terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Passado é enorme; tão grande, que parece uma espécie de infinito.

O Futuro é enorme; tão grande, que parece uma espécie de infinito.

O Presente é pequeno; tão pequeno, que parece uma espécie de nada.

***

Mas o Passado passou. E para sempre. Nunca mais volta. Por isso o Passado é nada; ou uma espécie de nada.

***

O Futuro ainda não nasceu; mas nem nunca nasce, pois quando nasce é Presente, já não é Futuro. Por isso, o Futuro é nada; ou uma espécie de nada.

***

O Presente é pequeno; é minúsculo; tão minúsculo, que parece uma espécie de nada.

Mas eis que esta espécie de nada — o Presente — afinal é uma espécie de tudo: pois tudo, do Passado se quiser ser ressuscitado sob forma de Saudade; do Futuro se quiser ser pressentido, ou ante-vivido, sob forma de Esperança; tudo, tudo tem de ir bater à portinha da casinha do Presente, a pedir entrada; a pedir acolhimento; a suplicar umas migalhas... umas horas... uns minutos... de caridoso albergue; de necessária estadia.



Vicente Sanches,
49 Aforismos ou: — Aforismos 49 mas se preferem por extenso: Quarenta e Nove Aforismos ou Aforismos Quarenta e Nove.

sábado, 27 de agosto de 2016

Ernest Wein — Riesling '2014

Um Riesling com carácter, este alsaciano da Cave des Vignerons de Pfaffenheim, quanto mais não seja, na medida em que a casta se deu a perceber logo desde a primeira cheirada.

Servido frio, directo da garrafa, mostrou corpo fino e fresco, paladar seco, com muitos citrinos — mais para o lado do limão amargo que da laranja doce — a mudar, com o tempo, para nectarina e afins, um pouco de gengibre e flores brancas.

Pareceu-me existirem tímidas sugestões de doçura, mas nada mais que isso: sugestões.

Simples e polido, é um trabalho industrial de qualidade, de que gostei sem reservas.

Quase ao nível de um Dr. Loosen de base, mas a metade do preço, não admira que tenha esgotado num ápice.

Acompanhou sushi trazido da rua, deste, e ficou deveras engraçado com as algas que cobriam os rolinhos "alaska" e a menta fresca dos "spring roll salmon fresh".

5€.

16

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Casa da Passarela — Reserva '2009

Este 2009 foi o último "reserva" do produtor lançado com a imagem que — passe a redundância — se pode ver na fotografia.

É que, a partir de 2010, os produtos da casa em apreço ganharam outras cores e histórias: até o nome do produtor ganhou um "l", mais à antiga portuguesa: assim.

À margem das quimeras do pessoal do marketing, o vinho, a caminho dos 7 anos, mantém a graça: estrutura, frescura e equilíbrio quanto baste.

A fruta continua firme e limpa, tingida apenas por ligeiros almiscarados que remetem a imaginação à vida privada de certos pequenos mamíferos.

Na linha do 2008, mas talvez um furito acima dele, está um muito bom tinto, ainda sem fim à vista.

Empurrou um estufado de javali preparado pelo António.

6€.

16,5

domingo, 21 de agosto de 2016

Filmes (73)

Püha Tõnu Kiusamine (The Temptation of St. Tony)



Aqui presenciamos a jornada de um chefinho, transmitida pelo singular Veiko Õunpuu. Um filme que, visualmente, terá algo a ver com este.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Campolargo — Dão '2010

Segunda de duas garrafas de Campolargo do Dão, bebidas no mesmo dia, em jeito de micro-vertical.

O contra-rótulo diz o seguinte:

"Quinta vindima da nossa vinha de Lagarinhos, Gouveia. Boas condições de tempo antes e durante a vindima, feita em duas etapas separadas por cinco dias (23 e 28 de Setembro). Seguiu-se a fermentação conjunta de todas as castas em lagar aberto com pisa manual. Fermentação maloláctica em barricas usadas, de carvalho francês, onde permaneceu em estágio até ao engarrafamento".

Como o seu antecessor de 2008, é um Dão sério, mais "savoury" que "sweet", com toque terroso e acidez assertiva, às vezes quase agressiva, logo no ataque à boca. Também aqui a fruta é escura, mas menos transformada, de tal forma que se deixam perceber, razoavelmente limpas, tanto groselha como cereja. Revela, no entanto, bastantes especiarias, com a baunilha doce a fundir-se num floral alegre, que o anima.

De sabor já redondo, com ponta de evolução, está mais ligeiro e menos persistente que o outro, mas mais equilibrado, de tal maneira que acabei por preferi-lo.

Com estes vinhos, comemos bifes da vazia, maturados, preparados neste espírito, com maior inclinação para o processo indicado por Ramsey — aproveitem que desta vez o link é para um Youtube em vez de para uma qualquer coisa chata.

12€.

16,5

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Campolargo — Dão '2008

Primeira de duas garrafas de Campolargo do Dão, bebidas no mesmo dia, em jeito de micro-vertical.

O contra-rótulo diz o seguinte:

"Terceira vindima da nossa vinha de Lagarinhos, Gouveia. Boas condições de tempo até à vindima, que foi feita em duas etapas separadas por sete dias. Isso não impediu a fermentação conjunta de todas as castas [Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz] em lagar aberto com pisa manual. Fermentação maloláctica em barrica usada de carvalho francês onde permaneceu em estágio até ao enchimento de 10131 garrafas em Fevereiro de 2010".

No nariz, primeiro, frutos negros, muito maduros e indiferenciados, parcialmente compotados, fundidos com elementos balsâmicos e sanguíneos; mais lá para a frente, licores, tosta e café. Na boca, uma acidez, se não mordente, pelo menos bem vincada, taninos já perfeitamente domados e final de médio a longo.

