terça-feira, 30 de Outubro de 2012

Pulo do Lobo — Antão Vaz '2010

Pulo do Lobo é um lugar escarpado, a montante de Mértola, onde o rio Guadiana se estreita de tal forma que, dizem, os lobos aproveitavam para saltar entre margens. Outra lenda fala de um camponês que se transformava em lobo para ir ter com a princesa do seu coração. No fim, parece que morreram os dois. A sério. De qualquer forma, relevante será tratar-se de um lugar invulgarmente bonito, que merece uma visita.

O vinho, da Soc. Agrícola de Pias, monocasta Antão Vaz vinificado em bica aberta e engarrafado sem passagem por madeira, apareceu como esperado, simples e gordinho, com cheiros maduros, essencialmente tropicais, até um pouco pesados. Bastante fresco na boca, no entanto, mesmo agora, que já tem dois anos.

Foi com robalo, grelhado na brasa, só com um molho de sumo de limão, azeite, sal, louro e pimenta preta. Portou-se bem.

O preço surpreende, não chega aos 3€.

15,5

sábado, 27 de Outubro de 2012

Velharias (34)

Estava em casa com M, sem nada que fazer. Enfim, mais uma noite de ganza, igual a tantas outras. Resolvemos ir beber um copo ao Dixie.

Assim que entrámos, tive o desprazer de descobrir o bar invadido por um grupo de jovens felizes, armados com uma guitarra. Tão desinibidos se mostravam, cantando e tocando à vontade sem a mínima objecção do barman que, a princípio, pensei tratar-se de uma banda ali caída em noite de copos com os amigos.

Talvez! O certo é que não se calaram nas quase duas horas que lá permaneci. Devíamos ir a meio do segundo ou terceiro fino quando, talvez por coincidência, lá chegou o meu primo T, que também não tardou a mostrar-se perturbado pelos jovens vivos.

Felizmente, o andar de cima ficou vago pouco depois. Pudemos finalmente mudar-nos para um lugar de onde já não podíamos ver aquelas criaturas. Quanto a ouvi-las, a história era outra.

Impossível não pensar neles, foda-se. Putos novos, alegres, que vão beber ice-tea entre dois dedos de conversa e muitas cantorias ao bar dos pseudos, da cena gay "30-50", do underground politicamente correcto.

— Pá, de onde é que saíram estes gajos? — atirei para a mesa. — Pá, são o pessoal do grupo de jovens, respondeu T. — Grupo de jovens? — insisti — Como o INTERACT? Parecem mais indie kids à solta. — Que merda é essa?

Achei algo estranho que T não soubesse o que era o INTERACT, muito menos indie kids, mas também não havia de ser eu a perder tempo a explicar-lhe. — Pá, o INTERACT é um grupo de jovens.

M e T jamais se darão bem. Sair com os dois faz-me voltar aos tempos do liceu, onde tínhamos turmas divididas em grupos de amigos segundo a lógica das matilhas: os do meu grupo são meus amigos, os dos outros grupos, em princípio, não. E assim partilhamos uma mesa, em silêncio, porque dois dos meus bons amigos se detestam. Ambos me respondem, mas, entre eles, a conversa não flui. T acha M desprezível, M acha T um verdadeiro imbecil. E ambos têm razão.

Os jovens do grupo de jovens. Fascinante. Aproveitei o intervalo entre duas dentadas numa tosta para acender um Virginia fornecido por T. Reparei que me fitava enquanto acendia o cigarro. — Sim, sou um porco. A besta, a fumar e a comer.

M também comia, não respondeu. T notou que "aqueles lá de baixo" não comiam nem bebiam. Saíam para estar juntos, ao invés de se consumirem em grupo, como nós. Num repente, pareceu-me bem partilhar que gostaria de ir ter com os putos. — São limpos, sobretudo as gajas. Gostava de conhecer alguns. Chegava aos trinta gordo e feliz, com um puto no mundo.

T continuava de olhos presos em mim, e assim permaneceu mais um bom bocado, antes de responder: — Não quero que sejas infeliz. Começa a frequentar o CUMN, ou o Justiça e Paz, logo fazes novos amigos. — Duvido — e acendi outro cigarro. — Já não tenho paciência para conhecer pessoas. E eles iam achar-me montes de estranho, também não iam gostar. — Tu és o Drácula — cortou M, taxativo.

