quinta-feira, 31 de dezembro de 2015







terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Castelo de Azurara — Aragonez '2012

Este varietal Aragonês, também estagiado durante meio ano em madeira americana, mostrou-se o mais frutado e também o mais limpo e bem definido — o melhor dos três "Azurara" que bebi na semana passada.

É um vinho de dimensões medianas, fragrante sem ser super concentrado e possuidor de um fim de boca longo q.b., que trouxe consigo, de facto, as reminiscências de nozes que a ficha técnica prometia e eu tanto gosto de encontrar nos tintos secos. Tal como o do post anterior, deixa um pouco a ideia de ter sido feito a régua e esquadro, mas a suculência que evidenciou perdoaria muitas falhas, caso as tivesse.

Acompanhou uma feijoada vegan, onde os enchidos da praxe e/ou demais partes "vis" do porco teriam encaixado na perfeição, caso tal se tivesse proporcionado. Levou uma lata grande (800g) de feijão vermelho, cozido, 190g de tomate frito, também já preparado, duas cenouras, meia cebola, meio pimento vermelho, quatro dentes de alho e meia couve coração, de dimensões regulares, com a certeza de que também teria ficado bem com outras espécies.

A cebola refogou em meia colher, de sopa, de azeite, tendo-se-lhe juntado, por esta ordem, a cenoura, cortada em rodelas, o tomate frito, meia colher, de chá, de cominhos, e outra meia de paprika, depois o alho, sal e, por fim, o feijão, escorrido, bem como, eventualmente, um pouco de água. Por fim, após ter cozinhado um pouco, a couve e o pimento, em tiras finas.

5€.

16,5

domingo, 27 de dezembro de 2015

Castelo de Azurara — Touriga Nacional '2012

Em visita a um supermercado da região, encontrei três tintos diferentes da marca "Castelo de Azurara", produzidos e engarrafados pela Adega Cooperativa de Mangualde, e que aludem ao castelo que, nos tempos da Reconquista cristã das terras perdidas para os invasores árabes, durante a invasão muçulmana da península Ibérica, se situava no topo do monte onde actualmente assenta a ermida de Nossa Senhora do Castelo, entre a actual cidade de Mangualde e Quintela de Azurara.

A título de curiosidade, há quem defenda que esse castelo, "feito de pedra miúda, unida com cal e areia", conforme apontamento do vigário da freguesia de Mangualde, José Rebelo de Mesquita, em 1757, foi mandado erigir pelo mouro Zurara, do qual tomou o nome o concelho de Azurara, e mais tarde conquistado por Fernando I, Rei de Leão, em 1058. Outros atribuem-lhe origem anterior à da invasão islâmica, ou seja, visigótica, e consta existirem indícios de que, quando Fernando Magno tomou Seia, Lamego, Viseu e Coimbra, já o castelo de Mangualde estaria na posse dos cristãos há algum tempo.

Dos vinhos, o primeiro a ser consumido foi o monocasta Touriga Nacional de que cuida o presente post, cujo contra-rótulo indica a origem em vinhas com média de idades de 17 anos e estágio de 6 meses em barricas de carvalho americano. Está, acima de tudo, um tinto fino, polido. Apresenta aromas francos, muito característicos da casta e proveniência: o perfume terroso das violetas, frutos silvestres, negros, maduros, e ligeiríssimo tostado — marcas evidentes de madeira americana, nova, felizmente, não encontrei. Enfim, um "textbook touriga", de volume e densidade assim-assim.

5€.

15,5

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não gosto do dia de Natal. Olho para trás, até onde me lembro, e constato que, provavelmente, nunca gostei. Em criança, pequenino, havia o abrir dos presentes, com o mano, junto à árvore, de manhãzinha, ainda antes de os nossos pais acordarem. Depois, o dia em família, por vezes numerosa, que aparecia para almoçar ou lanchar. Comia-se, falava-se, viam-se uns filmes. Os adultos comentavam-se e às coisas deles, entre as quais nós, miúdos, também nos contávamos. Comparavam-se os rebentos e as respectivas virtudes, éramos todos promissores.

