sexta-feira, 14 de julho de 2017




Não me interpretem mal: ele ainda não morreu.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Tons de Duorum '2016 (Branco)

Lote constituído por 30% de Viosinho, 25% de Rabigato, 2% de Verdelho, 20% de Arinto e 5% de Moscatel Galego, este vinho é feito na Quinta de Castelo Melhor, perto de V.N. de Foz Côa.

Cor citrina.

Limonado e floral. Flores silvestres, rasteiras, daquelas amarelas e brancas, de cheiro contido e sabor amargo, que há em todo o lado.

Depois, mas também com certa forma de destaque, o perfume do Moscatel. Só 5%, heh?!

Ademais, fresco e gordito, com alguma substância.

É um branco fácil, mas também simples. Alongar-me numa sua descrição seria forçar.

Gostei mais dele com stir-fry que com certo queijo de cabra meio curado, de Ródão, que lhe "puxou" um lado doce que, não se vá à procura dele, está muito bem arrumado.

Foi enviado pelo produtor, que recomenda um PVP de 3,99€.

15,5

sábado, 8 de julho de 2017

Pouca Roupa '2016 (Rosé)

Declaradamente jovens, os vinhos "Pouca Roupa" situam-se entre o "Lóios" e o "Marquês de Borba" no portefólio dos vinhos João Portugal Ramos.

Este rosé alentejano foi feito com Aragonês, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Não passou por madeira.

Salmão clarinho, de aroma limpo, com ênfase nos frutos vermelhos — variações de morango — e corpo leve e fresco, talvez seja o vinho mais fácil de beber de que me consigo lembrar.

O paladar, alegre sem açúcar solto, tem boa entrada, quase nenhum "meio" e final agradável.

Mega simples, elegante na sua fugacidade e extremamente jovial, metido num balde de gelo, dará um grande vinho de praia ou piscina.

À minha mesa, protagonizou um encontro incomum: com estes "steamed eggs with peppermint".

Ovos! Phear! Mas correu bem: a acidez suficiente para cortar a riqueza "fofa", não gorda, do prato, os taninos a não aparecerem, o final a limpar a boca.

Foi enviado pelo produtor, que recomenda um PVP de 3,99€.

15,5

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Um post sobre quatro whiskies

"There is no bad whiskey. There are only some whiskeys that aren't as good as others." — Raymond Chandler



Andava a pensar, faz já algum tempo, em deixar aqui qualquer coisa sobre os whiskies que abati, em casa, nos últimos dois meses (ou isso). E agora proporcionou-se! :)

Adquiri o gosto pelo whisky muito antes de pelo vinho, mas nunca o cultivei da mesma forma, por motivos vários. A juntar à espectacularidade do vinho, a cultura do meio onde cresci, o mercado — que inclui, mas não se limita ao preço —, considerando o facto de não gostar de água a acompanhar comida, a saúde...

De qualquer forma, acabam sempre por cair aqui uma ou duas garrafitas de whisky por mês. Embora não explore muito, achei que o reparo podia ter interesse: ultrapassada há vários anos a fase da pretensa utilidade, digo, da comida, este blog tem sido vinho, xadrez, vinho, filmes, vinho, vinho, o ocasional passeio mudo, vinho...

E uma vez ocorreu-me incluir gajas, mas a S. convenceu-me de que não era boa ideia. Não por ela, obviamente a primeira a não se comparar a um mapa de bits, mas para não vulgarizar as coisas. De facto, se gajas, como? Ou melhor, até onde? E qual seria o próximo passo? Futebol?

Dito isto, segue um punhado de impressões acerca dos últimos quatro whiskies que abri e usei em ambiente doméstico, que acabaram por ser os únicos dignos de nota a cruzar-me as goelas nos últimos tempos. Quatro "single malt" relativamente simples e jovens — não sou foodie, drinkie, gourmand ou coisa que o valha: a exploração é incidental.



Glenmorangie, 10 anos. Envelhecido em cascos de Bourbon, é a proposta de base da destilaria Glenmorangie, de Tain, povoação do condado de Ross-shire, nas Highlands escocesas. Destas quatro, foi a primeira garrafa que comprei e também a que acabei primeiro, de tal forma que, quando fui por ela, para a fotografia de grupo, já tinha ido — restava o tubo. Apontei a seu respeito ser "fodidamente etéreo, com 43% de volume, mas suave, o calor do álcool pouco pica, comparativamente. Baunilha, toffee e tal, mas frutado, frutado na medida em que um whisky poderá sê-lo: frutado, não cerealífero". A observação vale o que vale, mas o whisky é bom, encorpado e possuidor de um toque "salgado" que encontro sempre muito agradável.

Glenfiddich, 12 anos. Também é o produto de base da marca, feito na destilaria que lhe dá o nome, em Dufftown, Speyside. Dourado, mais escuro que o Glenmorangie — caramelo? mais caramelo? — mas também mais magro. Para além dos aromas normais, de whisky, faz lembrar mel, flores e pêras. Mas apesar de "só" ter 40% de volume, mostra mais o calor do álcool, será o que mais queima dos aqui presentes. Apesar de ser um whisky redondo e universal, feito para agradar à maior quantidade possível de consumidores, acho-o bastante raçudo e gosto disso.

