sábado, 30 de março de 2013

Velharias (35)


Sozinho, sempre sozinho.

Esperava que o centro de mensagens da TMN tivesse desentupido durante as horas que estivera sem olhar para o telemóvel, mas tudo na mesma. Em todo o caso, ainda era muito cedo para dizer qualquer coisa à S, a rapariga tem direito ao seu espaço. Podia distrair-me com blogues e música electrónica até à hora do almoço. Tentei ignorar que não sentia fome há quase uma semana, mas lembrei-me do cheesecake do dia anterior e não tardei a sentir uma garra no estômago, um vazio daqueles que querem não ser preenchidos.

Bastaram vinte minutos de internet para me fartar. Ocorreu-me que ler blogues faz mal. Endurece as ideias e estraga o estilo. Então, má ideia, resolvi tentar escrever.

Descrever o momento. Complicado. Quando não fazemos ideia do que queremos, todos os pontos de partida parecem igualmente bons. Por onde começar? Ponto de partida, lugar-referência. Talvez devesse começar por dar corpo a esse lugar, tornando-o tão concreto quanto possível, tratando-o como o elemento estranho que olha para uma fotografia, sendo ele mesmo parte da própria fotografia.

Talvez o som. O som impõe-se. Ou talvez se imponha, simplesmente, o volume do som. Penetrante, como se as ondas sonoras fossem balas semi-materiais constantemente reflectidas pelas paredes, atravessando-me um sem fim de vezes.

Um infinito de quatro minutos? Parvoíce. E, afinal, não seria aquela infinidade enclausurada a projecção desejada por quem alinhara aquelas notas. . . espirais. . . habilmente enroladas, voltas. . . curvas. . . linhas. . . contínuas. . . movimento sobre linhas contínuas. . . movimento uniforme sobre linhas contínuas, paralelas, como carris, estendendo-se até ao infinito?

Um comboio em marcha para a eternidade?

Escrever por desporto pode ser libertador. Para mim. Forma, mensagem, não importa. O objectivo é pairar, distrair-me. E assim reduzi à irrelevância, mais uma vez, factos como não dormir há três dias ou ter recomeçado a ouvir vozes.

Ao meio-dia e vinte e dois.

Eu tinha estragado tudo, mais uma vez. Seria, de facto, culpa minha? Presumo que sim. Sei lá. No fundo, que interessa, se acaba sempre por sobrar para mim? E podia pôr cobro à situação, mas apenas estaria a piorar as coisas. Sim. Se sofria com ela, mais ainda sofreria sem ela. E era impossível voltar atrás no tempo, até antes de nos conhecermos.

Também por isso, sabia que tinha de suicidar-me. Sempre achei a morte algo necessário. Não como escape, mas como fim. Sabia perfeitamente que nada tinha de que fugir. Era tudo meu. Podia tudo, mas não queria nada.

Há muito que pensava em como me suicidaria quando chegasse a altura certa. Tinha em mente uma panóplia de formas mais ou menos seguras e indolores de o fazer. O meu suicídio não seria fruto do desespero, pelo que não estava nada disposto a abdicar do meu conforto físico até ao último momento. Isso reduzira um tanto o leque de processos considerados aceitáveis. Teria de ser algo como adormecer para sempre, sendo que o "para sempre" apenas se imporia como certeza depois de perdida a consciência.

Dormir. Vai ser como ir para a cama depois de um longo dia de trabalho.

Só que eu não conhecia a sensação de adormecer ao fim de um longo dia de trabalho. Não só nunca passara por nada parecido, como não conseguia livrar-me da sensação de ter deixado algo por fazer.

Algo que bem podia ser tudo.

E assim, qual seria a altura certa?

. . .

A esplanada do Património estava deserta. Corria um vento fresco. Os halogéneos próximos iluminavam os telhados recortados contra o céu das casas antigas do nosso bairro histórico antes de se desvanecerem na distância. Era noite de lua cheia, ou quase. Tinha combinado sair com A já há algum tempo, mas apenas hoje se proporcionara. Falávamos da vida, tínhamos duas Guinness como testemunhas. Não tanto das nossas vidas, mais da condição da vida para cada um de nós. Conversámos durante horas. Curiosamente, estávamos de acordo.

