domingo, 29 de novembro de 2015

Dona Paterna — Alvarinho e Trajadura '2013

É um branco ligeiro, engarrafado sem passagem por barrica, com 11,5% de volume alcoólico. Muito simples: ataque limonado, depois frutos de polpa branca, com destaque para a pêra, junto com notas de flor de laranjeira, e um toque adocicado, de mel e madurez, a crescer mais para o final.

No mais, fresco e bastante persistente, apesar de já não ser vinho do ano, não acusa a idade. Servido directamente da garrafa, acabado de sair da porta do frigorífico, deixou algumas bolhinhas na superfície do copo, que não se reflectiram, no entanto, na boca.

Dá-lhe o nome a condessa Dona Paterna, que fundou um mosteiro, no espaço de uma quinta que possuía onde agora se situa a freguesia de Paderne, de onde este vinho provém. A este respeito, lê-se no "Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico" editado por João Romano Torres, em 1903, que:

"Houve aqui um mosteiro de cónegos regrantes de Santo Agostinho, fundado pela condessa Dona Paterna, viúva de Don Hermenegildo, conde de Tui, numa sua grandiosa quinta, que possuía nestes sítios, com outras propriedades e aldeias. Fundou o convento para nele se recolher com suas quatro filhas, e outras nobres senhoras de Tui, que as quiseram acompanhar.

(...) Em 6/8/1130, estando as obras concluídas, foi sagrada a igreja do mosteiro pelo bispo de Tui, Don Paio, que também nesse dia o dedicou ao Salvador, e lançou à condessa, suas filhas e mais companheiras, o hábito das cónegas de Santo Agostinho. Mandou para confessores e capelães sete clérigos que em 1138 se fizeram regulares da mesma ordem, vivendo em comunidade.

(...) A fundadora foi a primeira prioresa das freiras, e Don Ramiro Pais o primeiro prior dos religiosos.

(...) A povoação tomou o nome de Paterna, que depois se corrompeu em Paderne, porque ao convento se dava o nome de mosteiro de Paterna. Não se sabe quando deixaram de existir aqui freiras, mas sabe-se que em 1248 só havia frades, tendo por prior D. João Pires, grande partidário de D. Afonso III, pelo que este monarca fez grandes doações ao convento, concedendo-lhe muitos privilégios".

Acompanhou uns camarões, preparados de forma parecida com esta, e aguentou bem o prato. Houve um varietal Alvarinho, da mesma casa, da colheita de 2011, que um dia aqui passou e me pareceu bastante superior.

5€.

15,5

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Não costumo escrever sobre coisas do dia-a-dia, e de certeza que ia separar os vinhos, digo, o do post anterior do que aí vem, com outra coisa qualquer, não alcoólica. Mas às vezes escarafuncho onde já escrevi e do link para o fiambre no post infra saltei para outro, d' "A Loja em Casa", no sítio do ECI na internet. E aí vi o que agora partilho:



O "Flavor Chef" o quê?

Ainda assim, talvez insuficiente, só por si, para justificar um post. Mas depois, pouco, pouquíssimo depois, quase acto contínuo, acedi ao DN online. E na página de abertura,


Será Deus a dizer-me que vá dormir?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Compañía de Vinos Telmo Rodríguez — LZ '2013

Estava a 14ºC no copo quando começámos, palavra de termómetro digital. Antes, meia hora de arejamento em decantador. Mais enfático no nariz que na boca, é muito frutado — "tão morangueiro!" — e rico em especiarias também. Os cheiros e sabores aparecem limpos, os taninos têm nervo e a acidez existe em quantidade suficiente para que não subsista calidez.

E está muito bem dimensionado, com uma fluidez que permite encarar a sua basta dose de concentração, sem o peso que habitualmente se lhe associa! Assim justifica a falta daquele extra de profundidade e persistência que são necessárias num grande vinho: face à dádiva da natureza, foi feito deliberadamente fácil, coisa que não consigo deixar de achar uma óptima opção de design.