Lá em baixo, a vida cantava a vida, a "Casinha", os "Filhos da Nação" e outras merdas assim. A dada altura, uma jovem viva, fresca e talvez pura como uma rosa, propôs um brinde às pessoas que não têm vergonha na cara. Brindaram com a algazarra contida dos meninos limpinhos e continuaram, ora a falar ora a cantar, como se as pilhas não acabassem senão quando a noite os comesse.

Entretanto, nós vegetávamos no piso de cima, quase sempre calados. Para o fim, T brincava com o telemóvel enquanto M bebia como se fosse o seu último dia neste mundo. Como de costume.

— Vais pedir outro? —perguntei-lhe. — Ainda aí tens metade.

Respondeu-me que os finos eram coisas vivas, unidades vitais, por assim dizer. Emborcou o resto do que tinha por diante antes de continuar:

— É esquisito ter à frente um copo vazio. Um cadáver.
— É esquisita a impressão de estarmos a beber um reflexo de nós próprios — retorqui com um sorriso.

Fomo-nos embora por volta das quatro menos dez.

23/10/2003

quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Dona Maria '2008

Alentejano de Estremoz, produzido por Júlio Tassara de Bastos na Quinta do Carmo (ou Quinta Dona Maria). Composto por 50% de Aragonês, 20% de Cabernet Sauvignon, 15% de Alicante Bouschet e outro tanto de Syrah provenientes de cepas implantadas em solos argilosos e calcários, foi engarrafado em Abril de 2011, após estágio de meio ano em barricas de carvalho francês e americano. Desta colheita de 2008, resultaram 114000 garrafas.

Nariz bonito, perfumado por bosque e especiarias. A fruta, preta, ameixa e assim, bem envolvida pelo demais, sem tostados ou fumados a quererem destaque, o cipreste, as notas de Cabernet, o vago floral que vai aparecendo em segundo plano, tudo muito agradável. Na boca mostrou-se um vinho sápido, de boa intensidade, com alguma estrutura, largura e final. Peso médio com um extra de complexidade, pareceu-me porreiro.

7,5€.

16

segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Taylor's — LBV '2005

Primeiro fez lembrar cereja e ameixa, cobertas de chocolate com passas e pimenta preta. Com o tempo, percebi alcatrão, coisa pesada, de pendor mais vegetal. Bem firme e persistente na boca, com fruta carnuda, bonita, e o álcool a notar-se um bocado, sobretudo no final. Melhor ao segundo dia, e no seguinte, mais solto, mais expressivo, ou pelo menos foi o que me pareceu.

Veio vedado com uma daquelas rolhas que têm o topo de plástico, fácil de puxar, o que logo sugeriu tratar-se de um LBV filtrado, pensado para consumo imediato. Posteriormente, o resto veio a confirmá-lo. E a ser assim, embora este vinho, como coisa viva, programada para morrer, vá envelhecer na garrafa, existem boas possibilidades de tal amadurecimento não se revelar proveitoso — só por si, o polir de umas arestas acaba por não compensar a fruta e força que se perdem. Em todo o caso, pareceu-me um dos melhores LBV dos últimos tempos.

12€.

16,5

sábado, 20 de Outubro de 2012

Eu vs Comp. (7)

quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

Adega de Pegões — Aragonês '2008

Outro Pegões varietal consumido nos últimos dias. Tal como o do post anterior, fermentou em cubas-lagar, a temperatura controlada, tendo depois permanecido mais algum tempo em contacto com os sólidos. O estágio que antecedeu o engarrafamento, dizem, foi feito em pipas de carvalho americano e francês, durante oito meses. Servido a 16ºC, foi bebido sozinho, com codornizes salteadas e com queijo Camembert. Intenso e carnudo, mais que o Syrah '09, mostrou frutos pretos bem maduros, sobretudo ameixa, especiarias e tosta doce. Enfim, os aromas da casta no perfil a que já nos habituaram os varietais da casa. Tão vago, eu sei, e não consigo detalhar melhor. Sabem, aquilo a que chamei "sopa de Pegões" quando publiquei as notas tomadas sobre o seu predecessor de 2005? Não sabem, nem têm porque saber. As especiarias, indefinidas. Meu deus. Quando um vinho não mostra algo que, pelo menos na altura, nos parece, de caras, x ou y, a coisa complica-se. Que se lixe. Aos eventuais interessados, mais alegre e redondo que o Syrah '09, terá sido, aliás, dos mais generosos varietais da Coop. de Pegões que me lembro de ter provado. Não me surpreende que tenha ligado melhor com as codornizes que com o Camembert, que pede coisas mais leves, vinho branco. E sozinho, não maçou.