O nosso problema assenta no excesso de conforto. É dele que advém o tédio. Não procuramos desafios porque não necessitamos deles. Afinal, temos a vida que queremos. Os suicidas eficazes são as pessoas que têm um problema concreto, tão insustentável que não conseguem, sequer, pensar nele. Agem, e pronto. Chegam à beira de um viaduto e atiram-se para cima de um comboio, ou roubam uma pistola a alguém e dão um tiro na barriga. Pessoas como nós. . . têm sempre tendência a deixarem-se arrastar por um longo caminho. . . Temos de nos consumir, e de consumir, também, aqueles que nos são próximos, de modo a criarmos os problemas concretos que, finalmente, nos levarão ao suicídio. Por maior que seja o tédio, não procuraremos mudar enquanto tivermos a consciência de que podemos manter a nossa situação, nem mesmo procurando a morte.

E não tentamos fazer nada, concluí. Naquela noite, compreendi que aparte todas as promessas auto-impostas, todas as decisões tomadas no sentido de me suprimir, ainda não estava seguro de qual seria a altura certa para o fazer. E pior, talvez nunca viesse a estar.



. . .

Agora, deitado na cama, quieto, ouvidos torturados pela música electrónica, não conseguia dormir, nem comer. Não conseguia sair à rua. Não conseguia estar com pessoas. Não conseguia ler, escrever, jogar ou ver televisão. Nem mudar de CD, o mesmo, há horas. Não queria nada disso. Só debitar cigarros uns atrás dos outros e recordar. Chorar, parar, recomeçar.

Não valia a pena continuar assim. Pela primeira vez na vida, senti pressa em morrer. Estaria, então, para breve.

Arrastei-me até à cozinha, beber água. Depois regressei ao meu quarto, e embora estivesse sozinho em casa, tranquei a porta, como sempre.


4/8/2004

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dom Rafael '2009

Mais uma vez, o tinto mais simples da Herdade do Mouchão. A seu respeito, o produtor adianta que a fermentação ocorre em lagares abertos, com pisa a pé, e o estágio se prolonga durante pelo menos um ano, em tonéis de 5000l e barricas.

Da prova: Maduro, percorrido por certa calidez. No nariz, fruta cheirosa, preta, bem madura, com compota e rebuçado. Na boca, ampla, acidez vivaz e taninos robustos. É vinho para a mesa, para pratos com tempero e substância. Acompanhou muito bem o esparguete com frango da avó da S.

A propósito do aqui registado a respeito das suas edições de 2006 e 2007, não posso deixar de notar ser "rústico" adjectivo recorrente e até certo ponto definidor. E se não encontrei este vinho muito diferente daquilo que recordo destes seus antecessores, desta vez, a pergunta "mas rústico porquê?" ficou sem resposta.

7€.

16

segunda-feira, 25 de março de 2013

Fui profeta da sabedoria e da verdade. Possuía as chaves da cidade. Senhor dos mares e dos pescadores. Sou hoje um cemitério de terracota. O mais belo cemitério onde vem desenvolver-se a loucura, onde dormem homens loucos de bondade, doentes por amor, doentes de razão.

Eu sou o louco d'Aïcha
mais formosa que a lua
pura como a loucura
tivemos filhos mortos com as flores
aqui estão eles
suspensos na minha barba
eu sou o louco de Rahma
saborosa como o pão
fértil como a terra
pássaro dos meus olhos
eles dizem que estou doido
mas não é verdade
grito choro e calo-me
danço sobre a labareda
e falo com os mortos

eu sou um segredo que estremece
um livro aberto para crianças medrosas
sou o cemitério dos necessitados
mas não sou uma aparição
dizem
depois de eu ter adormecido no regaço de Rouhania
ele é filho da solidão
sabes
quando Nachoude, o velho pescador, morreu, levado
pela espuma suja
fizeram-lhe um pomposo funeral
os gatos choraram
e o mar retirou-se a perder de vista e a lua velou muito tempo
a sepultura

eu sou a inércia criminosa e o exílio dos cães
tenho a amizade dos gatos e dos pobres
todas as minhas esposas me foram infiéis
soçobraram numa insensível loucura
das imagens e não das almas
eles dizem que estou doido
mas o que estou é sozinho
um pouco triste
escutai-me
vou contar-vos tudo...
eu tinha-lhe dado uma cabra...
não
não estou doido
se me deres um cigarro eu continuo a história...


