segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Terre di Talamo — Tempo Riserva '2006

Morellino di Scansano é um tipo de tinto seco proveniente das colinas costeiras do sul da Toscana, que circundam a localidade de Scansano, na província de Grosseto. As regras da D.O. estipulam que pelo menos 85% do vinho seja composto por Morellino, outro nome para Sangiovese, sendo permitidas no resto do lote uma série de castas tintas, como Canaiolo, Ciliegiolo, Malvasia, Colorino, Alicante, Merlot, Cabernet, Syrah e outras. Não existe período mínimo de estágio obrigatório, podendo o vinho ser engarrafado e distribuído logo no mês de Março a seguir à colheita.

No exemplar de que cuida o post, aos 85% de Sangiovese, juntaram-se 10% de Alicante e 5% de Cabernet Sauvignon, provenientes de vinhas novas, com aproximadamente dez anos de idade à data da colheita, implantadas em terrenos pedregosos, com boa dose de argila castanha à mistura, situados uns 100m acima do nível do mar. As uvas foram vindimadas na primeira quinzena de Setembro, fermentaram, com maceração, durante 18 dias e o vinho daí resultante estagiou durante seis meses em barrica, antes de engarrafado. O produtor existe na net.

A cor pareceu-me conforme com a casta dominante, salmonada, de concentração mediana, a acastanhar. No nariz, cereja amarga, terra seca, resinas de travo adocicado, como sangue de pinheiro quando começa a apodrecer, madeira velha, pele . . . no todo, a fazer lembrar um Pinot Noir de clima temperado, com alguma complexidade. Sóbrio, apresenta certa luridez elegante, todo ele muito bem ligado, mau grado o ponto ligeiramente tânico que ainda se lhe evidencia no fim de boca. E perdura.

Ao almoço, se assim lhe pudermos chamar, acompanhou perfeitamente um bom queijo "à cabreira", da Soalheira, produzido por Marco A. Pereira, pão escuro, tipo prokorn, salsichão ibérico, de Salamanca, deste, e salada de alface, tomate e abacate. Ao jantar, face a coisas mais substanciais, peito de pato acabado no forno, com cheróvia, um salteado de cebola e cogumelos eringi, e arroz de grelos, confirmou as impressões do almoço. Acho que as horas de exposição ao ar dentro da garrafa o libertaram um bocado, que cresceu qualquer coisa, mas quem sabe se não foi impressão minha.

Aparenta estar no ponto, ou seja, duvido que melhore com mais tempo em garrafa, mas também não surpreenderá caso retenha o seu interesse nos próximos dois ou três anos. Aí, será mais questão de gosto. Tendo em conta que é italiano, apresenta uma RQP brutal :)

15€.

17

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O Problema dos "Sensitivos"

Fontes fiáveis de discernimento no diagnóstico de um determinado caso são uma grande ajuda para o exorcista, uma vez que lhe reduzem a dependência do seu próprio juízo. No entanto, qualquer imprudência cometida pelo exorcista será utilizada por Satanás contra ele ou contra o possuído. Alguns afirmam que são capazes de entender com bastante certeza o carácter de uma pessoa ou a história de um determinado lugar, da mesma maneira como olham para um ecrã de televisão. Outros afirmam a mesma certeza de diagnóstico com base na faculdade, que dizem ter, de interpretar os movimentos do pêndulo, a disposição do óleo despejado na água, etc. Está muito difundida a opinião segundo a qual o valor destes supostos dons deve ser considerado da mesma forma que os critérios recomendados pelo Ritual de 1614. Mas como é que se pode ter a certeza que esses dons provêm de Deus, ou da nossa natureza humana, ou dos anjos, ou dos demónios?

Casos análogos referentes aos videntes e às aparições podem ajudar-nos a discernir se tais dons provêm de Deus. No discernimento das "aparições" pode ajudar perguntar ao vidente de que modo ele estabelece uma relação com Jesus, ou com Nossa Senhora, antes, durante e depois da aparição; isto com o objectivo de verificar se o "vidente" se torna mais consciente da necessidade de adorar ainda mais Jesus. A veneração é a humildade na acção, é qualquer coisa que não pode vir nem de Satanás nem de nós mesmos. Mas também se não se crescer na veneração por Jesus, isto não quer dizer que as aparições ou os dons provenham necessariamente de Satanás, uma vez que podem provir dos anjos ou da nossa natureza humana.