Glen Moray, Port Cask Finish. Este vem da destilaria Glen Moray, que fica à beira do rio Lossie, em Elgin, Speyside, e não traz indicação de idade, ou seja, é relativamente novo e salientar esse facto não seria uma boa estratégia de marketing. Após o seu envelhecimento "normal", passa 8 meses em cascos onde já repousou Porto Cruz, tawny. Tem cor rosada, muito bonita, e é razoavelmente intenso e persistente — mas não tão cheio de si como o Glenmorangie nem tão fogoso como o Glenfiddich. Cheira muito a baunilha doce e a qualquer coisa que, de facto, remete aos frutos vermelhos, enfiados no fundo de uma tigela de flocos de aveia.

Cardhu, 18 anos. Outro Speyside, este de Archiestown, Moray. A marca pertence ao grupo Diageo, que causou controvérsia em 2003, ao começar a comercializar uma mistura de vários whiskies de malte sob a designação "pure malt", mantendo o nome e a imagem do seu "single malt", cuja produção, entretanto, interrompera. Tal ratice foi fortemente contestada e o "malte de mistura" ganhou uma imagem diferente do "single malt" autêntico, tendo a destilaria de Cardhu voltado a produzir "single malt" a partir de 2006 — fonte. Ora, este é "single malt", não "pure malt" e, a meu ver, muito bom: longo, redondinho e razoavelmente complexo, a juntar à base expectável, frutada, um toque de fumo e pastelaria / especiarias "doces". Sem dúvida, o mais suave, o menos ardente dos presentes.

Gostando de todos, não o faço como se de filhos se tratassem: prefiro uns aos outros. Globalmente, e sem grande surpresa, tendo em conta o preço, o Cardhu é o que encontro mais agradável, apenas um furo acima do Glenmorangie por via da suavidade (termo que não é tabu numa nota de prova, mas...) e dois acima do Glenfiddich, que apesar do "sharp burn" na boca (outro termo que não encontra equivalente nas notas de prova de espirituosas em português, apesar de ser comum em inglês, independentemente da respeitabilidade das fontes) acaba por ser melhor compra que o Glenmorangie face aos 10/15€ de diferença entre eles. O Glen Moray, que, pelo que vi na net, "lá fora" está no mesmo escalão de preço que os dois "Glen" supra, consegue obter-se "cá dentro" algo mais barato, a 15-20€, o que o torna uma espécie de favorito para o dia a dia.

domingo, 2 de julho de 2017

Um post sobre quatro azeites

Não sou um entendido em vinhos, limito-me a partilhar aqui uma ou outra experiência do quotidiano. Mesmo assim, de vez em quando, há entidades que entendem poder este espaço contribuir para a divulgação dos seus produtos.

Coisa que não me podia desagradar, embora o meu interesse em ser mais que apenas ainda outro apreciador que partilha algo sobre o que come e bebe, quando apetece, seja zero.

Dito isto, é a segunda vez na história deste blogue que me enviam um azeite. E se não me considero um entendido em vinhos, então em azeites...

Mas uso e gosto. Gostamos. Fazemos questão de ter sempre bom azeite cá por casa. E acontece até já ter participado numa prova, coisa complicada e da qual, creio, não retive muito.

Tal como no vinho, se a prova, o entendimento, tem muito que se lhe diga, o acto de provar é simples: verte-se uma porção de 10 ou 15ml de cada um dos azeites para dentro de seu copinho, copinhos esses que "profissionalmente" são escuros, azuis, de modo a que a cor não influencie o resultado, aquece-se com as mãos para libertar tantos voláteis quanto possível, cheira-se e leva-se à boca.

Não se deglute, dizem eles, mas tomam-se notas, se for caso disso, e um bocadinho de maçã verde, com ou sem água a empurrar, entre espécimes, para limpar o palato.

Importa notar a intensidade, por assim dizer, a força do azeite, e a sua harmonia também. O cheiro, mais verde ou mais maduro, que faz lembrar? Atentar à textura, ao "peso" do fluido. Sentir o doce, o amargo, o picante. E ter atenção à questão do ácido, que o sabor do azeite não denuncia a sua acidez, mesmo que ela esteja lá.

Ora, em vez de uma nota de prova isolada e de maior detalhe, que não sei até que ponto poderia ser fiável, fiável no sentido de "honesta consigo própria", pareceu-me mais interessante comparar os azeites que tinha em casa, sendo o mais sucinto possível nas suas descrições.

Quatro azeites, dois alentejanos e dois transmontanos. Todos "virgem extra", extraídos a frio e com acidez máxima de 0,2%, à excepção do "Rosmaninho" do rótulo com letras vermelhas, que tem 0,5%.




Por ordem, houve então:

Casa de Santa Vitória "Gourmet". Produzido na Herdade da Malhada, Sta. Vitória, Beja. Cobrançosa, Cordovil, Picual e Galega. Muito redondo, com toque levíssimo de maçã e verdor apenas residual, pareceu-me o mais maduro dos quatro. Pungência zero. Mas se é equilibrado na suavidade, também poderá haver quem o acuse de "blandness".

Rosmaninho, letras verdes. Produzido pela Coop. de Olivicultores de Valpaços, a partir de azeitonas Madural, Cobrançosa e Verdeal. Aroma mais intenso que o do Santa Vitória e mais verde também, com menos finura nas notas frutadas, mas, globalmente, mais raça. Levíssimo amargor, que cai bem.

