quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Álvaro Castro '2011 (Branco)

Encruzado, Malvasia Fina e Cercial, fermentou devagar, com bâtonnage. Floral e limonado, todo ele em tons brancos e amarelos, campestres, e um bocadinho de baunilha a perfumar, que lhe fica bem, embora não pertença ali. Fresco, mineral, de porte mediano, toque vagamente untuoso, limpo e agradável mesmo após algum tempo à mesa, a temperatura um pouco acima do ideal. Simples e sólido. Para o preço, está muito bem.

Acompanhou um risotto de pimento vermelho, singelo, quase pobre, e que agradou muito. Fez-se da seguinte forma: refogou-se uma cebola, picada, com uma folha de louro e um dente de alho. Juntou-se então arroz arborio, que se deixou ambientar ao refogado, mexendo sempre, sem deixar escurecer. Depois, um pouco de vinho branco, até praticamente ter evaporado, e caldo de legumes, uma concha de cada vez, mexendo sempre. Perto do ponto, o pimento cortado em tiras, sem casca, e sal, malagueta seca e paprika.

5€.

15,5

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

The Velvet Underground — Loaded

14/1/2002. Gosto de droga. Nos últimos dias, pouco tenho feito para além do acto de consumir. De certa forma, isso entristece-me, mais do que por me sentir encaminhado para uma dependência a que não sei se conseguirei escapar, porque faz tempo que ela não me traz nada de novo.

Os estupefacientes, parece-me, agem pela indução de certos estados de espírito; aquilo que de objectivo possa advir desses estados tem muito mais do indivíduo que do efeito per se da substância. E se a princípio as drogas me pareciam engraçadas, mais que pelas sensações imediatas, pelos sentimentos que despertavam, devo confessar que tal já não acontece.

Mesmo assim, a vida continua. Na última sexta-feira, comprei 25€ de erva brasileira a um amigo e fui para casa ganzar-me sozinho, como de costume.

O ritual de preparação de um cigarro de marijuana é sempre o mesmo. Fiz quatro unidades com mortalhas king size, apenas um pouco de tabaco a servir de tempero, e condensadores descartáveis, aqueles que se aplicam nos cachimbos, na função de filtro, em vez do mais comum bocadinho de cartão enrolado em "s".

Pus o Loaded a tocar, diminuí a intensidade das luzes e deitei-me em cima da cama, caderno e esferográfica ao lado, acendendo logo de seguida o primeiro da noite.

[Carregar no play, sff.]


Fumei-o em pouco menos de vinte minutos. Não fiz intervalo entre o primeiro e o segundo, que acendi imediatamente. Lembro-me de ficar completamente imóvel, de olhos semicerrados, atento à música.

I found a reason to keep living / Oh and the reason, dear, is you / I found a reason to keep singing / Oh and the reason, dear, is you / Oh I do believe / If you don't like things you live / For some place you never gone before.

Sorriso plácido. A planície imensa, gelada e deserta, longe de tudo. Sem neve, sem terra. Nem uma montanha ao longe. E eu sozinho, filme envolvente, cabeça parada. Escrevi que nunca me senti tão bem!

Mas o disco acabou. O meu universo de ocasião desmoronou-se perante um eu perplexo, quase em estado de choque, e acordei de lágrimas nos olhos, ainda que nem sequer tivesse chegado a adormecer.

Levantei-me a custo, recolhi o disco e acendi o terceiro cigarro. Reparei que ainda tinha por consumir metade das doses de droga que preparara. Viva, Viva! Já estou todo fodido e ainda me falta outro tanto!

Que momento de glória! Naquele momento, senti que ninguém me podia fazer mal, que estava seguro, como quando era criança e jogava futebol com os bonecos que vinham nos bolos de aniversário e uma bola de grão de bico, alheio ao mundo de feras que me aguardava lá fora.

Quando dei por mim, estava a espojar-me no chão do quarto, a entoar risadas ridículas, todo babado, o cigarro apagado ainda na boca. De volta ao mundo do mundo, levantei-me e acendi-o outra vez. Depois sentei-me no parapeito interior da janela, a olhar para o céu.

