domingo, 30 de outubro de 2016

Vallis Queyras '2013

Lote de Grenache e Syrah, de terra calcária e cascalhenta, este vinho é o representante da região de Vaucluse no portefólio dos Domaines Pierre Chavin.

Fermentado, nos dizeres do produtor, com uma extracção "bem controlada", estagiou em tanques de aço, de grandes dimensões, durante meio ano, a que se seguiu uma breve passagem por barris de carvalho.

Refrescou no frigorífico, a garrafa ainda fechada, tendo depois repousado no copo até atingir os 14ºC indicados no contra-rótulo como início do intervalo de temperatura ideal para se beber.

Encontrei-o muito Grenache, tanto na cor, escura mas pouco saturada, como no nariz, acima de tudo, doce, com fruta silvestre, escura, carregada, passas misturadas e também flores, caramelo e Ceregumil — o clássico, que me obrigavam a tomar em criança e nunca mais esqueci.

Ainda alguma terrosidade, discreta mas inequívoca, mais em pano de fundo que a envolver o que quer que fosse, e notas de oxidação, a fazerem lembrar, ao longe, xerez.

Fresco, macio e equilibrado na boca, apenas me pareceu pecar, não pela ligeireza, que será feitio, mas por certa fugacidade. E para mim, pessoalmente, por confirmar o estilo oxidado que já lhe tinha notado ao cheirar, com doçura residual.

5€.

14,5

sexta-feira, 28 de outubro de 2016





quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Beyra — Reserva '2012

Este tinto de Rui Roboredo Madeira foi feito com Tinta Roriz, Jaen e Touriga Nacional criadas nos solos xistosos de Vermiosa, freguesia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Estagiou nove meses em barricas usadas de carvalho francês e americano.

Foi aberto para acompanhar um "Russian Beef Stew" — a estreia do Crock-Pot cá em casa!

Sem surpresas, surgiu ensolarado, cheio de frutos negros, dos quais uma parte em compota, misturados com generosa porção de tostados e baunilha doce, ou talvez vanilina. Poderá esta barrica ainda vir a integrar-se?

Na boca, boa acidez e uma profusão de taninos que, mesmo já maduros, muito continuam a contribuir para a impressão de robustez que prevalece.

Apesar do seu carácter maduro, não pende, de todo, para o lado do álcool. Termina razoavelmente longo, com notas de chocolate.

Dito isto, o problema: é um vinho honesto, bom, que, de alguma forma, não me conseguiu cativar. Terá sido a barrica, que não sendo defeito, eu teria gostado, pessoalmente, de ver menos vincada?

Ou será algo mais profundo e de certa forma transversal à generalidade dos tintos da "alta" Beira Interior que tenho tido oportunidade de experimentar? Será necessária a uniformidade de estilo que vejo? Será necessário procurar fazer à semelhança do Douro, ali perto?

Ou serei eu que não estou a perceber bem as coisas? Oxalá assim seja!

6€.

16

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Château Haut-Landon '2013

Para que um blog valha a pena, há que ter algo a dizer. Essa é, julgo, a condição necessária. E não inclui, no caso específico dos eno-qualquer coisa, o puro e simples replicar das muitas notas de imprensa que nos vêm ter à caixa de email, a todos.

Na hora de escrever, será melhor não florear nem tergiversar. Ser conciso, procurar o tempo certo. Tempo e fio, ou uma pessoa perde-se.

A visão do instante pode valer ouro e a auto-referência é morte — dizer as coisas assim, não, mesmo que sejam verdade. Convém trazer certa fluidez ao discurso e um toque de indiferença, creio, não fará mal. O resto está nos livros.

Duvido que exista algum outro blog cujo autor esteja tão consistentemente sem vontade de o actualizar. Mas à pergunta "se assim é, porque o fazes?", continuo a não  saber (ou querer) responder.

Entretanto vou bebendo, tentando não repetir muito os álcoois. Vamos, então, ao cromo do dia:

Vinho de négociant, engarrafado por SAS Robin, de Saint Aubin de Blaye, este lote composto por 85% de Merlot e 15% de Cabernet Sauvignon vem da D.O. Blaye-côtes-de-bordeaux, na margem direita do Gironde, 40 Km a norte de Bordéus.

Sem tempo para respirar antes de servido, mostrou desde logo um conjunto de aromas muito bonito, rico em frutos do bosque, escuros — para não dizer negros: amora, cassis, ameixa seca — e generosamente especiados.