Rosmaninho, letras vermelhas. De acordo com o contra-rótulo, mesmo lote e processo de extracção do anterior. E pareceu-me igual a ele. Ou quase, mas um quase que não me convenceu e, em todo o caso, não saberia traduzir por palavras. Sendo os azeites mais subtis no paladar que os vinhos, é expectável que seja também mais difícil apontar as diferenças entre eles, a menos que se tenha muita prática ou se seja algum tipo de sobredotado.

Oliveira Ramos "Premium". Um azeite da marca João Portugal Ramos. As azeitonas, Cobrançosa e Picual, da região de Estremoz. Equilibradíssimo, mas talvez o mais frutado dos quatro presentes, ou, melhor dito, o com mais sabor. Sugere, de facto, o verdor vegetal e a maçã indicados na nota de prova que o acompanhava.

Em prova sem vencedores nem vencidos claros, por muito pouco, gostei mais do Oliveira Ramos e do Rosmaninho "verde", que me pareceram os mais aromáticos, tanto em força como em complexidade, sem que isso lhes tenha custado finura.

Mas, sem tretas, são todos bons, muito bons. De tal forma que, se por algum capricho de um deus subitamente focado em mim, tivesse de me servir apenas de um deles para o resto da vida, a gratidão teria de continuar lá e não sentiria qualquer diferença.

Andava a pensar, faz já algum tempo, em deixar aqui qualquer coisa sobre os whiskies que abati, em casa, nos últimos dois meses (ou isso). Acho que agora é que vai ser! :)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Azienda Agricola Basilisco — Teodosio '2010

Basilicata, ou Lucânia, é uma região da Itália meridional que faz fronteira a sudeste com o mar Jónico, a este com Apúlia, a oeste com Campânia, a sudoeste com o mar Tirreno e a sul com a Calábria. Este vinho, produzido pela Azienda Agricola Basilisco, de Barile, trazido até nós sob a D.O. Aglianico del Vulture, vem de lá.

Monovarietal de Aglianico criada em terreno vulcânico, a 500m de altitude, fermentou em inox e estagiou "10-12 meses", citando o produtor, em barricas de segundo e terceiro ano. Vem vedado com rolha DIAM.

Fruta em primeiro plano, cereja "seca" de carácter muito mediterrâneo, que me trouxe à memória os poucos Cannonau da Sardenha que experimentei.

Com ela, cacau, folha de tabaco e grafite. Vago almiscarado. Apesar de não muito amplo, bouquet exótico e interessante.

Enche mais de meia boca, com um "miolo" intenso e focado, cheio de personalidade, que alguns poderão entender como abrupto, talvez. O álcool e a acidez sentem-se e os taninos são finos, mas bem presentes. Bastante persistente, acalma um pouco depois do embate inicial.

Proporcionou uma sensação curiosa: à medida que ia sendo consumido, sem que o acompanhamento mudasse, houve momentos em que pareceu ser o álcool o condutor da sua força, com a acidez a refrescá-lo, por assim dizer, a compensar. De outras vezes, pareceu ser a acidez a puxar por ele, independentemente do álcool.

Vivo e bom ao segundo dia — pouco diferente da noite em que foi aberto, talvez mais calmo.

Em suma: forte (sem ser um monstro) e original. Não sei se vale os 93 pontos que a Wine Advocate lhe atribuiu em Abril de 2015, mas será difícil não gostar dele.

12€.

17

segunda-feira, 26 de junho de 2017

dEUS — Worst Case Scenario



And there's always something in the air
Sometimes suds and soda mix okay with beer
Can I, can I break your sentiment?


#2, Suds & Soda

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Tinto da Talha — Grande Escolha '2010

Um "premium" da Roquevale, de Redondo. Há muito que não revisitava este tinto, que continua a não enganar.

Feito na edição de 2010 com Aragonês e Touriga Nacional, vinificadas em separado, embora celebre a tradição romana, que ainda vigora na região, do uso da talha, não viu barro, mas um breve estágio, de cerca de três meses, em barricas novas de carvalho francês e americano.

Cor rubi, sem grande opacidade ou mostras de evolução.

Nariz tipicamente alentejano, com frutos pretos, vegetal seco, madurez, especiarias "quentes" e um aroma etéreo, entre o floral e o químico: certamente da Touriga, mas nada tourigão.

Na boca, porte mediano e carácter capitoso, mau grado a acidez. Tem alguma textura e termina satisfatoriamente longo e especiado.

Indo bem com comida, mesmo pratos robustos, não exige a sua presença para se deixar apreciar. No meu caso concreto, acompanhou bifanas, primeiro, e uma interpretação próxima desta do infame "chicken parmesan", depois.

Em ambos os casos, escorreu "como água sobre as lajes".

Escrevi aqui a respeito de um 2003 notável: colheita que, diz a internet, continua em bom plano. Que pena não ter guardado!

7€.

