domingo, 30 de setembro de 2012










O gato preto é bicho, o outro tem olho de incendiário.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Reguengos — Reserva '2009

Versão de 2009 do tinto Reserva produzido pela coop. de Reguengos de Monsaraz. Lote de Trincadeira, Aragonês, Tinta Caiada e Alicante Bouschet, fermentou com curtimenta, tendo posteriormente descansado "de um a dois anos", conforme reza a respectiva ficha técnica, parte em depósitos de grande capacidade, parte em barricas de carvalho português e francês.

Franco, trouxe consigo boa fruta negra, fresca e madura, passas, um toque de especiaria, equilíbrio, alguma estrutura e um final razoável. Tanto quanto me pareceu, manteve o perfil fresco e jovem dos seus predecessores de 2007 e 2008, pouco diferindo deste último.

Acompanhou o nosso histórico frango com cogumelos e vinho tinto, que nunca desilude, desta vez acompanhado de batatas assadas com alecrim — aí fica uma possível receita, para os interessados.

4€.

15,5

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Catedral — Encruzado '2010

Varietal Encruzado das Caves Velhas. A respectiva ficha técnica refere "desengaçe total, prensagem pneumática, defecação estática natural [ou seja, débourbage, clarificação do mosto por floculação e sedimentação das partes sólidas, antes da fermentação] e fermentação alcoólica a 16ºC". Surpreendeu a ausência de nota a qualquer tipo de passagem por madeira, posto o que percebi do vinho quando o bebi — e sim, estou perfeitamente consciente de que posso ter percebido pouco ou mal.

Cor esmaecida. Simples mas agradável no nariz, com discreta acidez citrina a envolver frutos de polpa branca e suaves notas de baunilha a temperar o conjunto. Na boca, algum frescor, o suficiente, ia acompanhando a untuosidade que caracteriza os varietais da casta e que aqui apareceu com alguma timidez. Apesar de algumas impressões bonitas e do equilíbrio global evidenciado, a imagem que dele no fim prevaleceu foi a de um vinho pequeno e porventura mais débil que delicado, passe o abuso semântico. Acompanhou salema no forno, com batatas, que desta vez não terá provocado, tanto quanto conseguimos perceber, qualquer efeito ictioalienotóxico.

5€.

15

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre as gajas burras (e outros pequenos animalejos desta casta)

I would more willingly, quoth Panurge, consult with and be advised by a dumb woman, were it not that I am afraid of two things. The first is, that the greater part of women, whatever be that they see, do always represent unto their fancies, think, and imagine, that it hath some relation to the sugared entering of the goodly ithyphallos, and graffing in the cleft of the overturned tree the quickset imp of the pin of copulation. Whatever signs, shows, or gestures we shall make, or whatever our behaviour, carriage, or demeanour shall happen to be in their view and presence, they will interpret the whole in reference to the act of androgynation and the culbutizing exercise, by which means we shall be abusively disappointed of our designs, in regard that she will take all our signs for nothing else but tokens and representations of our desire to entice her unto the lists of a Cyprian combat or catsenconny skirmish. Do you remember what happened at Rome two hundred and threescore years after the foundation thereof? A young Roman gentleman encountering by chance, at the foot of Mount Celion, with a beautiful Latin lady named Verona, who from her very cradle upwards had always been both deaf and dumb, very civilly asked her, not without a chironomatic Italianizing of his demand, with various jectigation of his fingers and other gesticulations as yet customary amongst the speakers of that country, what senators in her descent from the top of the hill she had met with going up thither. For you are to conceive that he, knowing no more of her deafness than dumbness, was ignorant of both. She in the meantime, who neither heard nor understood so much as one word of what he had said, straight imagined, by all that she could apprehend in the lovely gesture of his manual signs, that what he then required of her was what herself had a great mind to, even that which a young man doth naturally desire of a woman. Then was it that by signs, which in all occurrences of venereal love are incomparably more attractive, valid, and efficacious than words, she beckoned to him to come along with her to her house; which when he had done, she drew him aside to a privy room, and then made a most lively alluring sign unto him to show that the game did please her. Whereupon, without any more advertisement, or so much as the uttering of one word on either side, they fell to and bringuardized it lustily.

