domingo, 31 de outubro de 2010

Quinta das Amoras (Branco) '2009

Também da Casa Santos Lima. Arinto, Fernão Pires, Vital, Rabo de Ovelha e Chardonnay.

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Limão e musgo. Mais sóbrio, mas também menos intenso que o do post anterior. Se por um lado é curto e muito simples, por outro é fresco e seco, com alguma — agradável — untuosidade. E no lugar do travozinho adocicado do outro, este deixa engraçadas recordações de acidez limonada na boca. Pena ser meio desmaiado.

Tal como o anterior, acompanhou Bonito no forno. Que, por sinal, melhor servido teria ficado com vinhos mais substanciais. Há erros que um gajo tem de admitir. . .

2€.

14

Casa Santos Lima — Sauvignon Blanc '2009

Vinho da Estremadura produzido pela Casa Santos Lima.

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Aromas herbáceos — louro, limonete, relva cortada de fresco, talvez pimento verde — e vagas sensações minerais envolvem um núcleo fugaz de alperce e damasco seco. Não brilha nem compromete: a frescura é suficiente e o álcool está bem integrado. Deixa um travozinho adocicado após a passagem pela boca e, embora nunca evolua para tropical, o que é porreiro, funciona muito melhor se bebido fresco.

3€.

14,5

Velharias (27)


Dei uma volta ao quarteirão, segui rente à linha até à estação dos caminhos-de-ferro, vi um tipo arroxado nas escadas do barracão para onde costumam ir os putos da ganza e um cão morto, atravessado no caminho poucos metros mais à frente. Comecei a fazer filmes maus.

Recebi uma sm: "já te disse que nesta vida para um gajo estar bem tem de sentir-se útil e de consciência tranquila, tudo o resto é efémero".

Ah! A tranquilidade...


25/5/2004

Adega Cooperativa de Ponte da Barca — Verde Tinto '2009

Vinhão (Sousão) fermentado em inox. O produtor tem presença na internet.

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Bebido a 14ºC. Cheio de cor. Também à vista se lhe percebem bolhas de gás. Depois o nariz, vinoso e bafiento, algures entre o verde e o fétido. A fruta pobre, presente mas muda. O estrume. Os legumes. A acidez despropositada. O gás. O corpo negligenciável. Puah!

Acompanhou carapaus assados (até ter ido buscar cerveja).

2,50€.

10?

sábado, 30 de outubro de 2010

Marquês de Marialva — Espumante (Tinto Bruto) Reserva '2003

Espumante tinto da Adega Coop. de Cantanhede. 100% Baga, foi espumantizado pelo método dito Clássico.

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Bebido a 8ºC. Cor rubi. Aroma suave, reminiscente de frutos vermelhos e cacau, com toque ligeiramente lêvedo. Na boca é curto mas bem estruturado, de sabor seco, vagamente resinoso. As bolhas são finas e persistentes. Ganharia se mostrasse um pouco mais de acidez, digo eu.

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Acompanhou leitão e salsichas picantes. Portou-se bem.

4€.

15

Príncipe do Dão '2009 (Branco)

Da União Comercial da Beira — Quinta do Serrado. Encruzado, Bical e Rabo de Ovelha; fermentou em barricas de carvalho português.

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Delicado, a sugerir flores, açúcar queimado, tostados, petróleo e outros hidrocarbonetos pouco refinados, com notas de melaço na boca, algum frescor, curto, pouca fruta, nem citrina nem objectivamente tropical, maracujá, ananás amargo em calda, algum corpo, coeso, de perfil mais sério que o esperado.

3,50€

15

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Foral de Évora '2007

Ainda outro da Adega Cartuxa.

Alicante Bouschet, Aragonês e Trincadeira. Fermentou em cubas de inox, a temperatura controlada, e estagiou doze meses em barricas de carvalho francês.

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Fruta negra, mais negra, mais madura, mais carregada que no EA (Colheita Sel.), mas ainda assim pouco transformada, pouco em passa, nem por isso em compota, a que surgem aliadas notas de tosta e pão torrado, especiarias (cravinho?) e vegetal seco pouco pronunciado. Na boca tem corpo médio, boa acidez e alguma estrutura — maior e mais jovem que o EA (CS), naturalmente de menor envolvência, com outra aresta. O final é médio. Está agradável, mas deverá melhorar com um par de anos em garrafa.