Riojano de Lantziego de Álava, é uma das opções de entrada do produtor. Foi feito com Tempranillo, Garnacha e Graciano, dizem que a apontar à maneira dos vinhos tradicionais da região, nos anos 20 do século passado: fermentou por acção de leveduras autóctones, em depósitos de cimento, onde permaneceu uns meses, até ser engarrafado.

Bebi com pizza de base fina e estaladiça, feita em casa, generosa no queijo e nos orégãos, e coberta com cubinhos de fiambre (acho o da marca própria do ECI, da perna, satisfatoriamente próximo do "Libra", que adoro, mas não encontro à venda aqui), cogumelos frescos e azeitonas pretas, oxidadas, daquelas de que muita gente que escreve sobre comida gosta de dizer que não gosta.

7€.

16

segunda-feira, 23 de novembro de 2015








Coisas da chuva: alguns dos últimos cogumelos deste Outono e uma lesma (Arion ater?) a almoçar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Domaine de la Rectorie — Cuvée Pierre Rapidel '2006

Outro vinho doce! Andarei deprimido? Mas este é especial, o primeiro Banyuls do blog.

Produzido de forma similar ao Porto, através de um processo em que a fermentação do mosto é interrompida por adição de aguardente, teve origem em uvas Grenache Noir (90%) e Carignan, provenientes da região de Banyuls-sur-Mer, no sudoeste do Roussillon, perto da fronteira com a Catalunha. Estas são, de certo modo, vinhas de montanha, à beira mar.

A acreditar no que diz a internet, da presente cuvée, o produtor terá enchido umas 6000 garrafas, de 50 e 75cl, após 6 anos de estágio em grandes barris de madeira avinhada, foudres.

Servido a 12ºC, apesar de um bocado funky no princípio, não tardou, porém, a mostrar montes de cheiros interessantes, terciários, de carácter oxidativo. Trouxe, por um lado, e acima de tudo, cerejas maceradas em álcool, junto com passas, várias, de ameixa, figo e tâmara, amêndoas tostadas, mel e especiarias quentes, como canela e caril; por outro, em jeito de contraponto mas não em pano de fundo, madeira velha, açúcar queimado, verniz.

Fez lembrar um bom ruby, de menor porte e limpeza, é certo, mas também mais vivaz, a deixar perceber verdadeira frescura, mau grado tratar-se de um generoso com 16,5% de volume alcoólico. A apontar, certo desvio para o amargo, mais presente no paladar e que encontrei muito interessante. Ainda não está no ponto, e por muitos anos, posto que deverá viver entre mais 30 e 50 em garrafa, mas duvido que venha a conseguir dar a alguma a guarda devida.

Com castanhas assadas, assim, foi excelente, mais ainda que com chocolate preto, que calhou ser deste.

Portes fora, 20€ por cada 50cl.

17

quarta-feira, 18 de novembro de 2015







domingo, 15 de novembro de 2015

José Maria da Fonseca — Moscatel de Setúbal "Superior" '1911

Âmbar escuro, com rebordo esverdeado, mostrou-se um vinho enorme, muitíssimo concentrado, de toque oleoso e peso condizente, mas possuidor de uma acidez extraordinária, capaz de o elevar, de fazer cada bocadinho vibrar na boca.

Muito complexo, evocou coisas tão díspares como mel e iodo, passas, licor, café, cravo-da-índia e outras especiarias de tons afins, junto com elementos químicos e medicinais. Um vinho de meditação, verdadeiramente elegante e que perdurou muito, muito tempo no palato, com recuerdos de frutos secos no final.

Tentei sentir-lhe o Moscatel, aquela uva branca de floral adocicado e fácil, que faz brancos secos perfumados e generosos super doces, e por incrível que pareça, ao fim de mais de cem anos em madeira, o Moscatel ainda estava lá, o cheiro doce que tanto gosto de encontrar à sombra de certos arbustos floridos, em fins de tarde quentes, no "nosso" bosquezinho habitual: nem por isso intenso, mas profundamente entranhado.

