segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Marquês de Marialva — Baga: Reserva '2011 e '2012

Depois do 2010, uma muito sucinta "actualização" a respeito dos Baga "Reserva" da Adega Cooperativa de Cantanhede.


2011: Framboesa, cereja, resina, fumados, café — retrato típico da casta com algum envelhecimento. Amplo e concentrado, pareceu-me ser o maior e melhor dos "Reserva" do produtor que já experimentei até à data. 16,5


2012: Cor granada, com bom corpo e acidez. Não se afasta muito do seu predecessor em termos de cheiros e sabores: sempre muito Baga, tão macia quanto possível, quiçá à procura de consensualidade. Mas pareceu-me não ter tanta substância. 16

De qualidade e estilo consistentes e, claro, bastante elevados, estes vinhos poderão já ser considerados pequenos clássicos da região.

Cada garrafa custou cerca de 5€.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Quinta de la Rosa — Reserva '2013 (Branco)

Gosto dos brancos "reserva" da Quinta de la Rosa com alguns anos — envelhecem bem. O último a ser aqui comentado foi da colheita de 2012, abatido em Setembro de 2016.

Em relação a esse, a composição deste 2013 mudou: a quantidade de Viosinho subiu dos 35 para os 60%, sendo o restante uma mistura de Rabigato, Gouveio e Códega do Larinho em proporções que o rótulo não menciona.

Tal como o seu predecessor, metade dele fermentou e envelheceu em barricas e o restante, em inox. Foi engarrafado em Abril de 2014.

Bebido fresco, primeiro sozinho, em jeito de prova, depois a acompanhar salada de bacalhau cozido a vapor, trouxe consigo flores e ameixa, brancas, pêssego pouco maduro e barrica, granito e humidade, tudo envolvido por um véu de casca de limão. Mais que fruta, sobressaíram os amanteigados, especiarias e cremes da madeira por onde passou.

Considerando que estamos no final de 2017, muito ligeira a evolução evidenciada por esta garrafa. E que engraçado quando um vinho me faz lembrar água da chuva a correr sobre granito (não é inédito).

Na boca, longo e delicado, com bom compromisso entre frescor e redondez. Muito bom.

10€.

17,5

terça-feira, 7 de novembro de 2017








Saímos de manhã cedo para correr, mas não foi possível. O gang não deixou.

sábado, 4 de novembro de 2017

Covela — Escolha '2012

O produtor renasceu cheio de vitalidade. Depois de ter achado duas edições do seu varietal Avesso bem convincentes, foi com sobeja expectativa que abri este "Escolha" tinto.

Lote de Touriga Nacional, Cabernet Franc e Merlot, é um vinho feito à beira Douro: veio daqui.

Vê-se no pedaço de mapa devolvido pela hiperligação um lugar chamado Valadares, que não é a terra do seminário do tio padre Alberto, que, à beira dos 90 anos, vai morrendo de tédio num lar para idosos enquanto sonha voltar para África, onde conhece um casal amigo que, garante, lhe dará guarida. Heh.

Servido logo depois de aberto, trouxe consigo muitos frutos negros, vegetal seco e especiado (Merlot q.b.) e um toque terroso que muito me agradou.

Vigoroso e persistente, cheio de sabor, mas também equilibrado, fino.

Definitivamente gastronómico, a acompanhar um assado de lombo de porco e abóbora (e que boa era a abóbora), escorregou-me pelas goelas abaixo como água por entre os dedos — vede a elegância da aposição de imagens.

15€.

17

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Filmes (83)

Raw





Este ano não houve filme do Halloween. Na noite de 31/10 para 1/11 vimos o filme do Al Berto no centro cultural da parvónia. Uma incursão pelo paneleiro Al Berto ou por Al Berto, o homem, que entre outras coisas também foi paneleiro? Depois a noite falhou e deambulámos por aí, de madrugada. Não foi mau, não, mas não teve filme de terror nem missa satânica com sacrifício ritual (merda para o veganismo).




Dias depois, este francês. "Grave" no original. Muito resumidamente, uma caloira vegetariana de medicina veterinária come um bocadinho de carne no âmbito de uma praxe e começa a gostar. Mas isso é apenas a ponta do iceberg, que afinal, a cena com a carne é coisa de família.




A banda sonora é jeitosinha. Por exemplo "Plus Putes que toutes les Putes" por Orties — este link tem de ser: "Première leçon d'séduction / Être une pute avec éducation / Se moquer des garçons / Préférer l’équitation / S'amuser d'la fellation / Censurer l'appellation / Et assurer pendant l'action, han / Acide citrique et phéromones / Faire grimper le métronome".




Os protocolos dos sábios de Sião não me deixam partilhar um bocadinho no Youtube, "blocked worldwide" — e brinco, obviamente: quem não me deixa partilhar o referido bocadinho no Youtube é o direito: aquilo que é justo, pelos melhores motivos. Ai ai, adiante. Bonitinho, vai direito para a "cake box" da mamã. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Almirez '2012

100% Tinta de Toro produzido e engarrafado por Teso la Monja, dos irmãos Eguren.

Uvas de cepas com idades entre os 15 e os 65 anos, das zonas de Valdefinjas e Toro.

Vinificação tradicional, com desengace; fermentação com leveduras autóctones; maceração pós-fermentativa; maloláctica e 14 meses de estágio em barricas de carvalho francês, 30% das quais, novas. Só coisas boas.

Bebido há cerca de um mês atrás, foi ficando no caderninho do álcool. Agora que só me lembro dele por alto, era quente e duro, parece-me melhor reproduzir, a cru, as notas tomadas quando o bebi.

"Escuro, fragrante, muito especiado: o nome assenta-lhe que nem uma luva.

Licor de cereja e chocolate no final, qual sobremesa.

Longo, amplo, texturado e concentrado, de alguma forma acaba por conseguir ser elegante no seu jeito, às vezes meio atabalhoado, de coisa grande.

Um bocadinho agressivo, mas bom. Pede as circunstâncias certas para mostrar o seu melhor."

15€.

16,5

sábado, 21 de outubro de 2017

Druida '2015

Feito por C2O na Quinta da Turquide, em Silgueiros, é um monocasta Encruzado de vinhas com 30 anos, estagiado durante dez meses em barricas, 80% usadas, de carvalho francês.

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Cor clarinha, citrina. Malmequeres, limonado, sílex, pederneira. Intenso e cristalino, quase crocante. Muito limpo, muito fresco, sem o peso ou a oleosidade que tantas vezes marcam os vinhos da casta. Leve, de final longo e bom.

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A garrafa foi sendo drenada à medida que eu ia comendo nigiris, mas, quando um vinho é assim, o acompanhamento pouco importa, a menos que seja escolhido a dedo, para prejudicar. E fazê-lo seria estúpido.

18€.

18

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Nightmares on Wax — Smokers Delight

Nightmares on Wax ou George "DJ E.A.S.E." Evelyn. Um inglês de Leeds.

Este álbum data de 1995, mas envelheceu bem, não soa nada datado, continua montes de fixe.

Acompanhou-nos *tantas* vezes pela EN 111! É, talvez, o nosso disco da EN 111.



Fica a 5ª faixa, "Stars".

E reparem na capa...

domingo, 15 de outubro de 2017

Warre's — Quinta da Cavadinha, Vintage '1996

Propriedade da Symington desde 1980, a Quinta da Cavadinha fica no Cima Corgo, entre o Pinhão e Sabrosa, perto de Provesende. Os seus vinhos são integrados nos Vintage da marca Warre's quando estes são declarados e, em anos secundários, engarrafados como "single quinta".

Este foi engarrafado em 1998.

Tem porte mediano (para Vintage) e frutos pretos, terrosos, com vivacidade, passas, folha de tabaco, chocolate preto e espinafre! — e muito me agradou esse seu tom verdoengo.

Evoluído, com bom corpo e persistência.

Mas isto foi logo depois de aberto. Com o tempo, mais foco e certo carácter mineral, a sugestão — sugestão, mais que impressão, mesmo: poderá ser? — de xisto e giz por entre camadas de frutos negros.

Já passou a fase burra e jamais será glorioso, mas está muito bom!

Foi com bolo de noz e chocolate em barra.

30€.

17,5

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quinta dos Termos — Selecção '2013

Mais um exemplar da ampla gama da Quinta dos Termos, mais um vinho da Beira Interior que aqui é comentado.

Não é que os prefira — parece-me, aliás, que muitos deles seguem o estilo do Douro, desnecessariamente, num terruño a que faltam as particularidades que tornam especial o modelo.

Mas foi na Beira Interior que nasci e cresci e é de lá que gosto. Da terra, do céu, dos bichos, não das pessoas. Afinal, de que pessoas é que eu gosto? :)

Natural, pois, a curiosidade. E as coisas que de lá vêm que são originais, diferentes do habitual, e que calham também ser autênticas, genuínas, fiéis à origem, costumam ser bem giras.

Dito isto, pelo que conheço do produtor, tendo a acreditar que este vinho, nem por isso original, seja autêntico q.b.

Agora, porque me lembrei, porque nem sempre os posts do "Puto" são montados, entre a coisa provada e seus predicados, e a propósito da originalidade, uns pozinhos de meta-blogging:

"No ano de 1945 é adquirida por Alexandre Carvalho a quarta gleba de um prédio correspondente a uma terra no sítio dos Termos ou Vilela", posteriormente denominada por Quinta dos Termos.

A ideia é que alguém siga o link e depois reflicta.

Se atiro pedras sem nunca ter pecado? Claro que não. "Pecco ergo sum". E poucas vezes me arrependo. Mas continuemos.

O contra-rótulo desta garrafa diz que o seu conteúdo "só sai a público em anos de grande qualidade", "pretende homenagear os grandes vinhos das casas senhoriais da Beira" e que é "um lote dos melhores vinhos de Touriga Nacional, Rufete, Jaen e Trincadeira".

Conjunto consonante na madurez e robustez, denso e mais firme que gordo, mostrou-se preso logo depois de aberta a garrafa, mas melhorou muito após uma tarde de arejamento. Fruta escura, madura, e terra, fumados e especiados indistintos. Acidez mediana, algum álcool e taninos firmemente entretecidos. Fim de boca bom.

OK com bife na pedra e seus acompanhamentos habituais, porreiro com muffins de chocolate. Tudo indica que ganhará com alguma guarda.

8€.

16

segunda-feira, 9 de outubro de 2017







Mais uma vez. Lugar bonito e vazio, como gosto. Mas uma certa atmosfera de fim, de morte. Questões interiores, provavelmente.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Dois Ponto Cinco — Rufete, Vinhas Velhas '2013

Produzido por Dois Ponto Cinco, Vinhos de Belmonte. A marca "2.5" relaciona as vinhas dos cinco sócios que constituem a empresa com as duas freguesias do concelho de Belmonte onde se localizam as suas vinhas; a adega é em Caria.

Introdução no contra-rótulo: "As vinhas velhas, não aramadas, da variedade Rufete resultam num vinho quente que associa a elegância à robustez. O estágio em barrica lapidou as arestas de uma vinha carregada de história."

Primeiro dia, depois de respirar talvez meia hora, sozinho e com bife na pedra: Fruta vermelha e flores, ervas amargas, malte, café, tosta. Porte mediano e ligeira aresta — tanino. Seco, não áspero, e muito gastronómico.