É certo que os anjos podem ajudar-nos a verificar a presença do Demónio de muitas maneiras. Mas não creio que os anjos usassem métodos que os demónios pudessem facilmente imitar para nosso dano. Isto significa que estes dons (pêndulo, óleo...) provêm ou dos demónios ou da natureza humana. A nossa natureza humana apresenta uma grande riqueza interior, que é inexplicável. Por exemplo, é comum os gémeos saberem onde se encontra o outro, em que é que está a pensar, etc. Muitas vezes as mães intuem o que está a acontecer aos filhos, sobretudo se lhes acontece alguma coisa de preocupante. Tais capacidades podem ser naturais; mas depois do pecado original, os homens são mais facilmente tocados por aquilo que é material do que por aquilo que é espiritual na nossa natureza; são por isso menos propensos a desenvolver as suas capacidades nesta direcção. Mas vejamos, por exemplo, como o Cura d’Ars era competente no plano espiritual. É claro que nem todos se podem atribuir a mesma santidade. Mas o uso destas capacidades é de evitar, pelo menos no diagnóstico de indivíduos possessos.

Se um exorcista se torna imprudente, provavelmente não se limitará a utilizar estes fenómenos extraordinários. Poderá também atribuir uma excessiva importância aos seus próprios poderes de investigação. Por exemplo, o Maligno gostaria muito que um exorcista atribuísse determinadas acções a determinados demónios, para que o exorcista ficasse a saber os nomes dos diabos com base nas acções reconhecidas em cada caso específico. Depois, se o exorcista tenta expulsar o Diabo enganando-se no nome, o que fará o Diabo senão permanecer, fingindo ter saído? É importante notar que, entre os anjos rebeldes, não há democracia, mas uma hierarquia rígida. Eles agem e falam segundo a vontade do seu chefe; este é o motivo pelo qual muitos diabos simples dizem o seu nome. De outra forma agiriam e falariam em função das circunstâncias e das exigências, quer da própria pessoa que atormentam, quer do próprio exorcista.

Pe. Gabriele Amorth & Marco Tosatti — Memórias de um Exorcista; Ed. Asa, 2011.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quanta Terra — Grande Reserva '2008

Foi sujeito a dupla decantação, um bocado antes de beber. Logo depois de servido, mostrou a fruta a transformar-se do vinho que adquiriu idade; também começos de pele e nozes râncidas.

Ainda fresco, evidenciou um volume bem razoável, que diria "médio+" se não abominasse a expressão, e boa persistência. A percepção global deixada foi de macieza, apesar de os muitos taninos presentes se mostrarem, indo à procura deles.

Meia hora depois de aberto, começou a libertar-se dos aromas a garrafa, esbateram-se-lhe os traços de vinho velho e revelou basta dose de frutos vermelhos, morangos e framboesas muito maduros, junto com banana seca. Apontamento singular: banana seca, será possível? Ou então algum tipo de batido de banana e baunilha, e aí o factor barrica poderá tornar as coisas mais plausíveis, quem sabe. Um conjunto engraçado.

Em contraponto — contraponto mais como na arte de combinar duas linhas musicais em simultâneo que no elemento que estabelece contraste — na boca continuava sério. Isto é: não austero, não seco, mas menos jovial ainda. Sério. Não encontrei maneira satisfatória de dizer de outra forma.

A meia garrafa que pernoitou na porta do frigorífico, com a rolha virada ao contrário, para o jantar do dia seguinte, voltou a destacar boa intensidade e frescura, muito interessantes face ao corpo evidenciado, apenas médio/médio+, desta vez sem aspas nem parêntesis, assumidíssimo.

De novo, mau grado o factor "desviante" de originalidade, tudo bem ligado. E por estar assim macio e maduro, com tiques de vinho velho logo depois de aberto, a quem o arejamento limpou mas não desenvolveu por aí além, aparenta estar em pleno plateau, adiante mais um par de anos, antes do limiar da curva descendente.

