terça-feira, 30 de novembro de 2010

Porta Velha (Valle Pradinhos) '2008

D.O.C. Trás-os-Montes, foi elaborado no Casal de Valle Pradinhos a partir de Tinta Roriz e Touriga Nacional provenientes de vinhas novas. Embora não tenha conseguido apurar nada de concreto sobre a natureza do estágio a que o terão submetido, presumo que tenha tido alguma forma de passagem por madeira.

Cor rubi. Nariz de frutos silvestres, maioritariamente vermelhos, sumarentos e bem definidos, a par com algum álcool solto e sugestões abaunilhadas. O paladar é suculento, de porte médio, curto mas bem estruturado, ligeiramente taninoso. Muito apelativo, bebe-se bem a solo. Na minha humilde opinião, está para a sua terra como este para a dele.

4€.

15

domingo, 28 de novembro de 2010

Velharias (28)

31/12/2003, 2h15

The fact that I'll never fit in makes me want to die.


31/12, 4h56

Levantei-me em sobressalto, acordado por uma gaja de cabelo vermelho, um familiar, um crime, uma fuga, uma voz que me gritava dentro da cabeça: "Salpicos de fogo! São as lágrimas de Moloch! São as lágrimas de Moloch!"


31/12, 5h23

Desordem. Que palavra bela! Tratemo-la bem.


31/12, 5h25

E para lá de todas as aspirações, o vazio. E depois do vazio, vem a paz — uma festa de contornos sentidos. Uma não-busca; o que é talvez não necessite assim tanto de uma razão de ser.


31/12, 5h38

Deuses! Proto-essências que necessitam de um sentido para existir. Não se procuram, encontram-se. Nada fazem para se revelar; descobrem-se quando a necessidade de um sentido se vê por quaisquer outros meios insatisfeita; quando, para lá de todas as trivialidades, sobra aquele elemento comum a todas as coisas que todos sentimos de vez em quando, mas cujo nome pertence a uma língua há muito perdida. As manifestações de deus podem ter todo e qualquer nome: quando nada é verdadeiro, tudo é permitido. Ensinaram-nos a adorar ídolos, pastores de pedra que prendem ao invés de libertar, supostos todo-poderosos mais ou menos livres de corpo. Castraram-nos com a terrível objectividade da única realidade possível; tudo o resto foi condenado à irrelevância. Concepções, realidades, necessidades — escapes. Não matámos deus nenhum, por mais desnecessário que fosse. Só os homens vivem e morrem, e com eles os seus mundos.

sábado, 27 de novembro de 2010

Porta da Ravessa (Branco) '2009

Lote de Roupeiro, Arinto e Fernão Pires, produzido e engarrafado pela Adega Coop. de Redondo. Consta que dele se encheram 2,5 milhões de garrafas.

Redondo, intensamente tropical, de travo adocicado, com algum corpo e persistência. Apesar de vagos traços de evolução, tem uma frescura ainda suficiente. É um vinho correcto, embora não diga muito.

Acompanhou um snack rápido, baseado em ovos cozidos e vegetais.

2€.

13,5

Castelo Rodrigo — Síria '2008

Depois deste e deste, outro varietal Síria da zona de Figueira de Castelo Rodrigo. Foi vinificado em inox, a temperatura controlada, tendo terminado a fermentação em barricas de carvalho francês com remontagem das borras finas. Abri a garrafa nº 8944 de 13500 produzidas.

Cor como na foto. Nariz discreto, tropical, a evocar ananás, maracujá, banana seca e papaia, junto com vagas notas, doces e pesadas, reminiscentes de citrinos muito maduros, algo como tangelo "minneola" misturado com kumquat. Tem corpo médio em dimensões e firmeza, para o que muito contribui uma boa dose de acidez verde, excessiva para o gosto convencional, talvez, isto se tal coisa realmente existe. O álcool está bem integrado. No mais, é curto e apresenta agulha residual.

