sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Casillero del Diablo — Cabernet Sauvignon '2009

Provavelmente o vinho chileno mais conhecido do mundo, dispensa grandes apresentações. As uvas provêm do Vale Central (o produtor não especifica melhor a origem) e o produto final é parcialmente estagiado em barricas americanas de tosta média: nesta colheita em particular, a quantidade foi 70% do volume engarrafado, durante 8 meses.

Vertido directamente da garrafa, lembrou cereja e outros frutos vermelhos, tabaco, noz moscada, com toque de tosta/baunilha. Cabernet simples mas focado, compensou a sua relativa magreza com boa dose de fruta gulosinha e madeira bem colocada. Talvez esteja um furo abaixo da colheita histórica de 2007 — em todo o caso, nada de muito relevante.

Acompanhou frango guisado com esparguete, uma versão com chouriço, feijão verde e tomate, coberta de queijo da Ilha.

6€.

15,5

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Borboletas



domingo, 25 de agosto de 2013

Um dia, quando finalmente me suicidar, não quero morrer logo para o mundo. Espero conseguir viajar para longe, sozinho e incógnito, se possível com outros documentos, e eliminar-me num ermo, algures onde possa não ser encontrado senão por acaso, ao fim de muitos anos.

Mais que morrer, espero apagar-me, continuando, no entanto, vivo por mais algum tempo, no imaginário de alguns daqueles por quem tiver passado. Encaro isto como uma última brincadeira, e talvez como a evidência de uma certa imortalidade, modesta, claro, mas, ainda assim, indício claro de que nem mesmo na morte todos os homens são iguais.

Curioso, há tantos anos que penso nisto. Não obsessivamente, vai e vem.

Este paleio poderá fazer-vos pensar que estou muito triste, o que não é verdade. Simplesmente, há coisas da vida de um indivíduo em que é difícil não pensar. Quanto à respectiva partilha, enfim, é opcional e nem por isso relevante.

sábado, 24 de agosto de 2013

Libélulas









Fotografadas pela S. num parque próximo de casa.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Quinta de Cidrô — Sauvignon Blanc '2011

Sauvignon Blanc do Douro, produzido pela Real Cª Velha na quinta que lhe dá o nome, propriedade próxima da barragem da Valeira, em S. João da Pesqueira, em tempos pertença do Marquês de Soveral e que actualmente constitui um modelo de experimentação vitivinícola para toda a região. Estas últimas oito palavras foram cortadas e coladas da ficha técnica deste vinho; que Deus me perdoe, não resisti.

No copo, alguma cor. Pêra, abacate, ligeiro ananás, carioca de limão. Neste contexto, o lado vegetal da casta quase não se fez notar. Gordinho e coeso com frango de churrasco e batatas fritas, a cortar o unto do molho de limão sem qualquer problema. O final, aliás, praticamente limpava a boca.

Segundo dia, ao pequeno-almoço, com pão de centeio escuro, queijo brie e fiambre, pareceu-me mais verde e directo, e de alguma forma também mais estival, com espargos e caroço de pêssego.

8€.

16

domingo, 18 de agosto de 2013

Velharias (38)

Estávamos em 2002. Corria o segundo de Dezembro. Pouco faltava para as oito da manhã, hora de Lisboa. E eu estava em casa, pedrado, agarrado ao computador. Tinha então uma conta activa no ICC e passava madrugadas em claro a jogar xadrez na net.


NewYorkMasters(DM)(43): Just got e-mail from Frederic Friedel, ChessBase guy, Leko's asleep in bed.

eizran(43): LOL !!!

Earth(43): who said he was dead?

eizran(43): OMG lol we are lied alive !!!!!


Naquela noite, alguém telefonara a Zsuzsa Polgár, jogadora famosa e personagem influente no meio, com a notícia de que Peter Leko, também ele um jogador famoso, morrera nessa noite na sequência de um acidente de viação. Polgár, que se encontrava a dar uma aula online, interrompeu-a de imediato: pelos vistos, o telefonema provinha de fonte segura. Independentemente da fonte, certo é que o ainda rumor chegou aos ouvidos de Sam Sloan. Americano convertido ao Islão, homem de leis e letras que correu mundo para acabar taxista em Nova Iorque, jornalista de xadrez nos tempos livres e um grande apreciador de jovens mulheres orientais, Sloan rapidamente confirmou todo o sucedido. E a partir daí não se falou de outra coisa. Leko teria mesmo morrido? Mas claro que sim! Era esse o desejo dos espíritos vivos, de imaginação fértil, tanto que não tardaram a surgir outras histórias. A dada altura, alguém incluiu outro jogador conhecido, chamado Shirov, entre as vítimas do acidente, isto apesar ninguém ter grandes dúvidas relativamente a Shirov se encontrar em Espanha e Leko na Hungria. O moral estava bastante elevado e por volta das sete da manhã, hora portuguesa, havia quem comentasse que Bobby Fischer estaria a morrer de cancro, falou-se de um Kasparov infectado com SIDA, que a máfia russa assassinara Leko e Shirov enquanto estes se entregavam a práticas homossexuais num automóvel qualquer que supostamente se despistara numa rua de Budapeste.