Se assim for, a beber agora, para se recordar bonito. Em jeito de curiosidade, quando, em 2009, provei este seu antecessor da colheita de 2005, fiquei com a ideia de que precisava de tempo. Será, então, vinho para dez anos, mas não mais?

Basta o facto, indisputado, de cada colheita ser uma colheita, para mandar o parágrafo supra à merda. Porém, muitas vezes, as tendências são mais simples / previsíveis do que aquilo que parecem / queríamos que fossem.

Produzido por Quanta Terra — Soc. de Vinhos, Lda., de Alijó, com uvas Touriga Nacional (60%), Touriga Franca (23%), Tinta Barroca (11%) e Sousão, estagiou durante um ano em barricas usadas de carvalho francês, tendo sido engarrafado em Dezembro de 2010.

18€.

17

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Filmes (67)




Foi um daqueles terrorzitos europeus do princípio dos anos 2000 que, por uns tempos, me fizeram pensar que o género estava a voltar em força. É um filme entretido, mais para ver que para pensar, mas não creio que seja acéfalo. As coisas que acontecem e os lugares onde acontecem têm aquele "beat" que sempre senti característico da França "não urbana", sobretudo do sul — gosto disso.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Titular — Encruzado '2011

Este varietal Encruzado foi feito por António Narciso, o enólogo, com uvas da Quinta da Teixuga, de Vilar Seco, Nelas. O contra-rótulo di-lo "fermentado em inox e depois em barrica por 5 meses". Como habitualmente, deixo aqui aos eventuais interessados o elo para o sítio do produtor na internet.

Foi bebido após um dia complicado, daqueles cheios de coisas do mundo que têm mesmo de ser feitas. Por isso não tomei grandes notas a seu respeito, mas reparei que a par daquela coisa indefinida que tantas vezes leva o rótulo de "mineral", mais por não se conseguir relacionar facilmente com algo em concreto que por fazer, de facto, lembrar algum tipo de terra ou pedra, tinha flores e barrica, esta mais abaunilhada que tostada, tudo como que a emanar de um núcleo essencialmente cítrico, com certo verdume, a evocar lima, toranja e outros que tais.

Na boca, encontrei-o macio, razoavelmente encorpado e prolongado, com a boa integração dos diversos elementos que se lhe podem entender como constituintes a transmitir uma impressão de "suavidade" talvez enganadora, dado que não é, de todo, um vinho de coisas pequenas.

Sem massa, momento ou magia que cheguem para emocionar, não deixa de ser um branco porreiro, sóbrio e de boa intensidade, muito amigo da mesa. Surpreendeu a frescura, que apesar de ainda bem suficiente, esteve longe do reflexo da acidez vincada que praticamente todos os que escreveram algo sobre ele fizeram questão de referir e que, por conseguinte, esperava encontrar. Vai para cinco anos...

Tal como o vinho do post anterior, acredito que seja boa ideia abatê-lo nestes tempos mais próximos, só que desta vez não para gozar o viço de uma maturidade precoce, antes por se ter mostrado já completamente maduro, podendo não faltar muito para que comece a decair. E se cada garrafa é uma garrafa, tanto mais com o passar do tempo, um adivinho é um adivinho, e eu, que não sou garrafa nem adivinho mas julgo ter mais da primeira que do segundo, acho melhor não arriscar.

8 €.

16

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Dois romanos discutem um caso jurídico

