sábado, 31 de dezembro de 2016


24 horas de passagem pela terra natal antes do fim do ano. Decoração alusiva à época, simples mas engraçada, e uma feirola com farturas e carrosséis na praça principal. Mixed feelings! Os centros comerciais do meu tempo, meio mortos. Parece que, como tudo o que não é Lisboa e Porto, a cidade se plastificou para fora. Surgiram novos lugares, sobretudo na periferia, maiores e mais vistosos, que teriam constituído uma adição porreira caso não representassem o fim do que já existia. Mas as coisas são assim mesmo. As condições mudaram. O país, o mundo mudou. E uma dessas mudanças foi o abastardamento do que é dirigido às massas. Lembro-me, por exemplo, de ser puto e qualquer relojoaria de merda ter Omega e Longines na montra. E agora?


De manhã, antes de regressar, nova volta. O Praça Velha, que ficava no antigo Celeiro da Ordem de Cristo, fechou. Tinha um espaço porreiro, uma carta de vinhos bem composta, com alguns tintos de guarda no ponto ideal de consumo e não demasiado caros, tipo isto, e ficava num sítio super conveniente, mesmo ao lado do Património. Era, pois, possível jantar no melhor restaurante lá da terra, fumar uma ganza ao virar da esquina e ir logo para os copos, também no melhor bar lá da terra, sem grandes tropeções, arrumações ou outras complicações. Assim, almocei sushi de take-away, em casa, com uma cerveja. Mediano, muito mediano. O bolo xadrez, praticamente impossível de encontrar em Coimbra, continua, no entanto, bastante popular. Missão: store up, pig out.


Foi com certa mágoa que encontrei fechada a Conquilha, uma espécie de centro ocupacional para jovens que ficava na travessa Nuno Álvares e que foi onde aprendi a jogar xadrez. Já lá não passava há tantos anos, e mesmo que ainda existisse, de certeza que agora já não era "para mim", mas vejo através da porta meio escavacada aquele interior despojado, com sinais de largo abandono, e que melancolia! Na altura não o valorizava, mas terá sído dos poucos, pouquíssimos lugares onde, em pequeno, passei momentos realmente felizes. Sim, as aulinhas de xadrez ao Sábado, com o N. Abreu e depois os Wright, a par dos torneios de Magic e das reuniões do INTERACT, lol.


As viagens do "Intercidades" da Beira Baixa passaram a ser feitas exclusivamente por UTE — sim, automotoras. Parece que a CP poupa uns cobres, logo toda a gente (que importa) aprova. E não, montado nestes periquitos novos, o troço à beira Tejo não é a mesma coisa. Falta espaço, falta gosto. Em suma, uma merda.


Valha-nos que, do Entroncamento para cima, ainda é possível vir num comboio de verdade. Regresso e tanto ela como o gato me aguardam. Definitivamente, melhor que poder cabriolar ao sabor das mais amplas liberdades, é ter quem nos faça uma festa quando chegamos. Antes do recolher, aproveitamos para comprar vegetais.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quinta do Sobral — Vinha da Neta '2011

Do contra-rótulo: "Homenagem do avô Nelson para a neta Maria Simões que perpetuará a tradição dos vinhos da Quinta do Sobral".

Tinto de Santar, Nelas, consiste num lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, estagiado em barricas novas de carvalho francês.

Que vinho! Retinto, com reflexos arroxeados. Muito tourigão e ainda muito fechado também, com o alcatrão (guaiacol, 4-etil-guaiacol?!) e os fumados da barrica, os etéreos dos seus 15% de álcool e as violetas e bergamota da casta dominante a sobreporem-se à fruta, preta e surpreendentemente pouco faladora — persistente, o corpanzil troncudo é amparado por uma grande acidez.

Face a tantas coisas grandes, o primeiro impulso foi dizê-lo bom. Mas, vendo melhor as coisas, está tão fechado, tão alcoólico . . . ainda mais que o já algo difícil monocasta Touriga Nacional do mesmo ano . . . enfim, porque há-de a monumentalidade ter sempre tendência a ser sobrestimada?

Não gostando de bombas, sei que há quem as aprecie. E assim, mesmo não me tendo este vinho sabido lá muito bem — sem ir, contudo, tão longe quanto a S, quando lho dei a provar: "isto é só solvente e cascas de árvores, não é?" — o valor numérico que encerra o post volta a ser, e ainda mais que no caso do já referido Touriga, uma manifestação de fé.

14€.