The other cause of my being averse from consulting with dumb women is, that to our signs they would make no answer at all, but suddenly fall backwards in a divarication posture, to intimate thereby unto us the reality of their consent to the supposed motion of our tacit demands. Or if they should chance to make any countersigns responsory to our propositions, they would prove so foolish, impertinent, and ridiculous, that by them ourselves should easily judge their thoughts to have no excursion beyond the duffling academy. You know very well how at Brignoles, when the religious nun, Sister Fatbum, was made big with child by the young Stiffly-stand-to't, her pregnancy came to be known, and she cited by the abbess, and, in a full convention of the convent, accused of incest. Her excuse was that she did not consent thereto, but that it was done by the violence and impetuous force of the Friar Stiffly-stand-to't. Hereto the abbess very austerely replying, Thou naughty wicked girl, why didst thou not cry, A rape, a rape! then should all of us have run to thy succour. Her answer was that the rape was committed in the dortour, where she durst not cry because it was a place of sempiternal silence. But, quoth the abbess, thou roguish wench, why didst not thou then make some sign to those that were in the next chamber beside thee? To this she answered that with her buttocks she made a sign unto them as vigorously as she could, yet never one of them did so much as offer to come to her help and assistance. But, quoth the abbess, thou scurvy baggage, why didst thou not tell it me immediately after the perpetration of the fact, that so we might orderly, regularly, and canonically have accused him? I would have done so, had the case been mine, for the clearer manifestation of mine innocency. I truly, madam, would have done the like with all my heart and soul, quoth Sister Fatbum, but that fearing I should remain in sin, and in the hazard of eternal damnation, if prevented by a sudden death, I did confess myself to the father friar before he went out of the room, who, for my penance, enjoined me not to tell it, or reveal the matter unto any. It were a most enormous and horrid offence, detestable before God and the angels, to reveal a confession. Such an abominable wickedness would have possibly brought down fire from heaven, wherewith to have burnt the whole nunnery, and sent us all headlong to the bottomless pit, to bear company with Korah, Dathan, and Abiram.

You will not, quoth Pantagruel, with all your jesting, make me laugh. I know that all the monks, friars, and nuns had rather violate and infringe the highest of the commandments of God than break the least of their provincial statutes. Take you therefore Goatsnose, a man very fit for your present purpose; for he is, and hath been, both dumb and deaf from the very remotest infancy of his childhood.



F. Rabelais, Gargantua and Pantagruel, Book III, ed. 1546, trad. por Sir Thomas Urquhart of Cromarty e Peter Antony Motteux, 1693.

sábado, 22 de setembro de 2012

Amoras — Reserva '2008

Outro vinho consensual, que me deixou a ideia de ser melhor bebido jovem, este tinto da Casa Santos Lima, de Alenquer. O contra-rótulo diz serem a Touriga Nacional, o Castelão e o Syrah os constituintes principais do lote, que após a vinificação passou 9 meses em barricas de carvalho português e francês.

Fruta negra no ataque, doce, com traços de compota, sempre a par de algum álcool. Caramelo e chocolate de leite com a evolução no copo. Passou fácil na boca, sem grande volume mas boa concentração de sabores, acidez equilibrada e taninos maduros. Final mediano.

Acompanhou a nossa piza, desta vez com uma variação ao nível da massa, que levou alguma farinha integral e foi polvilhada com carolo de milho, aquando da montagem, como vimos certo tasqueiro de sucesso explicar num episódio recente de Diners, Drive-Ins and Dives.

2€.

14,5



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Filmes (44)





"Eu não sou um demónio, eu sou um ser humano!" A banda sonora, a cargo de Hikaru Hayashi, é digna de nota.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Flor de Nelas — Reserva '2008

Quando este vinho se popularizou, há um ano ou ano e meio atrás, mais coisa menos coisa, foi provado por quase todos os i-enófilos da nossa praça, tendo os elogios sido unânimes. Era um honesto tinto do Dão, sóbrio, com fruta e equilíbrio, a que se adivinhava alguma capacidade de guarda, e custava mais ou menos 3€ por garrafa, sendo que por vezes era possível adquiri-lo em regime de "leve dois, pague um".