16,5

terça-feira, 20 de junho de 2017





sábado, 17 de junho de 2017

Pérez Barquero — Gran Barquero, Amontillado

100% Pedro Ximénez. A respeito do seu processo de produção, ficam as informações constantes da ficha técnica que o produtor disponibiliza online:

"Selección de mostos de “yema”, fermentación natural a temperatura controlada y sin necesidad de encabezado. (Similar a la del Fino ya que, en definitiva, es un Fino viejo que tras un largo periodo de crianza biológica bajo velo de flor, ha realizado otra etapa, aún mayor, de crianza oxidativa)"

e "Crianza Biológica bajo velo de flor (>10 años) seguida de envejecimiento oxidativo (>15 años). Los dos procesos tienen lugar en botas de roble americano de 500/600 litros de capacidad y mediante el sistema de criaderas y soleras. En conjunto, su tiempo de crianza y envejecimiento es de 25/30 años".

O processo de elaboração destes vinhos é um mundo — um link de qualidade para os eventuais interessados.

Mais espesso e glicerinado que este, mas igualmente cheio de presença, é um vinho singularmente intenso, longo e amplo, de complexidade difícil de descrever. Aqui, há que notar que o termo de comparação dado é um Palomino de Jerez, casta com menos açúcar e criada em zona de clima mais mediterrâneo, menos continental, sujeita a menores variações térmicas que o PX de Montilla-Moriles do presente, e que isso leva, por norma, a que estes segundos vinhos precisem de menor porção de álcool adicionado aquando do encabezado, o que, acredito, justificará, pelo menos em parte, a diferença sentida.

De qualquer forma, e passando ao momento importante, que foi bebê-lo, sem exagerar, penso que me tenha trazido um pouco de tudo aquilo que entendo concebível encontrar num vinho . . . Vernizes, lacas, gasolina e outros etéreos, incensos, flores, mel, caramelo, frutos secos, tostados, forno de pastelaria, fruta cristalizada — mas qual ou quais? — e maresia, ranço, vinagrinho . . . Um indivíduo perde-se.

Servido a temperatura sempre ligeiramente inferior aos 15ºC que o produtor recomenda como mínimo, nunca deixou de se mostrar extremamente sápido, com a salinidade característica do género a surgir contida, embrulhada na secura suave que lhe define a boca. Leve toque de calidez em crescendo com a passagem do tempo no copo — são 19% de teor alcoólico.

Numa palavra, grande! E o derradeiro vinho para acompanhar presuntos espectaculares!

A 18€ por garrafa de 75cl, possui uma relação qualidade/preço brutal (coisa comum no mundo do Xerez). Mas consta já ter sido substancialmente mais barato.

18,5

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Boards of Canada — Geogaddi

O segundo álbum dos Boards of Canada foi lançado em Fevereiro de 2002.




Não deixando de ser, sem dúvida, um exemplo da melhor IDM que já foi feita, electrónica que não envelhece, justo merecedor dos muitos elogios que lhe têm vindo a ser dirigidos . . .

. . . Contém vários artifícios e singularidades que terão, certamente, ajudado a reforçar a sua mística.

Talvez a minha favorita seja a oitava faixa do disco, que aqui partilho:

Julie and Candy,

Como em Julie Ponder & Candy Newmaker?

Aw :)

domingo, 11 de junho de 2017

Casas do Côro — Tonel do Vizinho '2010

Casas do Côro é um conjunto de infraestruturas turísticas que inclui casas tradicionais, hotel e spa, localizados na aldeia histórica de Marialva, concelho de Mêda. A componente vínica do projecto tem razoável projecção há anos, com os seus produtos amplamente disponíveis na grande distribuição.

Este monocasta Touriga Nacional foi comprado no Pingo Doce e o seu contra-rótulo diz tratar-se de "um lote adquirido a um vizinho que o produziu com a sua mestria, que o cuidou, mas que tinha uma dificuldade difícil de explicar em escoá-lo".

A caminho dos 7 anos de idade, está sério, diria mesmo algo tímido, com intensidade e volume apenas medianos, mas equilibrado nas suas proporções.

No nariz, fruta preta em transformação . . . mirtilo, amora . . . a par de algum vegetal. Tanto as flores como a madeira do estágio se encontram presentes, mas longe da exuberância que muitas vezes a casta proporciona, no primeiro caso, e que nós, humanos, lhe forçamos, no segundo.

Afinado, macio e de boa envolvência, tem 13,5% de álcool que não sobressaem, apesar da acidez discreta, e um final agradável, essencialmente vegetal, a evocar rama de tomateiro e mato seco, sem amargar.

Posto isto, apesar da ausência de sinais objectivos de velhice, beba-se agora.

A dificuldade em escoá-lo poderá ter tido a ver com a predilecção do público por produtos de satisfação imediata, bem como um preço algo elevado, tendo em conta o padrão actual do mercado. Mas isso já sou eu a teorizar.

11€.

16

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Filmes (81)




Trinta anos depois da estreia, afirmava o seu produtor executivo ao "El Mundo" que "(...) fue un desastre para todos los que intervinimos en ella. Acabó con la carrera de Iván como director y con la mía como productor. Además, casi nadie cobró, nunca supimos adónde fue a parar el poco dinero que ha dado".

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Quinta dos Termos — Reserva "Vinhas Velhas" '2013 e '2014

Consumidos em simultâneo, mais dois exemplares da Quinta dos Termos, de Carvalhal Formoso, Belmonte. Que gama extensa eles têm!