Atribuir-lhe um numerozinho da qualidade não foi fácil. Como a bitola de cada um se faz da sua experiência pessoal, dou-lhe a classificação mais alta por ser o melhor vinho que alguma vez bebi, independentemente do género, e por não lhe ter percebido nada em que devesse melhorar.

E isto traz-me à memória um professor de matemática que tive no liceu, homem severo, cirunspecto, mas de trato fino, que era conhecido entre os alunos como o "testa de ferro" e que por vezes afirmava, naquelas lavagens da alma que eram as aulas de auto-avaliação no final dos períodos, que "havia vintes e vintes". Ora, estes vinte valores não querem dizer que não espere vir a cruzar-me com vinhos ainda melhores; significam, apenas, que este, agora, para mim, esteve perfeito.

Na foto, a amostra que o produtor me remeteu em Novembro de 2014, num tubo WIT porreiro, junto com um convite para o respectivo leilão de lançamento, onde foram vendidas 100 das 180 garrafas de meio litro produzidas — as restantes permanecem na colecção privada da empresa. Ainda é relativamente fácil adquiri-lo, mesmo online, na Garrafeira Nacional, por exemplo, onde cada unidade de meio litro custa 780€.

Em 1911, os impérios russo e otomano ainda existiam; o comunismo era teoria. A Convenção Internacional do Ópio ainda não tinha sido assinada.

20

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Biosphere — Patashnik

Biosphere é um pseudónimo de Geir Jenssen, um norueguês nascido em 1962.

Em 1994, este foi o seu segundo álbum.

Li por aí que o autor apresentou patashnik como termo russo para um cosmonata perdido no espaço, mas parece que a palavra, afinal, não existia nessa língua.

Agora que conseguiu reunir algum interesse, já tem tudo para existir.

Noutro lugar, vi chamarem-lhe spaced out ambient techno.



A faixa nº 4, Novelty Waves, serviu de banda sonora a um anúncio da Levi's.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quinta do Infantado — Tawny 10 Anos

Engarrafado em 2014. Macio, cálido, levemente aguardentado. Possuidor de alguma profundidade e um muito bom equilíbrio entre os tons de frutos secos e maduros, com os inevitáveis caramelo e café presentes, pareceu-me relativamente pouco doce (cof) para "dez anos".

Tentando não efabular, poderei dizer que apresentou as características que usualmente se associam ao estilo, aparte o sabor e a persistência, esses acima daquilo que será a média dentro do género.

De novo, não me é fácil escrever sobre estes vinhos, todos parecidos q.b. entre si — a diversidade é bem mais perceptível nos lotes com 20 e mais anos, já ignorando o mundo que são os "Colheita".

Sim, dentro do género, este pareceu-me dos melhores. No entanto, e isto tem ficado tão mais claro quanto mais vinhos tenho experimentado, não creio que seja possível afirmar com justeza que algum Porto datado, mesmo aqueles excedentes que acabam com as marcas das cadeias de supermercados que os vendem, é ou tem jeito de coisa standard.

Acompanhou mini palmiers, daqueles secos, que se vendem em caixas grandes a preço de desconto, chocolate em barra, o "Crunchy Nougat" Lindt, que é fofo e merece um link, fumo e conversa. CC gostou muito e a S também me pareceu convencida. Procurando por ele, online, encontrei isto.

15€

17

sábado, 7 de novembro de 2015

Velharias (40)


Se os olhos pudessem ver os demónios que povoam o universo, a existência seria impossível.
Talmud



Tudo se me afigurava claro.

Abri a torneira da água fria e esvaziei um frasco de gel na banheira. Depois fui à cozinha, preparei litro e meio de whisky-cola com sumo de limão e fechei-me no WC, para me envenenar em paz (todas as luzes acesas).

Sentia-me bem. Quase conformado. Embora a sombra da morte não me tivesse abandonado, conseguia agora aceitá-la sem incómodo algum, e, mais importante ainda, sem desespero, logo, sem pressas.