Ora, na altura também o provei, mas não publiquei nada. E isto porque apesar da sua incontornável relação qualidade/preço, não me convenceu. Embora fosse um vinho limpo, sem pontas soltas, apresentava certo abaunilhado parasita, mais límpido que intenso, é verdade, mas terrivelmente deslocado, a tingir o conjunto de artificialidade. Algo que, sem ser inédito ou objectivamente feio, e que, pior ainda, não constituiu objecção noutras situações, ali, por algum motivo, me causou não negligenciável dose de repulsa. E não voltei a ele, talvez pela experiência menos boa, talvez pela diversidade de coisas para provar e beber, talvez por preconceito, talvez por um pouco de tudo isto e mais.

No que concerne ao preconceito, importa relevar que não o sinto — acho — relativamente a este vinho ou aos seus congéneres de marca branca em geral, antes ao caminho que na maioria das vezes os levam a tomar. O distribuidor x pretende vender n garrafas de um vinho dirigido ao público y num determinado intervalo de tempo. Uns contactos depois, algum produtor, usualmente conhecido, de dimensão considerável, aloca à tarefa parte do seu mar de vinho excedentário, a preço de saldo. Inventam um rótulo, emprestam-lhe elementos que — esperam — o vão aproximar do respectivo público-alvo. Normalmente, as manobras de lançamento ficam por aí. A relação qualidade/preço vai fazer o resto.

Este processo terá as suas semelhanças com o de construir um personagem, e poucos são os personagens convincentes que foram inventados de um dia para o outro. Que representam estas marcas? Que garantem? Que implicam a médio ou longo prazo, tanto para a concorrência como para o consumidor? Só que estas são questões que, por norma, a audiência não costuma colocar. A saúde do mercado pouco lhe diz, os seus problemas são outros. Premiar a inovação? A perseverança? Valores? Meh. Nasceu mais uma estrela das prateleiras dos hipermercados.

Acontece que isto me deixa doente, e não sei porquê. Porque reconheço que se trata de um recurso legítimo, compreensível e até desejável, nem que seja porque um produtor não pode comer princípios ou pagar aos seus fornecedores com, por exemplo, distinção. Se é verdade que um produtor mítico, falido, está condenado a desaparecer, deixando de fazer as coisas que o tornaram mítico, tenha muita ou pouca originalidade, história, ou o que for, e se, tantas vezes, é preciso recorrer a isto para rentabilizar o negócio, porquê achar feio? Que merda de mundo este!

Enfim, voltando ao tinto que serviu de mote a estas divagações, aconteceu que há dias, também não vos sei dizer porquê, de passagem por um Lidl aqui das redondezas, voltei a trazê-lo comigo. Abri-o sem reservas e gostei. Acima de tudo, claro, porque a madeira me pareceu ter-se fundido no corpo do vinho. Comparando com há um ano e meio atrás, se a fruta perdeu viço, ganhou notas de evolução e a companhia de um leque de especiarias quentes e escuras, de bosque, humidade, não mais aquela irritante vanilina de síntese. Ligeiras notas de pele. Delgadito, algo curto, ainda fresco. De facto, não dá para dizer mal.

15,5

domingo, 16 de setembro de 2012

Abençoados carolas que sacrificais tempo e dinheiro a este belo passatempo que é o xadrez de computadores, aqui vos deixo o meu louvor! Este jogo foi retirado de um match recente entre dois motores que, a dada altura, foram dos mais fortes do mundo. Talvez mais importante ainda, ambos estiveram bem presentes naquele momento da história em que os computadores nos ultrapassaram. Quem não se lembra de Junior em 8x 1,6Ghz com 8GB de RAM a empatar com Kasparov no New York Athletic Club? Ou de Hiarcs, então algures entre as versões 8 e 9, num simples Athlon 1,8GHz com 1GB de RAM, a fazer igual resultado num encontro de 4 jogos com Evgeny Bareev? Ninguém? Eia, ninguém se lembra! A surpresa, lol.

Agora que os humanos já não alimentam ilusões de poderem voltar a vir a dar luta a qualquer um dos, digamos, melhores dez ou vinte motores disponíveis, montados no hardware disponível em qualquer casa, com um Stockfish de código aberto e toda uma família de Robbolitos que não se sabe bem de onde vieram, as coisas estão diferentes. Ainda assim, as actualizações destes programas têm continuado a sair com relativa frequência, e ainda bem, porque se já não dominam em termos de força de jogo pura e simples, continuam, pelo menos, a ser muito interessantes de observar.