De acordo com os respectivos contra-rótulos, que são idênticos, foram feitos com uvas de vinhas velhas das castas Trincadeira, Jaen, Rufete e Marufo, junto com 10% de Syrah de vinhas novas.


Bastante parecidos entre si — encontrado o estilo pretendido, será mais fácil manter a coesão entre colheitas? — são dois tintos longos, amplos e estruturados. Robustos, mas não brutos.

No 2013, mais morango que ameixa preta: fruta madura, macerada em álcool. Algum ligeiro floral. Muitos taninos, finos, não sedosos. A barrica, fumado discreto, bem integrado. 9€. 17.


Mais "escuro" o 2014, com sugestões de frutos pretos/roxos e madeira um pouco mais presente. 9€. 16,5. Até ver, foram os dois vinhos do produtor de que mais gostei.

sexta-feira, 2 de junho de 2017





terça-feira, 30 de maio de 2017

Fattoria di Fèlsina Berardenga — Chianti Classico Riserva "Rancia" '2010

Fèlsina está localizada no extremo sudeste da denominação Chianti Classico, entre as últimas esporas das colinas de Chianti e o início do vale de Ombrone. São 600 ha de terra, dos quais 95 plantados com vinha.

Este Rancia, proposta de categoria "reserva" do produtor, vem do vinhedo homónimo, situado na comuna de Castelnuovo Berardenga (este pdf contém um mapa que mostra as localizações das diferentes vinhas da exploração).

Trata-se de um monocasta Sangiovese, fermentado em inox, com maceração, durante 16 a 20 dias, a temperaturas entre 28 e 30°C. Em Março ou Abril do ano seguinte ao da vindima, o vinho novo é transferido para barricas novas de carvalho francês, onde estagia de 18 a 20 meses, antes de loteado e engarrafado.

Abri a garrafa e provei. Logo me passou pela mente o facto de, em função das circunstâncias, nos podermos deparar com vinhos menores que nos sabem pela vida e grandes vinhos que desapontam. Mas depois de basto arejamento, toda a tarde em decantador, as coisas mudaram.

E se, ao jantar, já não parecia o monólito de potencial por realizar que se mostrara antes, tão tenso e concentrado quanto objectivamente pobre em cheiro e sabor, exemplo perfeito de um vinho fechado, nunca deixou de parecer ter mais para dar que o mostrado no momento.

"Muito Chianti", trouxe consigo cereja amarga, framboesa e bagas pretas sobre fundo de barrica, esta sem fumo nem baunilha, coisa estranha para quem consome vinhos portugueses 99 em cada 100 vezes: estes cheiros não são cá da terra, faltam termos de comparação.

A complexidade? Anis estrelado, folha de tabaco, cabedal. Flores. Violetas, mas nada como as da nossa Touriga. Nem melhores nem piores, diferentes: mais terra, menos perfume. E moca, deliciosa, a espreitar no final.

Foi assim que este vinho longo e super limpo, com a acidez considerável que se espera dos bons exemplares do género, acabou por me cativar, apesar de ser daqueles vinhos que, reitero-o, não têm tendência para arrancar exclamações de espanto.

Ademais, apesar de ainda ter muitos anos pela frente, encontra-se já numa fase bastante abordável, dê-se-lhe tempo para se soltar — e esquecidas as expectativas, projecções pessoais para o futuro que, como aqui me pareceu ser o caso, muitas vezes não têm muito de concreto a que se agarrar. . . indubitavelmente agradável.

A S. não lhe perdoou a circunspecção, mas a S. gosta de alentejanos ricos.

35€.

18

sábado, 27 de maio de 2017

2.

Terá a manhã sempre que voltar? Não terminará jamais o poder da Terra? Agitação nefasta consome o celeste poisar das asas da Noite. Jamais ficará a arder sem fim a secreta oferenda do amor? O tempo da Luz é mensurável; mas o império da Noite é sem tempo e sem espaço. — Perene é a duração do sono. Sagrado sono, não sejas avaro de teus benefícios para todos os que nesta jornada terrena se consagram à Noite. Só os loucos te desconhecem, não sabendo de outro sono que a sombra que tu misericordiosamente sobre nós lanças no crepúsculo desta vera Noite. Eles não te sentem no dourado caudal das uvas — na maravilha do óleo de amêndoas, no suco escuro da papoila. Não sabem que és tu que pairando no contorno dos seios das tenras donzelas tornas o seu regaço o Céu — não supõem que tu, vindo de histórias antiquíssimas ao nosso encontro, vens para abrires o Céu e trazeres contigo as chaves das moradas dos bem-aventurados, mensageiro silente de infindáveis segredos.

Novalis, "Os Hinos à Noite"
Trad. de Fiama H. P. Brandão
Assírio & Alvim, 1988

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Quinta dos Termos — Colheita Seleccionada '2008

Diz o Prof. Virgílio Loureiro no contra-rótulo deste seu vinho que "... juntei à Touriga Nacional um pouco do melhor vinho de Trincadeira, depois acrescentei o Rufete e, por fim, um bocado de Tinta Roriz, que, em anos bons, fica com um aroma encantador".

