sábado, 30 de julho de 2011

Muralhas de Monção '2010

Continuo a prometida incursão por vinhos mais populares com este lote de Alvarinho e Trajadura, fermentado a baixa temperatura e engarrafado sem estágio, produzido pela Adega Coop. Regional de Monção.

A cor é citrina, de fraca intensidade. O cheiro, simples, evoca flores brancas, pêssego e frutos tropicais. Diria que mantém o perfil que conheci à sua versão de 2007, isto a acreditar na memória e nas notas tomadas sobre aquela meia garrafa que bebemos no "Chicote" em Março de 2009. :)

Mantém o perfil do de 2007, sem surpresas. Talvez esteja (ainda) um pouco mais fresco.

4€.

14,5

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Velharias (32)

A Lua Cio Nação / Outubro '92

tal como vi escrito uma vez, numa parede da Alta


Podemos começar com um jovem esquálido de grandes olhos aguados que caminha vagarosamente pela alameda Júlio Henriques — Absorto pelo fulgor que emana das grades do jardim botânico, que sob o último sol da tarde parecem cobertas de ouro em pó — Whistlin — Mas que raio, como é que pode gostar de Papa Roach? — O meu gato estará bem? — Olha, um BMW Z1 — Será que tenho novidades no mail? — Uh! Mail! Online, vamos sendo roídos, lentamente comidos pela vida, bit a bit — Que coisa, Jesus! — Jesus — Mas mal de mim se for ver disso hoje — E no fim sou um triste, farto-me de falar sozinho, como os criativos e os esquizofrénicos — Encontro-me mergulhado nestes pensamentos quando chego a casa — Onde morro de tédio, como sempre — Tento escrever — Penso feio — O inimigo é demasiado poderoso: o inimigo sempre existiu: o inimigo está em toda a parte: o inimigo não é nenhum deles: o inimigo faz parte de mim: o inimigo sou eu, mas não faço caso e volto a fugir, e nestas fugas que se repetem vou encontrando vida: transmissões na minha frequência, capazes das manifestações mais sentidas porque vivem: para eles, o mundo existe, é o lugar onde acontecem todas as coisas, e apesar disso podem tocar-me e efectivamente ainda existem algumas almas caridosas que não me dizem que não, quem sabe se para me mostrar que talvez ainda valha a pena, que talvez ainda haja uma chama em mim que quer — Demasiado feio, no way — Tento pensar bonito, lembrar-me de coisas bonitas, mas com esta falta de experiência concreta de vida? — . . . à minha frente, um écran de computador. Agora, como sempre, uma viagem a algures dentro de mim, onde te prendi e me perdi: de onde nunca regressei. Conheço-me, mas não sei quem sou. E quem quererei ser? Talvez uma voz sem corpo que grita de mansinho no meio da escuridão. Move-me o desejo, creio que é a palavra certa. Desejo sem objecto, desejo de vazio, desejo de mim, desejo: talvez seja o que me traz de volta, uma e outra vez, a esta terra sem lugar onde o espaço não existe e o tempo voa — PORRA! Ou uma espécie de Inês Pedrosa lobotomizada. . . nah, gosto mais do natural. — Gutural — AHAHA! — Adiante — Recordar coisas bonitas, mais coisas bonitas — Sua tonta, dizes que me preferes às rosas? Todos os dias nasce e morre gente. Sem mim, o mundo seria o mesmo: nem melhor, nem pior. Mas sem rosas? — Mmm. . . mushy. Emofag de merda, será que só te lembras de melaço e gajas? Um puro e simples desperdício de ciclos de processador, delete na pinha — Aw, malaise — E efectivamente dou por mim a gemer j'suis malade — Um malade muito fraquinho, muito arrastado, o queixume de um velho argelino, devorado pelo cancro mas completamente charrado — Porquê argelino? — Bolas — Não existe escrita automática. É tudo menos automática: a degradação é fácil de representar — E nada. Não sai nada de jeito, mas estou farto de rir — Desisto: preparo uma unidade e encharco-me em Efexor — É uma bela noite para ficar em casa. . . — Santa inocência! — Nem um quarto de hora volvido, telefonam-me — Atendo — É o Cordeiro — Faço voz de monhé: pois bem se disse: sempre que os amigos afectuosos visitam uma casa, derramam alegria nos olhos dos seus magnânimos donos — Pois sim, venha! — Posso contar com visitas — Desfaço-me das calças de linho e da camisa dos mil e cinquenta e sete botões — Troco-os por um par de jeans, uma sweat da Studio Adventures, os meus ténis ROXOS. . . — Viro-me para a minha janela das ganzas apontadas ao céu — Coimbra, cortada ao meio, toda iluminada, atravessada por um lençol de nevoeiro — Daqui, parece uma torcida de algodão com um quilómetro e meio de comprimento por duzentos metros de altura — Muito longe, mas a meus pés — Eis-me! O Homem no topo do Mundo! Leio Yeats, fumo-me todo! — Que janota, há que escrevê-lo! — Que mais poderei querer? — Reflexões interrompidas pelo tilintar da campainha, como se fosse o próprio Deus a pedir-me juízo — Herr Luís à porta — O homem é Ariano! — Assim que abro, entra de rompante e sem pedir licença, atravessa o vestíbulo em passo apressado e só se detém na cozinha, talvez abismado com a quantidade de garrafas de whisky vazias que se encontram amontoadas em cima da mesa — Depois pergunta-me se vamos sair — Para já, não — Pede-me música. Dou-lhe Magnetic Fields, o terceiro volume das 69 Love Songs — Dança, impaciente. . . — Estou a ver que não gostas de esperar! — O Cordeiro mudou: era pachorrento quando o conheci — Agora comporta-se como uma criança pequena: saltita, gesticula, bate palmas — Que pressa é essa? — Vamos sair? — Talvez à uma — Tomamos café? — Ah! O eufemismo para "bebemos?" — Tão coimbrinha, coitadinho — Pode ser, respondo num tom opaco, procurando mostrar aquela forma de interesse tão bem ilustrada pelo hã hã dos psicanalistas — E até lá? — Jogamos uma rápida no tabuleiro do Alekhine? — Já não jogo xadrez — Nem comigo? — Abandonei — Então preparo outra ganza, que seca! — Conversamos — Na Parvónia, drogo-me menos. Mas talvez seja pior: ando permanentemente com medo — O Cordeiro não compreende a terrível sensação de impotência a que me refiro, ele