15,5

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

EA — Colheita Seleccionada '2009

A proposta premium da gama EA — assim o introduz o produtor. Feito, segundo a ficha técnica, a partir dos frutos de cepas Aragonês, Castelão e Alicante Bouschet implantadas em solo granítico, fermentou em cubas de inox e estagiou (parte do lote) em barricas de carvalho francês. Já por aqui andou a versão de 2007.

Cor rubi, escura. (Quase) pura fruta, negra, madura, ameixa negra bem definida, sumarenta, cereja e seu caroço, vegetal seco, rama de tomateiro e algo mais, e barrica, contida, baunilha, um pouco de fumo. Com o tempo, cacau e caramelo. Muito no perfil do seu predecessor supra referido, se a memória não me atraiçoa. Macio e encorpado qb, revela-se desde já bastante coeso, apesar da juventude dos taninos. Bom equilíbrio doce/amargo. Simples, mas deveras agradável. Na minha humilde opinião, o derradeiro vinho para piza.

15,5

Sinatra + Jobim

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vinha do Mouro '2007

Vem da Quinta do Mouro — Estremoz.

Não consegui apurar com certeza a constituição do lote. Segundo o produtor, as castas que utiliza como base para os seus vinhos são Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon, conforme se pode ler aqui, sendo que também tem plantadas parcelas de Trincadeira, Merlot e Syrah. O solo é parcialmente xistoso e consta que as vinificações costumam ser efectuadas em lagares e cubas (por esta ordem). Pelo comportamento durante a prova, juraria que este vinho sofreu algum tipo de estágio em madeira, quase certamente breve.

Rubi. Muito frutado, sumarento, centrado em aromas e sabores reminiscentes de cereja amarga e afins, com ligeiras sugestões de compota dos mesmos frutos e baunilha/fumado de barrica. Curto na boca, apesar de macio e apresentar bom volume. Não vou negar que se lhe nota alguma acidez, porventura a necessária e suficiente para garantir o equilíbrio que lhe é manifesto, mas o perfil do conjunto pareceu-me algo morno e a pender para a doçura.

5€.

15

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Update, 19/4/2011

Após feedback do produtor, que desde já agradeço, aí ficam a composição/vinificação exactas. Castas: 30% Aragonês, 10% Cabernet Sauvignon, 45% Trincadeira e 15% Alicante Bouschet. Vinificação: Desengace total com esmagamento e maceração pré-fermentativa a frio durante 3 dias. Fermentação em cubas de inox a uma temperatura de 24/26ºC. UNOAKED! — ora toma, pequeno J.

domingo, 24 de outubro de 2010

EA '2009

Lote de Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet e Castelão, fermentado em inox.

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Foi vertido directamente no copo, a 16ºC. Cor rubi. Por entre uma amálgama de frutos negros, doces, não sobremaduros, destacaram-se aromas limpos de ameixa. Com o tempo, notas de vegetal seco e ligeiro achocolatado. Curto e pouco concentrado na boca, de taninos já redondos. Pronto a beber. Apesar de relativamente fresco, suave e equilibrado, não me cativou.

Uma vez provado, bebi-o a acompanhar o almoço, que cá por casa é sempre simples: no caso, salsichas brasileiras, assadas, acompanhadas de pão e uma modesta salada de tomate temperada com sal, azeite e orégãos — e até se portou bem.

14

sábado, 23 de outubro de 2010

Foral de Évora (Branco) '2009

É uma das mais recentes propostas da Adega Cartuxa, a quem desde já agradeço a gentil cedência da amostra.

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100% Assario. Assario Branco (Malvasia Fina) ou Assario do Alentejo (Malvasia Rei)? Fermentado em inox, estagiou posteriormente sobre as borras finas, com bâtonnage, durante seis meses.

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Cor citrina. Nariz simples mas convincente: flores, maracujá, ananás ácido e alperce, este último em crescendo com o passar do tempo no copo. Pouco doce, caroçudo. Boa presença na boca, com fina acidez limonada a impor a sua frescura aos 14% de álcool com que coabita. Final médio/longo. Vinho vivo e equilibrado, foi bem com carapaus assados.

16

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O inominável, o irreal, carece de barreiras léxicas que retenham a sua essência. Não necessita de tempo nem de lugar, dispensa circunstância. O que se salva da linguagem é imortal.