Ora, mesmo aos dez ou doze anos, não obstante aquilo que me tentavam incutir, provavelmente para que viesse a ter mais hipóteses de me tornar um adulto socialmente viável, já eu me recusava, por princípio, a "fazer a parte", de tal forma que, quando algo me parecia incorrecto, ou simplesmente palerma, não tinha qualquer problema em dizê-lo. Posto isto, acaba por ser natural que poucas fossem as datas festivas a não terminar em lágrimas. E os meus dias de Natal, aparte algumas ofertas, eram tão cansativos...

Cresci e comecei a ter os meus próprios conhecidos: meninos de fora, por assim dizer. Ainda vinha família, às vezes, mas já nao éramos dez a ver o "Sozinho em Casa" ou o "Beethoven" à volta da grande TV da sala de jantar. E se aí já tinha refinado as artes da hipocrisia, de tal forma que encarava com maior naturalidade o esforço necessário ao cumprimento das expectativas mínimas daqueles com quem mais directamente privava, eram outros, ou outras, que amargavam, não por serem chatos, mas por não estarem.

Eventualmente, o dia de Natal passou a ser sinónimo de um almoço de peru ou cabrito assado, apenas com pais e irmão; gambiarras, presépios e demais parafernália reduzidos ao mínimo, e depois a nada; as prendas convertidas em dinheiro, que não era surpresa, mas poupava o Pai Natal às minhas excentricidades.

E agora que sou velho e tenho guardada na memória do telemóvel uma lista de familiares, conhecidos fixes e outros mais ou menos, junto com contactos, por assim dizer, funcionais, não deixo de reparar naquilo que os conhecidos, digo, os fixes e os mais ou menos, não me dizem pelo Natal, continuando, também, sem lhes dizer nada, não obstante ter bem presente que podia tomar a iniciativa e o apontamento da S a reforçar que devia enviar uma mensagem de boas festas a X, Y e Z.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

La Réserve d'O '2012

Este tinto de Arboras, comuna do departamento de Hérault, no Languedoc-Roussillon, inserida na DO Terrasses du Larzac, foi feito por Fredéric e Marie Chauffray, que introduz o projecto assim:

"En 2004, je découvre un vignoble unique et original situé à 400 m d'altitude surplombant la Vallée de l'Hérault en Appellation Terrasses du Larzac. C'est un véritable coup de foudre, je vais enfin pouvoir produire mon vin! Avec Frédéric, mon conjoint, nous créons le domaine de La Réserve d'O. Les 10ha prennent racines dans un terroir de cailloutis calcaires, très pauvre et balayé quotidiennement par les vents du Nord. Notre travail en agriculture biologique et en biodynamie (ECOCERT et DEMETER) permet de développer la biodiversité et de trouver un réel équilibre entre la plante et son environnement. La vigne nous offre alors de magnifiques raisins, et le terroir s'exprime pleinement dans des vins élégants, racés et non uniformisés."

É composto por 45% de Grenache, 45% de Syrah e 10% de Cinsault, de cepas com mais de 30 anos. O mosto fermentou em inox e o vinho resultante estagiou, dois anos, em depósito de cimento.

Verti meia garrafa para dentro de um decantador e deixei-o respirar quase duas horas. Francamente generoso, trouxe consigo groselha e pimenta, negras, mato seco, tabaco e um toque vagamente almiscarado, animal. Escuro, rico, texturado, apesar de algum nervosismo, deixou-se beber muito bem. Talvez auxiliado pelo meu estado de espírito na altura, foi um vinho que só evocou coisas boas. Fora ele mais fino!

Ao segundo dia, continuou forte, alegre, cheio de si. Menos complexo que quando aberto, mas, ainda assim, repleto de fruta fresca e doce, agora com toque lácteo e de sangue, seguido de chocolate branco, mais no final.

14€.

17

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015





sábado, 19 de dezembro de 2015

Tulga — Crianza '2009

O dia decorreu dentro da normalidade: acordei à hora habitual, mudei a água e atestei a tigela dos biscoitos do gato, empurrei o pãozinho com fiambre do pequeno-almoço com uma generosa almoçadeira de Darjeeling. Depois, banho, quinze minutos de rua e umas horas de trabalho, sem incidentes.

Mais tarde, a volta habitual até ao bosque, convém ir cedo porque a maior parte do percurso a pé não possui iluminação artificial. Por fim, casa e as coisas de casa, porco e vinho tinto ao jantar. Para mim, que ela tornou-se vegan.