que nunca soube o que é ter medo, aquele medo que nos faz evitar as manhãs, ver nos transeuntes bichos que mordem, estremecer ao menor ruído, a uma sombra que se aproxima, um carro que passa noutra rua — Vozes que não consigo ver remetem-me para um estado da mais profunda melancolia, e ainda assim estremeço: a minha alma não anda em paz — Vou procurando os caminhos secundários, as ruas mal iluminadas, os baldios para lá da omnipresente linha do caminho-de-ferro, com todas aquelas pedras, precipícios, charcos, silvas. . . O lugar onde posso, enfim, correr disparado, ser eu, escondido à sombra de árvores despidas — Correr sem sair do mesmo lugar sob aqueles ramos negros, sempre iguais, que brilham toda a noite porque a escuridão não existe — Saímos com o bater dos sinos que anunciam a primeira hora da madrugada, mas não nos moldes combinados — Recuso-me a entrar em sítios para beber. O Cordeiro fica um pouco contrariado — Ou seja, potencialmente, está tudo fodido — Mas depois de um café no Dixie, que despachamos num instante, acaba por transcender — De facto, segue-me como se fosse um cão — Vagueamos a pé pela cidade, divagamos — Ó Jorge, mas tu já viste quanta energia, quanta matéria, quanto espaço se criou só para formar, no lugar e na altura ideais, o ser mais que perfeito? O Luís Cordeiro! — Mas Cordeiro, tu não és o ser perfeito. És uma espécie de subproduto. Tu próprio admites ser uma consequência, tanto da Criação como da coisa criada. . . — Sim, sou o ser perfeito. Tudo o mais, passado e presente, sejam pessoas, máquinas ou montanhas, é paisagem feita para me entreter. . . — Corto-lhe abruptamente a palavra: Então porque é que vives com um preto? — Separamo-nos por volta das três da manhã, em pleno Penedo da Saudade — É sítio para japonês ver, e são imensos, inúmeros como só os chinocas sabem ser, todos de boné e sandálias, armados com pequenas máquinas fotográficas digitais — Deprimente. Faz-me lembrar o cemitério dos cães em Benfica, disse-me uma vez a Xana — Fico completamente só. Sento-me num banco de pedra: à superfície, uma ligeira película de humidade que não tardo a sentir — Puta merda! Exclamo sem medo de ser ouvido — De vez em quando, o ruído de um carro passa velozmente lá em cima. E o marulhar da água na bonita fonte-regato do cemitério índio que acaba por não ser fonte nem cascata nem regato nem coisa nenhuma enche-me daquela paz misteriosa de que falam os peregrinos, eles que estão habituados a visitar a casa de espíritos poderosos. Preparo mais uma unidade com toda a calma e levanto-me — Vejo-me espelhado no chão alvo da noite — A minha sombra — O Homem — Então reparo numa segunda sombra, mesmo atrás de mim, uma sombra que não segue os meus movimentos — MAS QUE RAIO? — Percorre-me um calafrio dos pés à cabeça — Volto-me lentamente e não vejo nada. Aquele também sou eu — E o que sucede deixa-me estupefacto: começo a ouvir em crescendo um "cri cri" muito familiar, um barulho repetitivo, terrível, que me perseguiu durante muitos anos, desde a mais tenra infância, aliás, das primeiras recordações que retenho — (Em tempos conheci uma velhota que atribuía esse som a espíritos malignos) — É mais forte do que a minha vontade, pisgo-me dali — Cordeiro, tens de me ajudar, não POSSO ficar sozinho, tens de me ajudar!, disparo, espavorido, ao telefone — Entretanto já sigo dentro de um táxi em direcção a casa dele — Cordeiro, precisamos de estar com pessoas. Eu quero estar com pessoas. Vamos sair, vamos à Via. . . — Ele aceita — Anjo! Anjo! e cubro-o de beijos — Antes de sairmos, tomo uns Valium para acalmar. Vinte minutos depois, estamos sentados no snack da Via. O Cordeiro bebe água, eu Bourbon mau — Não conversamos. Não temos nada para dizer um ao outro — Ocorre-me que devo escrever — Ali — Puxo de um guardanapo, escrevinho — O Cordeiro, atónito, protesta — Tento concentrar-me, não lhe ligo quando exclama em voz alta "Valium e whisky! Tratas-te bem, rapaz!" — Guardanapo em cima da mesa, escrevinho — Viajo no tempo, tudo se transfigura: de volta ao Sul a Faro ao Chelsea ainda por cima que engraçado depois de toda aquela confusão e parece que estou bem tal e qual como nos filmes o retrato da calma o tasco quase vazio anoitece escrevinho penso quão atabalhoado se revela o meu sentir que palavra feia comprida retorcida como me descreve bem ao fundo da rua o pior mar possível uma doca de recreio nem uma onda barquinhos miseráveis de quando em quando um peixe que salta à superfície e tudo isto é belo e em tudo isto acredito mas nada me diz respeito porque estou morto a estes pensamentos verto uma lágrima que bela expressão a bartender vai de certeza pensar em mim lol que patético não preciso de voltar a isto e um grupo de raparigas aos berros passa rente meu deus deixem-me em paz que cabras suspiro será que ninguém percebe o mundo é negro a beleza está toda lá fora é dos vivos que vivem entre ela e não a sabem apreciar eu aspiro em seco caio no negro acontece de súbito penso em nada tudo é nada não nasce nada está tudo mirrado dentro de mim só uma expressão de amargor um tipo sem nome e sem idade para aqueles que me olham neste estado outra vez os outros J não penses neles J podes fazer bem mas fazer o quê e no guardanapo nem uma frase não sou capaz de vista toldada aceno à rapariga mais um bourbon quando ela volta escrevinho fundido na folha tenho de escrever para longe deste pesadelo sei que não vou acordar nem morrer me serviria de nada a ponta da esferográfica um primeiro risco um traço para toda esta dor cujo nome é o teu a empregada retira-se como tu tão parecida contigo paro penso reformulo não está bem não me agrada a construção mereço mais que isto acendo um cigarro olho para a rua desconsolada quase deserta estranho ainda não vi nenhuma gaivota mais um bourbon escrevinho mas as minhas palavras são outras nunca mais me encontro não