5€.

16

terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Adega de Pegões — Syrah '2009

Hm. Podia pôr-me a dizer que embora vinho de cooperativa ainda sugira bebida plebeia, produzida por e para o povo, com mais ênfase na quantidade e no preço que na qualidade, sem pretensões de mais que regar o quotidiano de gente simples, cada vez são mais aquelas que apresentam produtos interessantes, diferenciados, sendo notável o salto qualitativo dado face ao que existia há uns anos atrás. Mas isso já vocês sabiam, não é? Na verdade, nem sequer acho que a ideia de adega cooperativa ainda transporte consigo um garrafão de zurrapa. Basta olhar para as prateleiras dos grandes supermercados ou para os catálogos que vão surgindo online para perceber que o foco deles já não é esse. Claro que ainda existem algumas excepções, mas estas estão condenadas a desaparecer. É que ser uma curiosidade, só por si, já não chega para garantir a subsistência do que quer que seja. Caralho, estamos em 2012! E pelo menos no que toca ao vinho, o popular, o vulgar, se preferirem, já não é necessariamente mau.

Os monocasta da Coop. de Pegões, dos quais hoje vos trago, salvo seja, um exemplar, têm mantido lugar cativo cá por casa. Por norma, são vinhos redondos e relativamente gulosos, que trazem sempre algo mais que a soma da expressão frutada das castas que lhes deram origem com o tempero das barricas onde estagiaram. São bons, baratos e um bocado previsíveis também. Coisa que, a meu ver, não faz mal. Nem sempre. Um vinho não tem de ser sempre emocionante, pois não? O problema é que, quando o caminho escolhido é este, torna-se questão de tempo até que apareça quem venha dizer que são coisas fabricadas, sem alma. E daí à insinuação de que um vasto conjunto de vinhos diferentes, afinal, parecem todos iguais, pouco importando o ano ou as castas que lhes dão origem, vai apenas um pequeno passo. E do advento de um boato a que haja uma porrada de gente a tomá-lo em conta sem pensar, ainda menos.

Em particular, este Syrah da colheita de 2009, vinificado em cubas-lagar de inox, com maceração pelicular prolongada, e estagiado durante dez meses em meias pipas de carvalho, mostrou boa cor, fruta silvestre, escura e madura, misturada com especiarias quentes da casta e ligeiros torrados e outras sugestões que se nota provirem da barrica. De corpo mediano e sabor intenso, naturalmente gulosinho, passou pela boca firme e texturado, com presença. Mais uma vez, portou-se conforme esperado, e agradou.

5€.

15,5

domingo, 14 de Outubro de 2012












sexta-feira, 12 de Outubro de 2012

João Pato — Touriga Nacional '2007

85% Touriga Nacional, 15% Baga, fermentado e estagiado em inox (li por aí que com a ajuda de aduelas). Tourigo frio mas cheio de garra, de estrutura firme e persistência acima da média, com cereja amarga, maracujá e verdor. Logo depois de aberto, reparei que uma acidez despropositada lhe marcava a entrada na boca, com algum picor a fazer-se sentir na ponta da língua, quase como em alguns verdes tintos. Doze ou catorze horas depois de aberto, após ter pernoitado no frigorífico, apenas vedado pela própria rolha, todo ele tinha arredondado. E aí a fruta pôde mostrar-se sem distracções, algo sisuda, é certo, mas de expressão limpa e franca, acompanhada de sugestões de bosque e especiarias, em quadro simples, mas bonito. Não sendo um vinho para envelhecer, é um vinho que poderá, até certo ponto, ser envelhecido, com resultados possivelmente interessantes.

6€.

15

quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

Na sequência do post anterior, não resisto a deixar-vos aqui um desses jogos.