Este jogo que aqui vos deixo foi o oitavo de um match de 50, jogado com 2h + 30s por lance para cada lado, com ambos os envolvidos a correr em dual Xeon X5660, a 3,06GHz. Os livros de aberturas utilizados foram os originais de cada um dos programas, a função ponder, que permite ao motor continuar a calcular no tempo do adversário, estava ligada, Junior jogou com 4GB de memória alocada a hashtables e Hiarcs com 2GB. No fim, Deep Junior ganhou o encontro, 30 a 20.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Piornos — Reserva '2007

Da Adega Coop. da Covilhã. Feito de Trincadeira e Jaen, cepas implantadas em solos essencialmente xistosos, fermentou em cuba, mosto junto com as películas, a temperatura controlada, tendo estagiado durante seis meses em carvalho francês e americano antes do engarrafamento. Nada de estranho.

À mesa, cumpriu, sem reservas. Vinho correcto, de porte mediano, com alguma textura e bastante equilíbrio, mostrou fruta de razoável densidade, eu diria que preta, às vezes a tomar tons carregados, o que não surpreende quando se pensa no calor dos verões da região. Com ela, algum vegetal, pareceu-me, e caramelo e baunilha, estes sim, sem dúvida. Tal como o Alorna do post do último dia dez, pareceu-me gulosinho, pensado para agradar a muitos. E tal como ele, também é um vinho barato, que nem sempre chega aos 3€, e relativamente fácil de encontrar, pelo menos por aqui. Comparando-os, talvez este seja menos polido, talvez mais raçudo. No fim, pareceram-me do mesmo naipe.

Apesar de ligar bem com sardinhas assadas (com batatas e pimentos), pelo menos de acordo com o interessante Harmonias ComProvadas, preferi bebê-lo com salsichas de churrasco. "Ele é mais porco e vinho tinto", nunca ouviram dizer? :)

15

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O tipo-delinquente é o tipo do homem em condições desfavoráveis, um homem forte que adoeceu. Falta-lhe a jungla, uma certa natureza e forma de existência mais livre e mais perigosa em que tudo o que é arma e defesa no instinto do homem forte tenha existência legal. As suas virtudes são banidas pela sociedade; os seus impulsos mais vivos, que ele consigo traz, desenvolvem-se directamente com as emoções deprimentes, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta é quase a receita para a degenerescência fisiológica. Quem tem de fazer secretamente, com tensão prolongada, prudência, astúcia, o que melhor pode e mais gostaria de fazer, torna-se anémico; e porque dos seus instintos unicamente colhe o perigo, a perseguição, a fatalidade, também o seu sentimento se vira contra estes instintos — experimenta-os de modo fatalista. É na sociedade, na nossa sociedade domesticada, medíocre, castrada, que um homem natural, o qual vem da montanha ou das aventuras do mar, degenera necessariamente em delinquente. Ou quase necessariamente, porque há casos em que tal homem se revela mais forte do que a sociedade: o corso Napoleão é o caso mais famoso. Para o problema que aqui se apresenta, é importante o testemunho de Dostoievski, sim, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem eu poderia aprender alguma coisa; é ele uma das mais felizes ocorrências da minha vida, mais ainda que a descoberta de Stendhal. Este homem profundo, que tinha dez vezes razões para subestimar os superficiais alemães, recebeu impressões muito diversas das que esperava por parte dos condenados siberianos, entre os quais viveu durante muito tempo, verdadeiros delinquentes graves, para os quais já não havia nenhum retorno à sociedade — quase como se fossem talhados da melhor, mais dura e mais valiosa madeira que, em geral, cresce no solo russo. Generalizemos o caso do delinquente: pensemos em naturezas a que, por qualquer razão, falta a aprovação pública, que sabem não ser consideradas como benéficas, como úteis, — esse sentimento Tschandala de não serem semelhantes, mas banidos, indignos, impuros. Todas as naturezas assim têm nos pensamentos e nas acções a cor do subterrâneo; tudo nelas é mais pálido do que naqueles sobre cuja existência se derrama a luz do dia. Mas quase todas as formas de existência, que hoje realçamos, viveram outrora na meia luz sepulcral: o cientista, o artista, o génio, o espírito livre, o comediante, o mercador, o grande descobridor... Enquanto o sacerdote surgiu como o tipo mais elevado, todo o tipo de homem superior foi desvalorizado... Chega o tempo — sou eu que o prometo — em que figurará como a espécie mais baixa, como o nosso Tschandala, como o tipo mais embusteiro, mais indecente de homem... Chamo a atenção para o facto de como, ainda hoje, sob o mais suave reino dos costumes que alguma vez dominou na terra, pelo menos na Europa, toda a separação, toda a subjacência longa, demasiado longa, toda a forma de existência excepcional e impenetrável se aproxima daquele tipo que consuma o delinquente. Todos os inovadores do espírito levaram por algum tempo na fronte o sinal lívido e fatal do Tschandala: não porque assim foram considerados, mas porque eles próprios sentiam o temível abismo que os separa de tudo o que é tradicional e persiste no meio de honras. Quase todo o génio conhece, como um dos seus desenvolvimentos, a "existência catilinária", um sentimento de ódio, de vingança e de rebelião contra tudo o que já é, o que não mais será... Catilina — a forma de preexistência de cada César.