sirvo para nada não estou assim por ela nem por mim que tristeza J ao menos sê franco afinal nenhum deles te fez mal tu é que tens medo deixa-te dessas coisas escreve mas não olhes para eles estou morto mas podem ferir-me na mesma não pode acontecer escrevinho enfim defendo-me escrevinho pois bem Magnollia foi-se e também decidi não acompanhar o Márcio a Budapeste — Meu Deus, 2003, que Verão tão quente — Desperto numa cama de dossel com cortinas de seda transparente completamente corridas já em pleno lusco-fusco da tarde e acordo acompanhado — Acordo acompanhado, lol, começamos bem! — E quem é ela: a mesma madeixa cor-de-rosa de sempre a despontar por entre caracóis negros que nunca se desfazem, o mesmo pescoço comprido e tão branco, os mesmos brincos de brilhantes azuis, o mesmo cheiro a Jicky — Estou a sonhar! — Enfim, dou por mim não sei se acordado se a dormir, mas abismado com tamanha beleza e incapaz de me mover um milímetro, não vá estragar o espectáculo quase divino — O pior estava para vir — Acorda e senta-se a meu lado, fresca como uma rosa, nada acabrunhada, nada torcida, nada surpreendida com a minha presença, e sem dizer absolutamente nada, levanta-se para regressar quase de imediato com um poema — Pede-me que lho leia: é muito longo e uma chachada esquisitíssima, mas o pior é que o leio mesmo — Porém, termino e continuo a ouvi-lo, primeiro na voz dela, depois multiplicado por muitas outras vozes que não consigo ver — Sem saber como, sou como que teleportado para uma sala térrea de hotel inglês de província que dá para um enorme prado muito verde e onde estão postos treze tabuleiros de xadrez, alinhados sobre uma única mesa muito comprida — E não vejo vivalma, mas continuo a ouvir essa espécie de refrão "mel e amêndoas" — Veste-te de noite clara para te não ver — A chama desses negros olhos vossos-nossos-meus — Depois do tempo que corre — Tempo onde nada é verdade — Teu labirinto, meu jardim de saudade — & DAAAMN! Acordo em sobressalto com aquela treta a ecoar-me nos ouvidos na voz de um sem fim de frades capuchinhos que me rodeiam algures num subterrâneo onde há grutas submersas e fontes mágicas de cristal e enormes desenhos vermelhos, alguns em relevo, vivos, com luz própria, ladeando galerias de pedra negra fumegante por onde corro porque é necessário fugir — Desemboco numa espécie de estação dos caminhos-de-ferro, deserta, nem sombras da cidade — Mais uma vez, eu face ao nada, um pesadelo de morte industrial, tudo cinzento e castanho-escuro e ferrugem e caldeiras inutilizadas, cobertas de fuligem — Enormes locomotivas amarelas que as chuvas ácidas enegreceram muitos anos após terem parado pela última vez, vagões sem rodas e contentores esmagados, enormes silos, alguns deles tombados, nuvens que pingam um líquido qualquer que me ocorre poder ser sangue — Que raio! M?! — Aquela maldita ladainha persegue-me até que finalmente desperto no mais absoluto sobressalto, completamente imerso numa monumental golfada de sol — Um dia radiante — Deixei a merda da persiana aberta. Cordeiro, podes fechá-la?, digo entredentes, mas o Cordeiro foi-se há horas — Ou assim penso por um momento, até ele regressar com uma bandeja cheia de bolinhos e bolachas e mini-croissants de chocolate — Obrigado, bebé! Açúcar p'rós corninhos, para não apagar! — Como quase tudo e empurro com mais Valium — Oh, Lagavulin, doce Speyside! :) — A última coisa de que me lembro é um quadro feérico de luzes degradadas: as linhas esbateram-se todas — Depois tudo fica escuro — Quando volto a mim, o Cordeiro está de pé: puxa uma cadeira para a beira da minha cama e ri-se quando comento "Foda-se, que moca", retorquindo que "Estamos sempre a dizer foda-se, pá" — És um amor, pá. Obrigado por tudo — Pobre homem, não sabe o que há-de fazer de mim — Fascina-me como não me abandonou, pelo que o deixo encostar-se comigo, ouvir os discos dos Magnetic Fields de que tanto gosta e (finalmente) tentar dormir em paz — Que cena, não me lembro de nada depois da Via. . . — A carga dentro do meu cérebro é tamanha que começo a divagar numa espécie de monólogo neurótico, cheiinho de pena de mim próprio (devia era ter pena do Cordeiro, obrigá-lo a ouvir coisas destas: o homem é um santo) e nada preocupado com o meu fiel amigo que toma conta de mim quando meto doses exorbitantes, não vão os vizinhos descobrir-me morto na banheira como Jim Morrison (mas não tão bem conservado) — O Cordeiro chega a adormecer, mas hoje estou azul e tenho de comunicar-lhe a novidade — O meu "Cordeiro. . ." parte ao encontro de um "Diga" estremunhado, aspirado, verdadeiramente sofredor — Méméxinho, conta uma hixtória — E ele quase se irrita, "Ah, cão, tu não sabes o que é sofrer!" — Sei, sim. Tu é que não sabes. És alentejano — No meu tempo, quando vivia em Évora, as lojas fechavam todas no primeiro de Maio, e se alguém abrisse, levava porrada — Princípio dos anos 80? — Sim, Jorge. Foram tempos dos diabos — Esse porcos. É caso para dizer que a peçonha resistiu à morte do animal — Tens razão, pá — Pá é à comuna — Tu também dizes — E faço-lhe notar que noto que tem razão — Irmão, há bocado, ontem, quando estava vivo, passei por uma tipa lindíssima na Baixa, em frente do Góis. Prendeu-me. — A sério? — Digo-lhe que não sei (e não sei mesmo) — Mas, para além do que se sabe, existe o que se sente e nós, os freaks, irradiamos uma aura característica, diferente de todas as outras, que só existe para nós e com a qual nos reconhecemos — Num sítio tão triste como a Baixa, praticamente de noite, passa aquele anjinho, tão bem vestida, Jesus, bati mal, Irmão — Imensos olhos, não diria vítreos. . . caralho, isso é feio. Como é que se diz mesmo? Pá, ela emanava aquilo. Não percebes? Por vezes os nossos cérebros demoram-se em desconhecidos que sentimos terem sido sempre dos nossos, é como se nos cheirássemos — Tusso um pouco, aclaro a voz — Cabelo castanho dourado médio e olhos castanhos médios dourados, coisas de onde vejo emergir algumas das minhas mais ternas recordações de infância — Foi num dia de sol fresco, um pouco como hoje: eu andava na escola primária e era um menino muito esperto, a professora era amiga dos meus pais e de vez em quando visitava-nos. Por vezes trazia-me chocolates, carrinhos, livros, coisas de que os meninos gostam, sejam eles muito espertos ou não — Mas naquela abençoada tarde, ofereceu-me duas pedras, dois olhos-de-tigre polidos, do tamanho de tâmaras. — Hah! Parece a história daquelas duas que tão perfeitas se fizeram que uma noite vieram os ogres e lhes roubaram os olhos porque os acharam lindos — Anyway, sempre venerei aquelas pedras — um dia, a M' pediu para as usar "Quão fantasmagórico adorno!" — (Ela dizia coisas destas) — Menina dos olhos doces que com lágrimas plantaste oásis no coração do deserto — Como me lembro de ter de te esperar naquela espécie de mini bar do Ritz todo bem acompanhado oh yea que para ti tinham mesmo de ser os piores de todos aquele safado do LL galego filho da puta mais o imbecil do P yah beber contigo no Ritz uma última vez e connosco a mais vil canalha e um pratinho de neurolépticos para empurrar com muitos dry martinis — Tu hás-de poder beber algo mais doce, artic safari ou malibu se quiseres, fundamental é acabarmos todos sorrisos — E perder-te pelo caminho e ter de consolar-me o senhor LL, voltar para casa danado por mais uma vez ter sido uma besta escrever coisas sem nexo chorar por ti vomitar tudo e sentir-me pouco fixe pôr Sisters of Mercy a tocar, reler-te e fazer notar que existe uma estrutura inglesada como pano de fundo do teu português, pensar que te apanhei e saber ao mesmo tempo que estou enganado — E quando te digo enfim, acho mesmo que vês tanto e dizes tão pouco das coisas do mundo, sempre tão hesitante nessa tua lógica implacável, e bem no fundo sabes perfeitamente que é desnecessário ser azul por dentro e pensar com desgosto que porcaria de pessoa sou, que tanto necessito das cicatrizes que para os outros são tudo o que há de mau, fraqueza e estupidez e mais ninguém se sacrifica assim para ser aceite e quem o faz não é ninguém, e no fim nem de as riscar em mim própria sou capaz porque dói, e pensares que não há quem queira saber de ti, ninguém faz isso por ninguém a menos que queira comer alguém enfim um recurso necessário para ganhar tempo, para apreciar os teus jogos tão parecidos com os meus e responder-te depressa quando me perguntas alguma coisa porque a paciência não é o nosso forte e os loucos enfurecem-se — Ora não importa que nos leiam, tu e eu, olha para esta confusão, podem ler e reler as vezes que quiserem, no fim não vão pescar nada e assim é que deve ser, pelo menos convém-me, fui de facto um porco da pior espécie, desculpa lá gaja, olha, gosto mesmo de ti — Ela nem sequer se interessa e simplesmente passa adiante — Não é fachada, o mundo é feio, devíamos poder destruí-lo e refazer tudo melhor, à medida dos meus sonhos — E quando, descorçoado com a minha velha tia de idade inconfessável e mais um livro no karma lhe digo "Já que a família insiste em aparecer, ao menos que venham as novas também, que usualmente aquilo é só pessoal que já morreu, pois claro", ela responde passado um momento, só passado um momento, "Mas novas em anos, ou em novidades?" — Delicioso! — Deliciosa, desvairada, diabólica! — Your tender smile, thin shade of death, announcing down, your cool eyes going cooler, cold, blank, all aglow with evil you littil devil — So many times you died, You have created death — Deathly, devilish and delicious — Devilicious — Diaboliciosa, mas sempre contida, sabes que tenho saudades, mesmo depois daquilo tudo? — Assim divago numa voz sumida, esparramado na cama, completamente pedrado, durante muito tempo, talvez horas, enquanto o pobre Cordeiro, morto de sono, a resignação em pessoa, espera pacientemente que eu adormeça — Nada feito, ela não deixa — Queres mais dois? — Aceito, respondo-lhe que não sei o que seria de mim sem ele, encosto-me ao espaldar, emborco as duas últimas unidades com um pouco de chá preto feito pelo meu bebé (trinta e dois anos, quinze matrículas: bebé) e pouco depois estou a vomitar que nem um perdido na casa-de-banho — As minhas entrevistas com o Grande Microfone Branco, como gosto de lhes chamar — Recosto-me, estico-me, viro-me e reviro-me, faço-lhe notar que "é muito diazepam" e ele pergunta-me pela milionésima vez se estou bem — Mas claro que estou bem, estou óptimo, sabes porquê? Porque assim penso em quando começar a sentir-me melhor, e vai ser tão bom! Assim não me afundo no vazio negro! Sinto-me mal, pá, mas há mais que nada, percebes? É preciso sacrificar o corpo para alcançar a imortalidade, como fez Cristo, Cordeiro! — Tu és mas é chalado dos cornos, responde, talvez com uma pontinha de inveja. Mas quando se cala, o silêncio traz de volta aquela terrível dúvida que está sempre presente e nos faz esquálidos e de olhos aguados e em nós tudo perpassa e nos faz diferentes, doentes, a tomar conta de cada célula do meu corpo — Vou morrer como o Ripper: num instante, tudo se faz morte, mas a morte não está lá fora, está dentro de mim — Morte! Morte em toda a parte! — (Merda! A Morte tem asas!) — NÃO! Penso sem dúvida alguma muito alto, mas não emito qualquer som. Com grande esforço, ainda entreabro um olho para dar com ele a usar a minha parede: fita-a de olhos rígidos, esbugalhados, o rosto tomado de estranha fixidez, desenha-se-lhe nos lábios um esgar horroroso, não sei se mais triste ou imbecil, e tão feio que só me faz lembrar o ar febril de certas crianças pequenas quando dão com os pais a foder — Sou tomado por um azedume extremo, qual velho no leito de morte: ainda murmuro "Ah, porco. . . para onde olhas?" — Mas, antes de obter qualquer resposta, adormeci.