Enquanto as preciosidades do xadrez online deliravam, gente mais séria ia fazendo acontecer coisas. Na Alemanha, um jornalista chamado Mig Greengard, assim que informado por algum infeliz suficientemente preocupado para o acordar, levantou-se à pressa, ainda de madrugada. Mas por volta das nossas 7h30, farto de fazer telefonemas infrutíferos, já se resignara a aguardar novidades online, connosco. A casa estava cheia e o ambiente espectacular. Li Gata Kamsky escrever para o canal público que estava "muito triste, muito preocupado" com Leko. E até a protagonista de filmes tão inspirados como Tomb Raider, esse poema vivo, que na altura visitava o ICC duas vezes por ano, no máximo, se encontrava presente.

Ora, montado tal cenário, foi com certa pena que vimos desmentir o malfadado eco. Por momentos, para alguns, quase teria sido preferível que Leko tivesse mesmo morrido, e Shirov com ele, vitimados pela máfia russa enquanto faziam coisas do demo no banco de trás de um automóvel. Ora eu, embora não me conte entre aqueles que anseiam pelo mal, foi num ápice que me vi tomado de intensa modorra. Decidi deitar-me, mas primeiro havia de fazer uma ganza. E a ganza deu-me vontade de me portar mal. Saí, retornei como guest e...


match angelinajolie 2 0 u


O último jogo antes de adormecer, se correr bem. Dois minutos, sem incremento, sem mexidas no rating. Contra a Angelina très Jolie. Arrependi-me quase de imediato. A gaja declinaria a oferta sem pensar duas vezes, evidentemente. Sem esperar por que o facto se consumasse, levantei-me e fui à casinha. Ora, o mundo não parou enquanto eu, nem por isso à rasca, procurava decidir se mijava de pé ou sentado.


Creating: guest394 (unreg) AngelinaJolie (1387) unrated Bullet 2 0

AngelinaJolie accepts your challenge.

{Game 275 (guest394 vs. AngelinaJolie) Creating unrated bullet match.} *

Game appended to D:\Program Files\Games\Blitzin\LogsPGN\Mmm.pgn


Quando voltei e dei com este lindo serviço, pensei logo "Ora foda-se!", mas o meu prodigioso saber estar impôs-se e salvei a situação através daquele recurso porreiro, que toda a gente adora — teclei um pedido de desculpas:


tell angelinajolie oh. sorry. lol

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: I can be very slow sometimes, i accepted to late perhaps :)


Naturalmente, ela, pessoa de bem habituada a socializar, também se desculpou. Foi aí que parte de mim se pôs a pensar: 

"Ó meu bom Jesus, perdi a oportunidade de jogar contra uma estrela, assim, ao cair do pano, agora mesmo que tinha decidido que ia dormir, e logo porque fui mijar sem necessidade, coisa que só pode ser pecado, e ainda por cima a rapariga não exclui a hipótese de ter sido culpa dela? Jesus do Céu, deverei contar-lhe o que aconteceu?"

Talvez surpreendentemente, Jesus respondeu-me:

"Não, filho, não faças isso. A gaja está pouco habituada a desculpas dessas vindas de pessoas que não conhece. Ia achar estranho, e tu bem sabes, filho, que para as pessoas da vida, estranho é mau e mau é para evitar."

Agradeci a Jesus. Era flagrante a carga de sabedoria contida nas suas palavras. Nunca ninguém quer brincar com o gajo estranho, que ainda por cima é português. Assim, dizer a verdade só poderia ser contraproducente. Então, por uma vez na vida, optei por algo um pouco mais suave:


tell angelinajolie no. i didn't notice you accepted the challenge. too many hrs online.