Ainda a seco, engoli umas unidades e comecei a beber. O primeiro contacto com a água teve o seu quê de desagradável. Nunca gostei de água fria. Depois, todos os reflexos se fundiram num clarão branco à minha volta. Eram quase sete da manhã, faltariam pelo menos três horas para que algum dos meus progenitores se levantasse. Fui-me medicando sem pressa, como quem goza o que faz.

Adormeci.

O bar tem uma grande parede de vidro fosco que dá para a rua, à altura de um primeiro andar. Chuvisca e há um cão que acelera e desaparece do meu campo de visão; os peões não se deixam perturbar, mecânicos, abatidos, é permanente o carácter da infelicidade.

Do outro lado da rua há um rio. O demónio Katavi disfarçado de rio. Vejo monstros negros cobertos de escamas que espreitam sob a cortina velada de uma enorme mancha de petróleo que o cobre em toda a sua extensão.

Um atrasado mental mija para dentro do petróleo, que começa a arder. Gases incandescentes levantam-se da piscina de fogo e alastram. Toda a cidade em chamas, o céu negro-mate dá as boas vindas aos horrores que se levantam.

Milhares e milhares de mortos, a terra vermelha de sangue, animais tresloucados tomam de assalto a cidade. (Onde está o rio?) Fuligem. Cadáveres carbonizados por toda a parte. Estou farto, farto de tudo. Tired of walking to&fro around this wellknown insignificant maze, I feel the goodold apathy taking over me & drown in the muddymisty waters of joyfulmisery.

Dias depois, é uma carcaça trémula que aborda o comboio das cinco e vinte, para Faro. Em silêncio, espera, pede uma garrafa de água, não consegue beber. Não consegue segurar o copo. O medo de nada é uma condição muito peculiar.

bip
bip

e a pequena luz azul de uma nova mensagem recebida. É M que pergunta por mim.

Ainda no Norte, dissera-lhe que não se preocupasse, que não tardaria a ir ter com eles. Demorara dois dias pelo caminho e não dera notícias. O que não tem nada de anormal, bem vistas as coisas.

E ali estava, enfiado num comboio, a descer em direcção a mais algumas horas de nada, porque podia e não havia nada melhor para fazer.

Noite anterior:

"Abriu um whiskybar novo no Tivoli. Ainda não fui lá."

Fomos.

Meia noite e qualquer coisa, átrio deserto, uns pretos em amena cavaqueira na entrada que dá para o lobby. Lá dentro, o barman e uns centro-europeus, talvez alemães, de ar abrutalhado. Conversa sobre a vida, o estado do mundo. Havia no ar um estranho inconformismo com "tudo isto".

"A distribuição de poderes está a voltar ao que era na Idade Média: feudalismos" dizia. E eu

"Feudalices, caralho. Uma tirania adocicada. Nem sequer subtil. Como pensamos sempre por via das dúvidas, até as maiores barbaridades nos parecem razoáveis quando acontecem. Depois olhamos para o passado e parece fácil "prever" o rumo que algo tomou. Mas só porque é como olhar para um problema resolvido.

Bah, não sou assim tão pessimista. Repara no sistema que estás a tomar, o mundo! Há sempre imponderáveis, e com mais gente a fazer mais merda, haverão cada vez mais. A informação flui como nunca, todos vêem mais. Há tempos li algo, um estudo, acho que de uns tipos de Berkeley, que tentava medir a quantidade de informação produzida no mundo, por ano. Pois é cada vez mais, a crescer depressa."

"Mas ver mais não é poder mais. Nós não sabemos controlar essa informação. Estamos perdidos nela."

"E que interessa? Há quem saiba."

"Sim. Mas esses são aqueles que mandam servi-la às massas. E aos seus bobos. Dos políticos aos publicitários."

"É inevitável. As pessoas consomem sempre o que lhes é colocado à frente. Não por serem burros, que são, mas talvez por não terem outra alternativa. E para quem manda, é fundamental que pensem que podem escolher, que se sintam confortáveis, mesmo que não possam, não saibam fazê-lo."