Tudo aquilo me pareceu estranho. O próprio Pôncio, por diversas vezes, me confessou que se sentira manipulado, embora não possuísse provas de qualquer conspiração. Um crime perfeito!
— Mas, pelo que me dizes, o criminoso foi a própria vítima!
— Sim. Mas vê os factos: o juiz não podia decidir de outro modo. Ele fez a pergunta que poderia ter ilibado o réu — e este condenou-se ao dar a resposta errada ou, pelo menos, ambígua. Não houve as formalidades habituais de um julgamento: as longas discussões, os apelos à clemência, o recurso a um júri isento.
— Como?
— Sim: vê bem. Naquele caso, o júri foi a multidão que optou por ele, libertando um outro, esse sim, criminoso confesso. Ora a multidão, como se viu depois, estava infiltrada por amigos dele — não o tinham recebido dias antes de forma triunfal? O comportamento unânime, ao condená-lo, soou-me a algo de combinado. Havia uma forte cumplicidade naquele ambiente, uma pressão para que a decisão fosse tomada com rapidez.
— Não vejo bem porquê.
— Verás! O eclipse estava anunciado para as três da tarde. O processo termina tão abruptamente como começara, com a sentença da multidão. Imediatamente arrastam o homem pelas ruas, quase o empurram, ao longo de uma distância infindável, para que ele chegue ao local do suplício antes daquela hora. A agonia é prolongada (ele estava quase moribundo quando o levaram, dada a debilidade em que se encontrava no dia do julgamento) com o recurso ao vinagre, que é um forte estimulante. Inesperadamente, perto das três, um centurião (comprado, soube-se depois) dá-lhe o golpe de misericórdia.
— Dizes-me então que a vítima se comportou ao contrário do que é habitual. Que ele dominou desde sempre a situação, marcando quer os tempos do acontecimento, quer os seus participantes? Parece que me falas de um jogo, embora estivesse em causa uma vida humana, em que as peças se moviam em função de um resultado futuro, não vejo qual.
— Começas a compreender. Hoje, tudo me parece absurdo, a começar pelo roubo do cadáver. Nem sequer com essa peça de veneração eles ficaram! Nos dias seguintes, todos os seguidores dele se eclipsaram, como por encanto. Ainda há dias ouvi falar de um, que foi visto nalgumas cidades helénicas. Mas aparentemente é como se todas as paixões daqueles dias se tivessem dissipado no instante do eclipse.
— Bom, não falemos mais disso. Há, contudo, um pormenor que me intriga: se eles sabiam a hora do eclipse, porque é que não adiaram a sentença? Teria sido possível lançar o sol na mesa como um dado susceptível de fazer virar a sorte do jogo. Ele poderia dizer: "Vede o sinal que o pai vos envia para indicar a fronte do Justo". Por que o não terá feito?
— Receio bem que o problema fique sem solução. Casos destes, dada a obscuridade das circunstâncias e a sordidez da gente, melhor é que fiquem assim, perdidos como grãos de areia no deserto dos tempos.

John C. Blood (1867-1914) nasceu e viveu em Londres (...) e passou os últimos anos da sua vida numa semi reclusão de que só saiu para tentar alistar-se no corpo expedicionário britânico que interveio na Primeira Guerra Mundial, tendo caído numa das primeiras vagas de assalto contra a infantaria alemã juntamente com um curso inteiro de Oxford, que constituía o seu batalhão. In "O Eterno Retorno e Outras Histórias", Black Sun Editores, 1994.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Assobio '2013

O aroma é limpo e nítido no carácter do Douro. Predominam os frutos silvestres, mais vermelhos que pretos, a que se juntam apontamentos químicos/florais, completados por notas de tosta e especiarias, provável contributo dos 30% do lote que estagiaram em barricas de segundo ano.

O paladar é macio, de intensidade e persistências medianas, com toque especiado. Apesar de pender para a ligeireza, todo ele apresenta uma coesão muito satisfatória, óptimo exemplo da chamada early maturity.

Penso que tenha sido boa ideia abri-lo agora: sem querer sugerir que não se vá beber bem em 2018, pareceu-me que, provavelmente, não valerá a pena aguardar a sua plena maturidade, em detrimento desta fase, por assim dizer, mais viçosa.

Este tinto tem vindo a ser produzido na Quinta dos Murças, propriedade que se extende por mais de 3Km, ao longo da margem direita do Douro, perto da aldeia de Covelinhas, no concelho de Peso da Régua, desde que esta foi adquirida pelo grupo Esporão, em 2008. Levou Tinta Roriz, Touriga Franca e Touriga Nacional, de cepas com uns 20 anos.

Diz no contra-rótulo que "O Douro é a mais antiga região D.O.C. do mundo (est. 1756). A construção da barragem de Foz Tua irá destruir irremediavelmente o Vale do Tua, que integra este património mundial classificado pela UNESCO. A Plataforma Salvar o Tua [link], de que fazemos parte, tem por missão, proteger e valorizar este património e impedir a construção desta barragem".