[Event "60mov/30 min"]
[White "Siberian Chess 2.15"]
[Black "Ferret 1.00"]
[Result "1/2-1/2"]
[ECO "C95"]

1. e4 e5 2. Cf3 Cc6 3. Bb5 a6 4. Ba4 Cf6 5. O-O Be7 6. Te1 b5 7. Bb3 O-O 8. c3 d6 9. h3 Cb8 Ruy Lopez, Breyer. 10. d4 Cbd7 11. Cbd2 Bb7 12. Bc2 Te8 13. Cf1 Bf8 14. Bg5 h6 15. Bh4 c5 16. dxe5 Ferret fora do livro. 16 ... dxe5 17. C3h2 Te6

Aqui, Siberian Chess ficou fora do livro de aberturas. Este programa, criado em 1994 por Eugene Nalimov, consiste num executável de 132KB, que é motor, interface e livro, sem qualquer ficheiro adicional. E isso é porreiro, ou melhor, verdadeiramente notável! 18. Cg4 De8 19. Cfe3 Este sacrifício do peão central vai levar a um jogo entretido no centro.



19 ... Cxe4 20. Cd5 Bxd5 21. Dxd5 Cd6 22. Bg3 Cb6 23. Df3 e4 24. De2 Td8 25. Tad1 f5 26. Ce3 Df7 27. Bf4 Cb7 [27... g5!?] 28. Txd8 Cxd8 29. Td1 Te8 30. Bd6 f4 31. Bxf8 Rxf8 32. Cg4



32 ... Dxa2?! [32... De6] 33. Bxe4 Cf7 34. Df3 Dxb2 35. Dxf4 Db3 36. Td3 Dc4 37. Tf3 Ferret jogou fixe, mas às vezes um pouco impreciso por exemplo, quando trocou a vantagem no centro por um potencial peão passado na ala de Dama, às jogadas 32 e 33. Apesar do peão a menos, Siberian Chess pareceu ter mantido a situação sempre controlada. 37 ... Txe4 38. Db8+ Te8 39. Dxb6 Dd5 40. Ce3 De6 41. Dxc5+

E o peão a menos está recuperado. O resto do jogo, com escaramuças aqui e ali, correu tranquilo rumo ao empate. 41 ... Rg8 42. Da7 Cg5 43. Tf4 Rh7 44. h4 Te7 45. Dd4 Ce4 46. Cd5 Td7 47. c4 Cd6 48. Cb6 Tc7 49. cxb5 axb5 50. Dd1 Tc5 51. Td4 Tc6 52. Cd5 Tc4 53. Ce3 Txd4 54. Dxd4 g5 55. Da7+ Df7 56.Da3 De6 57. hxg5 hxg5 1/2-1/2.


segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

Conventual — Reserva '2008

Lote de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, feito com maceração pós-fermentativa e estágio de 10 meses em barricas usadas de carvalho francês, pela Adega Coop. de Portalegre. Vinho mais intenso que volumoso, macio e aconchegante, mostrou boa fruta preta, alguma da qual já com sinais de transformação, especiarias e chocolate, este mais no fim de boca. Aparenta ter mantido o estilo do seu antecessor da colheita de 2006, já apreciado nestas páginas. Dei por ele pouco menos de 5€.

15

Portou-se bem quando emparelhado com costeleta do cachaço na brasa, e salsicha de porco e ervas, reboluda e bem curada, e pão com alho e azeite. Mas não se ficou por aí. De barriga cheia, deixei-me ficar a bebê-lo à frente do computador pela tarde dentro, de tal forma que boa parte dele acabou por ir sem outra companhia que não a de uns interessantes jogos de xadrez entre motores antigos. Se pudesse, passava assim o resto da vida!