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: no problem, I have about 40 people who just told me they read about me playing here and ask "Is is really you? Well, no, it's my character assuming control of my account ;-)

tell angelinajolie who knows?! :P

(told AngelinaJolie)


Eu queria mesmo era dizer-lhe "I wish", mas depois de quase trinta horas a pé sem fazer nada em concreto, quem é que se lembra de ser insolente?


AngelinaJolie tells you: you are so correct :)

tell angelinajolie 8.19 am here. leko is alive, but i'm "dying". kof

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: where are you ?


A senhora Jolie-Voight é daquelas pessoas que faz um espaço a seprarar os sinais de pontuação da palavra precedente. Foi algo que se repetiu, e não uma gralha.


AngelinaJolie tells you: that was a nice rendition of dying btxw :)

tell angelinajolie heh. coimbra, portugal

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: and this Leko seems popular. What was that all about, he is not dead ?

tell angelinajolie nope

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: thats a god thing i suppose :)

tell angelinajolie from god? sure. leko is a fine player. ok, and perhaps a nice guy. so, dunno how good...

(told AngelinaJolie)


Nos tempos em que frequentava a secção de xadrez, dizia-se amiúde que "o Leko não tem alma". Mas podiam ser só os guaxinins a surrealizar. Face ao momento, certo é que teria ficado a conversar mais um pouco, mas a cabeça cada vez mais pesada não perdoava e também quase não tinha tabaco, pelo que decidi ir embora.


tell angelinajolie now going to bed. well... we can play the 2 0 u blitz later, if u want to. lol. bye bye & misbehave

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie(43): I always will do "the right thing" in regards to my personal life, and thanks for the kind words, I must run off. i will talk to you again ?


E foi assim que, inadvertidamente, AJ enviou a resposta privada que me tinha destinado para o "canal" público, que como já vimos se encontrava repleto de casos mentais — todo os dias acontecem nestes chats dos servidores de xadrez conversas capazes de fazer o menino Jesus chorar.

Ah, claro. Ora toma.


tell angelinajolie ups

(told AngelinaJolie)

AngelinaJolie tells you: :-)

tell angelinajolie sure. later. nice chan-tell :p kiss kiss.

(told AngelinaJolie)


Saí sem esperar pela resposta, mas ainda fiz outra ganza antes de me deitar. A vida é feita de prioridades, e ao contrário da minha encantadora acquaintance, eu posso dar-me ao luxo de passar as manhãs na cama.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Marqués de Riscal — Sauvignon '2011

Desta vez o post é sobre um Sauvignon Blanc produzido em Rueda por um dos grandes impulsionadores da região, a sobejamente conhecida Herederos del Marqués de Riscal. Consta que a ideia por detrás destes vinhos é fazer muitos litros de Sauvignon honesto. Para tal, faz sentido apostar na tipicidade mais fácil de obter num varietal, a da casta, aqui conseguida por meio de uma lenta fermentação a frio, que proporciona uma expressão pura q.b. dos aromas primários respectivos ao produto final. Isto, combinado com algum corpo, que lhe permita durar pelo menos um par de anos, e que neste caso é obtido com uns meses de estágio sobre as borras finas, se bem aplicado, parece receita que dificilmente falhará. Claro que le bon Dieu est dans le détail.

Veio para a mesa a pouco menos de 10ºC, acompanhado por uns bocadinhos de peito de frango salteados com feijão verde e umas ervitas, um bocadinho de gengibre, se bem me lembro, e limão, prato tendencialmente fresco mas não ácido, que não tendo alguma vez julgado encontrar-me perante um vinho de piscina, também não quis colocar-lhe dificuldades escusadas. Chegada a hora do desfile organoléptico, passo a citar o caderninho negro do álcool, sem edição — acho que hoje estou a escrever morno e pesado, urge portanto parar de fazê-lo. "O nariz é de um maduro verde muito engraçado. Melão, flores brancas, ligeiro maracujá, rebuçado ou caramelo de limão. Sem ser explosivo, expansivo. E a boca não destoa. A acidez, a fruta, a untuosidade da casta, o doce-amargo no fim de boca, tudo apetitoso, cativante, a dar vontade de beber mais um pouco. Não é vinho de meditação, mas dá que pensar".

8€.

16,5

terça-feira, 13 de agosto de 2013

The Slits — Cut

Mais punk, ou pós-punk, como preferirem, que afinal não será bem, ou assim tão punk, ou pós-punk, seja o que isso for.

Lembrei-me destes enquanto aqui publicava aquela musiquinha dos Raincoats que está no último post do género antes deste.