Na boca, o comportamento foi consentâneo com os aromas, confirmando-se um tinto prazenteiro, com boa concentração e algum nervo, que apenas pecou por não possuir maior substância, aquela de que precisaria para poder crescer e tornar-se realmente interessante.

Bem ou mal, o termo de comparação que no acto da prova me ocorreu foi um daqueles relógios chineses que ao longe parecem porreiros, mas em que uma observação mais cuidada acaba sempre por revelar um bisel mal alinhado, uma escala meramente cosmética ou que a pulseira, afinal, não é de crocodilo ou sequer couro, mas de plástico.

Acompanhou bifes do beijinho — ou sete da pá — grelhados e acompanhados de batata frita e molhos: um de alho picado, com sumo de lima, azeite e maionese, e outro de azeitona, cortada em rodelas finas e também misturada com azeite e maionese.

4€.

15,5

sábado, 22 de outubro de 2016

The Rose Garden

And afterwards she went very softly, and opened the window and looked out. Behind her the room was in a mystical semi-darkness; chairs and tables were hovering, ill-defined shapes, there was but the faintest illusory glitter from the talc moons in the rich Indian curtain which she had drawn across the door. The yellow silk draperies of the bed were but suggestions of colour, and the pillow and the white sheets glimmered as a white cloud in a far sky at twilight.

She turned from the dusky room, and with dewy tender eyes gazed out across the garden towards the lake. She could not rest nor lay herself down to sleep; though it was late, and half the night had passed, she could not rest. A sickle moon was slowly drawing upwards through certain filmy clouds that stretched in a long band from east to west, and a pallid light began to flow from the dark water, as if there also some vague star were rising. She looked with eyes insatiable for wonder; and she found a strange Eastern effect in the bordering of reeds, in their spear-like shapes, in the liquid ebony that they shadowed, in the fine inlay of pearl and silver as the moon shone free; a bright symbol in the steadfast calm of the sky.

There were faint stirring sounds heard from the fringe of reeds, and now and then the drowsy broken cry of water-fowl, for they knew that the dawn was not far off. In the centre of the lake was a carved white pedestal, and on it shone a white boy holding the double flute to his lips.

Beyond the lake the park began, and sloped gently to the verge of the wood, now but a dark cloud beneath the sickle moon. And then beyond and farther still, undiscovered hills, grey bands of cloud, and the steep pale height of the heaven. She gazed on with her tender eyes, bathing herself as it were in the deep rest of the night, veiling her soul with the half-light and the half-shadow, stretching out her delicate hands into the coolness of the misty silvered air, wondering at her hands.

And then she turned from the window, and made herself a divan of cushion on the Persian carpet, and half sat, half lay there, as motionless, as ecstatic as a poet dreaming under roses, far in Ispahan. She gazed out, after all, to assure herself that sight and the eyes showed nothing but a glimmering veil, a gauze of curious lights and figures, that in it there was no reality or substance. He had always told her that there was only one existence, one science, one religion, that the external world was but a variegated shadow, which might either conceal or reveal the truth; and now she believed.

He had shown her that bodily rapture might be the ritual and expression of the ineffable mysteries, of the world beyond sense, that must be entered by the way of sense; and now she believed. She had never much doubted any of his words, from the moment of their meeting a month before. She had looked up as she sat in the arbour, and her father was walking down between the avenue of roses bringing to her the stranger, thin and dark with a pointed beard and melancholy eyes. He murmured something to himself as they shook hands; she could hear the rich unknown words that sounded as the echo of far music. Afterwards he had told her what the lines were:


How say ye that I was lost? I wandered among roses.
Can he go astray who enters the rose garden?
The lover in the house of his Darling is not forlorn.
I wandered among roses. How say ye that I was lost?

His voice, murmuring the strange words, had persuaded her, and now she had the rapture of the perfect knowledge. She had looked out into the silvery uncertain night in order that she might experience the sense that for her these things no longer existed. She was not any more a part of the garden, or of the lake, or of the wood, or of the life that she had led hitherto. Another line that he had quoted came to her:


The kingdom of I and We forsake, and your home in annihilation make.

It had seemed at first almost nonsense, if it had been possible for him to talk nonsense; but now she wasthrilled and filled with the meaning of it. Herself was annihilated; at his bidding she had destroyed all her old feelings, and emotions, her likes and dislikes, all the inherited loves and hates that her father and mother had given her; the old life had been thrown utterly away.

It grew light, and when the dawn burned she fell asleep, murmuring:
"How say ye that I was lost?"