O vinho do dia, este, foi produzido na adega que o gigante espanhol Pagos del Rey possui em Morales de Toro, Zamora, onde antes operou a cooperativa vitivinícola Nuestra Señora de las Viñas, a maior da região no seu tempo, e que, consta, representa actualmente 36% da produção total de vinho da denominação de origem.

De ataque firme e permanência breve, pautado pelo álcool, trouxe consigo amora e cereja, negrume e calor. Em segundo plano, uma amálgama de tostados e baunilha, cremosa, a denunciar basto contacto com carvalho americano. Sem ser forte, mostrou um pouco de grão, na boca.

Como deixei de acreditar no conceito de vinho "bom para o preço" — um vinho ou sabe bem ou não sabe, de tal forma que ou vale a pena ou não, independentemente do preço — concluirei dizendo que, enfim, se bebeu.

4€.

14,5

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015





terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Foral de Évora '2011

Alentejano de Évora, produzido pela Fundação Eugénio de Almeida, na Adega Cartuxa, este tinto, lote de Trincadeira, Alicante Bouschet e Aragonês, traz no contra-rótulo a indicação de ter sido vinificado em cuba de aço inox, com maceração prolongada, seguida de estágio de "cerca de 12 meses" em barricas, novas, de carvalho francês.

Depois de meia hora de arejamento, pareceu-me predominar fruta, silvestre, madura, ligeira compota misturada, e vegetal seco, este muito alentejano, a fazer lembrar rama de tomateiro e casca de árvore. A barrica, bem medida e ainda melhor integrada, trouxe tostados e baunilha. Presença de razoável persistência, de corpo e concentração medianos, surpreendeu que tivesse 14,5% de álcool, dado aparentar menos.

Em Outubro de 2010, deixei aqui as minhas impressões a respeito do seu antecessor da colheita de 2007 e a ideia mantém-se: não obstante apenas ser produzido desde 2000, este vinho tem pinta de clássico. Um clássico de gama média, mais coeso que complexo, obviamente talhado para acompanhar comida, talvez um pouco perdido num mundo de novidades, onde não param de surgir referências interessantíssimas.

Para terminar, foi interessante que se tenha dado tão bem com a sopa, uma espécie de caldo verde "reinventado": inicialmente creme de alho francês, que depois de superar, a solo, as expectativas, levou couve britada.

8€.

16

sábado, 12 de dezembro de 2015







Da manhã ao princípio da tarde: restos de boletins de apostas, maços de tabaco amarrotados e preservativos usados numa mancha de arvoredo perto de Soito; chuva miudinha e muito vento, frio, nas ruínas do Sabugal Velho; uma cruz à beira do caminho, algures no Campo de Azaba: "?? una mano alevosa hizo una muerte cruel, te pide alma piadosa que pidas a Dios por el (...) murió el año 1749".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quinta das Maias '2012 (Branco)

Bebido fresquinho, mostrou mais flores que frutos tropicais, mas ambos estavam presentes. Ligeiro em peso e volume, de acidez suave e toque arredondado, não sendo branco de guarda, pelo que já terá vivido dias de maior firmeza e definição, ainda suportou, e bem, o nian gao que lhe fez companhia.

A propriedade que lhe dá o nome está situada nas faldas da Serra da Estrela, a uns 600m de altitude, mais concretamente, entre as localidades de Nabais e S. Paio de Gouveia, sendo as uvas vinificadas na adega da Quinta dos Roques, que também pertence ao produtor. Compõem o lote 50% de Malvasia Fina, junto com Verdelho, Encruzado e Cercial; foi engarrafado sem passar por madeira.

Faz tempo que o suspeitava, mas acho que hoje confirmei que, por oposição a bebê-los, que nunca cansa, não gosto muito de escrever sobre vinhos, sobretudo quando, por preguiça ou outro motivo qualquer, não descubro coisas interessantes sobre eles e com pouco mais fico com que partilhar para além do desfile organoléptico da prova.

No entanto, continuo a vir aqui com gosto, mesmo quando é para pôr os vinhos. Ora, se o blog passasse a conter apenas as outras coisas, porque não ter antes um Tumblr fixe, com música, filmes, gajas e um link para o 4chan? Mas até um Tumblr desses poderia beneficiar do ocasional apontamento dedicado à "drink of the day", e aí, provavelmente, continuaria a ser preferível um blog, como isto que temos. Assim vou ficando; até à próxima!