Parecendo a acidez exagerada numa primeira abordagem, fiquei com a ideia de que, pelo menos agora, será o ponto-chave do seu interesse: é que apesar da idade deste vinho e do seu perfil escuro e duro, que remete a mente a coisas pesadas, ele continua inquestionavelmente fresco e interessante.

Curiosamente, a S, tantos anos depois, ainda tão crítica relativamente a tinto, gostou dele.

12€.

16

sexta-feira, 12 de agosto de 2016





Fotos de há meio ano para chamar o frio.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Villa Maria — Private Bin, Sauvignon Blanc '2014

A dada altura, senti crescer certo interesse pelas coisas do novo mundo, mas a onda não teve momento suficiente. Assim, até ao presente, em todo o blogue, que conta com 947 entradas dedicadas a vinho, desde 29/4/2008, a etiqueta "Nova Zelândia" apenas devolve três resultados, tendo o último sido publicado em Janeiro de 2012, também a respeito de um Sauvignon popular, de entrada de gama, como o de que cuida este post.

Ora, todos os poucos que experimentei se mostraram propostas sólidas, varietalmente correctas e bastante agradáveis, que apesar de não maravilharem, também não defraudaram. E este vinho, bebido já a caminho da curva descendente, foi mais um que se portou assim.

Muito limpo e possuidor de marcada acidez citrina, veio todo em tons de verde, um verde alegre e macio, com muito maracujá maduro e lima a transfigurarem-se, com a permanência no copo, em toranja, carambola e abacaxi.

O paladar está bem afinado, seco sem ser austero, e ainda tem bastante força, mas termina algo curto, com um desvio, evidentemente residual, para a doçura. É um vinho franco, na medida em que parece não guardar segredos. Feito para ser bebido jovem, estaria provavelmente melhor há um ano atrás, quando mais viçoso.

As uvas provieram de diversas parcelas do produtor, localizadas nos vales dos rios Awatere e Wairau, em Marlborough, vindimadas entre o princípio de Março e meados de Abril. O mosto fermentou a baixa temperatura, sob acção de leveduras seleccionadas, após pisa mecânica, tendo o vinho resultante sido engarrafado sem qualquer tipo de estágio.

10€.

16,5

sábado, 6 de agosto de 2016

"No Registo do Óbito, passado a 27 de Março de 1946, lê-se como causa da morte:

Asfixia por obstrução dos vasos aéreos superiores produzido por pedaço de carne.

Assinam este documento o declarante, Dr. Asdrúbal d'Aguiar, e a ajudante do Posto do Registo Civil, Maria Teresa da Costa Monteiro de Figueiredo.

O que, desde já, achamos estranho é a posição tranquila do corpo de Alekhine. Custa-nos a acreditar que uma pessoa vítima de asfixia morra com a serenidade que as fotografias mostram e os relatos confirmam. O próprio Dr. António J. Ferreira afirma que o asfixiado cai no chão. É, segundo supomos, fácil de entender que, numa situação dessas, a vítima estrebuche e se agite convulsivamente. Nada disto se nos patenteia nas fotografias.

Dispomos de duas fotografias tiradas de ângulos diferentes: uma publicada no livro de hans Müller e A. Pawelczak, Schachgenie Aljechin, Leben und Werk (foto junto da p. 272) e outra reproduzida na revista Jaque (Nueva Época, nº 319, 2a Quincena, Diciembre 1991, p. 10). Tal como vimos nas descrições já referidas, Alekhine está tranquilamente sentado num cadeirão parecendo dormir. A cabeça pende-lhe ligeiramente sobre o ombro esquerdo e não se apoia nas costas do cadeirão, que tem um naperon de renda.

(...)

Qual é a diferença de uma para a outra fotografia? Na da revista Jaque, deparamos com um jornal, ou revista, sobre o livro na prateleira do toucador onde está o copo.

Não sabemos a ordem por que foram tiradas as duas fotografias; todavia, o que é um facto indesmentível é que alguém colocou, ou retirou, um objecto, o que se nos afigura estranho, uma vez que, num caso como este, em que se suspeitou de homicídio, nada poderia ser retirado ou acrescentado."

Dagoberto L. Markl,
Xeque-mate no Estoril, A morte de Alekhine
Ed. Campo das Letras, 2001

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Morgado de Sta. Catherina — Reserva '2012

Outro vinho sobre o qual não tirava impressões há muito tempo, apesar de também ser daqueles que se repetem à minha mesa — o último que aqui comentei foi da colheita de 2009, aberto em 2013.

Monocasta Arinto, estagiado durante dez meses nas barricas de carvalho francês onde fermentou, foi produzido pela Quinta da Romeira, que se situa entre Vila de Rei e Alverca do Ribatejo, aqui.

Quinta que fazia parte do Morgadio de Santa Catherina, instituído em Bucelas por Luís de Vasconcelos e Sousa, terceiro conde de Castelo Melhor, em homenagem a D. Catarina de Bragança, uma alentejana muito bonita que foi rainha consorte de Inglaterra, uma santa de paciência e, dizem, a responsável pela instituição do costume do chá das cinco.

Está um branco com 14% de álcool, forte, fresco e persistente, com muita fruta de caroço — pêssego, alperce — e alguma barrica, ligeira, em todo o caso, a compor o conjunto.

Tão voluptuoso quanto elegante, respira distinção, mas também agrada facilmente. Encontrei-o, em definitivo, na linha dos seus predecessores, e ainda outra vez, um dos brancos incontornáveis de Portugal, se não da Península.

Como qualquer branco que se preze, é para beber à vontade, com ou sem mastigação pretensamente compatível. Mas com queijo Brie . . .

10€.

17