O resto da erva esfumou-se num ápice. Desliguei o som. Nessa altura, apesar de muito drogado, sentia-me lúcido e com vontade de descrever just in time aquilo que sentia. O meu filme. Foi o que fiz.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Filipa Pato — Baga & Touriga Nacional '2009

Mistura de Baga (75%) com Touriga Nacional, provenientes de cepas com idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos, criadas em solos argilosos e calcários, este tinto fermentou em lagares de carvalho francês e em tanques de inox, tendo posteriormente estagiado em madeira. A autora é filha do conhecido Luís Pato.

Marcadamente atlântico, mas não verde. Volvido o primeiro impacto, algo austero, mostrou bastante fruta, preta, groselha e coisas parecidas, junto com sugestões fumadas e de caramelo e café. Aparte a possível margem de evolução que nunca é de excluir nos vinhos da região, pareceu-me num bom momento para ser consumido.

Bebi-o com entrecosto, salsichas silesianas (kiełbasa Slaska) do Pingo Doce, cebola roxa e batatinhas vermelhas, tudo assado.

7€.

16

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Quinta de la Rosa — Tawny 10 Anos (Tonel nº12)

A referência ao tonel nº12, informa o produtor, remete-nos para um tonel de 25 pipas que a família Bergqvist tinha armazenado na cave, por baixo da casa, e de onde abastecia directamente a sua garrafeira deste tipo de vinho.

Engarrafado em 2010. Cor granada, escura para tawny. Aroma intenso a nozes pouco frescas e figos em passa, notas iodadas, evolução. O sabor retém bastante fruta não transformada, mais que o que a prova de nariz faria prever. Ameixa, talvez, e figo, de certeza. Enfim, não sendo um "dez anos" dos mais finos ou complexos, mostra pontos de interesse suficientes para justificar visitas futuras.

E com isto, ainda estou por descobrir o vinho desta quinta que me deixe "meh". Começo a convencer-me de que tal coisa poderá não existir.

17€.

16

domingo, 20 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Quinta da Nave '2009

Produzido e engarrafado pela Soc. Agrícola Três Irmãs, de Valverde, Fundão, consiste num lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, estagiado em carvalho francês durante seis meses.

À semelhança do vinho do post anterior, do qual terá de se considerar próximo, apenas, a meu ver, um furo acima, trouxe consigo basta quantidade de fruta madura, parcialmente compotada, com fumados e baunilha de barrica a compor (esta última, no outro, não encontrei). Sério, dotado de alguma amplitude e robustez.

Também aparentou preferir a presença de comida com substância. Para terminar, o inevitável reparo à falta de projecção que aparenta ter, pelo menos na web, o que é, em todo o caso, uma pena.

4€.

15,5

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Quinta dos Termos '2009

Neste post e no próximo, dois tintos colheita da Cova da Beira, já a caminho dos três anos. Este, proposta de entrada de gama da quinta que lhe dá o nome, foi feito a partir de Rufete, Touriga Nacional, Trincadeira Preta e Jaen.

Maduro mas não requentado, mostrou cheiros por vezes algo carregados, com compota de frutos silvestres, vermelhos, algum fumo, indício de breve estágio em madeira, e um interessante toque especiado, quente e picante. Na boca, sabor seco, alguma estrutura, acidez suficiente, simplicidade e equilíbrio q.b.. O final, longo e bom, quase surpreendente. Embora tenha deixado claro ainda poder viver em garrafa, será de questionar o que poderão mais alguns anos de envelhecimento adicional trazer-lhe de positivo, tanto mais que agora aparenta estar no ponto, ou perto.

4€.

15

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Filmes (48)





— All I want to know is what happened to her. — I understand, Mr.Hofman. I've put myself in your shoes. In fact, I believe that you don't want to punish me. But I'm not so certain I should. Understand? I believe you, but I must pretend that I don't. So, drink. It's truly the only way. — What's in it? — I've already told you: a sleeping pill dissolved in coffee. — The car keys. I'd love to look at them one more time. — Mr. Hofman, understand once and for all: what use are these keys to you? You're powerless. — You're bluffing! — Assume you're right. Can you be absolutely sure? — That's where your problem lies. You must keep in mind the possibility that there's no proof against me. That could spoil all your chances. Mr.Hofman, I've been analyzing what goes in your head for the last 3 years. You can leave. Even go to the police with the keys. But then, you'll never know what happened to Miss Saskia. On the other hand, drink... and you'll know. In less than 1 hour, I guarantee you.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Granja-Amareleja — Moreto "Pé-Franco" ' 2009

Varietal de Moreto antigo, não enxertado. O contra-rótulo chama à casta "o ex-libris da viticultura da margem esquerda do Guadiana".