Cada conceito é uma prisão. Quando damos nome a algo, junto com a data do seu nascimento, fixamos também a da sua morte — ou então o seu estatismo. E cada nova coisa nomeada desde logo fica condicionada pelas palavras de uma linguagem que muito raramente, se é que alguma vez, sequer, terá conseguido aproximar-se do que procura definir.

Talvez seja por isso que nos dou poucos nomes. Porque quando estamos juntos não há linguagem capaz de definir o inominável sentido, tantas vezes mais fielmente retratado pelo simples brilho de um olhar. E basta que não estejas para que a ausência diga o resto. Para quê comprar rosas, então, se aqui há flores mais bonitas?

Inspirou-me a invisibilidade a dizer que te amo nestas breves linhas — nenhuma palavra é visível. Quanto a estas, estão infinitamente longe da coisa em si, e só posso alegrar-me por isso.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Marquês de Marialva (Branco) '2009

Bairradino da da Adega Cooperativa de Cantanhede. Feito com Maria Gomes e Bical, não passou por madeira. Nesta edição, apresenta 12,5% de teor alcoólico.

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Curto e simples, mas bastante equilibrado, assente em deliciosa acidez limonada, com laivos de flores e caramelo torrado no nariz. Fino e bem feito, firme, com o álcool bem integrado. Sem agulha, sem doçura solta, sem arestas. Resulta divertido de beber, sobretudo à mesa.

Estará ao nível do da colheita anterior.

2€.

15

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

De uma "carta aos editores" do Journal of Wine Economics, assinada por Jeffrey Postman e incluída no recente (2010) vol. 5, nº1; pp. 184-187 (link) —

A study by Plassman et al. from the California Institute of Technology and the Stanford Graduate School of Business (Plassmann, 2008) has a direct bearing on this question. In that experiment, 20 relatively-naïve wine drinkers were presented with five cabernet sauvignon wines while in an MRI brain scanner and were asked to rate them on a scale of 1 to 6. Before being given each sample, they were told the price of the wine. Unknown to the subjects, there were only three different wines. Two wines were presented twice. The first was a $90 bottle but they were told on some occasions that it cost $90 and on some that it cost only $10. A $5 bottle was presented as either $5 or $45. The result was not simply that the participants preferred the same wine when it cost more, but they showed increased neural activity in the orbitofrontal region of the cerebral cortex, an area postulated to monitor the pleasantness of an experience. Thus, not only did they say that they liked the pricier wines better, there was evidence that they actually enjoyed them more.

Preciso dizer mais?

domingo, 17 de outubro de 2010

Quinta do Vallado — Reserva '2006

Foi feito a partir de Tinta Roriz, Tinta Amarela, Touriga Franca, Touriga Nacional, um pouco de Sousão e menos ainda de várias outras castas, consequência dos encepamentos à antiga duriense de onde saíram 70% dos vinhos constituintes do lote final, fermentados em cubas e lagares antes de estagiados durante 17 meses em meias pipas de carvalho francês.

No nariz, por entre todas as marcas características do Douro, destaca-se fruta, madura, escura, talvez exclusivamente negra, a que surge associado o tempero do costume: mato, violetas, fumo, baunilha e, com o tempo, cacau. Ainda bastante amadeirado, embora menos que o monocasta Touriga Nacional do mesmo ano. Mais concentrado que volumoso, é longo (sem dúvida) e apresenta desde já uma estrutura polida, de equilíbrio apenas perturbado por ligeiro desenquadramento alcoólico.

30€.

16,5

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Filmes (21)




Coreano, de 2003. É um dos filmes preferidos da Mi.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Velharias (26)

Abril - Maio de 2003




Porquê escrever? — Porque as coisas mudam.

Porque penso que estiquei ao máximo o fio da minha existência. Algo vai mudar brevemente, não sei se para melhor ou para pior, mas estas
férias não merecem ser esquecidas. Quero deixar gravado um pouco daquilo que agora sou para que as lições extraídas de cada dia neste fragmento de mundo dentro do mundo se não percam com o passar do tempo na penumbra de uma memória que já teve melhores dias.

Momentos.
Reflexões,
perversões.
Esquissos de instantes que não quis perder.



Um


Lx.