Mas, acima de tudo, original.

Terceiro dia — no segundo não bebi: Argyreia — Super vivo. Morango, agora nítido, químico e medicinal. Em boa fase, mas poderá valer a pena guardar... para satisfazer a curiosidade, acima de tudo.

11€.

17

terça-feira, 3 de outubro de 2017

¿Podemos, como afirman algunos sabios, ver nuestra vida como un sueño del que habría que despertarse?

Yo diría más bien que de este sueño inconsciente que suele ser nuestra vida hay que hacer un sueño lúcido. Hubo un tiempo en que, antes de dormir, tenía la costumbre de pasar revista a todos los sucesos del día. Visualizaba la película de mi jornada, primero de principio a fin y, después, a la inversa, según el consejo de un viejo libro de magia. Esta práctica de la «marcha atrás» tenía el efecto de permitir ubicarme a cierta distancia de los sucesos del día. Después de haber analizado, juzgado y tomado partido en el primer examen, volvía a repasar el día en sentido inverso y entonces me encontraba distanciado. La realidad así captada presentaba las mismas características que un sueño lúcido. ¡Entonces me di cuenta de que, al igual que todo el mundo, en buena medida yo soñaba mi vida! El acto de pasar revista a la jornada por la noche equivalía a la práctica de rememorar mis sueños por la mañana.

El solo hecho de acordarme de un sueño es ya como organizarlo. Yo no veo el sueño completo, sino aquello que he seleccionado de él. Análogamente, al repasar las últimas veinticuatro horas, no tengo acceso a todos los actos del día, sino a los que he retenido. Esta selección constituye ya una interpretación sobre la cual baso luego mis juicios y apreciaciones. Para hacernos más conscientes, podemos empezar por distinguir nuestra percepción subjetiva del día de aquello que constituye su realidad objetiva. Cuando ya hemos dejado de confundirlas, somos capaces de asistir como espectadores al desarrollo de la jornada, sin dejarnos influir por juicios y apreciaciones. Desde esta actitud de testigo se puede interpretar la vida como se interpreta un sueño. Por ejemplo: un día Guy Mauchamp, un alumno mío, me pidió consejo; no sabía qué hacer para que unos inquilinos jóvenes y desaprensivos desalojaran una casa que era de su propiedad. Después de expresar mi extrañeza porque no hubiera acudido a la policía, puesto que la ley estaba de su parte, le dije: «En cierto modo, esta situación te conviene. Gracias a ella, expresas una vieja angustia. Te propongo este planteamiento: considera esta situación como un sueño que hubieras tenido y trata de interpretarla como interpretarías un sueño de la noche anterior. ¿Tienes un hermano menor?». Me contestó que sí, y entonces le pregunté si, de niño, no se sentía postergado cuando ese nene captaba toda la atención de sus padres, y él respondió que así era, efectivamente. Después le interrogué sobre las relaciones que ahora mantenía con su hermano. Como yo imaginaba, Guy me confesó que no mantenían buenas relaciones ni se veían nunca. Entonces le expliqué que era él mismo quien propiciaba la invasión de los inquilinos, a fin de exteriorizar la angustia que en su niñez le causaba la presencia de su hermano. Añadí que, si quería que se resolviera la situación, era preciso que perdonara a su hermano, que lo tratara bien e hicieran las paces. Le di un consejo de psicomagia y, al cabo de una semana, recibí una postal de Estrasburgo («Fuegos artificiales en la catedral, explosión de sagrada alegría») con el siguiente mensaje: «En respuesta a mi consulta, me prescribió un acto de psicomagia y, para concluirlo, le doy el resultado. Tenía que ofrecer un ramo de flores a mi hermano y almorzar con él, a fin de establecer una relación fraternal y dejar a un lado el pasado en el que me sentía desplazado por su causa. El objetivo era conseguir la marcha de los inquilinos ilegales de mi casa. Envié las flores a mi hermano y hablé con él el viernes a mediodía. El viernes por la noche los dos inquilinos se marchaban... ¡llevándose mis muebles! Pero, en fin, se fueron, y pude recuperar mi casa. Gracias». Interesante, ¿no? Llevarse los muebles era como llevarse una parte de su pasado.

Es decir, usted indujo a ese joven a interpretar una situación real como si se tratara de un sueño lleno de símbolos que descifrar...

Exactamente. Puesto que soñamos nuestra vida, vamos a interpretarla y descubrir lo que trata de decirnos, los mensajes que quiere transmitirnos, hasta transformarla en sueño lúcido. Una vez conseguida la lucidez, tendremos libertad para actuar sobre la realidad, sabiendo que si sólo tratamos de satisfacer nuestros deseos egoístas seremos arrastrados, perderemos la ecuanimidad, el control y, por lo tanto, la posibilidad de hacer un acto verdadero. Para lograr divertirnos actuando, tanto en el sueño nocturno como en este sueño diurno que llamamos vida, hemos de estar cada vez menos implicados.

Ese distanciamiento que no impide ni la acción ni la compasión, pero no autoriza ni la codicia ni la sensiblería, se parece mucho a la sabiduría.

¡Desde luego! ¿De qué puede servirte vivir con tus sueños y hacer un esfuerzo para conseguir la lucidez sino para encontrar la sabiduría? La realidad es un sueño en el que debemos trabajar a fin de pasar progresivamente del sueño inconsciente, carente de toda lucidez, y que puede ser una pesadilla, a lo que yo llamo el sueño sabio.

¿Y el Despertar? Las tradiciones espirituales hablan de los que han despertado...

Despertar es dejar de soñar, desaparecer de ese universo onírico para convertirse en aquel que lo sueña.

Alejandro Jodorowsky, "Psicomagia"
Ed. Siruela, 2004

sábado, 30 de setembro de 2017

Gautherot — Grande Réserve, Brut

Este foi tomado em casa do vizinho. Acompanhou passas e nozes.

Dourado claro.
Limonados e maçã madura, massa de pão, ameixa branca.
Leve, de bolha fina e mousse rica, cremosa.
Sem ser um monstro de complexidade, sem ser, aliás, um monstro do que quer que seja, mostrou-se intenso e equilibrado q.b.

75% Pinot Noir, 20% Chardonnay e 5% Pinot Blanc. O produtor diz que para este apenas foram usados os primeiros mostos procedentes do prensado, tendo o resultado amadurecido "mais de 30 meses" em cave.

Bonito, bonito! :)

18€.

16,5

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Soapkills — Bater

Este foi o primeiro álbum dos Soapkills, lançado em 2001.

Soap kills, os assassinatos que talvez um renascer forçado da terra martirizada do Líbano queira limpinhos, após tantos anos de sangue. É melhor viver o presente e a projectar, que seja o futuro.


I want to go, I want to stay
I want to stay with you all day
But if I stay with you all day
I forget who I am
I want to know why you don't want to see me like you always do
And make me feel good and happy
Coit me
I dont know
I want to go


... em loop.

E mais que compreender, esta sinto.

#5, Coit Me (Zeid Mix)

domingo, 24 de setembro de 2017

Quinta do Vallado — Reserva '2010

Do contra-rótulo: "Este vinho é proveniente de vinhas velhas, com mais de 80 anos. Foi engarrafado após um estágio de 17 meses em meias pipas de carvalho francês".

Fruta e especiarias — ameixa, cereja, bagas, esteva, flores, químico, terra, chocolate, pele, café e podia continuar, mas estaria a repetir-me, a ser cansativo.

Enfim, um conjunto muito típico do Douro. Concentrado, cheio de puf, mas elegante também.

Como aquelas gajas grandes que não são trambolhos; não me ocorre melhor imagem.

E como tantas delas, mais que palatável, interessante. Mas sem conseguir plenamente o passo seguinte: excitar.

30€.

17

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Velharias (45)

III


Regresso à parvónia e a princípio está tudo bem, até recomeçarem as chuvas que me deixam de rastos, desejoso de ir para longe, descer a grande avenida em direcção aos peixes. Um indivíduo farta-se de sofrer. Podia ser agradável, mas a sofreguidão prevalece.

Para que me abraçes como se fosses meu amigo quando certo dia me vieres visitar e ela, chegando-se para junto de ti, te começar a explicar como funcionam os tubos e os sacos e os interruptores; quando repararem que afinal estou sempre desperto, mas tu só o saberás pela boca dela quando to disser na minha presença "Ele está vivo e até costuma estar acordado só que quase não se nota" — e eu vou ouvir, e não poderei dizer coisa alguma.

..................................

Eu existo e sou mau. Somos todos maus. Duas guerras mundiais a prová-lo. Cinquenta milhões de mortos não podem estar enganados. Todos sentimos ódio. Todos podemos negligenciar a vida dos outros, em dadas alturas. Todos podemos ter ideias auto-destrutivas. Não, não é o meio, a sociedade, que faz de nós aquilo que somos. Não, a bondade não é inata. Se assim fosse, a bondade revelar-se-ia pelo isolamento, pela abstracção do meio. Cada sistema dá um nome diferente a este estado, a verdade é que não passa de uma utopia. Utopia ou treta, não encaixam bem uma na outra? Todos eles. Não existe nirvana, a necessidade vai fazer-te acordar e procurar mais droga. Que bom, não é? O homem é sociável por natureza, natureza essa que nos é tão intrínseca que dela não nos podemos livrar, mas isso nada diz acerca da bondade das nossas intenções para com quem nos rodeia. Já chega. Nós sabemos demasiado bem até que ponto somos maus, e alguns continuam a descobrir-se.

Ainda bem.

Odeio-te. Não me abandones.

Pois quando o T regressa das Caldas com a M e o V não hesita em avisar-me, e agora nem X nem D, não estou para aturar ninguém mas a primeira coisa que faço é meter-me em casa dele. Dois dias depois do Natal rumo a sul com o conhecimento de uns papás muito contrariados por me verem de novo com os "históricos" da cidade. Finalmente juntos de novo, uma grande família feliz! E assim a linda Anj, qual canção de Bob Dylan, vai tagarelando enquanto fazemos tempo à beira daquele armazém tão grande que teria superfície para albergar centenas de automóveis num só piso — Anyway, if you have to call me something, let it not be Angelina, as we aren't here for reciting a poem, I will go by Angie or Anj... — Encontrou o preto dos pózinhos de perlimpimpim à porta da DSL. Triptamina. Também comprou Absolut, pão de forma, nozes e queijo Brie. Noutra altura sentir-me-ia talvez ofendido com o quão explorados estamos a ser desde que viemos. Esta chulice recíproca é doentia, lá bem no fundo odiamo-nos todos uns aos outros. Hies! O problema somos nós. Enquanto alguém necessitar de drogas, haverá sempre quem as forneça, evidentemente. — Oh look! Tryptamine! Any idea what it's for? — Sim, já ouvi do foxy methoxy 
 Aqui não posso deixar de sentir uma pontada pelas meninas que deixei lá em cima, na eterna cidade dos peixes e dos pássaros — Esta noite vai ser agradável. Dez miligramas diluídas em água. Howdy, isto sabe a merda — Tastes like shit — Passam quarenta minutos de conversa de chacha até à primeira referência mais atrevida, mas não tanto como a que se lhe seguiu, as que se lhe seguem, e a corrente de ar, ar gelado da noite, é agora uma brisa de primavera, porque lá fora é dia, o preto vai estar sempre ao virar da esquina e não há que ter pressa, o preto vai fazer-nos esperar — é em fazer esperar (e desesperar) o cliente que assenta toda a filosofia por detrás de um negócio de droga e quem não compreende os motivos que levam a isso é burro. Divinalmente burro, burro por não querer saber, ou querer saber só um bocadinho. Como ela disse um dia, uma doçura de burrice. Agora compreendo: as nossas vidas não devem valer muito para podermos continuar aqui trancados sem que ninguém venha saber de nós. Avé telemóvel! Mas. (Um meio sorriso.)