Não desgostei; fiquei curioso quanto a como virá a ser daqui a dois anos.

4€.

15

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

As últimas palavras de Dutch Schutz — para separar garrafas fotografadas sobre fundos diferentes.

Na noite de 23 de Outubro de 1935, o gangster Dutch Schultz (Arthur Flegenheimer), o seu contabilista Otto "Abbadabba" Berman, e dois guarda-costas, Bernard "Lulu" Rosencrantz e Abe Landau, encontravam-se no interior do Palace Chophouse, em Newark, quando dois pistoleiros do Sindicato, Emmanuel "Mendy" Weiss e Charles "The Bug" Workman, os atacaram a tiros de revólver. Schultz foi atingido quando se encontrava na retrete, os outros três estavam sentados a uma mesa, ao fundo do restaurante. Apesar de gravemente feridos, retornaram fogo, obrigando os atacantes a fugir. Foram transportados, ainda com vida, para o Newark City Hospital. Schultz durou até ao dia seguinte. Moribundo, delirou em voz alta durante horas, enquanto a polícia lhe tentava extrair informações. Um estenógrafo, F. J. Lang, apontou o que foi dito.

(Schultz) — Has it been in any other papers? George, don't make no foul moves. What have you done with him? Oh, mama, mama, mama. Oh stop it, stop it; eh, oh, oh. Sure, sure, mama. Now listen, Phil, fun is fun. Ah please, papa. What happened to the sixteen? Oh, oh, he done it, please. John, please, oh, did you buy the hotel? You promised a million sure. Get out. I wished I knew. Please make it quick, fast and furious. Please. Fast and furious. Please help me get out; I am getting my wind back, thank God. Please, please, oh please. You will have to please tell him, you got no case. You get ahead with the dot dash system didn't I speak that time last night. Whose number is that in your pocket book, Phil 13780. Who was it? Oh, please, please. Reserve decision. Police, police, Henry and Frankie. Oh, oh, dog biscuits and when he is happy he doesn't get happy please, please to do this. Then Henry, Henry, Frankie you didn't even meet me. The glove will fit what I say oh, Kayiyi, oh Kayiyi. Sure who cares when you are through? How do you know this? How do you know this? Well, then oh, Cocoa know thinks he is a grandpa again. He is jumping around. No Hobo and Poboe I think he means the same thing.

(Sgt. Conlon) — Who shot you?

R. The boss himself.

Q. He did?

R. Yes, I don't know.

Q. What did he shoot you for?

R. I showed him boss; did you hear him meet me? An appointment. Appeal stuck. All right, mother.

Q. Was it the boss shot you?

R. Who shot me? No one.

Q. We will help you.

R. Will you help me up? O.K. I won't be such a big creep. Oh, mama. I can't go through with it, please. Oh, and then he clips me; come on. Cut that out, we don't owe a nickel; hold it; instead, hold it against him; I am a pretty good pretzler — Winifred — Department of Justice. I even got it from the department. Sir, please stop it. Say listen the last night!

(Sgt. Conlon) — Don't holler.

R. I don't want to holler.

Q. What did they shoot you for?

R. I don't know, sir. Honestly I don't. I don't even know who was with me, honestly. I was in the toilet and when I reached the — the boy came at me.