Amanhece. As sombras dos carros morrem na claridade cinzento-mate que lentamente se adensa, anunciando o dia. Luz de manhã muda — Faltam pessoas, pássaros, carros, falta vida à alameda que agora fito desta janela emprestada, incrédulo: nunca pensei que esta cidade pudesse ter horas mortas — Agora, apenas o frap frlap pianíssimo de um chuvisco, mais e mais intenso, apenas perpassado pelo vento que arrasta os uivos de sereias distantes: a cidade desperta.

Já nada resta da noite. Aqui vive-se depressa, não há espaço para fantasmas. Há muito que os rouxinóis se calaram. Dois pisos acima de mim, voltados para o sol que cresce forte sobre o parque, Mikel e Carolina encerram a noite com uma sessão de desenhos animados e gelado de noz.

Hodie ainda vai ser um grande dia.



Dois


Aviões e comboios: flechas apontadas para o futuro ou simples máquinas de ruminar?

Foram tempos danados, esses. Não tinha querer: simplesmente saía para me embebedar todos os dias. Seria o apelo da música, do álcool, das mulheres? Na noite, fazemos coisas acontecer sempre que não vislumbramos motivos para não o fazer. A noite é vida. Claro está que, apesar de toda esta azáfama aparente, o bêbedo da noite é praticamente inútil. Os dias repetem-se, sempre livres de planos, tanto que se vota ao esquecimento tudo o que ultrapassa a rotina. Fabricam-se amores e conflitos, pretextos para um próximo passo. Em que caminho? Não sei quantas vezes me perguntei que nome dar a tudo isto. Vyasa colecciona estados de espírito. Sente muito, mas pensa pouco. Tem tendência para querer ver o que lhe é oferecido, mas estar lá e ver é-lhe suficiente.

Vyasa, o degradé. Normalmente, saía um pouco antes do fim da festa. T & S, os meus amores. Porque brincavam tão cruelmente comigo? Nessas noites, bebia para esquecer. Regressava a casa pela manhã, podre de bêbedo e sem um tostão no bolso, ressacava lágrimas e Jeff Buckley — manhãs que podiam ser tardes, ou noites, diluídas nos vapores azulados do haxixe e de cigarros fumados só até metade enquanto me lamentava por ter nascido mau, pedia perdão a Deus por ter defraudado a minha família, os meus amigos, o mundo, por me ver trilhar uma via sem retorno em direcção ao suicídio. Dia após dia, durante meses. Desgosto? Desespero? Medo?

Que interessa?



Três


O parque dos baloiços.

Seriam umas quatro da madrugada, ninguém na rua. Fotografei ao acaso, sem convicção, tanto que não tardei a parar e sentar-me para fumar um cigarro. A dada altura, surgiu um velho ao dobrar da esquina. Acompanhava-o um pequeno cão preto, preso pela trela.

Silêncio.
Paz incómoda,
temperada de... esquece.

Poderá esta porcaria ser a minha casa há tanto tempo?
Se detesto este lugar assim tanto, porque é que ainda não fugi?
Afinal, porque haveria de querer fugir?
E para onde?

É aí que reside o meu maior medo —
muitas terras quer dizer nenhuma.



Quatro


Mais um passeio (a Grande Catedral, já não muito longe de Madrid)

Na primeira de todas as Luas, um velho feiticeiro sem nome depositou o coração da Esperança num pequeno cofre, que enterrou no alto de um monte para que os homens jamais o encontrassem. Então as trevas abateram-se sobre a Terra: a Felicidade perdeu-se, substituiu-a a Volúpia. Livres, levantaram-se do mar a Corrupção e o Assassínio — a Humanidade ganhara consciência de si própria e o feiticeiro divinizara-se, conquistara a imortalidade. Mas não será a imortalidade a mais atroz das penas? A vida só faz sentido como é — efémera. Derrotado, o feiticeiro resolveu esconder-se no único sítio onde jamais o encontrariam: bem no fundo da alma de cada um daqueles que iluminara. Não sem ter deixado escrita a promessa de que um dia voltaria como a palavra que não se pode entender e assim cegaria os homens com a luz da sua própria ambição. Mataria os deuses, e com eles a sua própria memória. Desvaneceu-se, não se tornou a ouvir falar dele. Passou algum tempo: talvez milénios, talvez apenas um segundo — não serão iguais perante a eternidade? Não vimos palavra alguma; só sabemos que o sangue não mais cessou de jorrar. As culpas não se esquecem, mas o calor dos corpos comove e fascina: no mais encantador acto de cinismo alguma vez engendrado, contruiram-se no alto deste monte dois gigantescos ossários.

