sábado, 23 de fevereiro de 2013

Abatido pelo estado febril, Juliano passou a dormir mais de 12 horas por dia, sobretudo depois que ganhou um barraco para se esconder na favela do Falet. Aproveitou o abrigo para ficar três dias deitado, numa tentativa de se restabelecer, voltar a ter forças para enfrentar a vida de foragido. Em setenta horas de sono, acordou apenas duas vezes.

A vizinha, guardiã do barraco, assustada com os gritos dos pesadelos de Juliano, acordou-o uma vez para acalmá-lo e oferecer-lhe um prato de arroz, feijão, carne, batata fritas, servido junto com uma garrafa de guaraná e com uma sobremesa de doce de banana.

— Isso é melhor que sexo — disse ele à mulher, como forma de manifestar seu agradecimento.

Ele só seria novamente acordado vinte horas depois, quando o barraco foi invadido pelos policiais do Primeiro Batalhão do Serviço Reservado e da Divisão de Proteção à Criança e ao Adolescente. Ninguém acreditou, num primeiro momento, que aquele homem deitado num velho colchão, sem nenhuma roupa de cama, fosse o traficante que todos procuravam. Não havia nenhuma arma perto dele. Vestia apenas uma bermuda, sem nenhum volume nos bolsos, Tinha os cabelos enormes, encaracolados, amarrados na parte de trás da cabeça com um cordão, e usava cavanhaque. A seu redor, restos de velas queimadas ao lado das imagens de São Judas Tadeu, de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida. Ao acordar, assustado, Juliano também teve dificuldades de entender o que estava acontecendo. Por segundos acreditou que pudesse ser a continuidade de seus sonhos e pesadelos, sobretudo porque à frente dos policiais estava uma mulher, a delegada Márcia Julião, com uma pistola automática apontada para sua cabeça. Vistos do chão, os homens, que estavam ao lado da delegada, pareciam gigantes, e seus revólveres e fuzis engatilhados eram ainda mais assustadores.

— Perdi. Perdi. Não me matem. Não me matem — pediu Juliano. O seu apelo tirou as dúvidas dos policiais.

— A casa caiu, é o VP. Agora não tem banqueiro pra te tirar dessa, mermão — disse um policial, vibrando com o fim das buscas, que duraram 53 meses e 14 dias.


Abusado — O Dono do Morro Dona Marta, Caco Barcellos, Ed. Record, 2003