Acordo por volta das 21h do dia seguinte, terça-feira, 4 de Maio — Dormi quase trinta horas — Olho pela janela: Coimbra, submissa, de grãos de chuva temperada — Era uma vez um graffiti que vivia nas traseiras da Faculdade de Direito — Sorri, J — Rir é do demo, é mesmo! — A vida é um portmanteau ao contrário — Uma sala triste naquele lugar onde o tempo não acaba e todos são cegos à excepção dos poetas e uma cabra louca aguarda nas sombras o viandante solitário que abandonou a estrada e se aventura em descobertas pelo meio do arvoredo — A minha arte é lixar-te, dizia o outro — Segue, não olhes para trás — "As crianças que ficaram mais fortes e se esforçaram por sorrir", cantado como num sonho: vozes de crianças ou Victoria Abril em falsete, como havia de sabê-lo ao certo? — Um terraço/árvores/piscina/amurada em tons de bege sobre as árvores/no meio das árvores, casas/mais abaixo, Monte Carlo?/na ponta, uma duas três quatro palmeiras/ao fundo, o mar, um azul impossível — Memória/Posse/Satisfação/Falta — Falta contínua: assim se deveria chamar a doença — Arde o vento/O mar é anis/As crianças são meninas de quatro anos: vestem de branco/Correm? — Qual alienação dinâmica! É uma implosão do indivíduo — Expansão — Sonhos — Os sonhos calam-nos — Ora, chega. A mensagem está entregue. É só uma página de diário.
5/5/2004