Ah, cão, não lhe chames Éter! Este frio nada mais é senão a Morte.

Sob os nossos pés, os ossos dos justos. Ao centro, uma enorme pedra cinzenta, rasa, coberta de runas que não quero compreender. Jaz aqui o generalíssimo. Pisaria um milhão de anónimos sacrificados à causa para poder acompanhá-lo uma única vez. Não presumo a sua inocência — os culpados também podem ser vítimas.

São uma mísera cifra, estas vítimas! Agora chamados de santos, no templo onde as mulheres se deslocam por entre pilhas de cadáveres e suspiram pois há muito que as lágrimas secaram. Suspiram, mas não deixam de querer viver.

Lutadores. Livres de tudo, até de uma consciência.

Ah, cão, chega-te mais a mim! Beijemo-nos como o faríamos no dia do Juízo. Quero sentir-te; não importa se o momento é oportuno. Aqui, o futuro anula-se e a Esperança é letra morta.

— Bazemos! A cidade aguarda-nos.



Cinco


Bilhetes, roupa suja de cinco dias, um laptop, um leitor portátil de discos compactos e uns vinte discos, baton protector, o carregador do telemóvel, óculos de sol, cheques de viagem, uma caixa com dez maços de JPS (preto).
Uma máquina fotográfica e três rolos de 24 fotografias.

Uma linha recta — uma marcha em frente para lado nenhum.

Tudo se resume a continuar vivo.
A escrever uma nova página.
A acrescentar, mais uma vez, a galeria de retratos desfocados.
Saudades.
Terríveis, saudades do que ainda não tenho.



Seis


Pois bem, M' foi-se e também decidi não acompanhar o Márcio a Budapeste.

Tento ir às compras durante a tarde; nada me atrai. As pessoas perturbam-me. O seu olhar, a sua presença, causam-me a mais viva repulsa. Olho-as de alto a baixo, como se fossem montes de esterco. Regresso a casa de táxi, doido de raiva. Janto copiosamente, embebedo-me com Bourbon ainda no restaurante. Nada mais me resta fazer senão esperar. Como ontem, uma vida à espera de nada. Dou voltas e mais voltas pela cidade, agora adormecida. Filmes atrás de filmes, nada de concreto. Continuo à espera.

U2 e um charro. Paz. Já andava a sentir-lhes a falta.

Agora compreendo as palavras do velho Zé Pedro: os maus tornar-se-ão bons e os bons estão destinados a perder-se.
Não nascemos bons nem maus, não somos monstros, não somos falhados, não defraudámos ninguém, limitámo-nos a ser. Não somos vítimas, apenas cumprimos o nosso destino da única maneira possível.

Passei anos a renegar o destino.

Sinto-te, mesmo quando estás longe. Filme, fantasia,
pastilha elástica.



Sete


Voltei a sentir vontade de escrever.

Talvez não devesse. Nestas horas tristes, a beleza escapa-se-me por entre os dedos. Nada mais tenho a afirmar. Tento desesperadamente pensar em ti sem ódio, recalcar o monstro que se levanta das minhas entranhas para implorar as tuas lágrimas, o teu sangue, a tua alma. Tento desesperadamente acreditar em ti, que te amo.

Livre de rodeios, simplesmente.



Oito


Necessito de tempo para vencer a confusão. Compreendo-me melhor quando me releio, quando volto ao passado.

Que fazer? Tornar-me um deles? Ser ovelha ou trancar-me para morrer? Só comecei a ponderar esse recurso posteriormente, nas horas livres que o haxixe me cedia, e ainda foram algumas...



Nove


Nos últimos dias tenho passado algum tempo com um colega de curso chamado Artur. Hoje, resolvemos fazer uma noite alternativa — seguimos o percurso dos freaks que costumam parar à porta do Zé. Muitos conhecidos, muita ganza, pouco tabaco, pouco dinheiro. Todos aparentavam ter droga, mas o tabaco e as mortalhas escasseavam. Ambiente razoável. A polícia apareceu por volta das duas e um quarto da madrugada.