16

domingo, 25 de dezembro de 2016

Filmes (76)

The Last Temptation of Christ



Adaptação da novela de Nikos Kazantzakis com o mesmo nome, este filme é um retrato (meio) alternativo da vida de Jesus Cristo, contado na primeira pessoa. Consta que a inefável Madre Angélica lhe chamou "a Holocaust movie that has the power to destroy souls eternally", avisando que a Califórnia seria submersa pelas águas do Pacífico caso viesse a ser exibido — sem especificar, no entanto, quando.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2012

A receita deste 2012 é afim da do 2009 que consta do post anterior: Baga e Touriga Nacional, com predominância da primeira, vinificação em lagar aberto e estágio em tonel avinhado.

Tal como o outro, foi servido sem cerimónias, directo da garrafa. E tal como nele, se o protagonista é fruta, vermelha mas bem doce, com rebuçado misturado e levíssimo floral e fumado que aparentam não querer separar-se, contributo provável da Touriga, o fio condutor é acidez e o espaço onde toda a acção se desenrola, mineral, ora a fazer lembrar terra seca, ora aparas de lápis.

É, pois, bastante parecido com o seu predecessor de 2009 — e já agora, 2010 — a grosso modo, pouco mais persistente que intenso, tão intenso quanto profundo e apenas um pouco mais profundo que volumoso. Não excluo a possibilidade de a observação anterior (ou a totalidade delas) poder ser vista como um valente disparate, mas foi exactamente esse o apontamento que tomei no calor do momento, com os vinhos e as carnes à frente, invadido pela pressa de comer que a gula traz e perpassado pela despreocupação de estar a fazer . . . nada. Como agora, relido dias depois, continua a fazer todo o sentido, pelo menos para mim, deixo ficar. É o meu mapa, tanto melhor se puder servir a mais alguém!

Então, a maior juventude deste vinho face ao de 2009 traduziu-se essencialmente num pouco mais de aresta e um pouco menos de harmonia, o que também o terá feito parecer mais forte. O tempo que passou exposto aos elementos, no copo, trouxe-lhe uns achocolatados que não detectei no outro, sempre mais balsâmico. Tudo diferenças pequenas. Relevante é serem dois Bairrada perfeitamente adultos, ao mesmo tempo simples, no bom sentido da palavra, e alegres, evidentemente com vários anos pela frente.

Para terminar: a) a comida foi javali estufado e pão com meia dúzia de tipos de queijo; b) a produtora mantém activa a sua página no Facebook, mas deixou cair o sítio que tinha em casadesaima.com, e que poderia ser boa ideia trazer de volta, mesmo com conteúdo redundante ou praticamente sem ele, caso a experiência do passado tenha mostrado não advir retorno de o desenvolver. Sempre dá um aspecto mais profissional e cosmopolita que uma presença em rede social com hiperligação para um sítio "clássico" que já não existe.

6€.

16

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2009

Abri recentemente, em paralelo, duas garrafas de Casa de Saima "Reserva" que servirão de mote para este e o próximo post: um exemplar da colheita de 2009, já com sete anos de existência, e outro de 2012. Ora, exige o rigor que esclareça, desde já, que nem o Saima mais antigo está velho ou qualquer coisa que se pareça, nem o mais recente é um vinho novo. Aliás, pareceu-me notável a proximidade verificada entre estas duas garrafas, que se encontram, claramente, no mesmo patamar de evolução, apesar da diferença de idades.

Long story short, este 2009 fez-se de fruta vermelha — cereja, framboesa — e mineral — grafite, terra — só com um toque balsâmico, algum tipo de resina. De volume mediano e persistência satisfatória, está super fácil de beber, a idade bem mais sugerida (está tão fresco que não me atrevo a dizer denunciada) pela coesão do conjunto que pelas poucas, se algumas, notas de evolução apresentadas.

Será ainda digno de nota o facto de este vinho me ter parecido mais ligeiro e jovial que os "Reserva", por assim dizer, antigos da casa, aqueles do rótulo branco, produzidos aí até meados da década de 2000, quando o Dr. Carlos Almeida e Silva, ex-marido da actual proprietária, ainda integrava o projecto — coisa que já tinha notado neste 2010, quando o bebi, novinho, em 2013.