Por os seus vinhos costumarem ser relativamente parcos em cor e corpo, é habitual loteá-los com outros. Não é o que acontece neste caso.

Mais sério que o Alfrocheiro do post anterior, partilha com ele a ameixa, a amora preta, a estrutura firme e o volume mediano.

Aqui, contudo, os taninos estão mais finos e polidos, bem enrolados no corpo do vinho, e não existe ponta de doçura. Aliás, marca-o um verdor algo agreste, que a mim, pessoalmente, agrada bastante.

De salientar, ainda, a sua muito boa acidez, que equilibra 14% de álcool sem que algum deles (ou o seu confronto) chame a si demasiada atenção.

Posto isto, será inevitável concluir que muito mais que uma curiosidade, este é um bom vinho.

Acompanhou uma receita simples de peito de pato no forno e cogumelos shimeji salteados em manteiga.

12€.

16,5

domingo, 6 de janeiro de 2013

Granja-Amareleja — Alfrocheiro ' 2009

Varietal Alfrocheiro da Coop. Agrícola de Granja, estagiado durante um ano em barricas de carvalho francês.

Foi vertido directamente da garrafa, a acompanhar peito de frango panado, com batatas fritas e molhos vários.

Para um deles, juntaram-se dois dentes de alho, picados, a um pouco de sumo de lima, azeite e alguma maionese. Mexeu-se e foi para a mesa.

Para outro, descaroçaram-se umas azeitonas que depois se cortaram em rodelas finas e se misturaram com maionese e um pouco de azeite.

Outros ainda foram comprados.

O vinho, maduro e fino, com montes de cheiro a amora preta e uma mineralidade muito particular. Madeira, quase não senti.

Sem grande potência ou complexidade, transmitiu em expressão correcta o lado delicado da casta. Bonito e inequivocamente original, deixou, no entanto, que o dono o bebesse pacificamente, quase sem pensar. E isso só pode ser bom.

Doze horas depois, servido num balão maior e mais bojudo, tipo Borgonha, mostrou-se ainda mais doce. Mais flores, mais ameixa, mais compota. Em termos de carácter, no entanto, praticamente igual.

Empurrou, então, caldo verde e broa de chouriço.

8€.

15,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Celeda — The Underground

No princípio, ficava mesmerizado com a aparência que as coisas tomavam sob as luzes das casas da noite. Fascinavam-me especialmente as luzes UV, que faziam as coisas brancas parecer ter luz própria e davam um aspecto peculiar aos fumos e partículas de cinza de tabaco que pairavam, suspensos, sobre a pista de dança.



L' é um sentimento. Frio, sem grandes características. Não frio como um gelado, mais como um sorvete, mas menos frio, esmagado ao ponto de ficar com uma consistência quase líquida, e a escorrer-me pelos miolos abaixo. Um sorvete azul e branco — como o casaco que costuma usar — que vem em camadas sobrepostas e alternadas. Curiosamente, o branco mistura-se no azul pois há camadas de azul muito mais claro que o original, enquanto o branco permanece branco. O branco mistura-se com o azul tornando-o mais claro, mas continua a ser branco, imaculado. O azul perde parte do seu carácter.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Periquita — Reserva '2010

De acordo com a respectiva ficha técnica, a composição deste tinto "Regional Península de Setúbal" é a seguinte: 38% de Castelão, 34% de Touriga Nacional e 28% de Touriga Francesa. As uvas, provenientes de cepas implantadas em solos arenosos, fermentaram com maceração, tendo o vinho daí resultante estagiado durante 8 meses em carvalho francês, novo e usado. O engarrafamento deu-se em Outubro de 2012. Da mesma marca, já por aqui passaram as edições de 2004, 2005 e 2009, sempre dentro do mesmo perfil e nível de qualidade.

Este não se distancia dos seus antecessores. Continua fácil e generoso, rico em fruta silvestre, negra, madura, até algo gulosa, a fazer lembrar figos e amoras, e outras, com toque de especiaria. Envolvente na prova de boca, de volume e persistência satisfatórios, com taninos bem trabalhados. Enfim, um vinho alegre, que certamente agradará a muitos.

8€.

16