Q. The big fellow gave it to you?

R. Yes, he gave it to me.

Q. Do you know who this big fellow was?

R. No. If he wanted to break the ring no, please I get a month. They did it. Come on. (A name, not clear) cut me off and says you are not to be the beneficiary of this will. Is that right? I will be checked and double-checked and please pull for me. Will you pull? How many good ones and how many bad ones? Please I had nothing with him he was a cowboy in one of the seven days a week fight. No business; no hangout; no friends; nothing; just what you pick up and what you need. I don't know who shot me. Don't put anyone near this check you might have — please do it for me. Let me get up. heh? In the olden days they waited and they waited. Please give me a shot. It is from the factory. Sure, that is a bad. Well, oh good ahead that happens for trying. I don't want harmony. I want harmony. Oh, mamma, mamma! Who give it to him? Who give it to him? Let me in the district — fire factory that he was nowhere near. It smoldered No, no. There are only ten of us and there ten million fighting somewhere of you, so get your onions up and we will throw up the truce flag. Oh, please let me up. Please shift me. Police are here. Communistic. . . strike. . . baloney. . . honestly this is a habit I get; sometimes I give it and sometimes I don't. Oh, I am all in. That settles it. Are you sure? Please let me get in and eat. Let him harass himself to you and then bother you. Please don't ask me to go there. I don't want to. I still don't want him in the path. It is no use to stage a riot. The sidewalk was in trouble and the bears were in trouble and I broke it up. Please put me in that room. Please keep him in control. My gilt edged stuff and those dirty rats have tuned in. Please mother, don't tear, don't rip; that is something that shouldn't be spoken about. Please get me up, my friends. Please, look out. The shooting is a bit wild, and that kind of shooting saved a man's life. No payrolls. No wells. No coupons. That would be entirely out. Pardon me, I forgot I am plaintiff and not defendant. Look out. Look out for him. Please. He owed me money; he owes everyone money. Why can't he just pullout and give me control? Please, mother, you pick me up now. Please, you know me. No. Don't you scare me. My friends and I think I do a better job. Police are looking for you allover. Be instrumental in letting us know. They are English— men and they are a type I don't know who is best, they or us. Oh, sir, get the doll a roofing. You can play jacks and girls do that with a soft ball and do tricks with it. I take all events into consideration. No. No. And it is no. It is confused and its says no. A boy has never wept nor dashed a thousand kim. Did you hear me?

Q. (Detective) — Who shot you?

R. I don't know.

Q. How many shots were fired?

R. I don't know.

Q. How many?

R. Two thousand. Come one, get some money in that treasury. We need it. Come on, please get it. I can't tell you to. That is not what you have in the book. Oh, please warden. What am I going to do for money? Please put me up on my feet at once. You are a hard boiled man. Did you hear me? I would hear it, the Circuit Court would hear it, and the Supreme Court might hear it. If that ain't the pay-off. Please crack down on the Chinaman's friends and Hitler's commander. I am sore and I am going up and I am going to give you honey if I can. Mother is the best bet and don't let Satan draw you too fast.

Q. (Detective) — What did the big fellow shoot you for?

R. Him? John? Over a million, five million dollars.

Q. You want to get well, don't you?

R. Yes.

Q. Then lie quiet.

R. Yes, I will lie quiet.

Q. John shot and we will take care of John.

R. That is what caused the trouble. Look out. Please let me up. If you do this, you can go on and jump right here in the lake. I know who they are. They are French people. All right. Look out, look out. Oh, my memory is gone. A work relief police. Who gets it? I don't know and I don't want to know, but look out. It can be traced. He changed for the worse. Please look out; my fortunes have changed and come back and went back since that. It was desperate. I am wobbly. You ain't got nothing on him but you got it on his helper.

(Detective) — Control yourself.

R. But I am dying.

(Detective) — No, you are not.

R. Come on, mama. All right, dear, you have to get it.

Nesta altura, a esposa, Frances, foi trazida para a sua beira.

(Sra. Schultz, mãe de D.S.) — This is Frances.

Schultz recomeçou:

Then pull me out. I am half crazy. They won't let me get up. They dyed my shoes. Open those shoes. Give me something. I am so sick. Give me some water, the only thing that I want. Open this up and break it so I can touch you. Danny, please get me in the car.

Nesta altura, a Sra. Schultz abandonou o quarto.

(Sgt. Conlon) — Who shot you?