(Um baixar de olhos) Mas não os censurava eu por se repetirem dia após dia naquele exercício a que chamam rotina? Que é isto senão uma rotina? (Quando se levanta, olha para baixo.) Drogar-me e escrever, drogar-me e mudar o disco que está a tocar, drogar-me e olhar para as sombras, para a cama de ferro onde estamos deitados, para a mesa de cabeceira a abarrotar de CDs, para este computador, ao lado do rádio, em cima da cama? (Espera...) Olhar para ti, que dormes. Sentir a dor. Vou à cozinha, cada um continua na sua, ninguém me tenta deter quando tiro uma das embalagens de pão de forma e a trago comigo de volta à cama. Vai ser o nosso pequeno-almoço, meu e da Anj, se tiver coragem para a acordar. Cigarros e droga.

Deixei de sentir sede. (Mas rapidamente recupera a graça, e brilha.) Qual deles estará (ainda!?) a beber vodka? Deixei de sentir sede. Cigarros e droga, uma simples fatia de pão de forma quando a secura se torna intolerável e necessito de salivar. Pensando bem, não estou nada mal. Merecerá esta aberração frásica o epíteto de tautologia imbecil? Ay! Apercebo-me de que todas as coisas da vida que noutra altura classificaria de desgraças, estando drogado, não passam de pequenas chatices, isto quando não se tornam um... indefinido "muito fixe".

Que tem as suas vantagens. Não achas?

Preciso de trocar de discos; já ninguém fala comigo. A verdade é que andamos todos fugidos.

Durante os anos 90, o mundo sofreu uma alteração singular: a nossa crença no progresso pela evolução como meio para alguma utopia futura foi substituída por um falso niilismo, um ser-para-nada assente na desvalorização, por perda de sentido, da vida. As pessoas já não se preocupam sequer com as suas próprias vidas. Perdeu-se quase completamente o apelo à auto-preservação. O mundo deixou de ser um local frio, o mundo morreu.

As pessoas já não arriscam, suicidam-se colocando as suas vidas nas mãos de outros; só a tua reacção, a tua, que não conheço de lado nenhum, ela e só ela pode evitar as nossas mortes. Porque eu assim quis. E isto não é nada num mundo onde se mata sem motivos, por indisposição momentânea ou porque sou um vampiro, ou talvez um demónio e matando-os tornei-me imortal, e afirmá-lo-ei até ao fim, afirmá-lo-ei quando me amarrarem para a última injecção. E vivemos muito bem com isso. Não vivemos?

Afinal, se a vida nada significa, que pode significar a morte? Nada? Temos então um mundo de crentes niilistas? E não é o niilista um não-crente?

Como poderia Deus dar às suas criaturas uma prova da sua existência? Enviando algo, que para poder ser compreendido teria de se tornar parte do universo, logo indiferenciável das restantes coisas. Um verdadeiro Filho de Deus não seria necessariamente acreditado por todos. Um Deus cego, surdo e mudo, o nosso! A razão foi feita tendo em conta os desígnios de Deus. Não podemos discuti-los, falta-nos mais do que uma linguagem para tal. Meti-me na droga, digo, comecei a experimentar porque julgava ser essa a porta para alguns desses desígnios. Não é. Shall it be worth to give Jesus a try? E se Cristo, porque não Kant, Milton ou Kierkegaard?

Há azuis que não apagam.

O problema é que, ao contrário dos demónios, nós não buscamos a perfeição.

A casa de banho oferece-nos uma ilusão de óptica tão invulgar como interessante: as paredes encontram-se revestidas por azulejos, losangos pretos e brancos que nos fazem sentir debruçados sobre o fundo da retrete, numa sala inclinada para a frente, a ponto de cairmos no lago. Ou pântano, é conforme.

Já tinha visto uma parecida. Onde?

Como vou sair daqui? Para que morada pedirei um táxi? Para a casa na encosta da serra, virada para o rio que em certas noites aparenta rugir quarenta metros mais abaixo? Para onde? E quando voltar a ser a minha vez de sair para comprar comida? E quem determina quando é a vez de quem? E onde estarão eles, que não falam nem se mexem, sempre deitados em cima da cama, e após algumas horas a ler ou a ver televisão se levantam e vão à cozinha para logo regressarem com comida ou água ou vodka ou mais uma dose seja do que for, que variedade não falta por estas bandas? E os meus pais? E tu? Perturba-me a possibilidade de já aqui estar há demasiado tempo. E os outros? Terão dado pela minha falta? Terão estranhado? Não deverei sair deste purgatório, como ontem à noite, e ir às compras ou enviar uns sms? Não terei cessado de existir? Será que só existe o que é percepcionado? Ou terão as coisas uma existência objectiva? Mas um universo concreto não forçaria a existência de Deus? Deus, como causa incausada? É perfeitamente possível. A recursão infinita não passa de um falso recurso para tentar invalidar Deus. Se Deus criou o universo, então algum meta-Deus terá criado Deus, e assim sucessivamente, até ao infinito. Mas essa afirmação só vale se insistirmos em ver Deus como parte do universo; um Deus exterior ao universo não teria, de forma alguma, que obedecer às leis do universo por si criado. E é esse o Deus transcendente, aquele que nunca conseguiremos compreender por não pertencer ao universo que criou. Então qualquer ideia humana de Deus é de desprezar — somos quase cegos, mas ainda descortinámos esse limite. Somos humanos e Deus não é connosco. Filosofia de retrete? Em cheio! Sentado!

O fim de Deus deixa um enorme vazio. Vazio porque, transcendente ou não, é um Deus que vive das especulações do homem. Ou melhor, da sua hipocrisia. Deus é um nome porque tudo tem que ter um nome. Valerá a pena louvar um Deus impossível? Valerá a pena louvar um Deus que não sabe de nós? Valerá a pena louvar um simples nome?

Ou a necessidade de um nome?

Os graffitis só se tornam belos quando morrem. Olho para o tecto e recordo uma noite de folhas secas e poças de água, noite em que revisitei o Sew!, o Brave, a Lacrimosa e tantos outros. Penso em ti nessas noites de paz tão raras na cidade quando saio para ver o passado desfazer-se e apodrecer nas paredes e nos placards. Nem assim. Poderia fugir para o fim do mundo, virias na mesma comigo. Suffering is permanent, obscure, and dark. And has the nature of infinity. Oscar Wilde, De Profundis. Ao menos a melancolia foi-se, infelizmente nem eu sei bem o que a substituiu cá dentro. Um profundo desinteresse? Mais, é mais que isso. Que sentirias no meu lugar? E que valor darás à tua alma quando chegar a hora?

Beauty can only be kissed!

A cidade fere-me. Os automobilistas são todos uns anormais. Junto de uma terra que tu persegues, a 17/6 de 1982 — Traz o anel preto que te dei quando voltares the entire machine of reality going down the drain, esquizofrenia coroada por uma inactividade total, o anel, quero ver-te com ele, só assim saberei se me ouves ou não. Quando não são baratas e centopeias, aranhas, piolhos e velhos budas de loiça, são inimigos gelatinosos que fazem parte de todas as coisas, que me cercam, se roçam em mim, sorvendo a minha força vital, e não posso fugir, e não sei quanto tempo passou, nem onde estive. Mas não devo ter saído daqui, distraído pela vida dos monges Birmaneses vendidos à TV. Se visse? Ele! Será que Buda iria ficar satisfeito? Admito que fiquei com inveja. Proibidos de trabalhar, têm que se sustentar de esmolas. Porém, a intocabilidade social de um monge é um lugar-comum daquele povo, que se sente obrigado a sustentá-los. Assim, é natural que — literalmente — o povo faça bicha para dar esmola. Foda-se. Que vida boa! O povo faz bicha para dar esmola! Seria tão bom ter uma vidinha estável de monge, sem trabalho, com uma responsabilidade puramente espiritual e por isso mesmo muito relativa... na terra das esmolas e do ópio.

Subitamente, acabou tudo. Por algum motivo necessitei de comprar água-de-colónia e pilhas. Que noite esta, o centro comercial ali a meio da avenida deve ter lojas abertas, que sorte, a última loja aberta, a rapariga ao balcão aguarda certamente alguém, tudo desarrumado como num quarto de estudante, luzes brancas, como as das cozinhas, tão mais fortes, a rapariga ao balcão deita-me olhares estranhos enquanto vagueio por aquele covil branco-neve em busca de água-de-colónia. Dune. Não. Givenchy. Não. Aproxima-se sorrateiramente, mostra-me 456, é mesmo esse, agradeço, os seus olhos iluminam-se, só quando a sigo até ao balcão para pagar e lhe pergunto "Quanto é?" se decide a miss a falar-me — Olha olha, aos anos! — Conhece-me? Lembra-se de mim? — Sim, J. uma vez deixei-te lixaaaaaaaaado (risos), quando eras pequenino. Preso entre dois júris, dessa vez ficaste feito numa furiazinha (ferret). — Han? Então? — Então? Então porque é que existem fotografias de Antero de Quental? Nessa enrolei-te bem, meu lindo. — Foi há tantos anos. Eu era o puto sobredotado ou com ganas ou com fama ou com aspirações a isso, essencialmente puto, ela a cavalona filha do vizinho de baixo, ninguém a via no prédio com bons olhos por ser gira e puta, naquele prédio, naquela altura, se ser puta era uma objecção, ser gira consistia numa autêntica refutação da pessoa, a miúda só alcançou paz depois de ter, a seu tempo, ido drogar-se para Coimbra, depois Lisboa, depois para NYC, agora na loja do shopping, a verdade é que dessa vez me enrolou e bem, afasto-me, 456 não, sento-me naquele chão branco, losangos azuis-escuros onde reflorem vários frascos de perfume entre embalagens, algumas fechadas, outras abertas, de papel higiénico, quando se volta a aproximar de mim por trás. — Os teus pais não gostaram nada. (Mas eu não me lembrava de uma discussão com júri à volta de Antero, só de me ter posto a ladrar com os outros putos à porta de um prédio onde já não moro, certa vez, há tantos anos, por a ter catado a beijar o namorado... e tembém me lembro de ter sido forçado a pedir desculpa.) — Hum. Há bocado passou-me pelas mãos qualquer coisa que não conhecia, mas cheirava mesmo bem 
 digo às paredes porque ela foi-se, nem sequer dei conta, mas volta, aponta-me um pequeno frasco, é isto, era mesmo este — J, sempre o mesmo velho J, furiazinha, ferret, o teu fave é Yvresse, de senhora. — Mas não, mas não... Não há perfumes de homem e perfumes de senhora, há-os bons e maus. — Com grande à vontade. Caixa. A minha situação aqui deve fazer lembrar a de um gato no veterinário, cheio de vontade de fugir, tão astonished pelo branco sobre branco do consultório que afinal acaba sempre por ficar quieto em cima da mesa. — Olha estou muito contente por te ver. Tenho aqui a loja há pouco tempo. Ainda ando em mudanças.  Sim. tens troco disto? (Uma verde.) — Tenho. Desde que o velho Cid lá da casa morreu, a vida corre-me bem. — Pois também acho que sim, rapariga. Ainda não chegaste aos 30, também já não deve faltar muito e fartaste-te de vadiar por aí mas parece que tens 25. Bolas, cabedal brilhante sobre cabedal brilhante e cabelinho à Alanis, mas que faz esta gaja ao balcão duma loja? Tira as botas, muito altas. — Huh? — Posso tirar as calças? — pergunta-me no momento em que entra outra pessoa, outra, a Inês, da idade dela, certamente amiga de longa data, continua — Já volto. Esperas um bocadinho? Não demoro. — Ok. — E espero quando saem as duas para o shopping enorme, deserto branco pálido brilhante, abrasado por milhares e milhares de watts de luz, branca, luz que me parece ainda mais forte agora, sózinho na loja, porta fechada.