5€.

16

domingo, 6 de dezembro de 2015

Filmes (65)




É um filme espanhol, low budget, de ficção científica, sobre viagens no tempo, passado no campo. Face a estas premissas, esperei, sinceramente, que fosse uma merda — mas, pelo contrário, resultou montes de fixe: entretém, dá que pensar e passa num instante. Muito bem!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cistus — Reserva '2011

No Douro, o Inverno de 2010/11 foi chuvoso e a Primavera que se lhe seguiu, quente e seca. O Verão, mais fresco que o habitual, Setembro incluído, e não houve chuva de relevo antes da vindima. Um grande ano vitícola, dos melhores deste novo século.

Vinificado na Quinta do Reboredo, em Torre de Moncorvo, este tinto consiste num lote composto por 42% de Tinta Roriz, 38% de Touriga Nacional e 20% de Touriga Franca, de várias parcelas situadas nas encostas do rio Sabor, com uma média de idades de 24 anos. Abri a garrafa nº 8945 de 26718 produzidas, enviada para prova pelo produtor, a Quinta do Vale da Perdiz, que tem presença na internet.

Servi-o logo depois de aberto, num copo, por assim dizer, de jeito bordalês. Não sendo retinto, apresentou cor bem carregada, escura, consentânea com as lágrimas deixadas no rebordo do copo. Quis parecer-me estar muito primário, com montes de frutos negros "in your face" logo no ataque e um brilho de juventude, uma certa explosividade que se apôs muito bem ao carácter mais redondinho que mostrou na boca.

Ademais, aromaticamente, apanhei-lhe mato seco, com tomilho e esteva, algum tipo de licor, talvez de cereja, e um travo reminiscente de coco, resultado mais que provável dos 14 meses que passou em barricas, metade das quais, americanas, antes de ser engarrafado. Apesar do recorte moderno, nem por um momento levantou qualquer dúvida relativamente à sua origem: todo ele, não podia ser mais Douro — ou quase.

Portou-se coforme esperado face a coisas simples: churrasco de frango, salsicha e entrecosto, junto com pãozinho de Rio Maior. Mas foi quando combinado com um dos bolos de chocolate mais simples do mundo que superou as expectativas.

PVP recomendado, 9,99€.

16,5

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Espécie de:
fragmento apócrifo
— do livro de Génesis


Deus, quando criou o Tempo, cortou-o, com uma lâmina muito afiada, — em duas metades.

A uma das metades, chamou Passado; à outra, chamou Futuro.

Depois, viu que à primeira metade se podia também chamar Saudade; e à segunda, Esperança.

E viu também que ambas elas, Saudade e Esperança, eram dois caminhos bons: duas maneiras, digamos: muito viáveis — de os homens caminharem ao encontro de Ele Deus.

*

Mas também viu que faltava ainda alguma coisa.

*

Será que Deus, aqui, Se lembrou que o seu "Tempo" (entre aspas); a sua Divina Eternidade, se chama — Eterno Presente?

O certo é que Deus põe-Se a olhar, pensativo, para a linha sem espessura em que o seu golpe de lâmina muito afiada separara o Passado e o Futuro.

Ora vai senão quando, Deus quis dar, a essa linha sem espessura, (portanto inexistente, portanto ausente!) — o nome de: — Presente.

E ora vai também senão quando:

Mal Deus a nomeou, a baptizou Presente, produziu-se o milagre da linha sem espessura — de súbito ganhar finíssima espessura ... espessura finíssima ... Simbólica, talvez, na sua fininha pequenez ... Simbólica, decerto na milagrosa finura da sua espessura... E porventura, quem sabe? quase mais do que simbólica!; Quase um pouco como participante!: qualitativamente-micro-participante — da outra Espessura Infinita — do Infinito de Espessura — do Eterno Presente, — do Presente Eterno, — do Eterno, Eterno, três vezes Eterno Deus.



Vicente Sanches,
Pós-Escrito em dois aforismos (teatrais) — precedido, sempre e obrigatoriamente pelo Escrito: Doze Aforismos (teatrais).