Começou algo preso, insistente nas reminiscências de fumo, pimenta preta, coco e baunilha, tudo a apontar para um estágio em carvalho americano, que, sem assoberbarem o conjunto, acabaram por ganhar em definição, e assim sobrepor a sua presença ao "cheiro a vinho" predominante, coisa séria, austera, nada terciária, que só bastante tempo após a abertura começou a deixar perceber a alegria de certa frutinha negra, bonita, é certo, mas de expressão muito suave. Entretanto, cacau, em crescendo.

Na boca, se o volume e o comprimento não se poderiam qualificar como mais que apenas "bonzinhos", era notória a substância, e talvez mais ainda, a coesão evidenciada. Como se, não obstante os quase nove anos volvidos sobre a data da colheita, este vinho ainda estivesse realmente por abrir — e a deixar as sementes da questão sobre se irá realmente fazê-lo . . . Por norma, os tintos de taninos firmes embirram com a acidez e gordura do queijo que, por sua vez, costuma entrar em rota de colisão com a fruta. Mas aqui pareceu-me já existir macieza suficiente e o seu intenso sabor, em concordância com o nariz, era de vinho, vinho mesmo, sem grande fruta, sem pingo de açúcar. Como se de um pequeno Vintage seco se tratasse.

Então resolvi consumir com ele uns quantos queijos maduros que por aí tinha: Stilton, Manchego e da Serra da Estrela, e não me pareceu que a ligação tenha corrido mal, de modo algum. Estava, enfim, contente. Mas quando vieram uns pãezinhos com patê de veado e Pedro Ximenez, de La Cacereña, deste, não consegui mais escapar à forma como o sabor do vinho, sem o ser, puxava maravilhosamente pelo animal, gamy, da carne. E foi como ver a luz.

9€.

16,5

domingo, 21 de maio de 2017







quinta-feira, 18 de maio de 2017

Convento da Tomina '2013

Fundado por Manuel de Jesus Maria, em 1686, o Convento da Tomina está localizado no sítio da Tomina, junto ao Ribeiro de Pai Joannes, em zona fronteiriça entre as localidades de Santo Aleixo da Restauração, do lado português, e Aroche, do espanhol, integrado na chamada Herdade da Contenda, a cujo respeito encontrei uma tese interessantíssima.

Em 1709, por decisão de D. João V, o Convento ficou adstrito à Congregação dos Clérigos Regulares dos Doentes, os chamados clérigos agonizantes, cuja principal missão consistia na assistência aos moribundos. De lá saíram os religiosos que fundaram, entre outros, o Convento de Nossa Senhora de Sacaparte, em Alfaiates, que já não me é estranho.

Feito com Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira e Alfrocheiro, sem passagem por madeira, este Convento da Tomina corresponde a um vinho que o produtor da zona de Moura, em tempos, vendia em garrafão, à porta da adega, e que era tão bom que várias pessoas próximas o terão tentado convencer a engarrafar, com sucesso. Ainda bem.

Porque já tinha saudades de um nariz tão puramente alentejano! Tem frutos pretos cozidos pelo sol e em marmelada, entre os quais pesa a inevitável ameixa, junto com flores e vegetal: aquilo que, há muitos anos, eu chamava "podrum alentejano", rapidamente seguido de — e completado por — sugestões ferrosas e sanguíneas. Xisto?! Mais para o fim, chocolate branco. Na boca, já bastante macia, corpo e persistência "médios mais", com algum álcool e acidez suficiente. E apesar do estilo generoso, não me parecesse que deixasse qualquer impressão de doçura residual no paladar.

A caminho dos quatro anos de idade, está um vinho fácil de entender, directo, franco. Simples, no bom sentido da palavra, e sólido também.

8€.

16

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Slint — Spiderland

Spiderland foi o segundo e último álbum dos Slint.



Goodnight, my love
Remember me as you fall to sleep.
Fill your pockets with the dust and the memory,
That rises from the shoes on my feet.

I won't be back here
Though we may meet again.

I know, it's dark outside
Don't be afraid.
Every time I ever cried for fear,
Was just a mistake that I made.
Wash yourself in your tears,
And build your church
On the strength of your faith.

Please,
Listen to me,
Don't let go,
Don't let this desperate moonlight leave me,
With your empty pillow,
Promise me
The sun will rise again.

I, too, am tired now
Embracing thoughts of tonight's dreamless sleep.
My head is empty,
My toes are warm.

I am safe from harm.



#4, Washer

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quinta da Fata — Touriga Nacional '2009

Outro velho favorito, o monocasta Touriga Nacional da Quinta da Fata, de Vilar Seco, Nelas.

Feito em lagar, com pisa a pé, estagiou, um ano, em barricas de carvalho francês. Abri a garrafa nº 1493, mas não consegui descobrir quantas foram produzidas.

Mais amplo que longo e muito macio, senhor de uma concentração a que não teve de ceder finura, apareceu ainda pouco terciário, rico em violetas e vívidas sugestões de bergamota, misturadas com fruta bem negra, a degenerar com a passagem do tempo em figos, tâmaras e frutos secos, junto com um pouco de chocolate de leite, mais presente no final.

Com oito anos, não me pareceu nada velho. Retém frescura e alegria — talvez, também, promessas para o futuro? Para já, foi pelo equilíbrio que se destacou, foi de equilíbrio a impressão que dele prevaleceu.

Empurrou um bife com batatas fritas, de acordo com esta interpretação do clássico.

