nariz, sem surpresas. Corpo mediano, com bom peso e textura, consistente na fruta, fresco, fino, muito agradável, a deixar a ideia de ainda poder vir a melhorar na garrafa, embora um tanto ou quanto curto. No todo, pareceu-me um vinho típico e completo, embora longe de impressionante.

10€.

17

segunda-feira, 3 de Maio de 2010

Soulwax — Any Minute Now



#1, E Talking.

domingo, 2 de Maio de 2010

Quinta da Rigodeira '2005

Bairrada DOC, varietal Baga proveniente de cepas com uma idade média de 15 anos, implantadas no solo argilo-calcário da região de Ancas, concelho de Anadia. Estagiou "cerca de 6 meses" em barricas de carvalho francês e russo.

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Aberto e vertido, servido a 17ºC.

Notei que imperava a fruta, madura, complementada por boas notas balsâmicas e especiadas, num todo intenso e razoavelmente volumoso, de boa persistência. Notoriamente Baga, notoriamente Bairrada, mas surpreendentemente acessível, dotado de um cativante lado cordato, de macieza. Muito interessante.

5€.

16