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Porta da Ravessa '2008

Oi gente, saudades?

Primeiro elemento de uma série de vinhos francamente proletários, este tinto da Adega Coop. de Redondo foi feito com uvas das castas Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet e Castelão, entre outras, presentes em menor quantidade, pelo menos a acreditar na informação oferecida pelo contra-rótulo. Nos últimos anos, o volume produzido tem superado de forma consistente os 8 milhões de garrafas, pelo que não surpreende que tenha sido pensado para viver sem a ajuda de estágio em madeira.

Da prova em si, boa cor, alguma fruta, vermelha e preta, indefinida, esmaecida, como que diluída, mas, numa toada mais positiva, bem madura, sem excessos. Algum vegetal, alguma acidez, fugacidade qb. Sem defeito, mas fraco.

Para terminar, fica a nota de que esta Porta da Ravessa foi glorificada supermarca nos já longínquos idos de 2004. Aqui para nós, e perdoem-me a abordagem ao mesmo tempo simplista e espinhosa, marca é marca, vinho é vinho, e não se tratando de coisas completamente imiscíveis, defenderão os do ramo que muito pelo contrário, aliás, não percebo, de todo, como é que a primeira consegue ser tão boa e o segundo tão... pois, isso.

2,80€.

13

terça-feira, 26 de julho de 2011

Juan de Albret — Crianza '2007

O blog continua a meio gás. Simplesmente, não tem apetecido, e para estar a enfiar "palha", só para encher, só para manter a posição nos agregadores e outros que tais, não vale a pena. Novidades? Algumas, mas nada que ao mesmo tempo seja de interesse e não se possa encontrar noutro sítio qualquer. Um moscatel da Venâncio da Costa Lima ganhou o Muscats du Monde, a ERC reprovou a conduta da Benfica TV em relação a Pinto da Costa, encomendei uma placa gráfica nova, morreu uma data de gente na Noruega às mãos de um trololó e a Amy Winehouse também. Vedes (não vêdes)?

Bem, vamos lá ao vinho!

Navarro de Murchante, produzido pela Finca Albret. Composto por 60% Tempranillo, 20 Cabernet Sauvignon e 20% Merlot, passou 14 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Muita cor! Frutos pretos, ameixa, alcaçuz e verdor definem este vinho sólido mas linear, sóbrio e envolvente, com força, frescura e taninos numerosos, de grão fino, estrutura firme, a recuperar um pouco as sugestões de possibilidade de guarda que a modéstia da fruta que mostra levaria, à partida, a descartar. Do que falta dizer, rama de tomateiro, azeitona verde, alguma madeira, amanteigada, com côco e baunilha, mesclada no sabor, ligeiro mineral, pareceu-me, alguma dispersão, pelo menos tendo em conta o corpo gordinho, e um final mediano em comprimento mas de boa intensidade, sempre sem amargar. Porreiro.

7€.

16

domingo, 24 de julho de 2011

Crashing the System

On January 15, 1990, AT&T's long-distance telephone switching system crashed.

This was a strange, dire, huge event. Sixty thousand people lost their telephone service completely. During the nine long hours of frantic effort that it took to restore service, some seventy million telephone calls went uncompleted.

Losses of service, known as "outages" in the telco trade, are a known and accepted hazard of the telephone business. Hurricanes hit, and phone cables get snapped by the thousands. Earthquakes wrench through buried fiber-optic lines. Switching stations catch fire and burn to the ground. These things do happen. There are contingency plans for them, and decades of experience in dealing with them. But the Crash of January 15 was unprecedented. It was unbelievably huge, and it occurred for no apparent physical reason.

The crash started on a Monday afternoon in a single switching- station in Manhattan. But, unlike any merely physical damage, it spread and spread. Station after station across America collapsed in a chain reaction, until fully half of AT&T's network had gone haywire and the remaining half was hard-put to handle the overflow.

Within nine hours, AT&T software engineers more or less understood what had caused the crash. Replicating the problem exactly, poring over software line by line, took them a couple of weeks. But because it was hard to understand technically, the full truth of the matter and its implications were not widely and thoroughly aired and explained. The root cause of the crash remained obscure, surrounded by rumor and fear. The crash was a grave corporate embarrassment. The "culprit" was a bug in AT&T's own software — not the sort of admission the telecommunications giant wanted to make, especially in the face of increasing competition. Still, the truth was told, in the baffling technical terms necessary to explain it.