Os 18ha de vinha desta produtora não são contíguos, encontrando-se dispersos por várias propriedades da Bairrada, localizadas entre Fogueira, Paraimo, Ancas e S. Mateus, e não aferi de qual ou quais proveio a matéria-prima deste vinho. Facilmente acessível está a informação de ter sido criado a partir de Baga (60%) e Touriga Nacional, vinificadas de maneira clássica, com fermentação em pequenos lagares abertos seguida de um ano de estágio em tonéis antigos, de madeira de carvalho.

6€.

16,5

sábado, 17 de dezembro de 2016

Estufado de Vaca à Russa

Não é de todo habitual que aqui reproduza receitas de terceiros, mas o "Russian Beef Stew" do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, que acompanhou, num dos dias, o vinho do post anterior — num dos dias: a S tornou-se furiosamente vegana, já há mais de um ano, e estas coisinhas maiores, só para mim, duram várias refeições — impressionou-me tanto que tive de abrir uma excepção.

Traduzido às três pancadas, este estufado leva:

1,3 Kg de carne de vaca "para cozer", cortada em pedaços de 5 cm,
4 chávenas (1 US cup = 236,59 ml) de cebola Vidalia, picada,
1 chávena de cenoura "baby", ralada fina,
1 chávena de caldo de carne,
1 chávena de vinho branco,
½ chávena de preparado de preparado de raiz-forte,
½ chávena de creme azedo,
6 colheres, de sopa, de manteiga,
3 colheres, de sopa, de farinha,
2 colheres, de sopa, de mostarda de Dijon,
4 colheres, de chá, de alho picado,
2 folhas de louro,
sal, pimenta preta e salsa fresca.


E faz-se assim:

Derretem-se 4 das 6 colheres de manteiga numa frigideira antiaderente, grande, sobre lume médio, e lá se doura a carne, ao de leve, uns 30 segundos por lado, antes de se retirar para um prato e temperar com sal e pimenta a gosto.

Adiciona-se o alho, a cebola e a cenoura à frigideira, sem a limpar, e refoga-se, mexendo ocasionalmente, durante 5 minutos. Tempera-se, também, esta mistura com sal e pimenta.

Transferem-se os vegetais para dentro do recipiente do slow cooker (a receita refere um com 4 quarts de volume, o que dá aproximadamente 3,8 litros; presumo que não haja qualquer problema se for utilizado um maior) e deposita-se a carne por cima deles.

Misturam-se o caldo e o vinho e despejam-se sobre a carne. Junta-se o louro e deixa-se cozinhar, em "low", durante 7 horas, até a carne ficar macia, sem que, contudo, se desfaça.

Passado este tempo, transferem-se a carne e os vegetais para dentro de um qualquer outro recipiente, com uma escumadeira. Passa-se o líquido que ficou no fundo do slow cooker por uma peneira de cozinha, e reserva-se, juntando à carne todas as partes sólidas que lá tenham ficado retidas. Devolve-se a carne e os vegetais ao recipiente do crockpot, que se tapa para não perder calor.

Derretem-se as restante 2 colheres de manteiga, numa caçarola, em lume médio-baixo. Junta-se-lhes primeiro a farinha, como quem faz um roux, e depois os sucos da cozedura que se tinham reservado. Começando a mistura a ferver, reduz-se o lume para o mínimo e deixa-se cozinhar, mexendo constantemente, até o molho espessar, o que deverá demorar uns 10 minutos. Adiciona-se então o preparado de raiz-forte e a mostarda, e tempera-se com sal e pimenta.

Cobre-se a carne com este molho e deixa-se integrar, com o slow cooker ligado, no mínimo, mais 1 a 3 horas.

Antes de servir, junta-se creme azedo ao estufado até o molho ficar cremoso. Transfere-se tudo para uma travessa e polvilha-se com salsa cortada de fresco. Acompanha-se com batatas vermelhas, novas, ou, diz a autora, com "wide egg noodles". Ainda que possa ficar bem, descartei esta segunda possibilidade.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quinta do Monte d’Oiro — Têmpera '2004

Segunda edição do varietal Tinta Roriz do produtor de Freixial de Cima, fermentou em cubas de inox, com maceração prolongada, e estagiou durante 15 meses, em barricas de carvalho francês, das quais três quartos novas, antes de engarrafado.

Não o provei em novo. Neste momento, e nesta garrafa em concreto, volvidos mais de doze anos sobre a data da colheita, encontrei um vinho limpo, fragrante q.b. e bem dimensionado — mas, acima de tudo, coeso.

De perfil cálido, não capitoso, conduzido por fruta escura, com generosa porção de notas terrosas e apimentadas à mistura, mostrou-se um caldo de cuja complexidade não consegui, no entanto, destrinçar muita coisa.