I heard it through the grapevine not much longer would you be mine, I heard it through the grapevine and I'm just about to lose my mind.

Ao contrário do habitual aqui, a foto não é da capa, mas de uma página interior do álbum. Não que as gajas fossem feias na altura, que não eram, nem este espaço se está a tornar puritano, mas, sinceramente, da capa não gosto.

domingo, 11 de agosto de 2013

Quinta das Setencostas '2009

Tinto de Alenquer, produzido pela Casa Santos Lima a partir de uvas das castas Castelão, Camarate, Tinta Miúda e Preto-Martinho. Sem entrar em detalhes, o seu contra-rótulo adianta ter sido elaborado pelo método de curtimenta clássica, com posterior estágio em barrica.

É um vinho de carácter maduro e volume mediano, com um curioso travo maltado. Embora os aromas predominantes sugiram frutos pretos (ameixa, figo) e passas, com subsequente evolução para tabaco/cacau, também tem qualquer coisa de verde e castanho, de terra e vegetais.

Pena que na boca seja um pouco chocho, sendo o maior ponto de interesse que aí lhe encontrei a impressão de os elementos terrosos surgirem mais nítidos do que se tinham mostrado anteriormente ao nariz. Não quero dizer com isto que o tenha encontrado mal saboroso, antes que me pareceu faltar-lhe aquele bocadinho mais do que quer que seja que tinha de estar lá para se poder dizer fresco e vibrante, ou gordo e persistente, ou pura e simplesmente elegante.

Ainda assim, é uma curiosidade interessante quanto baste. Acompanhou com sucesso uma grande empada de coelho.

4€.

15

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Eu vs Comp. (9)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quinta do Cardo — Síria '2011

Varietal Síria de Figueira de Castelo Rodrigo, engarrafado sem ter passado por madeira, após um breve estágio sur lie.

Mineral, musgoso, sugere pedra fria e humidade, mau grado a presença inequívoca de notas citrinas. Com o tempo, também algo como melão aguado. É um vinho de tons limpos, verdes e amarelos, mais verdes que amarelos. Fresquinho e macio, deixa um pós-gosto ligeiramente amargo. Nada maduro, mas ainda menos acre, fará seguramente boa companhia a umas lulas grelhadas. No entanto, sozinho, como o bebi, também não compromete.

Para além de um bom vinho, é também uma curiosidade. Vale a pena atentar na diferença entre o seu carácter quase completamente frio e a tropicalidade directa da maior parte dos seus congéneres do Alentejo, onde é uma das castas mais populares, sob o nome de Roupeiro. Não completamente a despropósito, recordo ainda certo exemplar da colheita de 2006 da mesma quinta, que abatido a caminho dos 3 anos, proporcionou uma experiência organoléptica completamente díspar da presente. A guardar para ver.

5€.

15,5

domingo, 4 de agosto de 2013

Companhia das Lezírias '2008

Castelão, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. As cepas, com uma média de idades de 25 anos, encontram-se implantadas nos solos arenosos da charneca do Catapereiro.

Relativamente a como foi feito, passo a citar a ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet: "desengace, esmagamento, fermentação alcoólica em depósitos de inox, prensagem, fermentação maloláctica, estágio de 8 meses em barricas novas de carvalho francês e americano".

Trata-se, em poucas palavras, de um Ribatejano maduro, cheio de fruta vermelha, que não procura subterfúgios para tentar esconder a presença do álcool. Também a madeira onde estagiou se nota, sobretudo na boca, mas não destoa, julgo que acima de tudo pela força do conjunto. Apesar de frontal, não é taludo nem bruto, e não brilhando, tem os seus momentos.

4€.

15,5

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Velharias (37)

Sem data, no verso da capa de um livro.



dourado, o tom eléctrico do nosso amanhecer às portas da cidade que nos viu nascer, crescer, fugir

fugir, correr —

parados sob as árvores, ramagens negras soerguidas ao céu, como garras ressequidas

correr —

amanhecer ar e luz numa estradinha dos arredores, ao princípio da alvorada, ainda as luzes da cidade sobre o largo fundo negro

negro dos montes onde nos perdemos.

amanhecer ar e luz num pequeno cemitério de aldeia, assistir de perto ao desmembrar das trevas, o seu ronco de morte dissipado na claridade fria

depois das luzes da via rápida, para lá das casas, hortas, pinhais

por entre os montes, azul disperso —

cinzento, dourado.