R. I don't know. I didn't even get a look. I don't know who can have done it. Anybody. Kindly take my shoes off. (He was told that they were off.) No. There is a handcuff on them. The Baron says these things. I know what I am doing here with my collection of papers. It isn't worth a nickel to two guys like you or me but to a collector it is worth a fortune. It is priceless. I am going to turn it over to... Turn you back to me, please Henry. I am so sick now. The police are getting many complaints. Look out. I want that G-note. Look out for Jimmy Valentine for he is an old pal of mine. Come on, come on, Jim. Ok, ok, I am all through. Can't do another thing. Look out mamma, look out for her. You can't beat him. Police, mamma, Helen, mother, please take me out. I will settle the indictment. Come on, open the soap duckets. The chimney sweeps. Talk to the sword. Shut up, you got a big mouth! Please help me up, Henry. Max, come over here. French-Canadian bean soup. I want to pay. Let them leave me alone.

Consta que perdeu a consciência nesta altura; morreria de peritonite duas horas depois. A transcrição foi originalmente publicada no New York Times de 26/Out/1935.

Porta dos Cavaleiros — Reserva '2007 Touriga Nacional

Monocasta Touriga Nacional estagiado em madeira, produto das Caves S. João.

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Frutos silvestres e bergamota predominam num vinho de perfil aromático fino, sólido e sóbrio, com o seu quê de delicado, até. Ligeiro floral ajuda a compor. Um bocadinho de barrica, idem. Por momentos, fez-me lembrar este. Na boca é fresco e sumarento, de corpo mediano, com secura que não ofende. A madeira, resinosa, nota-se um pouco mais que no nariz. O final é médio/curto. Com a exposição ao ar cresceram sugestões achocolatadas.

Como os dos enoposts anteriores, não precisou de plastificar para ser fácil — respeito isso.

6,50€.

16

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Trash Palace — Positions

"Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Clubs and bells, your servant, don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart"





#5, Venus in Furs, feat. Cozette. À data, será o meu cover favorito do grande clássico dos velvets. Mas todo o álbum é montes de fixe, aliás, não percebo como não se ouve falar mais dele.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quinta de Saes '2007

Touriga Nacional e Alfrocheiro com 12 meses de estágio em carvalho francês de segundo ano. O sítio web do produtor — link — encontra-se, finalmente, a funcionar em pleno.

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Moderno. Do rótulo ao núcleo de frutos silvestres, vermelhos, bem maduros, super sugestivos. Notam-se-lhe flores e um pouco de madeira, ligeiro cheiro a carne crua, algum cacau com o arejamento. Na boca é curto e intenso, guloso sem ser doce, vivo, firme e só um bocadinho duro.

Muito engraçado.

4€.

15

domingo, 21 de novembro de 2010

Quinta das Camélias — Reserva '2007

Touriga Nacional (50%), Tinta Roriz (25%) e Alfrocheiro da Quinta das Camélias — Sabugosa, Tondela.

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É um vinho de cor rubi, corpo médio e sabor fino, delicado, com frutos negros e baunilha, assim, directos, sem surpresas, sem segredos, fruta do Dão e baunilha de madeira nova, menos impositiva que no monocasta TN da casa, mesmo não desprezando que já lá vai quase um ano, frescor, alguma estrutura, idem para a secura, leve aresta que não amarga, flores, menos que no seu vinho irmão supra referido, terra e acidez, presente, actuante, mas não vincada, que se espraia ao longo de um bom final.

5€.

16

sábado, 20 de novembro de 2010

Quinta do Poço do Lobo — Espumante Bruto '2006

Bairradino das Caves São João. Foi elaborado pelo método clássico, a partir de uvas Chardonnay e Arinto, provenientes da quinta que lhe dá o nome.

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Cor a dourar. Cheirinho lêvedo. . . flores e um pouco de maçã verde. Poadas, nuvens densas de bolhas finas e uniformes, mousse leve e seca à superfície. Na boca, reminiscências de Alka-Seltzer, massas cruas de pão e bolos, mais maçã verde, ou amarela. É pequeno e delicado, mas fresco e cheio de vida. Gostei.

