domingo, 29 de agosto de 2010

Quinta do Crasto — Reserva "Vinhas Velhas" '2005

Provém de típicas vinhas velhas durienses, compostas por várias castas misturadas, dizem que à volta de 35!, plantadas em socalcos. Após desengaçe total e ligeiro esmagamento, o mosto fermentou em cubas de aço inox, a temperatura controlada, tendo o vinho resultante estagiado durante 18 meses em carvalho francês (85%) e americano — dados retirados da ficha técnica. Em 2008, ficou em terceiro lugar do Top 100 anual da Wine Spectator, e por isso foi notícia.

Denso, mas não mastigável. Começou um tanto mudo, a pedir ar. Depois foi-se abrindo em notas bem maduras de frutos negros levemente fumados, chocolate amargo, sangue e lagar de azeite, folha de tabaco, alcatrão e café. Complexidade decente, evolução interessante. Firme e austero na passagem pela boca, sem ponta de doce, a evocar cacau apimentado, conseguiu deixar aquela sensação de robustez terrosa que tira a um gajo qualquer dúvida em como estará vivo e bom daqui a dez anos. Ténue quentura alcoólica: vinho de Inverno. Coeso, longo e equilibrado q.b. — tem tudo para poder vir a ser exemplar, mas aparenta ainda não estar no ponto. E daí, será que...? Heh.

25€.

17

sábado, 28 de agosto de 2010

Solidão

Para quê um ai
Se logo se esvai
Na imensidão?
Se ninguém o ouve
P'ra me dar a mão?
Para quê um ai
Se no abismo cai
Desta solidão?...



JP, 'n Violeta

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Désiré Cordier — Collection Privée Bordeaux '2003

Bordalês produzido pelo gigante Cordier Mestrezat. Para além de montes de tretas de marketing, pouco dizem sobre ele: de concreto, apenas que foi feito com Merlot e Cabernet Sauvignon. Como curiosidade, refira-se que está disponível em pacotes Tetra Pak de 25cl, ideais para as crianças levarem para a escola.

Típico nariz da região, muito Merlot, ainda com um componente primário decente, a incidir sobretudo em flores e frutos vermelhos, temperado pelo verdum/castanhum vegeto-especiado que usualmente se associa à casta (com alguma garrafa).

Apesar de curto e um tanto brando, revelou um sabor bastante apelativo. Não se poderá considerar um exemplo de vivacidade, mas possui acidez suficiente. Aliás, não se poderá considerar um exemplo no que quer que seja, mas continua agradável, a dar um cheirinho de Bordéus, depois de ter vivido sete anos. Definitivamente, não se lhe pode pedir mais.

Aguentou bem um prato de bacalhau à Gomes de Sá.

5€.

14

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Antiphon for Evariste Galois

Until the sun I have no time

But the flash of thought is like the sun

Sudden, absolute:

Watch at the desk, through the window raised on the flawless dark,
The hand that trembles in the light,
Lucid, sudden.

Until the sun I have no time

The image is swift,
Without recall, but the mind holds
To the form of thought, its shape of sense
Coherent to an unknown time


I have no time and wholly my risk
Is out of time; I have no time,
I cry to you I have no time


Watch. This light is like the sun
Illumining grass, seacoast, this death


I have no time. Be thou my time.


Carol C. Drake, 1957

Poças — Tawny 10 Anos

Da Manoel D. Poças Júnior (link). Foi obtido pela lotação de vinhos de diferentes colheitas, envelhecidos em casco e cuja média de idades é a apresentada no rótulo.

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Engarrafado em 1995! De cor ambarina, com reflexos acastanhados. Intensamente melado e repleto de sugestões de frutos secos e caramelos de nata, apresentou alguma calidez e um peso glicérico considerável.

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Em tudo similar a qualquer "dez anos" do seu naipe, embora tornado mais bombom, mas também menos fresco, consideravelmente mais flat pela longa permanência em garrafa, não sei em que condições de guarda. De qualquer forma, a comparar com um tawny afim de engarrafamento recente, não perde assim tanto.

Trouxe-o de casa de A.