"C...?!"

Passam duas horas. Tirou as calças e as botas para sair!
Visto o casaco e retiro-me. Ninguém me impede. Um segurança dá-me as boas noites à saída. Nem sombras delas. Abandono o shopping e dirijo-me finalmente a casa no ar gelado da noite.

Desta vez não foi necessário um instante para que tudo mudasse. Não precisei sequer de uma razão. Apercebi-me, talvez tardiamente, de que andava a viver em função dos outros. Daquilo que desejo de A ou com B ou por C ou contra D. Sempre os outros. Dos meus amigos, o Clube dos Coitadinhos, uma vozinha que se eleva: "eu sou diferente, tu não compreendes, eu necessito de... [um qualquer estupefaciente, e saliente-se bem a entoação do necessito]". Que engraçado. E a mim, quem compreende? Quem se esforçou ou esforça por me compreender? A resposta é simples: ninguém, nunca. Mas eu tenho que compreender, digo, aceder aos caprichos mais ridículos de A ou B precisamente porque sou um amigo e só por isso; para mais A e B são vítimas livres de culpa, com enormes gastos no psiquiatra a comprová-lo. Ora bem, mas eu sou amigo porque aturo e aturo por ser amigo, por esta ordem, ad infinitum?! Não me encontrarei perante um "beg the question" clássico? Uma falácia? De facto, que ganho eu com eles? Menos que nada: até à data, o Clube dos Coitadinhos tem-me rendido apenas problemas e situações mais ou menos caricatas. Mas são amigos e não são os únicos. Também me dou bem com os Pintas, o que não há a dizer deles! O Pintas (ou smart ass) típico é um indivíduo seguríssimo, cheio de presença, dotado de um saber viver extraordinário, bem falante, capaz de chocar quando e porque quer — os Pintas são maravilhosos e certamente dominariam o mundo se não fossem tão estúpidos. Será que o Pintas médio não consegue colocar a hipótese de que talvez os outros — neste caso, os outros são todos aqueles que não possuem pinta suficiente para ser Pintas, por exemplo, eu - consigam compreender os esquemas que lhes tentam impingir e se ficam calados é para evitar conflitos? Porque o Pintas costuma ter mau feitio. Afinal, se ele sabe que é o maior, quem são os outros para o criticar? Os Pintas são demasiado estúpidos para se poderem considerar perigosos, logo são bonzinhos, são amigos! Como os Possidónios, também eles deveras interessantes. Interessantes, ou que dizer daquelas alminhas capazes de torrar o ordenado de um mês numa só noite em que nem sequer se vão divertir muito, só para se sentirem vistos? O Possidónio é um escaparate de estilo: corta o cabelo numa lojinha frequentada pelos "vips" da Vip, toda laranja brilhante e branco, onde ainda aproveita para comprar um par de sapatilhas da mesma cor, horríveis, mas ser-se uma vítima do estilo é presentemente muito fashion (a afirmação anterior só pode ser compreendida por Possidónios), o que nos leva de novo para junto da alminha, agora feliz da vida enquanto passeia as suas brand-new-shocking-orange-sneakers pela esplanada da Bica do Sapato e ri muito alto na esperança de que alguém repare em si. O Possidónio é os sítios onde é visto e a tralha que traz em cima quando é visto. Não possui qualquer outro tipo de substância. É indiferenciável do meio, quando no seu habitat natural. É fodido. Nem mais. Meu Deus, porque é que os meus amigos são todos anormais?

Esta reflexão não é, ela mesma, mais do que um grande e libertador FUCK YOU cuspido na cara do mundo. Vibro a cada novo "Meu Deus" de estupefacção que me lembro de soltar. Oh sim, Deus. Morreu. Nietzsche. Não preciso de saber se sou senhor do tempo para construir o meu próprio destino. Não tornarei aqui. Ditto. Desta vez já sei com que contar. Não preciso sequer de me afastar. Basta aceitar. Que significa dizer não. Uma vez bastou. Não me deixarei prender outra.

1/12/2002 - 1/1/2003

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Velharias (44)

II


Não há nada como um dia ou dois sem sair de casa. A noite anda doente, apesar da lua. O dia é pavoroso. Tenho medo das pessoas. Põem-me o cérebro a fazer click. E o tubo de ensaio cheio de sangue feito indicador do nível de ódio transborda. Eu odeio. Porque são eles tão hostis? Naturalmente, em casa é melhor. É quentinho, ouve-se sempre mais um disco e pouco me interessa o surreal que isto se está a tornar enquanto espero por coisa nenhuma, olho para o tecto e vejo que afinal está tudo bem, ligo o computador, ocorre-me que quando for grande eu quero é ser drogado. Period. Sentado, podia ficar aqui mais cinco minutos ou duas horas, tanto faz — Se não for nesta cadeira é noutra, talvez me levante e vá à janela quando ouvir o barulho do camião do lixo — Entretanto faço um charro. Tem piada, comprei Lucky Strike. É o tabaco da S. E do P. E da pita. Era o tabaco da pita até se ter passado com os cigarros extra-finos de uma prof. — Karelia, nunca ouvira tal nome, de tão giros nem sequer parecem tabaco de puta, pena serem tão maus, coitadinhos, não ardem, não fazem fumo, ainda menos que Silk Cut. Os maços mais bonitos costumam ocultar cigarros atrozes e que diabo, digo para as paredes, que diabo, sim, nunca tinha pensado nisto. Agora fito estupidamente o tecto e nem de olhar para o tecto tenho vontade; simplesmente não me apetece nada, porque sim, merda para os que contestam a força do "porque sim", que tal ente não foi feito para ser contestado. (Porquê?) Tem uma razão muito sua, neste momento diria a da ausência, essa falta última de força que já nem para chorar ou soltar uns gemidos sempre reconfortantes de auto-comiseração se faz chegar. Nada, à espera do sono ou do desejo de ter sono caso não consiga adormecer, mas só e ao frio ou nas cortinas ondulantes como aquele adeus de ontem, hoje é diferente. Hoje não, infelizmente.

Tonight the moon is very bright.

Enfim, vicissitudes da vida. Preciso de me entreter, só não sei com quê. Haja paciência. Nem tudo nesta vida é mau, há fases, têm que ser umas para as outras ou trabalha-se hoje para... para absolutamente nada porque o amanhã não vem mesmo que pensemos nele o tempo todo, mesmo quando nos sentimos presos ao agora há sempre a esperança ou a promessa de mudar alguma coisa, mas amanhã ou depois ou depois & I wonder which wonders may I have pictured today to be here, alive & awake, thinking this pink instead of shouting — NÃO, PÁRA, PÁRA!; — JUST TO THANK YOU FOR THE ROSES; — DESLIGA ESSA MERDA!; — FOR THE ROSES — CHEGA!!; — JUST TO!!... — dizes-me? É evidente que não. Nunca me disseste nada. Nada sabes sobre mim — quem diria? — Quando era mais pequeno, adorava objectos perfumados. Sabias? Tinha uma fixação invulgar por canetas "que cheiram bem", daquelas com argolinhas bonitas, vermelhas, amarelas, azuis, lilazes ou verdes que correspondiam a outras tantas pontas multicoloridas. Davam imenso jeito: trazia o estojo completo condensado numa só caneta que as pitas adoravam. Nessa altura deve ter sido algo muito importante para mim e nada adiantarei sobre os actos que essa espécie prematura de paixão me levou a praticar. Estou-me nas tintas. Agora já não interessa. Levanto-me. Já se enrolava mais um charro. Gosto de droga. Também gosto de escrever; é como praticar uma confissão mais ou menos solene, mas em vez de um padre rabugento há apenas uma folha de papel perfeitamente inerte que em tudo concorda comigo, que não se impacienta mesmo quando lhe pergunto de quem é a culpa — é do mundo e nós somos apenas vítimas, pois. É confortável, a companhia da folha, que tudo aceita sempre da melhor vontade, mesmo os blues mais sombrios aqui do je — E volvido um instante galopa ou arde ou explode naquilo que eu quiser, sem um queixume. Sempre sem aquele frete das trinta Ave Marias... ainda por cima ajoelhado num pano ou almofadinha que já foi pisada umas cinquenta vezes hoje e está bem mais suja do que o chão à sua volta. Pois eu enrolo um anão gordo nas costas desta minha confidente que como de costume não diz nada e digo-lhe "folha, linda, adoro anões gordos, cabeça bem cheia de haxixe", e ela fica a saber, e se o Ti António lhe perguntar "que ganzas prefere o Joquinha?" ela responderá, tão fiel que até empregará a primeira pessoa com que se lhe me dirigi "adoro anões gordos, cabeça bem cheia de haxixe". Não é engraçado? Eu acho. Quase tão sheer como entrevistar um drogado. Alguma vez conversaste com um drogado? Digo, um drogado como deve ser, um junky. Pois é assim que começa. Assim. Assim. Assim, e assim dispara porque aquele cérebro morto se quer convencer de que ainda vive, assim porque realmente se sente um pouco mais vivo e bla bla bla bla quando realmente se sente acordado ou funcional, ou capaz de conversar-viver para algo, por mais insignificante que seja, diferente do seu vulgus psicotrópico — junk, mas espera um pouco, e assim fala fala e fala depressa, muito muito depressa, fala pelos cotovelos bla bla bla a princípio obedece à necessidade de um sentido ainda perceptível para o interlocutor mas acelera — sheer happiness! I'm alive, oh joy oh joy — bla — Até só sobrar espaço para mais blablablas sempre encaixados no mais certo dos tempos — E pára quando já ninguém excepto — talvez — ele próprio compreende uma palavra do que está aquela coisinha a dizer, assim, porque já ninguém lhe está a ligar nenhum, e sente-se só, incompreendido, infeliz, frustrado e traído sem que a culpa seja dele ou de qualquer outro (e não é isso o que todos desejam, que as suas culpas morram solteiras?) — Sente-se morrer de novo, infeliz porque aquele gajo foi outro fiasco e não quer saber de mim e ri-se, e goza porque não compreende, ninguém compreende — Eu só queria ser ouvido — foda-se — E abranda. E volta a perceber-se. E percebe-se que é só mais um drogado. A quem dou, ou dei um cigarro — Que ele só vai aceitar, sem agradecer, porque fui um fiasco. Livre de culpa — Puro — E nunca mais vai querer falar com ninguém — Até lhe voltar a apetecer. Até lhe voltar a apetecer sentir-se pior. Assim.