— Há barulho na rua. Têm duas escolhas: dispersar ou ser autuados. — Será que mais alguém ali sabia o que era ser autuado? Não me pareceu. Dispersámos em grupo para junto da Baco. Jam session. Cheirava a festa. Tambores, duas guitarras: primeiro uma acústica, mais tarde a eléctrica.

— Meu Deus, eles estão a fazer trance com tambores e uma guitarra! — Admirável. Ambiente tribal em plena cidade antiga, celebrava-se o eclipse em noite de lua cheia.

Uma gaja brincava com argolas (na realidade são pêndulos) em chamas, um pouco como quem se diverte com um par de iô-iôs. Pouco depois, juntou-se-lhe outro indivíduo: este incendiou ambas as pontas de uma barra metálica bastante espessa, que segurava com o auxílio de outras duas barras, mais pequenas, mantidas em constante movimento, uma em cada mão. Ou seja,
double stick. Juntos executaram uma verdadeira dança do fogo para a plateia que os observava das escadas da igreja de S. Bartolomeu. Que bonito. Anéis de fogo, círculos incandescentes, formas perfeitas de morte, destruir para voltar a criar. É a ordem natural das coisas, representada, ritualizada. Estariam eles cientes do sabbat em que tomavam parte? É inegável que andava qualquer coisa no ar. O sopro de Moloch. Outro retorno. Senti crescer dentro de mim um desejo antigo. Mais uma noite entre as feras. — Lord! Esta luz, esta humidade, este som, esta gente, conseguirá esta gente ser daqui? — Também eles andam fugidos. Penso mais uma vez nas tuas palavras. Estes sim, optaram por seguir o caminho mais fácil. Que interessa? Também eles acabarão por se fartar. Bobos da sociedade. Estes punkies são giros. Mas não são a minha cena. Perturbam-me. Já presenciara um ritual semelhante. BW — Há quase quatro anos — Estás aqui, sinto-o — Dizias que querias vir estudar para esta terra, se vivesses para tal. Poderei ter-te ajudado a viver. Que me deste tu em troca? A falsa consciência de ser o semi-deus que tanto podia oferecer a vida como a morte? Conforto?! Mas quando a ti se opôs o meu orgulho, tomei-me de brios, fiz-te desaparecer — E quantas vezes não esperei em vão por notícias tuas depois disso! Viveste por mim, disseste-mo uma vez. E agora, terás morrido? Ou recomeçado? Estarás aqui? Muitos destes freaks vieram de fora. S & C. Uma praia deserta onde já me cansei de esperar o teu retorno. Sempre por mim, que te fiz eu? Que o meu egotismo seja também a minha tumba. Por mim. Sorrio-me, e chamo-vos mentirosos. O tempo adocica a alma, mas há chagas que se recusam a sarar. Há tanto tempo! Por mim, fugirei desta gente como quem foge da morte. Porque a morte vive dissimulada entre eles. Persegue-me. São memórias, são noites em claro. Que nojo. Eu não sofro um décimo daquilo que mereço.

— Artur, é melhor deixar os mortos dormir. Vou-me embora.

30/5/2003

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Castelo Rodrigo — Touriga Nacional '2005

Intenso e algo rústico, começou por insinuar notas escuras de terra e violetas quando apenas cheirado para logo depois se revelar bastante mais alegre, com um sumarento gosto a framboesas maduras aquando da passagem pela boca.

Possuidor de bom volume, algum corpo que uma acidez suficiente não deixou nunca parecer pesado e um final bastante longo, um pouco seco, embora não se possa considerar nada de especialmente profundo ou cativante, claro está, é no entanto um vinho honesto, sem defeitos ou desequilíbrios, guloso sem ser doce, de marcado carácter gastronómico. Um último reparo: o pós-gosto, francamente agradável.

Acompanhou bem um almoço de rojões e batatas bravas.

Também o da colheita anterior já passou por aqui.

5€.

16

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Vila dos Gamas — Antão Vaz '2009

Antão Vaz do Baixo Alentejo, produzido pela Adega Coop. de Vidigueira, Cuba e Alvito — link. Prensado mecanicamente, fermentou a 16-18ºC e não passou por madeira.

Cor citrina. Ananás, palha e maracujá; alguma agulha. Sabor firme, curto mas encorpado, com boa acidez. Vertido directamente da garrafa a 12ºC, ganhou com o arejamento e a subida de temperatura.