Não obstante a muita tinta que o assunto tem feito correr, as obras vão avançando e a EDP prevê que a infraestrutura entre em funcionamento no próximo mês de Setembro. Na minha humilde opinião, que vale o que vale, é uma pena e uma vergonha. Mas, lucidamente, que havia de se esperar?

Abatido em dia de semana, acompanhou chouriço assado, pão de centeio e uma sopa que a S agora faz com feijão e legumes no forno.

7€.

16

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016





terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Casa da Passarela — Abanico, Reserva '2011

50% Touriga Nacional, completada com Alfrocheiro e Jaen. Após vinificação em cubas de cimento, com macerações pré e pós-fermentativa, parte do lote final estagiou, durante um ano, em barricas de 225 litros, novas, de carvalho francês.

A pequena estória que aparece no contra-rótulo (e no sítio do produtor na internet) é engraçada: "Conta-se que um dia um escultor ficou com o olhar preso num conhecido fenómeno da natureza: um pavão exibia o seu manto majestático de penas, só para chamar a atenção da fémea e saciar as suas vontades proibidas. O espectáculo fora de tal forma esplêndido, que dois dias mais tarde tinha já o artista esculpido uma peça baseada no que tinha visto. Deu-lhe o nome de leque. E para poder sobreviver, deu-lhe também uma utilidade simples. E os leques foram-se reproduzindo pelas modas, pelas gentes, pelos palácios, pelas óperas e pelas épocas, como um adereço imprescindível. Mas o mundo haveria sempre de usar o leque para expulsar o calor, nunca para o deter dentro de si. O mundo, excepto uma mulher: Teresa. Teresa sempre fora uma rapariga tímida e reservada, mas aos 21 anos recebeu um presente secreto, uma carta e um leque de um admirador, um nobre que vivia em Sevilha. Na carta, concedia-lhe o absoluto e em troca apenas lhe pedia que dormisse sempre com o leque por perto. No momento em que, pela primeira vez, pegou no leque, Teresa tornou-se numa imperatriz. Todas as noites sonhava com estranhos pavões a saciarem as suas vontades proibidas."

Agora que nada é verdadeiro, e por conseguinte, tudo é permitido, ainda mais que quando, no passado, se começou a materializar aquela vontade proibida, inerente ao espírito de cada um, de viver livre do jugo de outras vontades, mais ou menos inquestionáveis e mais ou menos invisíveis também, provindas directamente de Deus e concretizadas pelo verdugo, se necessário, temos TV em directo, web 2.0 e toda uma porrada de invenções que progridem no sentido da aproximação; sobrevivemos ao esvaziamento de todos os valores, e continuamos tão enfermiços de alma que acabamos a esmiufrar, novamente, as observações dos antigos, tamanha a necessidade auto-imposta de encontrar algo diferente, nem que para tal seja necessário regressar à prisão, interrogo-me se porque "isto que temos" nunca é bom que chegue ou se, simplesmente, para variar.

Quanto ao vinho, que é por causa dele que todas as observações supra aqui estão, encontrei-o repleto de frutos negros, sobretudo ameixa, junto com generosos apontamentos balsâmicos, fumados e especiados que, a todos os títulos, só poderia considerar interessantes. Está mais intenso que encorpado, bem mais longo que complexo e muito, muito fresco. Dão e Touriga quanto baste, tem a individualidade das coisas que sugere a perder-se, fundida, no todo, e isso, junto com ser assim "grande" sem depois possuir opulência a condizer, muito ajudam à percepção global de elegância, que será aquilo que dele mais facilmente fica, pelo menos neste momento.

7€.

16,5

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Histórias da mamã (1)

Inverno. Noite cerrada, o galo canta. Importa chegar cedo à feira: julgando estar prestes a romper o dia, X levanta-se, albarda a mula e sai.