É mais ou menos assim, falar com um junky. Não é engraçado? Não desperta uma imensa curiosidade? Não será motivo para uma pontinha de inveja? Drogado? Junky? (Wouldn't you?)

A porca! Chegou a porca! Faz roonc roonc e tudo! — O! Nunca me tinha passado pela cabeça que talvez lhe chamassem porca por causa deste barulho característico. Barulho, não ruído: a porca percebe-se, a porca esforça-se por se fazer compreender. Ronca, sim, está viva e fala: — Ruuuui arrr... rrrrasta o raio das garrafas parrrra 'qui... Raioooooooshh... — Porque terá Deus posto este singular animal de lata a falar a linguagem dos suínos? Chego-me à janela, debruço-me um bocadinho e vejo uma porca sofisticada, própria para recolher materiais recicláveis. Faz um barulho dos diabos. Odeio-a. Dá-me vontade de falar com Deus, mas em vez disso acabo a murmurar sozinho as ladainhas do costume, tão gastas que já me habituei a não reparar nelas e tão estranhas que nem eu mesmo as percebo. Que conveniente. Pareço um árabe a rezar, é fodido, eu sei, mas sou como sou e se pareço um árabe a rezar, paciência. Entretanto foi-se embora. Será que aquelas bestas tinham mesmo que esvaziar a merda do vidrão hoje? E se foi só para me incomodar? Não. Que estupidez. Claro que não foi só para me incomodar. O certo é que incomodou. Merda para eles. Merda para eles, mas quem fica deprimido sou eu. Filhos da puta, estava tudo tão bem até terem aparecido! Será que o problema está em mim? Não sei. Dava tudo para descobrir, e em nome dessa busca já se fazia outro charro, Este Anão (gordo) — Enquanto o enrolava revivi um incidente curioso por que passei há umas semanas com essa amostra de neo-Nahoot a quem chamam S. (Nahoot deve ser uma coisa boa, fique a menina descansada). Fumava eu um Lucky na cozinha dela quando subitamente me disse — Estás a fumar um Lucky. Gamaste-me um cigarro, e quando me defendi — Não, este é meu, levei com um — Ah compraste LS? Mostra lá o maço! Mas que é isto? Toma. — Não... ou melhor, que me dás em troca? — Eu? Nada. — Então não mostro. — Joder! Louvai-nos! Ainda somos crianças. Chegará a seu tempo o dia em que, por esquecimento ou recusa, ela já não saberá ser assim. E por muito tempo que lhe sobreviva, terá sido esse o dia da sua morte. I have a reason for my fear. Devíamos procurar manter-nos putos. I can feel it. As coisas de putos vivem para a morte como nenhuma outra. Toonz. Os mais pequeninos é que são giros, não é verdade? A gaja, sóbria, evoca-me as sopeiras do tempo do António. Não, Deus me livre. Não, eu gosto é de vê-la grossa. Mais pita. Transforma-se numa cabra com pinta. Cabra sem chegar a cadela. E chega de tergiversar! Havia de ficar bem com uma saia curta. I know that this bodes ill. E um top preto, como as meias, mas opacas — Nunca me perdi por rendinhas ou transparências. Yet some say plastic is the fabric of the future — This really frightens me, it is so bewildering and upsetting. Pus-me a vesti-la, como dantes fazia àquelas bonecas da MTV de que já não recordo o nome mas (foda-se), toda a gente sabe quais eram. Não estou a falar do Beavis, esse é outro. E uma fury écharpe enorme — tendo em conta o tamanho da dona —, branca, devia ficar-lhe mesmo muito bem. E sapatos de plataforma, não me venham dizer que estão fora de moda. Pretos, com borboletas brilhantes. By Christian Lacroix, ou A hat is the dot on an i: imortal por um comentário, viva ele. Pretos. Como uns que dei à pita — Salvo seja. A pita ou nada ou o mundo pela pita ou estes "ous" repetidos on purpose porque por vezes a multiplicidade é mentira. Sometimes, a cigar is just a cigar. Freud. Num tom demasiado monocórdico. Nem para escrever tenho jeito. Mais um charro (esses sim, faço-os bem).
Talvez soe repetitivo por estar a fazer a mesma coisa há demasiado tempo: charros. É, não é? Tenho saudades das minhas conversas com o C. — E crack? — Rapaz, tira daí as ideias. Só os pretos fumam crack. — Então eu não posso só porque não sou preto? — E-xac-ta-mente! — Mas se fosse já podia? — Pois... — E se eu cagar nisso e fumar na mesma? — Não podes porque não és preto. — Ah não? — Não. — Mas não fumo por não ser preto? Ora essa! É proibido? — É. Há coisas só para pretos, não é só o bar da Associação nas quintas à noite!, e trazê-lo de volta arrasta-me para longe, para junto de si; não me interpretem mal, — Só me ocorre a manufactura de outro charro, este é permitido — É — Vou fazê-lo porque sou Nietzsche — Fixe — Viva Eu — Iá — Viva nós.

Mereces bem o lugarzinho que conquistaste cá dentro. *Sigh*. A culpa não é minha, é deles! Não se matou, mataram-no! Mataram-no por ser poeta, já dizia o outro. Aw, C. Aw é uma palavra mágica. É a minha palavra, bem como a palavra de milhares e milhares de pitas americanas, sejam elas estadounidenses — and how dense can look certain american foxes, let me say american beauties or even americanas — ou canadianas, e essas já tendem a revelar-se mais espertinhas. Não é, D? Quando certo cheirinho a Hypnotic Poison me rói os miolos todos por dentro, e não há bebedeira ou fumício que me faça esquecê-la. De rastos, ideando coisas demasiado imbecis para serem escritas, portanto mais ainda que estas; esquecer com absinto, em vão. No DD — entra uma gaja acompanhada do namorado. Só cheira a Hypnotic Poison. Saí disparado para uma das piores noites da minha vida, nessa noite ia dando em doido, gelado em casa, uma história incompleta que começou pelo fim e foi voltando ao princípio qual pescada de rabinho na boca, retorno, qual amiga de uma conhecida também ela não a outra que tinha uma bolinha insuflável azul onde costumava sentar-se e saltar e tornei-me amigo da bonita e passámos muitas tardes a contemplar a igreja os freaks, os graffs as pitas os pássaros e as árvores na esplanada do Big V e depois de nos despedirmos às cinco da tarde de uma tarde de sol de nos despedirmos por semanas apodreço na praia à chuva rodeado de grandes cães negros que não consigo ver e sombras de cinco pontas à luz da noite e à noite o areal ainda me parece mais branco repleto de as sombras tão frio quando me passava porque não sabia se ela realmente gostava ou não de mim e me punha a uivar ao mar e ao vento que nem um doido para pouco depois surpreender os meus pais e mais meio mundo ao regressar a meio da noite todo encharcado áquele maldito quarto de hotel de onde ainda assim podia ver o mar tão importante o mar porque não sabia SEI se gostavas GOSTAS ou não de mim e era demasiado inocente, ou talvez gostasse demasiado de ti para me pôr a calcular esquemas que culminassem num nós que afinal acontece; Mar, portal para o sagrado, tu estavas lá do outro lado, e se tocasse naquelas ondas cheias de espuma também te podia tocar, mas não, era SOU louco, todos me chamaram CHAMAM? louco, até a tua amiga da bolinha azul; mas voltaste e contigo a nossa rotina podre feita de fins-de-semana naquela esplanada ou noutros sítios MAIS AZUIS, onde possas desenhar os blues for the roses, thank you for 
 tu gostas é de desenhar, Nietzsche e discos dos Floyd e Absolut com bolachinhas — Aw. Por vezes até parece que sim, sorrisos! Sorrisos e olás chilreantes! Mais um hotel, este longe das luzes, fachada corta mais ou menos a direito um céu muito brilhante — as estrelas, não as da star spangled banner, outras, esses pontinhos luminosos no céu, lá no alto uma estrela é uma alma que zela por nós, sabias? — Pois claro que sabias, e sabes, e candy, vodka e margaritas aqui e ali enquanto descobrimos a metrópole passo a passo pela calada da noite ao frio ao vento e à chuva quais vagabundos celestes em busca da perfeição e dos cavalos voadores a caminho do cume da montanha de Mien Mo, agora loucos, completamente catatónicos perante uma vida que já não podemos — posso? — controlar, ou que nunca controlámos, dois loucos de olhar perturbado saídos do inferno, ainda quentinhos e tudo, os cabrões, nós. Táxi, telefone, táxi, eu José Armando Brocas, o táxi vinha VEM sempre, uma prank linda apontada para um céu vermelho preto AZUL ROXO aquele sofá ou

um jogo, ou
outro drogatório de cadeiras bonitas
and every roll we take we are closer to death
baton azul
não o suficiente
I can't help daydreaming
um ritual cresce à volta de um princípio único
único por ser a primeira vez, e acho que esgotámos as primeiras vezes todas
grooming ourselves
hopes, dreams, and smiles
à curva da ponte
apesar da chuva
among the breeze
out of mind, while
zinco?
whispering the secrets of time
choveu tanta chuva chovida
naquela noite molhada
toda tingida de preto do teu casaco
nuvens
QUE NO PORTO NUNCA SÃO VERMELHAS!
ask
que somos nós senão pedaços de estrelas que já morreram?
just for you, princess of hopes and desires
lady of fairies flittering in my mind
ou a necessidade de um motivo
a chave do problema
anyway
anything


De problema nenhum. (Estou drogado.) Um problema passado deixa de ser problema, seja memória, marco, uma mera referência. Adoro a nossa rotina podre de namorados sem futuro. Antes isso que...
Um sorriso, outro. Devo ter jeito para me sentir infeliz. Fumo sem fogo. God, how do I come up with this things? This is too much for me. I need a joint. Ámen! Aw aw paw aw aw aw... aw.

Bahhh sempre haxixe, sempre a mesma merda e não posso sequer escolher o meu haxe favorito. Tanta ganza sempre igual torna-se deveras aborrecida. Ainda se pudesse escolher entre vários tipos de ganza, haxixe claro e escuro, ou erva variada, Durban Poison ou White Widow... ai ai ai ai ai. Ao menos quem se chuta não pensa nestas coisas. A qualidade da heroína também varia, mas é sempre heroína e quanto mais, melhor. Ainda está para nascer o junky (suficientemente) preocupado com a qualidade daquilo que mete para a veia. Mesmo que se preocupasse, servir-lhe-ia de muito! Dar nas duras é que havia de ser fixe. E agora que o escrevi mal acredito que tenha acabado de pensar com sinceridade numa coisa destas. Destino, destino! Ah, vida bastarda, mundo cão, nuvens putas que só por cima de mim se adensam, aves de mau agoiro, digo-vos não.

Que porra de manhã doirada, resta-me esperar ter posto um ponto final nesta confusão, nem que só nesta. E viver em paz?

Mas amanhã é outro dia.