15,5

domingo, 22 de agosto de 2010

Quinta dos Roques '2005

50% Touriga Nacional, 25% Jaen, 20% Alfrocheiro e 5% Tinta Roriz. Fermentou em cuba de inox e estagiou durante um ano em barricas usadas. O produtor tem um sítio electrónico deveras aprazível.

Cor rubi. O aroma faz lembrar frutos negros, compota de ameixa, cedro, caruma, talvez tabaco. Simples, agradável, pede algum arejamento. Na boca apresenta corpo médio/baixo, já bem macio, de acidez correcta, com um bocadinho de álcool solto. Sabor seco, ligeiramente frutado, concordante com a prova de nariz e pouco persistente. Ainda não tão evoluído quanto aparenta poder vir a ser, é boa companhia para pratos de carnes brancas.

6,50€.

15

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Millionaire's Shortbread

1. Base:

230g de farinha de trigo, sem fermento,
75g de açúcar amarelo,
150g de manteiga.

No robot de cozinha, coloca-se a farinha, o açúcar e a manteiga, à temperatura ambiente, cortada em pequenos pedaços. Deixa-se bater até que a massa se separe das paredes do recipiente de processamento.

Com a massa resultante, cobre-se o fundo de um tabuleiro com cerca de 30cm de lado. Pica-se com um garfo e leva-se ao forno pré-aquecido a 210ºC, até começar a dourar (cerca de 20min). Retira-se e deixa-se arrefecer.


2. Recheio:

100g de açúcar amarelo,
100g de manteiga,
400g de leite condensado.

Num tacho, coloca-se o açúcar e aquece-se até começar a derreter. Junta-se a manteiga, mexendo sempre. Adiciona-se o leite condensado e espera-se que espesse até atingir o ponto dito de espadana, o que acontecerá quando a temperatura for de cerca de 120ºC. Verte-se sobre a base e deixa-se arrefecer.


3. Cobertura:

200g de chocolate preto (usei um com 55% de cacau) em barra,
2 colheres (de sopa) de natas.

Derrete-se o chocolate juntamente com as natas, no micro-ondas ou em banho-maria. Usa-se para cobrir as demais camadas.

Por fim, leva-se ao frigorífico por umas horas, de modo a endurecer, antes de se cortar em pequenas porções. Para esse efeito, convém utilizar-se uma faca passada por água quente.


É um snack/sobremesa de sabor cálido e opulento, surpreentemente equilibrado (o chocolate preto desenjoa), que vai bem com Porto Tawny.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Dorna Velha — Tinta Roriz '2004

Tinta Roriz do Cima Corgo, produzido pela Quinta do Silval. Não passou por madeira — estagiou durante 12 meses em cuba antes de engarrafado.

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Simples, com alguma evolução. Ameixa madura, negra, carregada, permeada com ligeiras notas de compota e drops de frutos silvestres, etanol puro e agulhas de pinheiro são alguns dos traços que caracterizam um conjunto polido pela idade, de corpo e persistência médios, quiçá demasiado marcado pelo álcool.

Ainda é interessante, mas talvez tivesse sido melhor bebê-lo há dois anos atrás.

Para pratos simples e pouco gordos.

5€.

14,5

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Filmes (20)

Paroxismus (Venus in Furs)



Adega de Penalva — Jaen '2005

Varietal Jaen da Adega Coop. de Penalva do Castelo. Sobre a casta, vale a pena ler este artigo. Segundo dados fornecidos pelo produtor, terá sido fermentado por acção de leveduras seleccionadas, com longas macerações a temperatura controlada, e posteriormente envelhecido durante 10 meses em barricas novas de carvalho francês.

Vermelho cereja de concentração mediana. No nariz, notas de caruma, pinho, menta e bergamota juntam-se a um pouco de fruto seco num conjunto que faz lembrar um Touriga Nacional evoluído, só que mais suave.

Aqui, a fruta não é soberana. Adensa-se qualquer coisa com o arejamento, é certo, mas nunca deixa de surgir em jeito de tempero.

Perdura razoavelmente na boca, seco especiado fino e fresco, com alguma textura, prolongamento natural do nariz. O fundo, o pós-gosto, traz vagas reminiscências de nozes e pinhões. Em suma, é um vinho coeso, agradável, muito gastronómico e, talvez ainda mais importante, original.