Não duvido ter-lhe encontrado compota e licor, bem como cacau, café, tabaco, baunilha, pimenta preta e fumo. No entanto, face ao conjunto e presumindo que o objectivo é tentar caracterizar esse mesmo conjunto, a nenhum desses descritores encontrei real interesse. Sem ir mais longe, por como variaram, no tempo, tanto a sua expressão (que baunilha, que tabaco) como a sua aparente quantidade.

Parece-me, então, mais útil comparar o presente retrato deste vinho àqueles estufados que levam basta variedade de ingredientes, mas onde, no final, não apanhamos o conjunto dos seus aromas/sabores isolados, antes uma mescla que apenas a grosso modo corresponde à soma das partes, e de onde, pontualmente, como que se evidencia ora uma, ora outra.

De taninos polidos e já perfeitamente integrados, retém vida (e aqui a acidez é só uma parte) suficiente para se preservar da mornidão. Ainda assim, guardá-lo mais tempo, só por curiosidade.

Acompanhou o "Russian Beef Stew" que consta do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, e que fica para o próximo post.

20€.

17

terça-feira, 13 de dezembro de 2016


28/10, 8h06



8/11, 8h30



10/11, 8h30



17/11, 8h29



13/12, 7h52.

O Outono avança, mas as manhãs continuam bonitas.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Quinta de São Francisco '2010

Este tinto de Óbidos (DOC) foi produzido pela Companhia Agrícola do Sanguinhal na quinta de S. Francisco, que se situa junto da antiga freguesia de Outeiro da Cabeça. Afirma o produtor no seu sítio da internet ser esta a maior das suas propriedades e aquela onde, presentemente, vinifica e engarrafa todos os seus vinhos.

Composto por 60% de Castelão, 20% de Aragonês e 20% de Touriga Nacional, estagiou em barricas novas e usadas, de carvalho francês e americano.

Mais intenso no nariz que na boca, é um vinho simples, de volume e persistência medianos — talvez até a dar para o esguio. Em todo o caso, fácil de entender e bastante versátil à mesa.

Predominam aromas de fruta escura, amora e cereja ácida, a que se junta algum licor, provável consequência do tempo, e um pouco de tosta, certamente de barrica, que subsiste em pano de fundo.

Nota-se que leva Touriga Nacional, mais pelo toque terroso que acompanha toda a prova e se confunde, até certo ponto, com barrica, que pela vertente floral, porventura mais comum, da casta.

Aquece um pouco no copo e a faceta melada do Castelão começa a fazer-se notar, sobretudo no ataque ao nariz, mas o conjunto nunca perde o carácter sério que lhe é conferido pelo paladar bem seco e reforçado por um extrazinho de acidez que ainda hoje se nota.

Em suma, está um vinho agradável, a que me parece faltar distinção. Para já, envelhece harmoniosamente, mas não creio que tenha sido feito para ser envelhecido. Se brilhava mais em novo, não sei — por via das dúvidas, não deverá fazer mal bebê-lo quanto antes.

Acompanhou hambúrgueres de Wagyu com pão de centeio, um sacrilégio.

5€.

15

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Tome-se o conteúdo da etiqueta "velharias" e junte-se-lhe um décimo, escolhido ao acaso, do volume de "os meus discos" e "os meus livros". Adicionando mais meia dúzia de fotografias sortidas, muitas delas tiradas da web, teríamos o "blog antigo", o antecessor do puto que bebe. Mais sentido e cuidado que o presente, pelo menos no tempo dedicado a cada coisa. Mas, como produto acabado, julgo que mais fraco. Não por certa falta de polimento de que padecia, que era conhecida e tolerada, e menos ainda pela de inspiração ou motivos, que iam e vinham, e muitas vezes estiveram mais presentes que agora, apesar de sob máscaras diferentes. Acho que, na altura, o que faltava era plasticidade e perspectiva na maneira de ver e fazer as coisas. E mais ainda, contacto humano. Era assim, o predecessor do puto, um blogue autista, que, no entanto, era quase 100% eu, ao invés de isto que agora temos, onde o esperado pelos outros, sejam eles quem forem, tem um peso muito maior.