"E pior, será que "esses" que controlam a informação o fazem em consciência? Sem dúvida que querem, e até agora tem corrido bem. Mas nenhum status quo se mantém para sempre."

"Claro que não. Nenhum establishment possui um plano de orientação único. Poder é uma forma de estar na vida, não um ofício. As traves mestras do sistema são coisas profundamente humanas, aspirações. As orientações implementativas são instrumentos do desejo humano. Não existe um "big brother", ou melhor, existe, mas é uma entidade fragmentária. Nem sequer é uma entidade, é um conjunto de pessoas com ideias e objectivos diversos, que partilham uma mesma forma de consciência de classe, uma educação assente em bases até certo ponto comuns e, enfim, a própria natureza do homem.

Os que caem vão sendo substituídos. Queira deus que continuem a fazê-lo pontualmente e sem demasiados danos colaterais.

E mais, quem está no topo da pirâmide é humano, semelhante aos que constituem a base. Olha para a base, para como a base se vê a si mesma. Para isso, passar no Vasco da Gama continua a ser uma experiência elucidativa."

"É. Pão e circo! O povo não se importa de ser cada vez mais escravizado. O que mais me irrita é que parece que ninguém se apercebe do que está a acontecer. Antes do 11 de Setembro, andava tudo doido. Saía à rua e perguntava-me "o que é que esta gente tem?" Tinha de acontecer algo, e aconteceu. Agora tudo parece mais calmo, embora quase ninguém note a diferença. Andam ocupados, coitaditos. Mas a tendência para virmos a acabar como personagens do 1984 não desapareceu."

"Mas achas que abrandou?"

"Não sei. Aí tens o efeito dos imponderáveis. Embora seja difícil não ser venenoso ao pensar até que ponto o ataque ao WTC terá sido ou não consentido, talvez esperado por quem necessitava dele, de um motivo para que as hordas se unissem outra vez porque o "inimigo" estava a ganhar — talvez — uma imagem demasiado simpática. Não sei se é a palavra certa, não deve ser. Bem, estou-me a cagar para a palavra certa.

"Seja como for, é tabu não ver o ataque ao WTC como um imponderável. E ajuda esta minha teoria vê-lo como tal, pelo que sim, foi. Aí tens um exemplo do seu poder. Bah... odeio teorias da conspiração. Fodido cair nisso."

Fomos conversando, mas também fui ficando mais lento. O barman, sepulcral, passava longos minutos sem se mover um centímetro. De vez em quando, destacava-se de entre o grupo de alemães algo parecido com uma voz que pedia mais qualquer coisa.

"Os políticos tornaram-se palhaços. O seu poder é real, mas sabem muito bem que não devem morder a mão que os alimenta. Pensa na União Soviética, em Cuba. O governo pensou que podia substituir os grandes senhores, aqueles que realmente fazem acontecer coisas.

Pensaram que podiam criar uma classe social hermética, protegida pela desinformação: desde que a consciência global permanecesse doente ao ponto de o povo se julgar imprescindível, o estatuto dos que ocupavam os lugares cimeiros estaria garantido.

Protegeram-se com toneladas de burocracia, propaganda, enfim, repressão. Os que estavam empoleirados na torre de marfim não souberam prever o seu próprio bem a longo prazo e acabaram. Agora são passado, e em casos como o velho Fidel, esse proletário que vive dos estranjas capitalistas que lhe compram charutos e temporadas na praia, autênticas piadas vivas.

Ah, que talvez o cinismo não leve nunca a situações sustentáveis, mas é preciso ser-se cínico para sobreviver. No fim, talvez sejamos como todas as outras espécies, naturalmente auto-destrutivos. Aparecemos, crescemos e depois morremos, e nada poderemos fazer contra isso porque é a nossa natureza."

"Podemos ir-nos reproduzindo. Olha os chineses."