Embora mantenha o mesmo perfil, estará uns furos abaixo do da colheita anterior, pelo que perde meio valor na nota final.

A propósito da classificação dos vinhos neste blogue, pode ler-se mais aqui.

3€.

14

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Leo d'Honor '2003

Castelão de vinhas velhas, com cerca de 60 anos, implantadas no solo arenoso de Fernando Pó, fermentou em cubas-lagar e estagiou durante 12 meses em meias pipas de carvalho francês. É o topo de gama da Casa Ermelinda Freitas.

O aroma aparece dominado por frutos vermelhos de concentração admirável, parte em compota, parte no limite da maturação, misturados com tabaco e especiarias. Menos nítidas mas igualmente presentes, notas de pele, terra e cogumelos completam um conjunto de perfil diferente do frutado-melado-especiado indefinido que habitualmente se associa à casta. Interessante.

Longo, volumoso, carnudo e muito intenso, conta com 14,5% de álcool, acidez bastante para lhe transmitir um frescor decente e muitos taninos, firmes mas não duros, já bem cobertos. Tudo combinado com equilíbrio. O pós-gosto é especialmente agradável.

Este vinho é uma besta. Pede comida. Uma besta que pede comida.

30€.

17,5

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ponces — Reserva '2005

Vinho do Dão, de Nelas, produzido pela Quinta da Fata. Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen. Terá passado por madeira.

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Do mesmo produtor, já por cá andaram este e este. Ainda estou por descobrir um vinho deles que não me agrade.

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Arejado durante meia hora. Rubi. Nariz intenso, rico, maduro, com muita fruta, escura, permeada por notas quentes, indefinidas, de especiarias e tosta de madeira. Corpo firme, robusto, de razoável comprimento e profundidade, sustentado por taninos finos mas bem evidentes.

Aparenta ainda poder viver em garrafa. Acompanhou feijoada. A' foi cúmplice no abate.

7,50€

16

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Adega de Pegões — Colheita Seleccionada '2009 (Branco)

Feito com uvas de cepas Arinto, Chardonnay e Antão Vaz plantadas em solo arenoso, fermentou em barricas, onde posteriormente foi sujeito a um curto estágio com bâtonnage.

Brilhante, cristalino, muito clarinho. Banana seca, ananás e palha. Um pouco mais tropical, mais doce, mais pesado no nariz, enfim, mais Antão Vaz que os seus predecessores de 2007 e 2008, dos quais, aliás, pouco difere. Na boca nota-se-lhe corpo e baunilha, estando o trinómio "intensidade vs. doçura vs. acidez" em mais que razoável equilíbrio — logo, produto de outros, diferentes polinómios, simultaneamente irredutíveis e todos do mesmo grau: mas essas serão coisas mais de enólogo que de wannabe de enófilo :P — Ahem! Vívido, embora não por muito tempo. Contra os 14ºC sugeridos pelo produtor como temperatura de serviço, é um vinho que pede insistentemente que o mantenham frio. Ademais, falta-lhe comprimento. E profundidade. Ainda assim, globalmente, safa-se.

3€.

14,5

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Drought

Thunder teases heartlessly,
making sultry promises
it doesn't keep.
Lightning flicks seductive tongues
against my bedroom wall
and then retreats —
while clouds, grown fat with moisture,
hang heavy with intent.
We wait for rain that doesn't fall —
doesn't
fall.

Naomi B. Patterson (2003)

domingo, 3 de outubro de 2010

Quinta da Dôna '2004

Produzido pelas Caves Aliança, provém de uma parcela da Quinta da Rigodeira. Estagiou durante 14 meses em barricas novas de carvalho francês. Encheram-se 6717 garrafas.

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Baga frutado, maduro, de concentração e sapidez notáveis. A cor, rubi, carregada mas não opaca, estará a começar a envelhecer. Às notas predominantes de frutos silvestres, escuros, gulosos, incaracterísticos por tão sumarentos, juntam-se sugestões de lagar. Longo e equilibrado na passagem pela boca, os 14,5% de álcool bem enterrados em corpo e acidez, termina especiado, com excelentes apontamentos de cacau e avelã.

Os taninos aparentam já ter amaciado bastante, mas o corpo é cheio e a acidez continua impositiva — será isto suficiente para lhe garantir uma boa evolução em garrafa por muito mais tempo?

20€.

17,5