6,50€.

15,5

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Matua Valley — Pinot Noir '2007

Neozelandês de Marlborough, produzido pela Matua Valley Wines. Fermentou em cuba aberta e barricas de carvalho francês, onde posteriormente estagiou durante 5 meses.

À vista, apresenta o rosado esmaecido típico da casta. No nariz, bouquet fino, frutos vermelhos, flores e sugestões herbáceas, talvez também ligeiramente terrosas. Contido na fruta, na madurez, com vagos apontamentos de carne. Na boca é razoavelmente preciso e bem proporcionado, nada doce, cremoso, com algum corpo e excelente acidez. Não tem a elegância dos mais etéreos borgonheses, mas cumpre bem.

É um vinho do Novo Mundo, Pinot barato que vem vedado com tampa de rosca. Predicados suficientes para fazer alguns mijar vinagre, só de olharem para a garrafa. A esses, conselho amigo: deixem de ser parvos.

Fez boa companhia ao tagine de frango que a Mi preparou com estes maravilhosos limões de conserva, mas também não se teria batido mal com um risotto de cogumelos ou uma salada destas.

10€.

16

domingo, 15 de agosto de 2010

Vale d'Algares — Selection '2009 (Branco)

Outra das mais recentes propostas da vinícola Vale d'Algares.

Feito com Viognier (55%), Alvarinho (30%) e Verdelho. As uvas foram prensadas com engaço, tendo fermentado o mosto em barricas de carvalho francês (90%) e inox. Estagiou durante 6 meses em barricas de carvalho francês, com bâtonnage.

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Entrará na categoria daqueles a que chamo cítricos tropicais — tem a acidez da carambola e cheiros a flores e pêssego sobre um fundo que faz lembrar maracujá diluído. A barrica, bem medida, a fazer lembrar baunilha, está mais perceptível ao nariz que no paladar, cremoso e encorpado, a acidez elevada a ver-se compensada pela sua boa estrutura. Moderadamente longo, termina com agradáveis sugestões de menta.

PVP recomendado: 9,95€.

16,5

sábado, 14 de agosto de 2010

Monte Ducay — Crianza '2007

Este vem de Aragão, mais especificamente da D. O. Cariñena. Tempranillo, Garnacha e Syrah com 10 meses de estágio em barricas de carvalho americano, foi produzido pelas bodegas Gran Ducay.

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Rubi, avermelhado. Fodidamente resinoso de início, precisa de tempo no copo para revelar a fruta, madura, simples mas expressiva. Na boca é macio e encorpado, de sabor robusto, com os taninos bem integrados. Bebi-o a acompanhar alheiras de caça e pão — cumpriu mais que bem.

Para o preço, 1,75€, é impressionante.

14,5

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Håkon Anda (2194) — J. Prata (2026)
LSS Cat. A, 2009


antes de tudo o mais, uma palavra de apreço pelo meu adversário, melhor jogador que eu e uma das pessoas mais agradáveis com que alguma vez me cruzei nestas lides do xadrez.

1. Cc3 d5 2. f4 Cf6 3. e3 g6 4. Cf3 Bg7 5. Ce5

para causar desconforto. mais habitual é 5. b3 O-O 6. Bb2 c5 7. Ce2 Cc6 ou 5. d4 O-O 6. Bd3 c5 7. O-O Cc6

5... O-O 6. d4 c5 7. g4


:(
Be2

7... Cc6 8. g5 Ce4 9. Cxe4 dxe4 10. c3 Cxe5 11. fxe5 a6

Rybka 4 prefere o feio 11... Be6

12. h4 Bf5 13. h5


:o

13... Dd7 14. Dc2

14. hxg6 hxg6 15. Dc2 Tfc8 16. Dh2 b5, lolwut?

14... Tfc8 15. hxg6 hxg6 16. Dh2 b5 17. Bd2 cxd4 18. exd4 b4 19. Be2?!


19.Df4


19... e3 20. Bxe3 bxc3 21. b3

e não 21. bxc3 Txc3, ready to uff.