Arzila: Estação de Espuma, Tahar Ben Jelloun, Trad. de Al Berto, Hiena, 1987

sábado, 23 de março de 2013

Hexagon '2008

São seis as gerações de descendentes do senhor José Maria da Fonseca e são seis as castas que o compõem: Touriga Nacional, Syrah, Trincadeira, Tinto Cão, Touriga Franca e Tannat — assim introduz o produtor a mais recente edição do seu topo de gama, engarrafado em Março de 2011. Para os curiosos, a respectiva ficha técnica está disponível para consulta aqui.

O relato organoléptico é para manter simples. No presente, servido directamente do caderninho negro do álcool. Primeiro dia. A 16ºC, com picanha na pedra, batatas fritas e os molhos da praxe, depois de arejado num decantador durante mais ou menos uma hora: Fruta fina, indefinida, escura, em camadas. Excelente madeira, abaunilhados e caramelo de nata. Tem um lado vegetal muito interessante, que se percebe melhor na boca. Bonito e bem dimensionado, com taninos nobres, termina longo.

Segundo dia, ao almoço, pouco menos de meia garrafa guardada na porta do frigorífico, com a rolha voltada ao contrário, a acompanhar lombo de coelho salteado e cantarelos: Ainda fechado, apesar de a fruta se mostrar um pouco mais solta. Figo? Ameixa? Amora? Framboesa? Não interessa: corpo firme, cheiro bom. Pena não ter sobrado para o terceiro dia. A experência, aposto, teria sido interessante.

A propósito desta minha curiosidade pelos efeitos do tempo de abertura nos vinhos, coisa considerada por muitos puro e simples desperdício, lembro-me de Miguel Louro, da Qta. do Mouro, comentar na NovaCrítica que muitas vezes decantava os seus vinhos, quando jovens, de um dia para o outro, alargando o prazo às vezes para mais de quatro dias — já agora deixo o elo.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 39,49€.

18

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eu vs Comp. (8)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Quinta do Corujão — Reserva '2008

Engarrafado pelo produtor António Batista, de Rio Torto (Pinhanços, Seia). Vem, portanto, do sopé da Serra da Estrela. A composição, em termos de castas, não é nada de estranho para um vinho da região: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Jaen e Trincadeira. Quanto a vinificação ou estágio, nem uma palavra.

A nota de prova tem de ser curta, para não maçar. Bebido a 16ºC com pãezinhos de chouriço, pão escuro com queijo "São Jorge" com 7 meses de cura, um "Santo Onofre" que trouxe do Afonso e os cubos de lombinho (de porco) estufados que constituíram a base do jantar, mostrou-se ao nariz maduro e envolvente, rico em ameixa e outros frutos negros. Vagamente floral a princípio, depois mais fumado e apimentado, também com toque de café. Na boca, frescura e equilíbrio q.b., sempre. É um vinho de médio porte, sóbrio, até algo austero, sobretudo no final. E inequivocamente gastronómico.

5€.

16

sábado, 16 de março de 2013

Animal Collective — Centipede Hz



When I want fruit I can find it wherever I please / What if I should wake up and find dudes on the street waiting in lines or scrounging for berries?

I'm losing things so fast / One day maybe I'll have a cool kid with a granny but I don't have a pose for applesauce on clothes / Reminisce of the days when my mom made it all seem delicious.

#4, Applesauce.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Quinta de Camarate — Branco Seco '2012

Ainda outro branco da José Maria da Fonseca. As uvas que constituem o lote, Alvarinho (75%) e Verdelho, provenientes da própria quinta, fermentaram em bica aberta, a 16ºC, tendo o vinho resultante sido engarrafado, sem estágio, em Dezembro de 2012.

Servido a 8ºC, pareceu-me essencialmente floral, apesar de trazer consigo notas persistentes, mas não impositivas, de ananás e baunilha. Também evidente certo toque fumado e de vegetal seco, em pano de fundo. Passou macio pela boca, revelando boa acidez. A dada altura, fez-me lembrar uvas brancas.

Gostou mais da companhia de pescada com espinafres (no forno) que do já costumeiro frango de churrasco, mas nunca comprometeu. É um bom vinho, fácil de gostar.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 6,99€.

16

terça-feira, 12 de março de 2013

Radix '2008

Este vinho pretende ser a proposta em estilo moderno do produtor, a Quinta da Bica, de Seia. Levou Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaen, Tinta Pinheira e Baga. Lote à partida interessante, digo eu. A ficha técnica fala de vinificação clássica e estágio de meio ano em meias barricas de carvalho francês, usadas.