Apesar da idade que avança, sinto-me menos inadaptado, menos marreta que há dez anos atrás. "O J teve uma fase terrível! O J humanizou-se com a idade!" — quantas vezes tenho tido oportunidade de o ouvir! Ora, aí está algo com que concordo. De facto, devo ter-me humanizado qualquer coisa com o tempo e a convivência. Da mesma forma, também terei ficado menos estranho e caricatural, mais conforme a moda. Sei que desde sempre sinto empatia, e mais, verdadeiro amor, por algumas coisas, mas também um desprezo notável por outras, aquelas que, a dado momento, não me interessam. Por outro lado, se tempos houve em que não tinha qualquer problema em evitar conflitos, hoje já não é bem assim. Portar-me-ei, então, "melhor", mais conforme o que os outros gostariam, a priori, que lhes acontecesse nas suas interacções comigo. Mas, e eu? E ainda piora quando, não sei se em momentos de paranóia ou de uma maior lucidez, me interrogo se será possível recalcar sem sentir que o esteja a fazer.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cedro do Noval '2011

Este tinto vem da Quinta do Noval, propriedade mítica, situada perto de Vale de Mendiz.

Bastante macio e persistente, entra comedido, mais vai-se desdobrando em sabor à medida que persiste.

Muito guloso, tem um toque na boca que usualmente associo a Douro de boa estirpe, de vinhas velhas — ligeiramente lácteo, amanteigado também — e bebe-se num ápice.

Acompanhou bem uma porção de "beef pizzaiola" cozinhado no slow cooker, mas foi à sobremesa que brilhou, acompanhado de chocolate preto (Hussel, com 70% de cacau, e Valor, deste).

Com ambos pareceu emanar uma nuvem etérea de lavanda e bergamota, antes e depois, mas não sobre a fruta — escura: amora bem nítida e outros que tais — com que se foi prolongando na boca.

Ademais, vagamente carnento, com ligeiros sinais de evolução.

Levou 20% de Syrah — curioso. Mas este não se destaca do nem no conjunto, que mantém o carácter de um bom multivarietal do Douro, já com a madurez advinda de cinco anos em garrafa: sem dúvida, num óptimo momento para ser consumido.

12€.

16,5

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Velharias (41)

É numa das nossas visitas mensais à mamã, na parvónia, que acabamos a falar do Barrocal e respectivo "gado", como se referia aos que lá viviam um velho conhecido da família.

Há doze anos atrás, o Barrocal estava bem mais cheio de calhaus e vazio de pessoas que agora, o que fazia dele um lugar porreiro para fumar ganza e apreciar a natureza.

Ora, existia lá uma tasca onde eu fazia questão de ir quase todos os dias, quando, por qualquer motivo, me demorava na casa paterna. Era a "Locomotiva" um sítio simples, com café de máquina e água das Pedras, verdadeira, onde podia estar sem ter de me esforçar por me portar bem.

Certo dia de neura, de café tomado naquela que então me pareceu a mais miserável das tascas, não obstante ser um dos meus lugares de eleição, registei as seguintes linhas:

Acabo de tomar café na mais miserável das tascas, naquela parte de Castelo Branco a que chamam Barrocal. Acabo de tomar café na mais miserável das tascas e, contudo, tenho bem assente que não gosto de tascas, e que não gostam de mim nas tascas, e que não preciso de as frequentar. Mas qualquer tasca é boa de mais para mim. Qualquer tasca é boa de mais para mim e ninguém o sabe excepto eu. E não gostam de mim naquela tasca, nem em qualquer outra, certamente porque sou um estranho, um alienígena de aspecto bizarro e olhar alterado, que não encaixa em lugar nenhum. Sou um insulto ambulante. Sou a pior forma de pedantismo. Sou a vaidade burra plasmada num rapazinho com horror às moscas e que insiste em pedir dois pires de tamanhos diferentes com a mesma chávena de café. Um elemento patológico. Um deslocado. Uma caricatura. Um freak. Um anormal.

Entro, mais uma vez, na tasca. Três trabalhadores da CP, fardados, o dono da casa e o respectivo filho, que não deve ter mais de catorze ou quinze anos, mas já trabalha. Sento-me e sou abordado pelo pequeno. "O que deseja?" Não tomarei o que quiser, mas o que desejar. Pêlo do mesmo cão, a dose, o kit de sempre. E o rapaz volta pouco depois com uma chávena de café ordinário, um bocadito queimado, assente em dois pires de tamanho distinto, sobrepostos, porque assim é que deve ser. Mas pergunta-me, como sempre, se quero um copo. E eu quero, de facto, um copo. Um copo para a água com gás.