21... a5

:)
21... c2 leva com a tampa 22. Bc4

22. Tc1 a4


23. Bc4 axb3 24. axb3 c2 25. Dg2 Ta2 26. Rf2 e6 27. Th4 Tb2 28. Dh2 Da7 29. Rf3 Tb8 30. Th1


tipo canhão de Alekhine — mas pior.

30... Rf8 31. Bc1 Tb1 32. Df4 Db7+

com calma, que 32... T8xb3+ 33. Bxb3 Txb3+ 34. Rf2=

33. Rg3 Ta8 34. Te1 Taa1 35. Dd2 Rg8 36. Rf2


ideia: manter a fortaleza com jogadas inócuas, esperar que não me ocorra nada. mas. . .

36... Da8

como quem joga Da7 com espera (zug' ao contrário) :>

37. b4 Da7 0-1


as brancas abandonam. demonstrar a vitória negra poderá considerar-se uma espécie de exercício, haja alguém interessado.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Terras de Bárrios — Reserva '2006

Bairradino, produzido pela Adega Coop. de Vilarinho do Bairro com Baga e Castelão. Fermentado em depósitos de aço, fez a maloláctica em barricas de carvalho antes de regressar ao inox, onde estagiou durante um ano.

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Cor puxada para o granada, de concentração modesta. Jovem, com curiosas notas de maçã verde e resina a despontar por entre sugestões de frutos vermelhos, por vezes estranhamente doces.

Na boca destaca-se a acidez, talvez excessiva para a estrutura que a integra. Curto e já razoavelmente polido, de sabor agradável, é um vinho simples mas original.

Melhor à mesa.

4€.

14

Guarda Rios '2009 (Branco)

Mais uma novidade da Adega Vale d'Algares. Chardonnay (35%), Sauvignon Blanc (25%), Alvarinho (25%) e Arinto. Fermentou em inox e barricas de carvalho francês.

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Tenso, de acidez incisiva. O nariz é doce, tropical temperado por notas cítricas, a fazer lembrar toranja, maracujá e Tang de ananás. A boca é vivaça, fresca, longa, com alguma textura. Muito gira. Conjunto harmonioso, ainda que por contraste.

PVP recomendado: 6,75€.

16

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ode to LA while thinking of Brain Jones, Deceased



LAmerica
Cold treatment of our empress
LAmerica
The Transient Universe
LAmerica
Instant communion and
communication

lamerica
emeralds in glass
lamerica
searchlights at twi-light
lamerica
stoned streets in the pale dawn
lamerica
robed in exile
lamerica
awift beat of pround heart
lamerica
eyes like twenty
lamerica
swift dream
lamerica
frozen heart
lamerica
soldiers doom
lamerica
clouds & strugles
lamerica
Nighthawk
lamerica
doomed from the start
lamerica
"That's how I met her
lamerica
lonely & frozen
lamerica
& sullen, yes
lamerica
right from the start"

Then stop.
Go.
The wilderness between.
Go around the march.



in
Wilderness: The Lost Writings of Jim Morrison;
Vintage, 1989

domingo, 8 de agosto de 2010

Monte da Ravasqueira — Vinha das Romãs '2006

Syrah, Touriga Nacional, Touriga Franca e Alicante Bouschet. Fermentou em lagares e estagiou durante 9 meses em carvalho francês.

Rubi retinto,

Cheio de fruta madura, negra, parcialmente compotada, mesclada com excelente barrica, notas de baunilha doce; também algum cacau, que cresce com o tempo de abertura — tudo bonito, envolvente e equilibrado,

Equilíbrio esse que se consegue manter ao longo da passagem pela boca, longa, cheia, redonda, muito saborosa, de frescor decente, ainda um pouco taninosa no final.

Tem muita vida pela frente (porra, ainda é novo, já andar uma colheita de 2008 à venda não tem nada a ver), mas atravessa um belo momento. . . poderá melhorar? Por via das dúvidas, beba-se agora. Não?

17€.

17,5

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Velharias (24)

/me was going down the drain,
/me was going down the drain

. . .

la la lah

. . .

down the drain,

la la lah . . .

me.