6€.

15,5

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

I am sad
I feel that the future is hopeless and that things cannot improve
I am bored and dissatisfied with everything
I am a complete failure as a person
I am guilty, I am being punished
I would like to kill myself
I used to be able to cry but now I am beyond tears
I have lost interest in other people
I can't make decisions
I can't eat
I can't sleep
I can't think
I cannot overcome my loneliness, my fear, my disgust
I am fat
I cannot write
I cannot love
My brother is dying, my lover is dying, I am killing them both
I am charging towards my death
I am terrified of medication
I cannot make love
I cannot fuck
I cannot be alone
I cannot be with others
My hips are too big
I dislike my genitals


At 4.48
when depression visits
I shall hang myself
to the sound of my lover's breathing

I do not want to die

I have become so depressed by the fact of my mortality that I have
decided to commit suicide

I do not want to live

I am jealous of my sleeping lover and cover his induced
unconsciousness

When he wakes he will envy my sleepless night of thought and
speech unslurred by medication

I have resigned myself to death this year
Some will call this self-indulgence
(they are lucky not to know its truth)
Some will know the simple fact of pain

This is becoming my normality

Sarah Kane, 4.48 Psychosis

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quinta do Infantado — Vintage '2007

Estava a precisar de beber um Vintage jovem, cheio de fruta :)

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Tinha cá este. N/2686 de 6071 garrafas produzidas.

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Escuro. Denso. A princípio, quase impenetrável, com a frescura "verde" característica do ano de 2007. Depois, a fruta, vermelha e negra, e em passa, deliciosa, com toque especiado. É um vinho amplo, gordo, senhor de uma bela estrutura de taninos doces. Longo, mas não interminável.

Está magnífico. Gostei muito mais deste agora que do bom '2003 quando o provei — mas, mais uma vez, agora estava a precisar.

20€.

18,5

Blume — Verdejo '2009

Varietal Verdejo elaborado por Pagos del Rey, Rueda (Valladolid). As uvas, diz-se, foram colhidas durante a noite e fermentaram a 16ºC, tudo em nome de maior frescura. Não passou por madeira.

Cor citrina. Montes de cheiro a limão e erva-príncipe, colhões de sabor a maracujá. A acidez é incisiva, o resto cumpre. Vagamente mineral — mineral onde? Final curto e limpo. Outro de que, não tendo desgostado, também não tenho muito a dizer.

Vale a pena, isso sim, mencionar o prato que ele acompanhou — empadão de espinafres. Cozi em vapor de água salgada quase 1 Kg de filetes de pescada. Usei dos congelados e não os cozi muito, já vão perceber porquê. Também a vapor, mas abafados em recipiente de vidro, no micro-ondas, cozi 600g de espinafres, também congelados, daqueles que vêm em cubos. Temperei ambas as partes com alho em pó e azeite, e trasladei-as para dentro de um tabuleiro: peixe em baixo, espinafres por cima. Polvilhei o topo da camada de espinafres com um pouco de sal, mais uns grânulos de alho em pó, que nunca é de mais, adi um fio de azeite e cobri com uma camada de mozzarella. No topo, pão ralado. Foi ao forno a 230ºC, até a capa dourar.

5€.

14,5

domingo, 14 de novembro de 2010

«Um homem muito célebre, que era ao mesmo tempo um grande tolo, coisas que andam muito bem juntas, ao que parece, como mais de uma vez terei, sem dúvida, o doloroso prazer de demonstrar, ousou, num livro sobre a Mesa, composto do duplo ponto de vista da higiene e do prazer, escrever o que se segue no artigo VINHO: "O patriarca Noé passa por ser o inventor do vinho; é um licor que se faz com o fruto da vinha".