Não consigo esconder o nojo das moscas, que são algumas, sempre, e em que todos (presumo!) fingem não reparar. E não procuro sequer esconder os meus olhos que faz tempo não dormem, os meus olhos estáticos, injectados de sono e Valium e haxixe. Tiro a carteira, quase com nojo de a depositar sobre esta mesinha de aparência inócua mas presumivelmente imunda, onde mal me atrevo a tocar, só de pensar em quem ali terá estado antes, no que ali se terá derramado e nos panos que terão usado para a limpar. E que raiva . . . UAU! Que MEDO, medo de que descubram o nojo que tenho, mas acima de tudo, de mim próprio, que afinal não sou respeitável, que sou o menos respeitável de todos eles, e que me odeiem ainda mais por isso!

E apesar de tudo o mais aqui emanar um cheiro pútrido, adocicado, enjoativo, a restos de queijo bolorento e vinho derramado, é sobre mim que as moscas teimam em investir. Tento, em vão, espantá-las com a ponta do cigarro, com o jornal que alguém abandonou na mesa, com a carteira, com as mãos. Assim, como poderia pretender passar despercebido? Até as moscas reparam. Até as moscas sabem e parece que se unem para cair sobre mim. O miúdo sai, senta-se lá fora, à porta. O tasqueiro continua a sua conversa com os operários, todos eles completamente à vontade.

Falam de política, de economia, de mulheres. Quatro homens encostados a um pequeno balcão, entregues a uma indolência quase lasciva. Deixo cair a minha atenção sobre a massa informe que representam, qual escultura triste, vagamente animada. Falam com a segurança de um saber simples, mistura curiosa de senso comum com as paixões de cada. Olhos baixos, ouço-os falar, dizer merda — entretêm-se em horário de expediente.

Agora as saudades da moda são do Antigo Regime. Parece que as pessoas esqueceram os cravos que outrora aplaudiram. Sá Carneiro, um D. Sebastião morto: depois dele, o barco não mais parou de meter água. Antes, era necessária uma ordem. Deus, família, Fátima e o Benfica é que eram. Pita que levantasse a garipa, levava. Mas o vento mudou e muitos desses mesmos homens bons aplaudiram os comunistas, que finalmente havia liberdade! Quando a cena deu o berro, viraram, quase todos, centristas moderados. Foram-se aguentando as coisas universalmente fixes, Fátima e o Benfica, e mais o segundo que a primeira...

Não faz diferença. Estou na tasca porque quero, ou então porque não mereço mais. E todos aqueles sacos de tripas que me odeiam e de quem me rio em silêncio acabam por ser bem melhores do que eu. Porque têm as suas vidas, gente que os respeita, gente que gosta deles, gente, até, que depende deles. Muitos terão nascido em condições precárias e toda a vida caminhado na corda bamba, sobre um precipício terrível, mas foram e vão seguindo em frente, sem olhar para baixo. Pelo menos até que caiam, vão vivendo. E até ver, nenhum destes que aqui vejo terá caído realmente. E eu, a quem proporcionaram, desde bem cedo, uma sólida ponte de ferro para que pudesse atravessar sem perigo, abeiro-me da balaustrada, inclino-me perigosamente e vacilo — toda a vida olhei para baixo, empoleirado num corrimão, toda a vida tive tanto desprezo como medo do abismo, toda a vida fui um cabrão ainda menos que hedonista, cheiinho, pior que de medo, de preguiça de viver, uma alma completamente entregue à lei do menor esforço!

Quão desprezível me sinto perante estas ideias que me perpassam a alma, ou o que resta dela, e que talvez nem alma seja, mas um espelho, mais um, de um intelecto retorcido . . . E os meus "companheiros" de café, em pleno turno, felizes, relaxados! Que fiz eu para me poder ver, sequer, remotamente semelhante a eles? Consola-me que, no fim, vamos todos morrer. E se não sou ninguém para aspirar a morrer como eles, o facto é que aí, pelo menos aí, as hipóteses de igualdade entre os homens aumentam . . . Mas só aí, caralho! Ah, Deus deve, de facto, nutrir um amor especial pelos estúpidos! Pudera! Se esses nunca tentaram matá-Lo!

Suspiro. Balcão, pago e saio. Como sempre, o tasqueiro mostra uma boa educação simples, mas irrepreensível, que só me faz sentir pior. Chego a casa com vontade de escrever; creio que isso diz tudo. Merda. Nesta triste vida, como uma simples ida ao café pode ser má.

16/7/2004