Escrito em (ou até?) 1897 e editado somente em 1924, Ornaments in Jade é um conjunto de histórias curtas, da autoria do grande Arthur Machen.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Quinta da Soalheira '2012

Situada perto de S. João da Pesqueira, a Quinta da Soalheira é uma propriedade com cerca de 340ha de área, atravessada pelo Rio Torto, e que pertence à Soc. dos Vinhos Borges desde 1904.

Os seus solos são predominantemente xistosos e o clima da região, continental, com Invernos frios e Verões quentes e secos.

Vinificado em Vila Real e engarrafado em Felgueiras, este vinho consiste num lote de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Franca, Tinto Cão e Sousão.

O produtor menciona desengace total da fruta, uma breve maceração pré-fermentativa, fermentação em curtimenta, a temperatura controlada, seguida de separação das partes sólidas e estágio em barricas de carvalho francês, de 9 a 12 meses.

Redondo, de complexidade e corpo medianos, é um Douro típico, onde ainda predominam as notas de frutos silvestres, azuis e negros, mas que também mostra mato seco, esteva, violetas e especiarias doces, com um lado mais evoluído e mineral, mais "savoury", de terra e couro, em crescendo com a exposição ao ar.

É aceitável a acidez que evidencia, mas insuficiente para contrariar a impressão geral de calidez deixada. Face a isto e aos taninos já maduros, não deverá valer a pena dar-lhe mais guarda.

Acompanhou as coxas de frango, picantes, no forno, de que Luisa Weiss fala no seu "My Berlin Kitchen" e no blog que mantém online.

Consumi uma garrafa do seu antecessor da colheita de 2007, em Novembro de 2012, e a acreditar no que ficou para ler, gostei mais desse, então, que deste, agora.

5€.

15

domingo, 16 de outubro de 2016

Soligamar — Reserva '2009

É a fruta, bem escura, que predomina neste Rioja "moderno", de aroma cálido, onde surge misturada com basta dose de barrica ainda evidente como tal: sobrepostos ao toque especiado "quente" que acompanha toda a prova, muitos tostados, a inevitável baunilha, e tabaco.

Encorpado na boca, está bem macio, com a acidez finamente integrada. Mais amplo que longo, termina com um travo "salgado" muito interessante, que já tinha encontrado neste seu antecessor, da colheita de 2006.

Com meia dúzia de anos, está para durar: nem evidencia grandes caracteres terciários, como aparenta ter estaleca — no caso, álcool e extracto — mais que suficiente para os vir a desenvolver com harmonia.

Consiste num lote de Tempranillo, Garnacha e Mazuelo, criados no solo barrento e pedregoso de Tudelilla, nos contrafortes da Sierra de la Hez. Estagiou durante 24 meses em carvalho francês, com trasfegas a cada meio ano.

Seria fácil associar o seu perfil "meio madurão" ao facto de provir da dita Rioja Baja, a mais mediterrânea, e, por conseguinte, a mais amena das três Riojas. Mas as cepas estão plantadas a mais de 600m de altitude, num lugar onde a temperatura média anual ronda os 13ºC (com Verões bastante quentes) e onde neva todos os anos, ainda que pouco.

A marca pertence a Carmelo Ortega, que também produz Ortega Ezquerro e Saxa Loquuntur.

9€.

16,5

quinta-feira, 13 de outubro de 2016









segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Quinta Vale D. Maria ’2010

Foi aberto em casa do T, para acompanhar um almoço vegetariano: salada com falsa maionese de abacate, lentilhas vermelhas em molho masala, com espinafres, tipo isto, acompanhadas de arroz jasmim, e uma mousse de chocolate preto que achei muito engraçada quando levada à boca junto com o molho de abacate supra, sem misturar. A resposta à pergunta "mas com esta comida, porquê tinto, seu burro?", sem dúvida pertinente, é que nenhum dos presentes, excepto eu, bebe vinho, de tal forma que não havia nenhum branco fresco e, dos tintos existentes, era este ou um daqueles "reserva" do Continente que se encontram eternamente em promoção.

Imaginem agora o meu esforço para me portar bem, imaginem-me a dizer àqueles simpáticos velhotes que "só para mim não, não vale a pena" e eles a replicarem que estivesse à vontade, que "não vale a pena ficar aí, que ninguém a bebe" e "mas bebe, bebe toda"! Alguém lhe tinha escrito um três, a esferográfica, por cima do zero original do rótulo; não sei nem perguntei porquê.