$


5/3/2003


Deito-me por volta das sete da manhã, após uma noitada de pizza, cartas e droga com os tristes do costume, mas cheio de vontade de acordar relativamente cedo, preferencialmente ao princípio da tarde, a tempo de almoçar e ir às aulas, ou pelo menos estudar alguma coisa em casa. Que sucede? Desperto ao anoitecer, cheio de medo da minha própria sombra. Da necessidade de controlar tais fobias advém que, naturalmente, a primeira coisa que faço depois de lavar os dentes é enrolar um charro, a que se segue um Lexotan para começar bem o dia. Um pouco mais tarde, durante o banho, constato, ou talvez tenha só redescoberto, que quaisquer projectos de estudo, por hoje, arderam. O que não invalida a minha necessidade de comer, prontamente satisfeita com um bife magnífico, na Taberna. Como ainda é muito cedo para acordar o M', subo os Combatentes a pé, vegeto pelas tascas da Sé Nova (Zé, Garcia, Pinto, Couraça), onde emborco cafés uns atrás dos outros, quatro ao todo, sempre acompanhados da respectiva garrafa de água com gás. Por fim, o meu drug buddy envia-me a mensagem do costume. Imediatamente apanho um táxi para casa dele, onde me aguardam uns drunfs novos (fluoxetina), tinto, pizza e haxixe, sem esquecer a TV e o omnipresente Alonso & Finn. Mas o nosso drogatório, sem a A', é demasiado aborrecido, pelo que decidimos sair para beber. Táxi, para Celas. Arco Bar. Mais comida, agora moelas. Mais cerveja, uma ganza fumada à porta do Mayflower e outra nas traseiras do Melià, por sinal um belíssimo spot para mijar. Entretanto faz-se suficientemente tarde para descer à Praça, ou seja, para beber a sério. Táxi, OAF. Um tasco ordinaríssimo. Cerveja, salgados, imensos bêbedos.

Deve haver aqui alguma festa. Com a S'? Com o olhos fechados? E o B'? Do T'?! E não me convidou, caralho?! No entanto, como não vejo mais ninguém conhecido, é provável que a festa nem sequer seja realmente dele e que o pequeno pulha se tenha colado a um grupo e agora esteja apenas a tentar, mais uma vez, ser o centro das atenções. Ao menos podia ter-me falado, mas não deve precisar de dinheiro. Enfim, que se dane, há nacos melhores a fazer horas debaixo do viaduto. Talvez até nem seja nenhum deles.

Prefiro seguir por esse caminho. Ora, o princípio de identidade pode ser um sacaninha inconveniente. Ignoro-o e passo a hora seguinte a tentar convencer-me de que me estou realmente a divertir. Hoje estamos particularmente conversadores. O M' a tudo acede, desde que não me veja exarcebar demasiadamente o sentimento de direita: chega mesmo a oferecer-me dois drunfs, cada um com 10mg de buspirona, simplesmente os azuis, e brindamos a Hitler, Einstein, Bach, Dirac. . .

E chega, aliás, AH QUE ÓDIO! Isto é, acabo por me sentir ridículo, embora no OAF o ridículo esteja em tudo o que não encaixar perfeitamente naquela moldura de devassidão barata. Está tudo bem quando um energúmeno solta meia dúzia de grunhidos aos céus antes de se vomitar para cima dos companheiros, no outro extremo da sala, mas dois indivíduos calmos e bem vestidos, ainda capazes de falar, têm necessariamente que despoletar olhares curiosos. Pouco me importa. Subitamente fiquei chateado, não brindo mais, e chega de drunfs. Por pouco tempo. Entusiasmo-me quando a conversa toca em Goebbels, no grande Goebbels, e sem perceber muito bem porquê, diria mesmo sem vontade, como a lamela de Lexotan que restava, inteira. E 60mg de bromazepam podem servir de pretexto para elevada discussão!

— Beeeeesta! Merda! Vais ficar CINZENTO!
— Bah, respondo-lhe.

Abandonamos o OAF porque o M' teme que eu entre em coma. De imediato o tranquilizo, digo-lhe que não é nada, não haverá azar desde que vá falando comigo. Por solidariedade, amigos são amigos, diz ele, saca da caixa de buspirona e toma cinco unidades. Pergunta-me se quero mais, nay, não quero mais azuis. São amargos: de psicose já engatilhada, não quero estar na presença da priminho e lá a espécie de mulher-armadilha que às vezes é dele quando tudo isto começar a actuar, ainda que nenhum deles seja, de facto, o próprio. Saímos do OAF, vamos para casa, mas acabamos na Via.