Friedrich Nietzsche — Crepúsculo dos Ídolos, ou como se filosofa com o martelo (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert), 1888; versão portuguesa das Ed. 70, trad. por Artur Morão, imp. 1985.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quinta da Alorna '2009

O animal chega moído e enervado da rua, sentiu no pêlo durante mais um dia aquilo a que o grande W. S. Burroughs certa vez chamou de "experiência embrutecedora da idade adulta". Costuma trazer fome. A comida, peito de frango aos bocadinhos, cozinhado com quiabos, feijões de soja e ervilhas, estes últimos previamente tratados na panela de vapor. Azeite, tempero, vinho branco para refrescar. Arroz. Tudo pronto em mais ou menos meia hora.

Acompanhou-se com tinto. Este iluminou a noite. Só não digo que surpreendeu porque já esperava que se portasse bem. Tinta Roriz, Castelão, Syrah e Alicante Bouschet, parcialmente estagiado em barricas de carvalho americano. Cheiroso, gulosinho e macio, rico em fruta negra, madura, revelou-se um vinho alegre, feito ao estilo do novo mundo, para ser fácil de beber e gostar. Presentemente, será das melhores propostas disponíveis na gama de preços em que se insere. Aliás, o compromisso entre volume, preço e qualidade que o produtor tem vindo a conseguir com mais que razoável consistência dá que pensar. Ou devia, pelo menos a alguns.

3€.

15

sábado, 8 de setembro de 2012

Fiuza — Cabernet Sauvignon '2007

Monocasta Cabernet Sauvignon, de vinhas com aproximadamente dez anos, implantadas no solo argilo-calcário da Quinta da Granja, sita nas imediações da cidade de Santarém, fermentou em inox a 25ºC e estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Nariz morno, com passas, especiarias e balsâmico. De tal forma que foi com relativa surpresa que o verifiquei de sabor seco e volume razoavelmente fresco na passagem pela boca, possuidor de uma estrutura ao mesmo tempo firme e madura, daquelas que agradecem comida com alguma substância. Cabernet evoluído, revelou alguma complexidade e, pareceu-me, toda a afinação a que alguma vez poderá ter aspirado. O pimento estava lá — aliás, nunca provei nenhum vinho da casta que, de todo, não o sugerisse, mesmo espécimes de zonas bem quentes, onde as uvas conseguem, supostamente, amadurecer o suficiente para que as quantidades de pirazinas presentes se deixem de poder notar — e bem ligado a especiarias várias: leque difuso, mas bastante engraçado. Poderá, assim, ser defeito? Final médio/longo.

7€.

15,5

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coldfinger — Beauty of You

Sempre gostei de X. Não me arrogando a adivinhar ao pormenor a alma daqueles que comigo partilham ou partilharam momentos, arriscaria dizer, no entanto, que sempre lhe percebi uma enorme resignação, de tal forma que aparentava procurar viver em círculos, como se cada dia fosse por si só uma vida, sem passado e sem futuro. Ele dizia que só queria que o deixassem em paz, deixar toda a maluquice em que vivíamos e ter um casebre e uma horta, ver as couves crescer. Bem vistas as coisas, talvez X apenas quisesse poder viver no campo, comer, dormir e foder, como, aliás, qualquer outro animal. Quem poderia censurá-lo por isso?