E foi assim que, sem decantar, me apareceu no copo um tinto sério, escuro e muito integrado, de excelente volume e estrutura compacta, com taninos ainda jovens. Um pouco mudo, no entanto, mau grado a densidade e força que deixava entrever; para cúmulo, a fruta e os tostados que iam despontando não tardavam a ser oprimidos pela intensa componente especiada do prato principal. A solução foi beber o menos possível até à sobremesa, onde, mau grado o conjunto continuar um pouco preso, finalmente senti harmonia.

Foi sozinho e já bem depois da refeição que mostrou o melhor de si, com as arestas a arredondar e o aroma como que a concentrar-se: andava eu com o que dele sobrara pelo quintal, a fotografar gatos, quando comecei a notar a fruta mais viva, com nuances límpidas, de groselha e mirtilo, que antes não estavam lá, as especiarias mais fragrantes, mais envolventes, e o café, nota dominante no fim de boca, mais alegre, com pontuais laivos de chocolate, a fazer lembrar um bom moca.

Acabei a tarde com a S, a não encontrar a entrada para a escombreira de uma mina. Já de noite, um som estranho, alto e arrastado, que a princípio suspeitámos advir do funcionamento de algum tipo de bomba, mas que provavelmente seria o ressonar de um animal que não chegámos a ver: parou quando nos parecia termos chegado à sua origem, imediatamente seguido do barulho de algo a mover-se pelo alto do que resta das paredes do convento arruinado de Sacaparte.

De acordo com ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet, este tinto é "um blend de 41 castas diferentes", procedentes de vinhas com mais de 60 anos. As uvas foram "pisadas em lagares de 1 a 3 dias antes da fermentação, e vinificadas depois durante 7 a 10 dias" e os vinhos daí resultantes fizeram a fermentação maloláctica e posterior estágio, de 21 meses, em barricas de carvalho francês, "sendo os diferentes lotes obtidos de cada fermentação mantidos completamente separados até à composição do lote final, cerca de um mês antes do engarrafamento", que foi feito em Julho de 2012.

O PVP ronda os 35/40€.

17,5

sexta-feira, 7 de outubro de 2016




Waldemar Weimann & Otto Prokop: Atlante di Medicina Legale — traduzido do alemão pelo Prof. Fortunato Jacopino,
Edizioni PEM, Roma, 1966.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Domaine de Beaurepaire — Muscadet Sèvre et Maine 2013

Muscadet é um regionalismo para Melon de Bourgogne, a única casta autorizada para os vinhos vendidos sob a denominação em que este se insere — baratos e de qualidade uniforme, ao que não será alheio provirem da maior mancha produtora de branco seco da Europa.

Ligeiro, mas muito vivo, este exemplar fermentado "sur lie" surgiu intensamente limonado, com nuances verdes, de maçã e lima, e um "punch" salino bem evidente no fim de boca.

Para aproveitar nestes últimos dias de sol, beber em quantidade, sem pensar, de preferência com qualquer coisinha que se trinque. É que, cerebralizado, percebem-se-lhe melhor os limites. . .

O produtor tem as suas terras em Mouzillon, comuna situada no extremo oeste do Vale do Loire, um pouco a sul de Nantes, em plena AOP Muscadet Sèvre-et-Maine.

É uma região de clima fresco e solos tendencialmente compostos por cascalho, areia e argila, sobre matriz de gnaisse, xisto e granito, que abrange vasta quantidade de terroirs, das encostas dos rios que a cortam (o Sèvre Nantaise e o Petite Maine) no interior, às terras planas e férteis que circundam a foz do Loire.

Abriu um take-away de sushi no Jumbo cá da terra e foi com esta garrafa que acompanhei o sashimi que de lá trouxe em jeito de estreia, e que não sendo brilhante, também não estava nada mau.

3€.

15,5

sábado, 1 de outubro de 2016

Morgado de Silgueiros '2013

Neste vinho, aquilo de que mais gostei foi a fruta — alegre, com um brilho cativante.

A contrastar com o toque espesso, pesado sem realmente o ser, evidenciado na boca. Como se procurasse uma densidade que não pode encontrar.

No mais, a acidez é equilibrada e a persistência, mediana, com taninos ainda espigados, que lhe amargam um pouco o final.

Em suma, apesar de se ter deixado beber, mais que com facilidade, com verdadeiro gosto, pareceu-me um pouco carrascão.

Produzido pela Adega de Silgueiros, consiste num lote composto por 40% de Touriga Nacional, 20% de Tinta Roriz, 20% de Alfrocheiro e 20% de Jaen, engarrafado sem passar por madeira.

Foi melhor com chouriço e "baked beans" que apenas com chouriço, e melhor com este que com qualquer dos queijos que calhou acompanhar.

2,50€.

14,5