E da Via já não me lembro. Talvez fique bem dizer que as luzes cor-de-laranja do primeiro piso são engraçadas: parece um daqueles pubs de cidadezinha industrial, muito Manchester-nos-80s. Gosto.

Eh, e cenas. . .

Táxi, casa, deito-me à hora do costume, sem qualquer esperança de ver em amanhã o dia do meu regresso a uma vida útil. Quinta-Feira é um belo dia para dormir.


$


Coisas da minha outra vida, mas não tão antigas assim. E do mal, mas não interessa. Quem julga é paneleiro: boa, assim é que os panças que te lêem te vão levar a sério e gostar de ti, pequeno J. Não resisto, contudo, a partir sem deixar meia dúzia de curiosidades "históricas": 1) A Taberna continua a ser um bom lugar para comer, mas é foleiro auto-denominar-se "excelente restaurante tradicional" logo no cabeçalho do seu website. Porquê? Porque é isso que aparece em destaque nos resultados do Google quando alguém procura por eles, e para quê parecer-se pedante a quem ainda nem pôs os pés em nossa casa? A polir, digo eu, que sei pouco. 2) O Garcia, na Alta, civilizou-se. Fui lá no princípio deste Verão e fiquei abismado com o que encontrei. Tudo tão limpo! Ademais, deve ser dos poucos sítios aqui na terrinha que vende bolo xadrez, embora de imitação, um pouco desenxabido. Do Zé e do Pinto, não sei, mas, francamente, também não tenho pena. 3) Alonso & Finn, link, mítico! O meu não é exactamente a versão para onde aponto, é em espanhol, tem outra capa. . . mas não me apetece procurar mais. 4) Menciono tinto, não especifico, menos ainda me lembro. Estes escritos são anteriores à fase da enochatice, pelo que o mais provável seria tratar-se de Callabriga ou Esporão Reserva do final dos '90, que eram os vinhos da casa na casa dos drogados. 5) O OAF também se civilizou, mas isso é irrelevante, dado que nunca lá fui por motivação própria. Nunca cheguei a saber se era uma festa "do" primito T', merda para ele, mas acho que não. O que me leva a pensar que talvez já estivesse a alucinar há um bom bocado: going down the drain, lol. 6) Não fiquei cinzento: sobrevivi. E se o mesmo aconteceu a este rascunho medíocre, é porque o descartei como trivial. Mais e melhor foi entretanto publicado, tanto aqui como no outro lugar, mas o que lá vai, lá vai.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guarda Rios '2009 (Rosé)

Rosé. Nunca apreciei. Mas enviaram-mo para prova e seria de besta não o experimentar. Foi feito com uvas Touriga Nacional, Aragonês e Syrah, vinificadas em estreme, a baixa temperatura. Desta colheita, encheu o produtor 7000 garrafas.

Cor bonita, conforme a foto. Ligeiríssima agulha. Frutos vermelhos, flores, caroço de pêssego e acidez. Vago. . . Surpreendente na boca: focado, agradável, nada doce, com algum corpo, os 13,5% de volume alcoólico a não se fazerem notar, seja em calor ou madurez. Curto.

É simpático quanto baste. Uma alternativa viável ao branco, para dias quentes. Podia ser mais fácil, mas ainda bem que não o é. Não me tendo convertido, deixou-me a pensar em dar uma segunda oportunidade ao género. E assim se acrescenta um novo item à árvore de "tags" do Puto.

O PVP deverá rondar os 7€.

15

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Château Martin — Cuvée La Marsaudrie '2004

Bordalês do Haut-Médoc, produzido e engarrafado por Jean-Marc Martin, de Vertheuil, classificado como Cru Artisan na curiosa hierarquia da região.

Sobre a classificação, resumidamente, em jeito de curiosidade: está abaixo dos ditos Cru Bourgeois, que por sua vez estão abaixo dos Cru Classé, e engloba um conjunto de empresas familiares que se dedicam à produção de vinho, do cultivo da uva à distribuição do produto final. Tem sido usada na região desde há mais de 150 anos, mas apenas em 2006 se criou uma lista oficial de produtores permitidos a utilizá-la, após prova por um júri.