E que mais? Mais nada: é tudo. Por mais que folheeis o volume, que o vireis em todos os sentidos, que o tenteis ler de trás para diante, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, nada mais encontrareis sobre o vinho na Fisiologia do Gosto do ilustríssimo e respeitadíssimo Brillat-Savarin: "O patriarca Noé..." e "é um licor..."

Suponho que um habitante da Lua ou de qualquer outro planeta afastado, viajando pelo nosso mundo, e cansado das suas longas jornadas, pensa em refrescar o palato e aquecer o estômago. Quer pôr-se ao corrente dos prazeres e dos costumes da nossa terra. Ouviu vagamente falar de licores deliciosos com os quais os cidadãos desta esfera alcançavam à vontade coragem e alegria. Para estar mais certo da escolha, o habitante da Lua abre o oráculo do gosto, o célebre e infalível Brillat-Savarin, e ali encontra, no artigo VINHO, esta informação preciosa: O patriarca Noé... e este licor faz-se... Absolutamente digestivo. Muito explicativo. É impossível, depois de ter lido esta frase, não ter uma ideia justa e clara de todos os vinhos, das suas diferentes qualidades, dos seus inconvenientes, da sua força no estômago e no cérebro.

Ah! caros amigos, não leais Brillat-Savarin, Deus defenda aqueles que gostam de leituras inúteis, é a primeira máxima de um livrinho de Lavater, um filósofo que amou os homens mais do que todos os magistrados do mundo antigo e moderno. Nenhum bolo foi baptizado com o nome de Lavater; mas a memória deste homem angélico viverá ainda entre os cristãos, quando até os bons burgueses já tiverem esquecido o Brillat-Savarin, espécie de brioche insípido cujo menor defeito é servir de pretexto a uma taramelice de máximas tolamente pedantes tiradas da famosa obra-prima.

Se uma nova edição dessa falsa obra-prima ousa afrontar o bom senso da humanidade moderna, bebedores melancólicos, bebedores alegres, vós todos que procurais no vinho a lembrança ou o esquecimento, e que, não o achando nunca bastante completo para vosso gosto, só contemplais o céu pelo fundo da garrafa, bebedores esquecidos e ignorados, ireis vós comprar um exemplar e pagareis o mal com o bem, a indiferença com o bem-fazer?

Abro a Kreisleriana do divino Hoffmann, e nela leio uma curiosa recomendação. O músico consciencioso deve servir-se do champanhe para compor uma ópera cómica. Nele encontrará a alegria espumante e ligeira que o género reclama. A música religiosa pede vinho do Reno ou de Jurançon. Como no fundo das ideias profundas, há neles um amargo inebriador; mas a música heróica não pode dispensar o vinho de Borgonha. Tem a gravidade fogosa e o arrebatamento do patriotismo. Melhor do que tudo, e além do sentimento apaixonado de um bebedor, vejo aqui uma imparcialidade que muito honra um Alemão.

Hoffmann traçara um singular barómetro psicológico destinado a representar-lhe diferentes temperaturas e os fenómenos atmosféricos da sua alma. Nele se encontram divisões como estas: espírito ligeiramente irónico temperado de indulgência; espírito de solidão com profundo contentamento de mim mesmo; alegria musical; entusiasmo musical, tempestade musical, alegria sarcástica insuportável a mim mesmo, aspiração a sair do meu eu, objectividade excessiva, fusão do meu ser com a natureza. Escusado será dizer que as divisões do barómetro moral de Hoffmann eram fixadas segundo a sua ordem de geração, como nos barómetros comuns. Parece-me que há entre este barómetro psíquico e a explicação das qualidades musicais dos vinhos uma fraternidade evidente.

Hoffmann, no momento em que a morte o levou, começava a ganhar dinheiro. A fortuna sorria-lhe. Como o nosso caro e grande Balzac, foi só nos seus últimos tempos que viu brilhar a aurora boreal das mais antigas esperanças. Por essa altura, os editores, que disputavam os contos dele para os seus almanaques, tinham por costume, para lhe ganharem as boas graças, juntar à remessa de dinheiro uma caixa de vinhos de França.»