"Ya, os chineses. Os chineses são todos fodidos."

E depois, muito Glenfiddich "Havana" depois:

"Olha o barulho que estes cabrões fazem. Mas são o motor da Europa. Inatacáveis, sempre, na sua seriedade. Depois, de vez em quando, tentam atacar os vizinhos. Serão alemães?"

"Ou suíços?"

"Os suíços ainda são piores que os alemães. Os suíços, os anal-retentivos"

E eu a ouvir. E a responder quase só com monossílabos. Desde que me conheço, quando estou todo fodido, só quero que me deixem em paz, eu e a carga que tiver em cima. Nada mais interessa muito.

"A net não é um bom modelo. É um oceano com dois centímetros de profundidade. É uma consequência — como tal, demasiado simples para funcionar como modelo da vida — suficientemente complexa para gerar confusão."

"A confusão é necessária."

"Mas tu achas bem que o monstro continue a crescer, a simplificar as pessoas?"

"Nunca disse isso."

"Passaste a noite a dizer que te sentias conformado!"

"E vais tu mudar o mundo? Ou alguém?"

O whiskybar não ficava aberto até de madrugada. Acabámos por ir para outro sítio.

E agora, remoer, escrevinhar.

A, M, N, L, T, R, dispensam apresentações. Não são bem personagens, nem figurantes: antes cenário, importantes quando estão presentes. Contudo, sem eles, a história seria outra, isto se ainda houvesse história ou alguém para a contar.

Chegamos, enfim, ao destino. M, bolo, C, R. R é fodido, sobretudo agora que o acidente o azedou. Já não as papa todas, só quase, e claro que não lhe chega. Mas continua a chamar e que diabo, não terei vindo para isso? No mais, ficar na cidade sozinho, onde não conhecia mais ninguém, ainda faria menos sentido.

No monte:

"Vocês ficam?"

"Ficamos."

Na solidão daquele enorme terraço empoleirado no cimo do monte, recordei A em silêncio. "Eu tenho calma", disse-me. "Demasiada."

Ocorreu-me essa estranha ideia de o corredor da morte ser talvez a mais perfeita representação da vida, pela própria. O condenado que aguarda sabe o seu destino. Pode lutar por um adiamento, pode consegui-lo ou não. As celas podem ser estritamente individuais, mas o condenado à morte tem companheiros de corredor, guardas, correspondência. Por todos os meios, é levado a sentir que não está só, embora lhe seja impossível não descortinar a realidade, uma solidão fantástica, que afinal é a de cada um de nós, todos os dias, apresentada a frio, concretamente, sem rodeios ou eufemismos.

É certo que o condenado à morte sabe a data programada para a execução. Um dia, o último adiamento é indeferido. Depois o tempo passa cada vez mais depressa. E não são poucos aqueles que chegam com a esperança de um milagre à hora de enfrentar o grande talvez.

Mas milagre para quê, porra? É tão mais fácil antever a morte, mesmo o suicídio, como uma sombra difusa que aguarda algures no futuro. E não há possibilidade de comutação de pena.

Delírios. Devaneios de bêbedo.

Seguimos sem esperar pelos outros.

"Ainda te lembras das coisas que dizíamos no princípio? Somos psiconautas. Fazemos isto para apagar. Apagamos momentos a tentar registar cópias aproximadas de momentos. Não vivemos, contamos vida, a nossa.

O que sentimos não são palavras, sons... não interessa o que sentimos. Não interessa o que pensamos ou pensamos ser. Pensamos apagar ser. Apagar, escrever. Apagar, reescrever."

Deixei-me cair no sofá. Não valia a pena esperar por uma resposta. Fizesse o que fizesse, tudo ficaria na mesma. A vida é uma velada imutavelmente feliz. Nascemos à espera. Já nessa altura sabemos que a ordenação é uma espada de dois gumes atravessada na garganta. Depois inventamos esperanças, vivemos distraídos e, antevendo a cerimónia, chamamos evolução ao grande nada de sonho que vemos no lugar dos outros.