A minha eficiência surpreende-me. Consegui despachar-me em menos de uma hora e lá apanhei o comboio. Agora resta-me escrevinhar nesta paródia de caderno enquanto chego e não chego à capital do Império. Sou um miserável, buá. Um miserável pelas maldades que me faço, como esta. Outras piores na ara do mais maligno, escrito em sangue e lágrimas. A culpa é minha. Deixei que os nossos encontros se ritualizassem, não esperava que se tornassem assim, sempre iguais, protocolo sem tempo de que sabemos guardar segredo, é bonito, parecemos dois canários metidos na mesma gaiola há anos de cada vez que acasalam, sempre igual, sempre a mesma merda! Primeiro temos que ir beber uns copos. Depois temos que fumar umas ganzas. E só no fim tentamos comer as sobras da noite, lavadinho pelo princípio de uma tarde cheia de sol, mancha, destoa neste Inverno, comemos, comemo-nos, tem piada, é salgado e húmido e frio como as ostras, viva o linguado numa tarde de ostras, nem sequer gosto de — e cada um vai à sua vida. Lindo. Devemos ser grandes frustrados. Pode não ser a maneira mais rentável, mas é a nossa, autêntica, sempre, desde a primeira vez, sempre assim, o nosso ritual, sempre as estadias no sofá, electrónica, sempre o falso momento de indecisão, antes de finalmente nos tocarmos pela primeira vez na noite, um ritual, uma dança viciante que se repete e repete e repete em círculos; uma forma estilizada de dependência, há tantos anos, uma droga, há tantos anos...
Outra?


Sexta-Feira, 20 de Dezembro, 2002 — 5h46, Coimbra.

Combinei um passeio à tarde com a R e com todos os diabos são quase seis da manhã, desses, aquela alminha que ali vai, metida num casaco preto, mais um merdas para quem o tempo deixou de fazer sentido. Drogado em Coimbra, bêbedo em Lisboa, drogado em Lisboa, drogado e bêbedo e cheio de sono em Coimbra, e amanhã volto, e não sei como é que os meus pais vão engolir outro adiamento porque já me esperavam hoje, e eu estou-me perfeitamente nas tintas, mas não posso ou ainda me arrisco a repetir hoje o filme de ontem e terá havido algum filme ontem? 
 Não? Serei cego ou louco ou as duas coisas? Enfim, tu, oh porco que me escutas do alto, empoleirado na tua torre de marfim, tu, conseguirás porventura imaginar o que quero dizer com o tempo deixou de fazer sentido? Diz-me, canalha: não vês ou não queres ver? Suspiroooo... De facto, que te interessaria ver?

Strelac. Olha como me projecto tão livre de culpa pela caleira abaixo tão livre de veneno como me projecto livre de substância no espaço VRML igual a todos os iguais a ele mesmo — Único, replicável, livre de...

Outra experiência que correu mal.

Antes de ir ter com a R ainda tenho que passar no supermercado para comprar salsichas, as que gamei ao R' porque tinha fome e não conseguia sair de casa. Uma camisola nova não me havia de ficar mal. Vi um cromo no Fluid com uma cor "camel claro-brilhante", tenho que procurar uma igual, quase seis da manhã, continuo em cima da cama, já decidi comprar salsichas e uma camisola, es muss sein, ainda antes de rumar al sur. Devia ter ficado lá, mas atrofiei. Agora a D espera-me na parvónia enquanto me drogo a olhar para o rio, se não chover. E já me fez uma cena fodida. Não. Não preciso de namoradas, para esposa tenho a droga, quero perder as amigas que sobrevivem... OUT! Em vez de ir dormir continuo aqui sentado, como anteontem, como sempre, parece-me que estou aqui desde sempre! É TUDO IGUAL QUE PUTA DE VIDA A MINHA PORQUE É QUE ISTO ME ACONTECE?! Tenho que ir à loja, tenho que ir à loja, tenho que ir à loja, mantra, duh, o princípio de uma vida activa a poucas horas do momento presente, pode ser que amanhã faça coisas importantes para a Humanidade, dois passa
s putos tontom uma tarde à chuva, o mais provável, sei perfeitamente disso, não foi por acaso que já enrolei quatro charros bem potentes, o ready-made deixa-nos literalmente a dançar à chuva, o jeito que isso às vezes não dá, ai não... Pois eu digo-vos que se deve chamar acto dignificante para a honra do próprio e de toda a sua família à trivialidade que é fumar um charro. Assim sempre posso defender que por vontade divina  o que blinda a minha posição — sempre que fumo um charro estou a cometer um acto nobre de coragem e devoção que me dignifica, que me honra, a mim e à minha família, e no fim de uma noite bem passada — bem fumada — ou de uma tarde como sei que vai ser a de amanhã, hoje, quão santificados não estaremos, eu e aquela linda menina, pelos nossos inúmeros actos de coragem e boa-fé.
Filme. Camisolas, salsichas, ovos, ganzas, Nietzsche, computadores portáteis, rouxinóis que só cantam à noite e ainda mais quando chove, pelo menos aqui na terra do lixo tão lixo que se reduziu a Lx seja X de X ou de luX ou de liXo ou de liXados os fodidos com que me hei-de cruzar não tarda nada ainda piores que eu, seu camafeu, o Roger diz que sabe a iogurte estragado e manda-te uma @ — ou... Sir Galahad? A menina Gwendolyn, o meu cérebro feito em iogurte, como pesa, não é por acaso que só dou esmola aos drogados. E nem sequer a vejo como esmola. Eles sabem tudo!

Chamam-te desabafo (e citam-te). Não compreendem. Escrevo porque a moca me dá para escrever. Não é uma história nem uma reflexão nem um poema uma invenção ou mesmo uma esparsa rabiscada na borda de um livro, não é bom nem mau, um louvor ou uma crítica, não é um queixume ou um desabafo, que desde cedo preferi cuspir as mágoas na cara dos que me afrontam a *atrofiar* diante de uma folha; é simplesmente uma condição qualquer de cujo valor certo junky nos elucida muito bem com a tirada comprida onde cita o velho Lou — eu acho é que o gajo queria umas colunas impermeáveis para o jardim de inverno mas o dinheiro tem sempre mais para onde ir e no fim é bem mais confortável chamar-lhe zero — irrelevante à laia de Willy, a baleia ou os poetas de San Fran pelo que LUDWIG WITTGENSTEIN, TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS: "if a preposition is NOT NECESSARY it is MEANINGLESS and approaching meaning ZERO" — eu avisei que ia ser citação dentro de citação * de um pressuposto tão conhecido que até mete raiva porque ainda que nem todos conheçam o velho LU todos sabem que o mundo é ASSIM por ter que ser ASSIM e não necessitámos de WILLYS ou ALLENS ou o raio que os parta, bêbedos, janados, subversores, agents provocateurs, para saber que o mundo precisa de ser assim. E porque é o mundo como é? Porque se não fosse ASSIM, não haveria NINGUÉM para o ver, say, apreciar, viver, ser! Es muss sein — LOU, O OUTRO VELHO LOU! Sin my life & it's all their fault — Let it be — Just for the sake of it. Que é o *? Um beijinho digital! Não, um wildcard. Meti um wildcard no meu texto. E que quero eu dizer com wildcard? E neste caso, que palavra poderia ocupar o lugar do * se não fosse a minha preocupação quase demencial pela elegância? Achas que estou a inventar, filho de má mãe? Pois na altura pensei em "citação citação de um", digo "citação, citação de um", ou "citação *" Poink. Cita-m0z e toma lá um beijo. Ainda dizem que não possuo sensibilidade humana, seja lá o que isso for. Possuo tanta, mas tanta, a vontade de derramar pela rua litros e litros de sangue inocente domina-me, em casa, a LATIR! Zero. Um feixe (orientado) de palavras que encaixam e colapsam umas nas outras e se esmagam umas contra as outras quando aquele que não sabemos quem é empurra, e também não sabemos que empurra ele ou ela ou o diabo — Assim são os subprodutos de um iogurte duvidoso químicamente levedado. Assim vos digo que não sei. Sou um exibicionista que não sabe. A beleza é um sentir estético. Que mais? A murderer. Ora, até o Jacó se podia sair com estas...

O Jacó era um papagaio africano, daqueles pequenos, cinzento de cauda vermelha, um devorador de dedos, o safado. O piano. O jacó. O velho Lou ou LU. O teorema de Cayley-Hamilton. Azure.

O prático-inerte.

Luzes apagadas ainda antes do nascer do dia, um fantasma, mostra-me no vento o cantar do além, perfeitamente diferenciável do ruído que faz o vento quando sopra vozes, estas extremamente agudas, muito agradáveis, o ecoar no fundo de um imenso poço de vidro que são todas as coisas. Ainda tenho déjà vus com planícies geladas. Continuam a cantar, o fantasma visitou-me: propus-me que "ganhava" se fizesse mais de -150$ em cinco partidas. Quase não resolvi o último puzzle por mero acaso, no final da 5a partida, +150$.


Sexta-Feira, 20 de Dezembro, 2002 — 18h, Rossio.

Só gente bonita, Natal Natal (ho ho ho). Quero ser diferente. Quero andar por aí todo queque mas com umas calças cheias de nódoas — a ideia até me soa porreira, a preppy, dandy beatnik, mas! Mas! MAS! Esta gaja mata-me. Ela deve achar que estou muito broado (ok, estou) mas se não digo nada de jeito e pareço um zombie é porque não consigo mais, escusava de me fazer penar com a sua ironia. Só quero ir dormir, sempre se ordenam as ideias, tentar lembrar-me mais uma vez por já estar de novo em Coimbra a escrever no presente. Não estou enganado. Já era tempo de voltar a estas andanças. Já vai sendo tempo e o tempo deixou de fazer sentido. Já não há manhãs e tardes e noites — há luz e trevas. E adoro estar com a R mas é aquela rapariga completamente inacessível, não por minha culpa ou dela, mas do mundo. Cabrão do mundo. E poderia ser de outra maneira? Não. A resposta é um não redundante de que não posso nem quero fugir mas que me magoa ainda mais que as pontadas provocadas pelos drunfs que o M me deu. Amigos são amigos. E féta é féta. E as gajas são panikes. Banheiras. Pacotes de leite. V i o l e t. Como tardes sem sol, como esta. Quando só fica o céu cinzento, o rio vinga-se do mundo mostrando a sua verdadeira cor, verde acinzentado, doentio, coroado de espuma também ela cinzenta. Como quem fita os homens nos olhos e diz — Olha só para o que me fizeram — O que me fizeste! — Porque é que as pessoas fazem coisas assim? — Que significa tudo isto? — As ganzas do rio. E apetecia-me dizer-lhe que se estranha os meus silêncios, e se a incomodam, e se nada faço para os evitar é porque tenho os miolos a cozer cá dentro e não me ocorre nada. Burning from the inside, gimme a break hun.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Velharias (43)

Partida em três para ser mais digerível, a última. Na altura, o exorcismo de todos os demónios; mais tarde, motivo de vergonha. O melhor para o fim?


I

Sete da manhã. Sete horas de luz dourada. Não há dois amanheceres iguais. A alma, enevoada, um tango, pungente, imersa em luz, paira algures muito longe daqui; o tempo enganou-se: recordo, por agora.