Somehow the explanation failed to persuade American law enforcement officials and even telephone corporate security personnel. These people were not technical experts or software wizards, and they had their own suspicions about the cause of this disaster.

The police and telco security had important sources of information denied to mere software engineers. They had informants in the computer underground and years of experience in dealing with high-tech rascality that seemed to grow ever more sophisticated. For years they had been expecting a direct and savage attack against the American national telephone system. And with the Crash of January 15 — the first month of a new, high-tech decade — their predictions, fears, and suspicions seemed at last to have entered the real world. A world where the telephone system had not merely crashed, but, quite likely, been crashed — by "hackers".

The crash created a large dark cloud of suspicion that would color certain people's assumptions and actions for months. The fact that it took place in the realm of software was suspicious on its face. The fact that it occurred on Martin Luther King Day, still the most politically touchy of American holidays, made it more suspicious yet.

The Crash of January 15 gave the Hacker Crackdown its sense of edge and its sweaty urgency. It made people, powerful people in positions of public authority, willing to believe the worst. And, most fatally, it helped to give investigators a willingness to take extreme measures and the determination to preserve almost total secrecy. An obscure software fault in an aging switching system in New York was to lead to a chain reaction of legal and constitutional trouble all across the country.

Like the crash in the telephone system, this chain reaction was ready and waiting to happen. During the 1980s, the American legal system was extensively patched to deal with the novel issues of computer crime. There was, for instance, the Electronic Communications Privacy Act of 1986 (eloquently described as "a stinking mess" by a prominent law enforcement official). And there was the draconian Computer Fraud and Abuse Act of 1986, passed unanimously by the United States Senate, which later would reveal a large number of flaws. Extensive, wellmeant efforts had been made to keep the legal system up to date. But in the day-to-day grind of the real world, even the most elegant software tends to crumble and suddenly reveal its hidden bugs.

Like the advancing telephone system, the American legal system was certainly not ruined by its temporary crash; but for those caught under the weight of the collapsing system, life became a series of blackouts and anomalies.

In order to understand why these weird events occurred, both in the world of technology and in the world of law, it's not enough to understand the merely technical problems. We will get to those; but first and foremost, we must try to understand the telephone, and the business of telephones, and the community of human beings that telephones have created.

Technologies have life cycles, like cities do, like institutions do, like laws and governments do.


Bruce Sterling,
The Hacker Crackdown: Law and Disorder on the Electronic Frontier,
1992.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Valdehermoso — Roble '2008

Produzido e engarrafado por Bodegas y Viñedos Valderiz — Burgos. Valdehermoso es uno de los pagos de la familia Esteban, está situado en Roa a una altitud de 825m, en un suelo arenoso calcáreo. Das uvas Tempranillo (Tinta del País) ali plantadas, resultou este vinho, estagiado meio ano em barricas de carvalho francês antes de engarrafado.

Rubi escuro de concentração média. Gosto da acidez verde, das cerejas, das sugestões dos respectivos caroços, dos toques de pinho (cedro?) e café, do amargor residual que deixa na boca. A madeira, presente, faz precisamente o prometido pelo contra-rótulo, o que não é coisa pouca. No entanto, onde menos se espera, já depois de cheirado, já depois de ter atacado a boca com firmeza de sabor, lá bem no miolo, a fruta como que se dilui e deixa a ideia de algo estar em falta. Entretanto foi engolido, fácil, simpático, redondo, a fazer apetecer mais. Deu-se e agradou, primeiro a solo, depois com entrecosto no forno — apesar de tudo, está tudo bem.

Dos espanhóis "bonzinhos" que passou a ser possível encontrar no LIDL de há uns tempos para cá, este custa o mesmo e é (leia-se achei-o) um pouco melhor.

10€.

16

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Encostas do Tua — Reserva '2006

Este veio dos vinhedos da Brunheda, nas margens do Tua. As castas, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. Fermentou em cubas, a temperatura controlada, e depois estagiou, um ano, em carvalho francês. O produtor é a Soc. Vinhos Vale da Corça e quem der um click aqui vai ter ao respectivo sítio web. Fica ainda a nota de que o seu irmão menor da colheita de 2007 passou há relativamente pouco tempo por este espaço.

Foi bebido a 16º e mais, depois de arejado conforme o método que alguns dizem de Audoze, mas que é tanto dele como do meu defunto gato (assim que provei da garrafa recém-aberta, ocorreu-me que poderia beneficiar de uma oxigenação mais lenta). Muito sucintamente: Escuro, não retinto. Tourigão, com intenso cheiro a ameixa e coisas roxas, madeira e acidez, algo como concentrado de laranja amarga aromatizado com bergamota. Firme e densamente taninoso, mas já razoavelmente polido, de final longo, com travo de café e especiarias quentes. Composto, mas nem por sombras complexo. Confio que a madeira acabe por se integrar. Não sobrou para o segundo dia.

15€.

16,5

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Filmes (32)




E pensar que às vezes arrisco uns bitaites sobre cinema... Valha-me Deus.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Real Companhia Velha — Vintage '2001

Frutos vermelhos e (sobretudo) pretos, primeiro mais sumarentos, depois mais pesados, também em compota, mato seco, balsâmico indefinido, um pouco de fumo e aguardente marcam um Vintage relativamente simples, de corpo e volume medianos. Apesar do equilíbrio que o pauta, nota-se-lhe certa ligeira sensação de calor que, sem assoberbar, de alguma forma percorre toda a prova, lado a lado com alguma doçura, típica do género e nem por sombras excessiva. O final é longo, levemente tostado.