Essa sua presença pacífica e complacente, aliada a possuirmos alguns interesses em comum, fazia dele um óptimo companheiro, sobretudo quando não apetecia andar em bolandas. Eram noites geralmente sem brilho, que provavelmente seriam de depressão caso me encontrasse só. Noites de loucura introspectiva, como começámos a chamar-lhes, a dada altura. Esta loucura introspectiva é coisa que vive connosco, mas não há como a registar. Sente-se num dado momento e por norma sabe bem, mas não perdura na memória por não ser algo que se pense. Evoco X neste momento e apenas consigo chamar reflexos daquilo que por vezes sentia quando discutíamos algo que nos fazia vibrar.

Tal como eu, X não se importava de ir ficar triste para lugares agradáveis, entre pratinhos de broa com queijo e taças de cerveja. Um dos nossos poisos favoritos era o Dixie: pouca gente, álcool de qualidade e um aquário, tudo imerso em luz azulada e música um bocado fora das escolhas habituais, mesmo em lugares do género, o que, de todo, não desagradava. Mais tarde fui lá com a S, mas por algum motivo ela não ficou fã do lugar. Depois descobri que tinha fechado.

Certa noite, discutíamos um pesado problema matemático, coisa completamente fora do nosso alcance, mas por isso mesmo especialmente apelativa aos jovens cromos que éramos na altura, ainda cheios de vontade. Era um dos problemas com que o famoso Ulam contribuiu para o chamado Livro Escocês, que na verdade nasceu polaco, numa terra que agora faz parte da Ucrânia. Enfim.

O enunciado era algo como: se um sólido permanecer em equilíbrio, independentemente da posição em que se encontrar, sobre uma superfície plana e horizontal, terá de ser necessariamente uma esfera? E X a tentar, com uma folhita, acho que um guardanapo, e eu a leste, a reparar na música. Lembro-me de ter pensado "eia, que coisa" quando o barman me disse ser produto nacional. Um dia, descobri que havia um videoclip. Com o tempo, esta noite e este pedaço de música de que vos falo, e o bom velho Stan Ulam também, foram-se diluindo no volumoso repositório de conhecidos fixes que alguém que viva nesta época inevitavelmente acaba por reunir. Hoje, assim de repente, lembrei-me.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quinta de Camarate '2007

Lote de Touriga Nacional, Castelão e Aragonês, parcialmente estagiado em barrica, foi aberto aproximadamente um mês depois do da edição mais recente, de 2009, enviado pelo produtor para divulgação, e cuja nota de prova, caso assim lhe queiram chamar, se pode consultar aqui. Sim, o comportamento da amostra despertou-me a curiosidade para a prestação de um exemplar mais evoluído da mesma marca. As amostras também servem para isso, sabiam? :)

Denso, pesado até, de madurez pronunciada. Predominam notas de ginja, secundadas por compota e azeitona preta. Um pouco por todo o lado, cacau e especiarias; folha de tabaco mais no final. É morno e enche a boca — revela certa maturidade, sem sinais de decadência. Final agradável, bastante prolongado.

Acompanhou entrecosto no forno, preparado com azeite, alho e pimentón de la Vera, e acompanhado de batatas vermelhas, novas, cortadas com casca e ligeiramente cozidas antes de tostadas, também no forno, com azeite, alho, tomilho fresco e pimenta preta. Mais coisas simples. A vida não está para invenções.

7€.

15,5

domingo, 2 de setembro de 2012

Encostas de Estremoz — Grande Escolha '2008

Alentejano produzido por Encostas de Estremoz, a partir de Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Touriga Franca e Cabernet Sauvignon. O mosto fermentou em cuba, tendo depois permanecido em contacto com as películas durante vinte dias, ao cabo dos quais ocorreu uma suave prensagem. O estágio deu-se em barricas de Allier, novas e usadas, e durou dezoito meses.

Nariz grande, farto, com frutos negros e especiarias, álcool vaporizado, folha de tabaco. Na boca é muito intenso, macio e volumoso, de generosidade considerável (não confundir com guloso). Inevitável o reparo a alguma madeira que talvez o tempo venha a integrar por completo. Final longo e cálido. Alentejano de boa raça, feito em estilo moderno, é para acompanhar comida com peso.

10€.

16,5