sábado, 6 de Outubro de 2012

Colinas '2006

A principle of wine commentating is that certain consumers wish to learn about actual wines to purchase and also wine culture. A tough fact is that the higher-earning demographic sectors buy more wine and also higher priced wine and they are busy people who want a businesslike presentation of wine list suggestions and wine stories. Often they are time-poor. It is pretty clear from browsing blogs that the commentators and readers are not time-poor and they have a predilection for cheaper wines. (...) I've spent a lot of time reading blog reviews of wines I know. There are two problems. First, the reviews are very long, with lots of personal lifestyle comment that is irrelevant to the wine. Second, the reviews are not very good; they are usually gushing in enthusiasm and technically poor. I've read wonderful accounts of taste in wine that i know is faulty and smelly (and beginners in my wine appreciation class picked up this unpleasant taste immediately, so I'm not being obscure). I found it difficult to get a calibration on quality, because writers use terms such as "sound", "good booze", "serious booze", and a browser can't get a relative rating. in Writers, Bloggers & Tweeters, artigo de Andrew Corrigan, MW, na Winestate 33/4 de Jul/Ago 2010. E é mentira? Não estranhem a introdução: pouco tendo para vos dizer, sobre este vinho ou o que quer que seja, pareceu-me que a citação supra aqui encaixava como uma luva.

O vinho, bairradino, foi produzido e engarrafado por Colinas de S. Lourenço, de S. Loureço do Bairro, Anadia, ainda no tempo de Sílvio Cerveira. Não apurei quase nada sobre ele, também, mas não só, porque não perguntei. Do contra-rótulo, só a parte em português são 9 linhas cheias de nada e www.colinas.pt está offline. O seu correspondente de 2007 aparece explicado no sítio que a Idealdrinks mantém na internet, mas sobre este... Li por aí que terá levado Touriga Nacional, Baga, Merlot e mais qualquer coisa; depreendi da prova a possibilidade de ter passado algum tipo de estágio em madeira, à partida, curto. De cor ainda rubi, mostrou alguma fruta preta genérica, mas boa, secundada por notas de pinho, menta e baunilha. Mais forte que gordo, retendo algum do carácter que a influência atlântica traz aos vinhos da região, pareceu-me, no entanto, bastante acessível. Como se fosse um tipo grande e sério, mas simpático. (Como a comparação não surgiu espontaneamente no feminino, presumo tê-lo sentido um vinho masculino.) Enfim, adiante. A caminho da meia dúzia de anos, continua relativamente jovem, e nada indica que se vá estragar tão depressa. Termino bem à blogger: não tendo ficado espantado, gostei.

5€.

15,5

quinta-feira, 4 de Outubro de 2012

Sempre colado ao muro (boa idéia, ter vestido a roupa clara) o ladrão aproximou-se dos sete esquifes. O primeiro deles, bem à frente do portão da entrada, era preto e havia sido trazido às cinco da tarde. O seguinte — o claro e pequeno — era o que procurava. Ajoelhou-se ao pé dele, desatarraxou-lhe a tampa e, contendo a respiração, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mãos da morta, pois ouvira falar no famoso solitário de brilhante — Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha não viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e não viu nenhum broche. No pescoço, nenhum colar... Numa  relutância supersticiosa focou o rosto do cadáver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lábios começaram a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, nítidas: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma". O ladrão soltou um grito abafado, ergueu-se rácido, deixou cair a lanterna acesa e o pé-de-cabra, e rompeu a correr na direção dos campos desertos...

Quando viva, Quitéria Campolargo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite — "garimpando estrelas", como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelações — Orion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do coração e da memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela Antares, pensava no seu diâmetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melancólica ou entediada e vinham dizer-lhe que alguém a chamava ao telefone, respondia: "Diga que não estou em casa, que fui para Aldebarã..."

Agora, estendida no seu esquife, D. Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosário, que tem entre as mãos enlaçadas, e seus lábios se movem formando as palavras duma prece.

Um vaga-lume esvoaça no campo de sua visão e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabeça. Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno — a solidão da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...


 Érico Veríssimo, Incidente em Antares, 1971

terça-feira, 2 de Outubro de 2012

Lavradores de Feitoria — Três Bagos '2007

"Um vinho de lote, proveniente das quintas associadas à empresa, distribuídas pelas três sub-regiões da região demarcada do Douro", nas palavras do produtor. Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca. Circunspecto, algo verde e duro, mau grado a franqueza com que se deixou beber. De relevar alguns bons apontamentos de frutos silvestres, também em compota, a par de cacau e especiarias, químico pesado, alcatrão, e fumo. Na boca, frescura e rugosidade. Manteve o estilo do seu antecessor de 2005, mas estará um furo acima dele.

Bebi-o com pernil fumado, primeiro cozido, depois levado ao forno com acompanhamentos vários. Algo mais ou menos assim. E o conjunto, de facto, não desiludiu.

7€.

15,5