18€.

17

terça-feira, 9 de maio de 2017

Filmes (80)

Fisshu sutôrî (Fish Story)





Este filme é a adaptação cinematográfica da novela de 1971 com o mesmo título, escrita por um japonês chamado Kotaro Isaka.




O contra-rótulo inclui uma breve sinopse: "Fish Story weaves together several seemingly separate storylines taking place at different points in time over a 37-year span to explain how a little punk rock song can save the world."




E aparte o bizarro, que só pode ser bom, nem que seja pela diversidade que implica, não é que funciona?




Como o melhor dele é som e movimento, preferia trazer-vo-lo numa janela de vídeo. Mas, o dinheiro, os direitos! O Youtube não deixa.

sábado, 6 de maio de 2017

Herdade do Esporão — Quatro Castas '2012

Feito com Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Touriga Franca e Tinta Miúda, 25% de cada, vinificadas em separado. O Alicante estagiou, seis meses, em inox; as demais castas, por igual período, em carvalho francês e americano.

Nariz maduro, generoso nas notas evocativas de calor e doçura — preferindo não o afirmar muito alentejano no estilo, expressão a que não falta certa perversidade, digamo-lo, pelo menos, profundamente meridional.

E complexo. À fruta que predomina, a evocar ameixa, groselha preta e outros que tais, por vezes com toque lácteo, por vezes alicorado, juntam-se floral doce e reminiscências de barrica, como baunilha e caramelo de leite.

Na boca, corpo médio, de sabor intenso, com acidez moderada e taninos doces. Em termos de persistência, estará apenas entre o médio e o longo, mas não me pareceu essa a sua característica mais lisonjeira. Em todo o caso, um vinho em boa forma!

Há muito que não abria nenhuma garrafa da Herdade do Esporão; esta serviu para me lembrar que, por norma, vale a pena.

10€.

16,5

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O homem que tinha dado o nome de Bill Plantagenet mas primeiro se anunciara como s. s. Lawhill, acordou ao menos com a certeza de uma coisa: estava num barco. Caso contrário, que barulhos espaçados podiam ser aqueles, sons assim, de ferro a malhar em ferro? Identificou o correr de água nas escotilhas, os pesados passos que martelavam por cima dele a ponte, aquele incessante Frère Jacques que é o Frère Jacques das máquinas. Estava num barco, de volta à Inglaterra de onde não devia ter saído. Depois, teve consciência do seu estiraçado, trémulo e malcheiroso corpo. A luz do dia espetou-lhe as pálpebras com setas dolorosas. E ao abri-las viu três marinheiros negros a esfregarem vigorosamente a ponte. Voltou a fechá-las. "É impossível", pensou.

Se estava num barco, e pelos vistos no castelo da proa, a coxia que tinha o seu beliche na ponta por certo atravessava o castelo inteiro. Disparate, concluiu — e fazia-se ao mesmo tempo tão forte o som de corda ferida, que começou a magicar a hipótese de se encontrar deitado em cima do veio propulsor.

À medida que avançava o dia, tornava-se mais difícil suportar aquele ruído de um comboio a andar ali, no tecto, mesmo por cima da cabeça dele. Novamente se fez noite. O ruído ia aumentando e a tripulação, coisa estranha, parecia multiplicar-se. Homens e homens magoados e feridos, sempre bêbados, iam sendo expulsos da coxia pelos contramestres e batiam com a cara no chão, aos berros, ou adormeciam repentinamente nos beliches duros.

Mantinha-se acordado. Passara a noite a fazer o quê? A tocar piano? E essa noite tinha sido, realmente, a noite anterior? Talvez não. Sentia um remorso a roer-lhe as entranhas. E uma vontade de beber desesperada. Não chegava a perceber se estava de olhos abertos ou fechados. De baixo das mantas saltavam horríveis formas entregues a um indecifrável linguajar; vinham esfregar-lhe a cara com pêlos, mas não conseguiu reagir. E sentia qualquer coisa a tentar levantar-se debaixo da tarimba, precisamente um urso. Vozes, uma prosopopeia de vozes aparecia a murmurar-lhe coisas ao ouvido e afastava-se e voltava a aproximar-se e a sussurrar, ou então dava gargalhadas, gritos e grasnidos; eram vozes que o exortavam a nunca mais beber, a morrer, a ficar amaldiçoado para sempre. Uma multidão de espantosas sombras chegava junto dele para se afastar logo de seguida. Da parede jorrou uma cascata de água que invadiu o quarto. E uma gesticulante mão vermelha espicaçava-o. No flanco devastado de um monte corria uma torrente caudalosa que arrastava corpos sem pernas, a dar berros que saíam de órbitas enormes e sem olhos, mas cheias de dentes partidos. Uma música cresceu até ao grito, e depois cessou. Num edifício de fachada totalmente destruída, um escorpião enorme violava uma negra sem braços, numa cama ensanguentada e desfeita. Por breve instante viu a sua mulher de face triste e banhada em lágrimas, que logo se transformou em Ricardo III prestes a atirar-se a ele, para o estrangular.

Malcolm Lowry, "Lunar Caustic"
Trad. de Aníbal Fernandes
Assírio e Alvim, 1985

domingo, 30 de abril de 2017

Bonjardim '2014 (Branco)

Garrafa nº 2563 de 3000.