'n Les Paradis Artificiels, Charles Baudelaire, 1860,
trad. por José Saramago, 1971.

Gaião '2009

Alentejano da Companhia das Quintas, lote de Aragonês, Trincadeira, Alfrocheiro e Alicante Bouschet, parcialmente estagiado em madeira.

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Cor rubi. Frutos pretos, compota, cacau e madeira. Macio e envolvente, cálido, com 14% de álcool, de final curto. Sem surpresas, não possui qualquer traço de individualidade. É daqueles vinhos Coca-Cola que o enosnob despreza. Provando-o às cegas, poder-se-á dizer dele, com razoável certeza, que "é Alentejo" — não mais. Enfim, um vinho barato, simples, correcto e saboroso, para consumo quotidiano.

3€.

14

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dona Berta — Reserva "Vinha Centenária" '2006

Da Quinta do Carrenho — Freixo de Numão. O produtor tem presença na web. Foi feito com uvas de uma vinha plantada em altitude e muito velha, com mais de cem anos, composta por cepas de castas já pouco vistas — Cornifesto, Bastardo, Casculho e outras. Fermentou em cuba de inox, sob a acção de leveduras seleccionadas, tendo depois estagiado em barricas de carvalho francês durante sete meses. Depois disso, retiraram-no para uma cuba inox, onde passou ainda outro ano, tendo sido engarrafado em Abril de 2008. Coube-me a garrafa nº 2511 de 2833 produzidas.

Primeiro dia, após hora e meia de arejamento em decantador: Concentrado, com boa madeira que aparenta estar a integrar-se. A fruta predomina, negra, um pouco pesada, talvez também em passa, complementada por notas de anis, verniz, alcaçuz e violetas. Muito balsâmico quando agitado, sem chochice ou calidez. Mineral, apresenta bom volume de boca e maciez agradável. Equilibrado, embora a dar para o pesadote. Final médio/longo. Com a evolução no copo vêm sugestões de caramelo de nata e chocolate.

Segundo dia: quase só fruta — groselha, suculenta, levemente terrosa e apimentada. Mais límpido, mas também mais simples que no dia anterior. Tenso, com óptima acidez. Neste momento, parece-me inequívoco que terá ainda uns anos de evolução positiva pela frente.

Lembro-me do dia em que o comprei. Estava sol, um calor que não se podia. Entrei vestido de fubu na garrafeira, calado, phones nos ouvidos, a rondar as prateleiras. Sob olhares vigilantes, não fosse dar-me para roubar alguma coisa. Mentira — já estavam fartos de me ver por lá. E quase nunca tinha falado com o pessoal da casa: deus sabe o que me custa mostrar um bocadinho de receptividade aos de fora, pelo que é fácil manter a carapaça de porco-espinho amargurado, que afasta, mas nesse dia levei com um "o meu amigo percebe de vinho!" jovial, quase contente, acho que do dono. Então pensei "oh, foda-se, um barrete, um mono, e ainda por cima caro, querem ver?" e vim-me embora fodido da vida, embora sem protestar, claro, porque sou um atrofiado. Não, claro que não, sempre me atenderam bem, seria uma besta se o fizesse. Aliás, jamais me passaria tal coisa pela cabeça. E eu não sou atrofiado.

35€.

17

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Filmes (22)




Mi — Ela vai matar.
Eu — Vai?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Altano '2008

Da Symington. Composto por 75% de Tinta Roriz e Touriga Franca. Antes de engarrafado, parte do lote passou por barricas usadas de carvalho francês e americano.

Curto mas muito saboroso, muito cativante, mantém a receita dos anos anteriores, com a fruta silvestre do costume a servir de base a um conjunto sugestivo, marcado por notas características da Touriga Franca, apimentadas e florais. Algum álcool solto. No entanto, a boca tem frescura e revela a austeridade de um vinho que, embora jovial, é sério. Que não brilha, mas cumpre bem. E isto, tendo em conta o preço, só se pode considerar fantástico.