Acompanhou um naco de lombo na pedra e couves de bruxelas, assadas, com alho e azeite. Touriga fina, com cereja preta. Uma presença muito característica do Dão. Com um pouco mais de atenção, encontrei flores e tostados. Tudo coberto, tudo bem arrumado. Fresco e bem macio na boca, de sabor ao mesmo tempo seco e guloso. Vá lá perceber-se isto! O final, quase longo. Acompanhou um naco de lombo na pedra e couves de bruxelas, assadas, e foi todo de uma vez.

10€

16,5

domingo, 10 de março de 2013





sexta-feira, 8 de março de 2013

Frangas, ou Galinhas novas de Escalope

"Peguem em quatro frangas, tirem-lhes os peitos, cortem-nos em filetes delgados, e iguaes, marinem-nos em azeite, e toucinho derretido, pouco sal, pimenta, salsa, chalota, hum dente de alho, tudo picado fino, cubrão o fundo de huma cassarola com fatias de presunto delgadas, arrumem-lhe por cima os filetes dos peitos das frangas com a sua marinada, cubra-se com pranchas de toucinho, e ponha-se a suar entre dois fogos hum pouco de tempo; tirem-se depois os filetes para outra cassarola, deite-se na bréza, em que se cozerão, huma pouca de substância, huma gota de vinho branco, e hum pouco de culi, e deixe-se ferver hum pouco de tempo; estando reduzido, passe-se pelo peneiro, tire-se-lhe toda a gordura, metão-lhe dentro os filetes da gallinha, sómente, a aquentar, e sirvão-se com çumo de limão."

in Cozinheiro Moderno, ou Nova Arte de Cozinha; Lucas Rigaud; 4a Ed, Tip. Lacerdina, 1807

quarta-feira, 6 de março de 2013

Periquita '2012 (Branco)

Não começarei o post afirmando o quão estranho me parece ver um Periquita branco depois de cinquenta anos de hábito ao tinto, viva-se o presente. O lote: 53% de Verdelho, 25% de Viosinho, 20% de Viognier e o resto, Moscatel de Setúbal. Fermentado em depósito de inox a 16ºC, foi engarrafado, sem estágio, em Dezembro de 2012.

Ainda mais fresco que o seu amigo BSE, rico em frutos de caroço e lima, com ligeiríssimo mas surpreendentemente distintivo travo de Moscatel (o vinho deste ano só levou 2% desta casta, redução considerável face aos 30% do lote do ano passado). Como o outro branco seco proletário da casa, trata-se de um peso-leve cuja graça reside essencialmente na simplicidade e equilíbrio. Versátil e francamente bem feito, muito capaz de dar prazer. Foi o vinho com que acompanhámos o frango de churrasco da passada segunda à noite. (O processo de obtenção desse frango foi deveras díspar do nosso quotidiano: tomámos a bica no Il Café di Roma do retail park enquanto esperávamos que a ave estivesse pronta. A noite, gélida. Entrámos em lojas de cangalhada do tamanho de hipermercados, com três ou quatro empregados à vista e ainda menos clientes, para comprar umas merdices para colar madeira, gomas, papel. Toda aquela luz branca, outra vez o frio. Adoro frio.) O vinho, ah, beba-se jovem.

A garrafa foi oferecida pelo produtor, que recomenda um PVP de 3,99€.

15,5

segunda-feira, 4 de março de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Esmero '2006

Esmero, de Rui Xavier Soares. As vinhas, implantadas em socalcos de xisto, têm aproximadamente 80 anos de idade, com várias castas misturadas (Malvasia Preta, Tinta da Barca e Rufete são alguns dos nomes adiantados pelo produtor). As uvas, pisadas a pé, fermantaram e maceraram em lagares durante uma semana, tendo o vinho resultante estagiado dezoito meses em madeira nova e usada. Encheram-se 3800 garrafas, não numeradas.

Arejei-o em decantador aproximadamente meia hora antes de o trazer para a mesa. Matagal, alcaçuz e muita groselha. Também balsâmico e vagamente etéreo, com toque fumado e de armário de remédios, este é um vinho grande, entroncado, de taninos robustos que já vão reflectindo a acção refinadora do tempo. O final, bastante longo. Enfim, seis anos de bom e típico "vinhas velhas" duriense da new skool, eventualmente capaz de durar outro tanto, desde que bem guardado.

16€.

16,5