Atalha caminho fora da estrada, por entre pinhais. A dada altura, nota que o vento traz cheiro a fumo. Vislumbra um clarão ao longe, que rapidamente se faz perto, como se corresse contra si. Momentos depois, estremece ao sentir-se agarrado por uns braços frios. Encontra-se já entre elas.

São mulheres, velhas e novas, que se agitam em redor de uma grande fogueira, os corpos nus cobertos de gordura e porcaria. Apesar de lhe tocarem, cantam, dançam e rezam, aparentemente indiferentes a qualquer possível acção por parte de X, que flutua pela cena como num sonho.

Uma delas está sentada no chão, à beira do fogo. Pele pálida, cabelos loiros e olhos tristes, ela mesma quase uma criança, segura no colo um bebé, completamente negro, que embala em silêncio.

É dela que X se aproxima. E ela, como se o esperasse, encara-o com doçura e pede-lhe que segure o menino.

X acede, impelido por uma força maior, a mesma que o prende ali, a mesma que parece parar o tempo e isolar do resto do mundo o fragmento de espaço onde se encontra.

Dominado mas pelo menos parcialmente lúcido, X nota com horror que as mãos da criança largam cinza e carvões em brasa. Balbucia e ri, à medida que lhe vai queimando a pele.

E X queixa-se baixinho, sem se atrever a esboçar um movimento: "por favor não faça isso, menino, que me está a queimar".

Mas a provação arrasta-se. As mulheres continuam a dançar, as vozes cada vez mais altas, os movimentos mais frenéticos, em crescente histeria. "Valha-me a Santíssima Trindade! Por favor não faça isso, menino, que me está a queimar!"

A dada altura, carvão em brasa cobre-lhe os pés.

Encontraram-no no dia seguinte, já a tarde ia alta, inanimado, à beira de uma picada. A mula e a carga tinham desaparecido. Quando voltou a si, não sabia explicar o que acontecera. Uma qualquer comoção, um desmaio. Curiosamente intacta, no entanto, a recolecção de um sonho singular.

Dizem que o cabelo lhe embranqueceu em questão de dias. Morreu pouco depois, atingido por uma pernada de um castanheiro; deixou dois filhos pequenos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Château Cardonna Lahourcade '2012

Este tinto consiste num lote composto por Merlot e Cabernet Sauvignon, em partes quase iguais, 50-48%, respectivamente, junto com 2% de Cabernet Franc, como que em jeito de tempero. O produtor é Les Vignerons d'Uni-Médoc, uma cooperativa agrícola sediada na localidade de Gaillan-en-Médoc.

Groselha preta e cereja, ligeira baunilha e toque lácteo, nem por sombras tão pronunciado como no Porrera do post anterior, mas presente, sobretudo no final. Servido directo da garrafa, pareceu-me um Bordéus simples, de presença apenas mediana, mas bem acabado e, o mais importante, bem agradável. Não me pareceu distante, quer em estilo quer em execução, deste Vieux Labarthe de 2011, mas mais sumarento, limpo e preciso: superior. Apesar do toco de borracha com que veio vedado, mostrou o suficiente para fazer acreditar que poderá valer a pena guardá-lo um par de anos.

O preço médio dele ronda os 5-6€, mas tive oportunidade de comprar várias garrafas numa promoção de supermercado, onde estavam lado a lado com coisas foleiras, por pouco menos de três. Ora, se o vinho é feito e vendido para dar lucro a cada um daqueles por quem for passando, até chegar ao consumidor final, como é que, considerados todos os custos, mesmo estando a escoar excedentes, pode ter valido a pena vendê-lo tão barato? Pressões logísticas, poderão dizer alguns: a necessidade de esvaziar as prateleiras para dar lugar a coisas novas.

Neste caso em concreto, poderia afirmar que dadas as "coisas novas" para as quais este e outros vinhos do mesmo naipe tiveram de fazer espaço à pressa, mais valia os senhores da distribuição terem ficado quietos. Mas tanto quem fez este formoso vinho como quem o vendeu aparenta, ainda, prosperar. Então, apesar de tudo, terá valido a pena. São políticas que não vão mudar tão cedo — aproveitemos, na nossa pequenez, sempre que algum dos elos da cadeia se lembre de depreciar algo fixe. Como ratos.

16

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016