Tem dez anos, vai viver, claro. No entanto, não será completamente irrelevante, pelo menos a médio/longo prazo, que já não lhe tenha detectado sinais objectivos de burridade.

Porque é que a ficha técnica respectiva não aparece no sítio web do produtor?

30€.

16,5

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Berlin Calling — The Soundtrack by Paul Kalkbrenner

Ó passarinhos, parece que voltei sem paciência para vocêzes! Deixo aqui isto, enquanto não aparece melhor. Sim, que este electro é do bem (não é como o do venerável John David Jackson, portanto).

Só caca, só caca. . .

Bem —




.
.
.

#5, Square 1.

O filme também está muito giro.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Monte Ducay — Reserva '2006

D.O. Cariñena produzido pelas Bodegas San Valero. Tempranillo, Garnacha e Cabernet Sauvignon. Chamam-lhe tinto pergamino — a garrafa vem embrulhada em papel. Papel esse que, pensava eu, uma vez removido, revelaria o verdadeiro rótulo. Pois bem, fodi-me: retirado o papel, muito à J, e em consequência disso infotografável, quedei-me com uma garrafa despida e sem rótulo para acompanhar o post. Merdas do marketing, enfim.

Quanto ao vinho, muita cor, a prometer boa concentração. No entanto, começou por se mostrar estranhamente inexpressivo, tanto no nariz como na boca, vegetal, um bocadinho resinoso, sem grande sabor, como se o oco que reportei no meio deste aqui se espraiasse a toda a extensão do vinho. Melhorou ao fim de algum tempo no copo, mais ou menos meia hora, talvez, já não sei precisar, e aí começou a mostrar fruta, quase exclusivamente cereja, primeiro tímida, verde, com ligeiro amargor e toque abaunilhado, depois cada vez mais mole, madura, doce e alcoólica. Mais resina, nunca tosta. Curioso, no mínimo, partindo do princípio de que passou 14 meses em barricas de carvalho americano. O final mostrou-se quente, longo e bastante taninoso.

Mais que apenas correcto e com potencial de envelhecimento — grande RQP. Do mesmo produtor já por aqui passou este, que, na devida proporção, deixou uma impressão semelhante.

5€.

15

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Porta dos Cavaleiros '2007

Dão tinto das Caves S. João, feito a partir de Touriga Nacional, Alfrocheiro, Aragonês e Jaen; não passou por madeira.

.
.

Fruta vermelha, musgosa, funk abafado, etanol. Fruta que não é doce, mas traz agarradas notas de mel — pelo menos foi o que me pareceu. No mais, é um típico Dão jovem, simples mas polido, médio em tudo e que sabe a vinho. Destaca-se pela coesão que apresenta, bem como por certa acidez gulosinha. . .

2€.

14,5

segunda-feira, 4 de julho de 2011

I'M MY DILEMMA

I do not want to palm off

my dilemma onto the Volk.

I do not want to rehabilitate

the nation anymore.

I prefer waking up

every morning with my snot gun.

I'm normal.

My clothes are formal.

I'm fit.

I'm caught in my own trap.

I'm a giraffe in a brothel.

I'm etcetera.

I'm normal.

I prefer waking up

every morning with my snot gun.


Johan van Wyk,
Bome Gaan Dood om Jou, 1981

domingo, 3 de julho de 2011

Lavradores de Feitoria — Gadiva (Branco) '2010

Da informação contida no sítio web do produtor: 74% Malvasia Fina, 16% Síria, 10% Gouveio. As uvas provêm de vinhas com 25 a 30 anos e foram fermentadas a baixa temperatura. Antes de engarrafado, o vinho daí resultante foi submetido a colagem e estabilização pelo frio.

.
.

Cor citrina. Frutos de polpa branca — líchias em conserva? — flores e baunilha destacam-se na prova de nariz. O corpo é ligeiro mas fresco, sustentado por boa acidez limonada. Simples mas eficaz, mantém o estilo deste seu predecessor. Para o preço, está muito bem.

2,50€

15

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Plansel Selecta — Touriga Nacional '2008

Alentejano de Montemor-o-Novo; podem visitar o espaço do produtor na internet seguindo este link. O mosto sofreu uma fermentação prolongada em lagar, tendo o vinho resultante estagiado durante 10 meses em barricas de carvalho francês. Das 10000 produzidas, abri a garrafa nº 4272.

Terra, violetas, grafite e vegetal seco. Bergamota. Curiosa a alusão da Sra. Lindemann a flor de laranjeira, no contra-rótulo. Bergamota. Na boca é macio, muito envolvente, com estrutura e acidez suficientes para lhe dar aquele ar cheio, composto, tão necessário ao equilíbrio de um vinho com esta concentração e teor alcoólico — 15%! A fruta surge generosa, secundada por sugestões de chocolate de leite, e o final é médio/longo. Segundo dia: mais frutos negros, menos carácter varietal.

To cut a long story short, gostei.

15€.

16,5