É possível que para o ano esteja melhor, dadas as similaridades com o de 2007, que tenho tido a oportunidade de beber nos últimos tempos.

2,69€ — ainda.

15,5

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Herdade das Pias — S&T '2008

Produzido pela FNF Soc. Vinícola, Lda. — Cuba / Beja.

Syrah & Trincadeira. As uvas, provenientes de vinhas novas, com seis anos, fermentaram em inox após desengace total. O vinho resultante estagiou durante seis meses em barricas de carvalho francês (80%) e americano.

Rubi escuro, não opaco. Frutos negros, flores, álcool e especiarias, traços de caramelo, compota e mentol definem um vinho tipicamente alentejano, de nariz doce e palato seco, com algum corpo e boa acidez, já macio, de final bastante prolongado.

Guloso, mas sério e bem feito. Será especialmente adequado para cativar jovens bebedores.

12€.

15,5

domingo, 7 de novembro de 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

Bétula '2009

Da Quinta do Torgal. Viognier e Sauvignon Blanc (50/50). Fermentou em madeira e inox. Encheram-se 3000 garrafas.

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Cor citrina. Pêras e espargos no nariz, boca consonante. Mais discretas, notas de acácia e madressilva, mel e fumo. Tudo na devida proporção. É um vinho limpo, fresco, intenso e elegante, impecavelmente não doce, de final médio/longo. Um belo branco, tanto a 10 como a 14ºC.

Ainda melhor que o do ano passado.

O PVP rondará os 15€.

17,5

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vale de Ancho '2004

Alentejano de Montemor-o-Novo, produzido pela Soc. Agrícola Gabriel Francisco Dias & Irmãs, Lda. Fica o elo para o espaço deles na web. Aragonês e Alicante Bouschet. Estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho francês.

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Raçudo, agradavelmente austero, mais intenso que propriamente encorpado, com excelente acidez e taninos gordos. Boa fruta, negra, densa, no ponto ideal de madurez, e boa madeira, ainda não completamente integrada. Um toque de especiarias e, com o ar, chocolate e caramelo de nata. Longo e saboroso, desde já revela um interessante compromisso entre firmeza e suavidade, embora deva continuar a afinar em garrafa.

30€.

17,5

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Death Cab for Cutie — We Have the Facts and We're Voting Yes


We spread out and occupy the cracks in the urban streets / Idle now: I rearrange the furniture as you sleep, as you sleep, as you sleep.

It's so appropriate: the way we amplify the sound, / and then the neighbours drop by and ask us to turn it down again.

We spread out and everyone is frightfully more aware / So impressed: The cocktail politics and obscure details.

And it was true that I was truly failing / But you were gone and I was home / Calling around, but nothing was found worthwhile.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Adega Cooperativa de Vila Flor — Moscatel do Douro '2000

Moscatel do Douro produzido pela Adega Cooperativa de Vila Flor. L.MVF02000. Estagiou em cascos de carvalho.

Cor de âmbar. O cheiro fez-me lembrar certas pastilhas de melão, com forma, cor e cheiro de melão doce, forçado, artificial, que tanto prezava quando era puto, à mistura com mel de acácia, flores e passas de uva, com laivos de frutos secos. Oh, foda-se, torpe tentativa esta de descrever um Moscatel típico, de doçura média, com algum tempo de garrafa! Redondo na boca, apesar de pender para a ligeireza. Comprido qb. Doooce, com 19% de álcool e acidez quase suficiente. . .

Enfim, Moscatel! Alguns poderão dizer que é um vinho meio abichanado, ao passo que outros não hesitarão em chamar-lhe néctar — não sendo necessário que alguém esteja a faltar à verdade.

Foi T' que trouxe.

15,5