Embora o produtor conste da referida lista, este vinho é anterior à sua elaboração.

60% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 3% Petit Verdot e 2% Cabernet Franc. Parcialmente estagiado em madeira de carvalho. 12,5% Vol. —

Chega de predicados. Cor granada. Popped&poured, fruta terrosa, de bago vermelho, azul, sangue, pêlo, caça de pêlo, ligeiro café,

(algum volátil de enxofre);

Depois suaviza-se. O volátil começa a levantar. Nota-se um pouco de fumo, também especiarias, indefinidas;

Passa pela boca cheio de sabor, tão mineral, sal, terra, húmus. . . nem gordo nem magro, nem longo nem curto, antes hirto, ácido e taninoso.

Quatro horas depois de aberto, verifica-se muito mais limpo. Perde as notas sulfurosas. Também parte daquela sua acidez quase excessiva. A fruta revela boa profundidade. Não impressiona, nunca, mas chega para guiar, para definir o todo, agora marcadamente especiado do princípio ao fim.

É um vinho que pode parecer acre e abrutalhado a solo, mas brilha à mesa. Emparceirei-o (olhem, uma alternativa ao bregote "maridei-o") com perna de cordeiro assada, batatinhas coradas, salada quente de pimentos e outros que tais, e que bem escorregou!

10€.

16,5

Filmes (19)





É todo bonito, sei lá. Não tenho jeito nenhum para escrever sobre filmes.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cistus '2007

Ando impressionado com a quantidade de bons vinhos que é possível comprar por menos de 5€. Bons: não só mais que apenas correctos, também dotados de carácter.

Este lote de Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Barroca, originário do Douro Superior, produzido pela Quinta do Vale da Perdiz, é um deles.

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Jovem e concentrado. Neste momento, lembra frutos silvestres bem maduros, mato seco e madeira. Alcoólico e taninoso, está um pouco rude, embora se lhe note uma acidez cativante, que promete.

Mais directo que o Reserva da mesma colheita, certamente ideado para um consumo mais imediato, não deixa de ser um vinho bem sólido, de guarda.

4€

15

Castelo Rodrigo — Tinta Roriz '2003

Mais um da Coop. de Figueira de Castelo Rodrigo.

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Rubi. Nariz bué doce, a fruta transformada, confeitada, taco a taco com álcool solto e azeitona negra, seguido de um fulgor inesperado na boca — que não dura muito, contudo. É morno, macio e (algo) carnudo.

Claro que ainda pode viver em garrafa, mas não haverá interesse em deixá-lo evoluir mais.

Acompanhou com primor um belo prato de lombo adobado.

3,80€.

15

domingo, 1 de agosto de 2010

Borboletas de Origami (2)

Continuação deste post, com


Temko,


3 x Origamidō,


Alexander "Aztec" Swallowtail . . .


e um modelo "For Alice Gray", seja ela quem for.

Pingo Doce — Dão Reserva '2007

Tinta Roriz, Alfrocheiro e Touriga Nacional, engarrafado pela Dão Sul.

Enólogo de nome sonante em garrafa de marca branca faz-me lembrar aquela rubrica do Top Gear, Star in a Reasonably Priced Car — e haverá quem não goste? Uns escoam os excedentes, outros apresentam um produto exclusivo a um preço competitivo. No fim, todos ficam a ganhar, até o consumidor, o que é raro e muito louvável, dada a forma como este mundo anda.

Simples, suave, limpo e preciso. Floral generoso, boa fruta e alguma barrica, a suficiente, com bons indícios da presença de carvalho americano: baunilha e coco por entre fumados. Tem algum corpo, suficiente para harmonizar a acidez e álcool que integra, e sabor franco, vagamente mineral. Parece-se bastante com o seu antecessor (da colheita de 2004), pese a diferença de idades: dêem-se-lhe mais dois anos.

Infelizmente, o rótulo não faz justiça ao produto. Sugere coisa barata, sem grande jeito, pelo menos a mim.

3,50€.

15,5