Depois morremos. E é só isso, a vida. É triste registá-la.

Um restolhar de folhas e gritos de pássaros entrou frio pela janela nas minhas costas. Ouvi um cigarro que se acendia. Depois, uma voz pura, neutra, branca, insípida de alabastro polido... a voz daquele busto de Schubert com que às vezes falava na Parvónia,

"São coisas da vida. Agora estamos bem.

Estamos bem, não pensamos.

Devia ser sempre assim, não achas?

Jorge?"

E assim, enquanto os meus pais me julgavam adormecido em Coimbra, após mais um dia de aulas, o meu cérebro explodia em bolas de neve luminescente, lá em baixo, naquela casa sobre as colinas, junto ao mar.

5/9 - 4/10/2004



Epílogo, sort of:

Não falei mais com M. L e A desapareceram. Diziam que L se tinha suicidado. As coisas que me prendiam à terra natal, aqui tantas vezes Parvónia, foram decaindo e morrendo. O meu gato, nunca cheguei a arranjar engenho suficiente para falar sobre ele como deve ser. O Barrocal, dinamitado para ampliarem uma circular. E R e todos os outros. Deixei de ter bons motivos para lá voltar. A casa paterna, hábito que se cumpre, pontualmente. Tornei-me trabalhador e caseirinho. Deixei de ligar à noite. Apaguei o blogue antigo. Amansei. Se hoje em dia me virem na rua, é possível que não esteja ganzado. Fiquei com a S. Continuei a jogar xadrez, online.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

SantoWines — Assyrtiko '2014

O meu primeiro vinho grego, um Assyrtiko de Santorini! Sobejamente conhecida como destino de sonho para aqueles que gostam de praia e ao mesmo tempo são capazes de tolerar gregos, é a maior ilha do arquipélago com o mesmo nome, localizado no extremo sul das Cíclades, no mar Egeu, uns 200Km a sudeste de Atenas: o remanescente da ilha original, após a chamada erupção minoica, uma das maiores explosões vulcânicas de que há registo — há quem suspeite ser a origem verdadeira das histórias sobre a Atlântida, adivinhem lá porquê.

Geograficamente, domina o conjunto uma grande lagoa, vagamente rectangular, com 400m de profundidade, a caldeira do vulcão, onde actualmente ancoram grandes navios de recreio, rodeada em três dos seus lados por penhascos íngremes e separada do mar no quarto por uma outra ilha, menor, chamada Terásia. Os solos de lava, xisto e pedra-pomes são pobres em humidade e matéria orgânica, de tal forma que as cepas, muitas delas plantadas em pé franco, conduzidas pelo método Koulara, que consiste em enrolá-las em círculos contínuos, como que em formato de cesta, de modo a protegê-las tanto quanto possível do sol intenso e dos ventos fortes da região, subsistem durante o Verão graças ao orvalho que resulta das neblinas matinais. E podem durar muitos anos.

Conforme a receita tradicional, o produtor engarrafou este vinho sem passagem por madeira. Aberto e bebido assim que retirado da porta do frigorífico, trouxe consigo notas de sumo e raspa de limão, algumas delas bem amarelas, meladas, e talvez tremoço, também. Com jeitinho, sal. Possuidor de algum corpo e untuosidade — o teor alcoólico é de 13,5% — persiste bem. Mas a acidez, que esperava assertiva, só funcionou realmente enquanto bebido frio. Aliás, quando lhe recusei um balde de gelo, ele retribuiu com um fundinho adocicado, persistente, de que não gostei. Com uma receita simples de camarão, dominou. Com queijo de cabra não tão curado assim, bebeu-se. Acredito que não seja um exemplar destacado do que se faz por lá, mas deu para ter uma ideia, e é interessante.

5€

15

domingo, 1 de novembro de 2015

Filmes (64)




Desta vez, nem o filme é de terror nem se contou entre aqueles que efectivamente vi na noite de 31 para 1, e que foram bem fracos.