Retomo os tempos do V "Zombie", do C, do S, dos graffiters ganzados cá da terra; um sonho feito de memórias: a R, o fixe, passagens de ano em que tentámos morrer, garrafas de Dom Pérignon e charros de duas pontas, Air e as K&D Sessions, pulseirinhas de linha, a casa das palmeiras atrás da estação, mais fixe, a imagem destituída de conteúdo; o ser é um simples objecto; Goebbels de peluche! Bolinhas azuis, insufláveis... mesas da Altamira onde as nossas mães podiam muito bem ter snifado coca há 20 anos atrás, o Lux, a casa azul, a C, ou não, outra; a suite 1010 no Meliá junto à Gare do Oriente, os almoços nas Amoreiras, o C', o F, APPA! Jimi Hendrix... lembro-me de All that Jazz e de Jim Morrison, o espectador é um animal agonizante; Catchi, o Art e os que cá estiveram antes do Art; JP: são só nomes: Köw! — Zoinks, que marcava o seu território com tags floreados em caixas de electricidade; o azul, mais R, Sew!ed R, outra que desapareceu assim como o próprio, e as noites que passámos deitados sobre as pedras, a ver as estrelas...


Quero ser, mas não sei o quê, nem como, nem com quem. Mas não faz mal: vêm lá tardes passadas a fumar à janela, que hábito o meu, este, querer perpetuar os momentos fazendo deles hábitos — Ah! a primeira vez é tudo o que realmente importa, mas, afinal, que é uma primeira vez? Pink Floyd? Vodka e bolachinhas? A repetição do conhecido é uma farsa, uma única vez não é nada; — Passadas a fumar à janela, puta, gandulo, diziam eles, a fumar à janela, sim, ou porque não no meu quarto, a ouvir Lamb; — As tardes na esplanada das Palmeiras, a fazer balões com pastilhas de morango e cereja, à espera de mais um SMS; — Noites de Parménides em vãos de escada, prédios alheios; a vontade, deslegitimada, apelando a Epicuro, ye!, epicuristas, nós, com um dry martini pela frente, dry martini decorado com uma cereja, não com limão, como sempre, mas com uma cereja, como a R. Não sou só hábitos: vivo muito mais pelas quebras que me imponho; sou assim, talvez; não interessa: o tempo dos graffitis já passou; fora de moda, runas e mocas de spray substituídas por cogumelos mágicos, por alienação pura e simples; mais vale esquecer o tempo que passa e acordar noutro sonho; parece que sim, que existe um Deus — A fábrica de sonhos, mais uma noite no Lux, eles continuam a ser eles, eu é que já não sei se ainda sou eu; vou morrendo, melhor, vou-me matando, que não é a morte que me mata; morro de distâncias e lembranças, de pulseiras de linha, amarelas, azuis, cor-de-rosa, de cherry cola, de fitas e fotos; — As férias terão morrido igualmente, o Éter fica, fica e fixa as memórias, lá longe; e quero voltar, quero ver-te, R, e à I evil, a arquitonta, o nazismo l33t feito tertúlia, umas partidas de blitz porque não há mais que fazer, nada, só pensar, penso no que sou, as leviandades cometem-se e pronto: pudera eu ser assim, com alguém, ou não ser eu; poderei ser mais alguém? Alguém que tento enterrar sem sucesso? Queria poder ser alguém, do passado, do presente, de tempos ainda por vir, provavelmente só posso aspirar a esse futuro desconhecido; limito-me a ter fé, plastifico, oh, sim! — Como? Uma coleira cor-de-rosa com picos? Oh minha menina... — Mais um dry martini, cigarros e pastilhas, mais uns minutos perdidos, não as palavras. As palavras estragam tudo, pensar estraga tudo, só o silêncio sob o céu estrelado, só eu, comigo, um olhar, tão próximo, és tu, sou eu, não interessa. Enrolo a pastilha e desapareço.

Nunca por muito tempo. Regresso, sempre, ao mesmo destino. Outra noite passada em casa. Mas esta podia ser diferente, como há dois anos, em Praga, quando eu e o F quisemos conhecer o underground da cidade, ou aquela putinha que tanto se parecia com a C, tão insistente, tão ciosa do seu trabalho que chego a pensar se realmente lhe estaria a dar algum prazer quando violei a diligência comum de nunca beijar uma prostituta, e nunca o tinha feito, mas que raio, também nunca tinha estado com nenhuma; beijos tão longos, tão molhados, ficam na memória e não há nada a fazer para o evitar; só nós e o mar na parede daquele quarto de sofás vermelhos onde se ouvia um qualquer ídolo pop dos anos 80 entrecortado pelo ruído dos automóveis lá fora; uma noite de conto de fadas; tive de delinear um algoritmo para ir conseguindo fumar a ganza com a N a empurrar-me contra as costas do sofá, um algoritmo; ela queria mais beijos, que a abraçasse; ainda tinha o charro aceso na mão, tinha que lhe largar a boca, descendo para o pescoço, parando só no início do peito, altura em que me voltava ligeiramente e dava mais uns bafos, só assim conseguia, mas que puta, parecia tanto a C que lho disse, em inglês, e ou não percebeu ou não quis saber, que continuámos; a certa altura dei quatro bafos seguidos, tinha que aproveitar o máximo da white widow, e lá murmurei isto é que é bom, em português, a curtir feito um doido com uma putinha eslava a ganza é que era boa: ainda me rio com essa tirada, merecia entrar num filme; e agora aqui estou, a lembrar-me de algoritmos, a ver pornografia na web, imagino-me puta enquanto assisto a um broche temperado com o ruído frio do último noticiário da noite; — Não é que seja gay, mas por vezes sinto-me curioso quanto a um bom broche, vejo como ela se contrai quando engole aqueles vinte centímetros de carne, tão grande que quase asfixia de prazer com os pequenos jactos mornos a escorrer-lhe pela garganta abaixo, Fotis nada no sangue dos amantes degolados na volta de ceias reclinadas em leitos de marfim, quero-me no lugar dela, ridículo na pequenez de quem se esfrega nu e gelado como o ar lá fora, sinto-me cada vez mais puta, digo quem me dera ser ela quando uma mão vinda do nada me toca ao de leve no ombro, é o meu amigo J, não o ouvi entrar, já nem sequer me lembrava da chave que lhe entreguei no verão passado e agora comigo, nu e a esfregar-me, está tudo bem, não é nada que eu nunca tenha visto e contorno a cadeira, toco-lhe no peito, então estavas mesmo a falar a sério, querias ser ela, é justo, eu posso ajudar-te a experimentar e nisto seguro-lhe suavemente o pénis, não te acanhes, quero isto tanto como tu, sabe tão bem, não quero, não posso fazê-lo parar porque está tudo bem, posso confiar em ti, serei teu se assim o desejares, querido, e ele desabotoa as calças que caem no chão no momento em que me chego para ele que tira os boxers, revelando uma pila ainda flácida mas em franco crescimento, tocar a ponta com os lábios é diferente de alguma outra coisa que tenha experimentado e não sem hesitar abocanho-o, a ele que cresce dentro de mim à medida que vou chupando até me tocar o fundo da boca, ai que já não cabe quando me puxa pelos cabelos e o engulo todo, sufoco como ela, como tanto queria, o fel ácido que imaginava mais doce, sinto pela primeira vez o prazer dor de que tanto ouvi falar, não consigo parar e sufoco porque não me vinha há duas semanas, puta, diz-me ele enquanto se compõe, puta, nada mal para uma primeira vez, passa lá por casa no sábado que vais divertir-te pumbas, mas J, não sabia que eras gay, e a Mó, rapaz, sou bi, a Mó não se importa desde que a vá comendo quando quer, passa lá por casa, onze da noite deve estar bem e está mesmo, chego um pouco antes da hora, luzes apagadas da casa que me parece deserta quando toco e pouco depois sou saudado por uma voz familiar, estão todos muito contentes por eu ter vindo, que bom, que felicidade, é uma orgia, o clube dos bons meninos bi da pequena cidade onde os mortos descem a grande avenida em direcção aos peixes cinzentos que nadam naquele caldo de frustração e de onde saíram alguns dos que hoje me esperam; mas alto, há regras, sim, passarei pelo ritual de iniciação, todo nu ainda no patamar da escada e aquele pequeno saco de desporto contendo apenas umas peças de lingerie vermelha que me apresso a enfiar, mesmo que não compreenda o motivo do soutien, admito que as cuequinhas de renda me cativam, as meias enormes e tão transparentes quanto necessário, por fim entro e deparo com umas poucas de caras conhecidas e insuspeitas, estão mortos de satisfação por me terem entre eles, os safados, acabam de jogar às cartas e começam a despir-se, puta, estás pronta, mas claro que estou, ok pessoal toca a usar a puta que engole o P, F e os outros, o pop de uma garrafa de plástico que se abre, um gel que me refresca o esfíncter, estarei a arder, imagino o fim do mundo, em fogo, na cidade dos peixes e dos pássaros, alguém me enfia um dedo, porra, assim não, tira lá o anel, T, em vão que aqui só se ouve a cascata por onde caem peixes atrás de peixes em busca da felicidade vermelha que jamais encontrarão no traço ténue de uma lua quase morta, e outro dedo, e outro... concentro-me no pénis que tenho na boca, mas sinto outro a entrar-me por trás, até ao fundo, com toda a violência e não me vou desiludir por isso chego-me para trás, quero viver, brincar, dançar e é precisamente o que faço para satisfazer as duas trancas que tenho em mim, cascatas mornas que já não são de fel, vão-se revezando e ao cabo de uma hora terei servido todos... que formam um círculo à minha volta, afogo-me no leite da vida, nu no chão gelado, a casa desintegra-se à voz que me diz foste admitido, irmão Jorge, agora podes voltar para casa, dorme, até amanhã.

Rua abaixo, chove, nunca mais acaba, folhas amarelas e poças de água borbulhante em festas intermináveis nos doze salões de mármore polido, outrora o palácio dos peixes antes do grande engano em que se viram forçados a fugir para o fundo do passeio e feitos em pedra pela ignorância de quem por eles passa todos os dias em néon fumegante como os carros, ruído metálico, passa por mim, à curva, todos de camisa brilhante e alguém que caminha à minha frente, não quero nadar com eles por causa do frio, devia afrouxar o passo, não posso, perseguem-me duas garotas, azuis como a chuva, talvez tenham chamado quando passei por elas, fugi, aceleram comigo, semáforos, também eles de fumo, paro, ando, com mais ninguém, um rafeiro, ladra, não é para mim, e se abrandasse, passariam por mim, talvez me falassem, esta gente só quer sexo, penso eu, e afrouxo o passo, elas não, mais próximas, quase me tocam, qual fantasma da noite também ele azul dos cigarros mal fumados na janela escura das penas que me fiz passar quando só pensava em ti, azul, molhado, como elas, abordam-me, talvez seja a carteira, bem me avisaram, não é só para os outros, não é a carteira, é mesmo sexo, a morena pede-me lume, calha bem, em noites apagadas, curioso, já aqui estive, vamos para casa, vivem perto, vizinhas, que conveniente, entro, pois, só podia, o prédio não me é estranho, sim, mora aqui a T', a loira, subimos, vivem mesmo num cubículo por baixo da casa da T', ouve-se, o H
, a voz lá em cima, este buraco, todo azul e negro, vodka, não preciso mas aceito, fresca, não dizemos nada, à espera, e logo duas, que sorte esfuma-se em noites molhadas e escorre pelas luzes lá fora, parece demasiado simples, se tenho preservativo, obrigado T, bem me disseste que podia vir a ser útil, só está frio, tem a vagina gelada como uma garrafa de champanhe, e a outra a fumar um charuto, observa, interessada, que não sei os seus nomes nem elas o meu, um nome será decerto importante, pois chamo-me Zé, prefiro ser Zé a ter que lhes perguntar os nomes, acabamos e trocam, esta não fuma charuto, diz que lhe matou o pai, esse que terá morrido sozinho por aí, podre, de espírito carcomido por décadas de falsos amores, à sombra das árvores quando ainda chorava a filha que agora me observa, se desinteressa e liga o televisor, a preto e branco: não sei de onde vem o azul molhado como o lá de fora, nem pergunto, nunca se sabe o que andará a tramar esta gente, adormeço acordado, esta cansou-se, tapamo-nos e acordo com uma garota ao meu lado, num caixote esteira dentro do cubículo azul que não conheço, e negro, com a voz de uma T' furiosa por alguns ovos se terem partido à volta do supermercado, ou talvez ainda estivesse a dormir, e assim continuei, esperava que deixasse de ser azul com o dia, mas não mudou, ela levanta-se, deixo-me ficar tapado por um único lençol branco, e negro, volto a acordar com pontapés da morena, não posso sair, quero voltar para casa, não me deixam, mas vestem-me bem e lavam-me, estariam à minha espera, certamente, desconfiado quando entra uma visita, com que me deixam a sós, um belíssimo corpo de loira destituída de beleza, nada de especial, quando avança para mim e insista que lhe morda, já não desconfio desta gente que me exige pinar com uma loira, esmaga-me com as mamas, a vaca, vou vingar-me em beijos melados, depois mordo-a, esperava que fosse mais mole, deste tamanho, mas não muito mal, a textura agrada-me quando aperto mais, é esta loira que grita sem se tentar afastar quando o sangue começa a correr, deixo-a encolhida a um canto do quarto, as outras duas só podem ter ido ao bar lá bem no cimo do monte, para lá das sebes bem aparadas que terei de saltar em busca do calor amarelo daquele cubo de dança que não passa de um violino e meia dúzia de copos abandonados pelo chão iluminado de mil falsos sóis que me revelam sem surpresa as ossadas dos amigos de infância incrustadas no betão, já aqui vivi e continuo a sonhar com este morto meio podre que teima não me deixar em paz, e elas a beber a um canto, vodka, como sempre, não me perguntam pela amiga, essa loira a que só desejo um cancro, com quem casaria se a soubesse cancerosa, devo achar as garotas com cancro coisa sexy, mas isso pouco importa, tenho a minha vida e deixo as vizinhas da T', que nem as deve conhecer, quando as deixar voltarei para casa, agora só saio para a tarde que brilha, muito quente, horrível, pela porta baixa desemboca no muro branco, muro de quinta, volto.

Ao bar que está sempre aberto e onde só vou quando durmo, desperta-me o gelo dos teus gritos distantes e estou com outra, não acredito que seja um sonho, a menos que os mortos, chego ao bar dia após dia e estão lá todos, são sempre os mesmos, aqueles que procuro pelas ruas desertas em tardes muito quentes, só gajas... por toda a parte, esta é nova, talvez a tenha visto no autocarro que sobe a grande avenida, de cabelos anelados tosse e despenteia a juba, interessante, é engraçada e parece doente, interessante, posso sair na mesma paragem que ela, a uma distância razoável, fiquei obcecado por aqueles anéis de mel limpo de onde sai o grande cão negro nos entardeceres mais sombrios, naqueles em que morrem os avós, quero saber onde vai, entra numa mercearia e compra um melão, chamo os pássaros e as sombras que se levantam do mar nas noites em que alguém lhes atira moedas e bolos do alto de uma falésia para que a raptem pois quero comê-la, partilhá-la com alguns amigos, e é isso que acontece, na velha casa de campo do M, de nada adiantaria tentar explicar-lhe que fora raptada pelos pássaros em troca de protecção para as suas crias, essas que são constantemente devoradas pela serpente negra que combatemos e financiamos secretamente, de nada adiantaria tentar convencê-la por meio de algum strip-poker forjado, ela não pode ser nossa, muito menos minha, os longos cabelos anelados remexidos pela apatia do desespero, mas agora está comigo no grande quarto da torre, o M toca piano, toca tão bem, toca o que vê enquanto o Ricardo negoceia o pagamento com o chefe dos pássaros, meu amor, quero tratar-te bem, vamos jantar fora, muito longe daqui, vestidos como príncipes, gozar a última noite de loucura já que nada podemos esperar da manhã, mais cinzenta que os gritos mudos dos peixes ao aperceberem-se de que nadam para lado nenhum no rio de pedras imaginado diferente e por isso mesmo muito mais aquário, pisados pela primeira alma que lhes mostra o caminho de nada em troca da dor com que se contorcem em agonias imensas, a loira persegue-me, temo que para me matar, persegue-me há dias sem que a veja, sinta, inimigo invisível à espera de outra oportunidade, não será hoje, jantamos fora, jantamos todos, quando saímos da velha casa em ruínas para comer estás em pânico, minha menina, paralisada, ainda bem, tens medo de nós, ou de mim que apenas uso o grupo para dissolver o mal que represento, tal como o grupo usou os pássaros para te ter, um pouco de gloss cor-de-laranja doce, jantamos no encanto da derrota, dos amigos afastados por conveniências e más palavras, como os deuses, em silêncio pesa-me na alma a tua família que há dias te procura sem cessar, coitados, e tu estás doente, interessante... comemos e voltamos para o palácio que algum antepassado de M edificou sobre as estrelas, aqui estou a salvo da loira, ela teme os nossos imensos canhões de nove milímetros, aqui só contamos nós, minha menina, e o piano que te toca por mim quando passas para os outros que exigem a sua parte, por mim tudo bem, deixo-te com estes celerados e lavo-me em rosas na gruta distante onde os antigos se juntavam aos judeus e jejuavam até à morte em busca da iluminação, ou talvez de nada e por esse imenso ridículo de pureza se deixassem morrer, na virtude da estupidez, minha menina, embora prefira viver sem ela, custa-me emprestar-te, que chatice, e foi precisamente para isso que te trouxe comigo.

Por vezes a alma enfrenta dificuldades destas, acreditar ou não acreditar que se encontra a beleza onde os outros a deixam esquecida, e é isto que encontro, os pormenores que não duram o suficiente, cristalizados para sempre na mente do monge louco; no fundo, actos de pureza; garota, tu ou o gatinho que apanhei no jardim do mal, ou da droga, e que quis levar para casa, certo dia, decerto há muito tempo, sim, mas para sempre comigo ou quando me fugiste no lago, no deles, e nunca mais te encontrei porque me me odiavas, fugiste, sim, gatinho, como as garotas do meu desencanto, todas elas desamores até me fazerem esquecer de como se ama, foi merecido, pois agora vivam com isso, artsie chicks, lá no alto, onde há um parque com árvores milenares, não preciso de me justificar.

Precisamente para isto. Empoleirado na tua vassoura mágica atravesso o deserto, subo o monte sagrado, desço a grande avenida em direcção ao negro mate que me aguarda num misto de raiva e ansiedade — para isto, minha menina. Arma-te com este tank-top vermelho, jeans, com esta parede branca de alabastro, desgastada pelo tempo e por quantas outras como tu. Não te iludas, querida, isto é tudo o que alguma vez me permitiria querer de ti, e já o tenho, e mais. Mas ainda me sinto culpado por lhes ter contado, resigno-me agora a engolir em seco, sentado no meu canto enquanto vos oiço lá em cima nos arf plim arf poing arf poinnnng... tlim tlim ka-laaaa puuuunnn... (etc) de circunstância com que aquele maldito piano jurou brindar-me até à hora da minha morte — E a cada novo acorde explodem momentos dentro da minha cabeça, ou aquilo que chamo ao piano-raiva-parede-tu, a quantos mais pianos e paredes, a estes quadros vistos-julgados que apenas duram um instante e depois se evaporam até nunca mais, sempre no meu canto, agora a fumar, indiferente às vozes que chamam lá de cima. Umas chamam, outras limitam-se a soltar uns yadda-yaddas incompreensíveis. Algumas perguntam coisas bem estranhas, como o porquê desta arte ou todas as outras artes de quaisquer outros tempos-lugares, e procuro manter-me acordado sem responder — são todos doidos — e procuro vencer esta confusão indescritível que me assalta como tudo o que faço!deixo acontecer quando pergunto porquê. Quando me pergunto porquê. E de pouco me serve tentar descobrir um pouco mais de mim ou do mundo, porque para mim o mundo é isto e tudo o que se encontrar lá fora — Se porventura existir — Talvez a seu tempo, e só talvez — Não, não me deixarei escravizar por uma simples possibilidade — Embora tudo leve a crer que na verdade me é indiferente — Que sim — Não interessa, pelo menos por agora — Se bem que este agora já dure há algum tempo.

Acho que ainda não vivi o suficiente para compreender as verdades dos grandes, maiores, o que me deixa por vezes a arder de raiva, tanto que me vejo levado a afrontá-los convidando-me straight into their worlds, como fiz contigo, piano — Or shall I say lifes? — Um convidado incómodo pois há coisas que jamais deveriam ser vistas, como se não tivessem o direito de existir, em nome do vosso conforto sabiamente disfarçado de moral; o puto sempre foi um estafermo mas todos lhe chamam "bom menino" — e sei que não poder chegar ao pé de mim e dizer "desaparece, tu não existes" é para alguns deles como viver dentro de um balão de borracha que dá a impressão de poder rebentar a qualquer momento enquanto teima em manter-se intacto quaisquer que sejam os esforços empreendidos pelo pobre prisioneiro plastificado por uma força superior à sua; é como quando tento escrever e ao invés de me libertar apenas me perco e continuo, sempre à superfície — faaaancy! — enquanto o meu demónio me grita constantemente aos ouvidos "Sê ovelha!" — Seja como for, não valeria a pena procurar águas mais profundas — Já me bastam os tormentos que este nó na cabeça me traz, e cheira tudo tão mal aqui, a um adocicado desagradável de restos de champanhe e tabaco mentolado — Como o emanado por aqueles torrões de resina podre que certa vez apanhei e meti num frasco quando passámos de automóvel por um pinhal qualquer no regresso da Corunha e que guardei durante meses ou anos até a minha mãe os deitar fora por estarem tão podres — Mas para mim ainda estavam bons e além do mais guardadinhos dentro do frasco não incomodavam ninguém excepto a ti, minha cabra paranóica — Todos os dias eu abria o frasco e os cheirava, e pareciam-me bem, pareciam, naquela altura, talvez já me tivesse adivinhado e só estivesse a guardar-me para paradas maiores, noutra altura sempre adiada por isto ou por aquilo — Talvez agora, qual constante ir morrendo — Porque a profundidade-conceito é outra invenção do homem — Como tudo o mais, excepto a Morte. — Que chatice. Trouxe-te comigo precisamente para isto e agora nenhum de nós se está a divertir. Nada mesmo. E sou eu o culpado. Sou sempre eu o culpado.