Cor evoluída.

Menos intenso na acidez que o seu congénere de 2015; mais macio, mais maduro, ainda muito senhor de si.

Abatido na margem do Ceira, com sushi, fez lembrar flores silvestres, jasmim, baunilha e chocolate branco.

Sobrou talvez um terço da garrafa, que à noite surgiu transformada: pedra, humidade, oxidação.

É um vinho bonito, mas menor que o de 2015 e que, provavelmente, não durará.

Quando procurava saber mais sobre o produtor, online, não desgostei da reportagem que encontrei aqui.

7€.

16

quinta-feira, 27 de abril de 2017







segunda-feira, 24 de abril de 2017

Bonjardim '2015 (Branco)

Animado pela descoberta dos vinhos do post anterior, não tardei a procurar mais exemplares originários da quinta que lhe deu origem.

Encontrei dois brancos secos, de 2014 e 2015, ambos de produção ainda mais reduzida que o tinto: dizem os respectivos contra-rótulos terem sido enchidas, do primeiro, 3000 garrafas de 75cl, e do segundo, apenas 1970 garrafas de meio litro.

Comecemos pelo mais recente. Fernão Pires e Alvarinho, amadurecido "sur lie", em contacto com as leveduras mortas, após a fermentação, e não filtrado.

Primeiro flores silvestres, brancas e amarelas, depois pastelaria, a untuosidade subtil de massas folhadas.

Largo, sério, conduzido por excelente acidez que o refresca e lhe traz profundidade, mesmo já depois de "quente" no copo.

De final amanteigado, com toque de noz de pecan, foi a garrafa nº 1111.

A acompanhar, salada de polvo. O molusco, depois de cozido, foi ao forno num pyrex fechado, 20 minutos, a 140ºC, com azeite, paprika e tomilho seco. Virou-se a meio da assadura.

Misturado com feijão frade, pimento assado, azeitona verde, cebola doce e salsa, tudo cortado relativamente miúdo, constituiu um jantar fácil e agradável, companhia perfeita para um branco muito, muito bonito.

7€.

17

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Bonjardim '2012 e '2013

Feitos, de acordo com os respectivos contra-rótulos, com Touriga Nacional e Syrah, fermentados em lagar e estagiados em barrica, estes são dois dos vinhos biológicos da Quinta da Portela, sita na aldeia do Nesperal, concelho da Sertã.

A quinta, do século XVIII, adquirida pelos actuais proprietários em 1989, além da actividade vinícola, inclui uma unidade de turismo rural, o Albergue do Bonjardim. O enólogo é António Maçanita.

Em 2012, foram produzidas 7200 garrafas deste tinto, das quais abri a nº 4131. Escuro, mas relativamente pouco opaco, não se mostrou o vinho extraído e madurão que, talvez por preconceito, esperava encontrar. Pelo contrário: surgiu muito fino, cheio de boa fruta silvestre, com ponto de frescura balsâmica e bergamota. Sem se poder considerar realmente profundo ou complexo, foi, no entanto, longo, macio e concentrado o suficiente para impressionar. Custou à volta de 8€. 16.

Maior surpresa ainda foi o de 2013, ano de produção substancialmente mais reduzida: abri a garrafa nº 2924 de 3700. De novo, frutos do bosque, mais vermelhos que negros, flores, muita bergamota, pimenta preta e ligeira barrica. Parecido com o de 2012, mas algo melhor em todos os aspectos. 8€. 17.

Estes tintos constituem, definitivamente, dois belos representante da zona do Pinhal Interior, onde a produção de vinho, apesar de antiga, nunca teve projecção.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Filmes (79)



"I have existed from the morning of the world and I shall exist until the last star falls from the night. Although I have taken the form of Gaius Caligula, I am all men as I am no man and therefore I am a God."

sábado, 15 de abril de 2017

Domini Plus '2011

A colheita de 2011 na Quinta de Mós, propriedade da José Mª da Fonseca no Douro, rendeu 5800 litros deste vinho, engarrafado em Abril de 2014.

68% Touriga Francesa, 22% Tinta Roriz e 10% Touriga Nacional; estagiou 23 meses em madeira nova.

Inicialmente fechado de aroma, melhora tomado algum ar: frutos negros, barrica fina, flores e cola "Dragão". Vaga percepção de doçura. Longo, concentrado; elegante na forma como distribui coisas grandes.

Algo monolítico, é certo, mas muito polido, tem tudo o que se espera de um vinho de gama alta, oriundo de um produtor de referência, que começa a estar realmente pronto a ser bebido.

E agradou, de tal maneira que uma das notas rabiscadas aquando da prova até diz "delicioso". Mas não houve entre nós click que justificasse maiores observações.

Coisas da alma! Se da dele, se da minha, não sei.

35€.

17,5

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Velharias (42)

Tento cristalizar em termos perceptíveis este meu momento. Apesar de ter fumado bastante, sinto-me sóbrio e desperto, o que, perante o espelho, não deixa de surpreender: é uma pobre figura aquela que me enfrenta de olhar fixo, sem pestanejar, os músculos da face meio paralisados numa expressão idiota.

Consigo raciocinar com clareza e escrever depressa, mais depressa que o costume. Mas não chega. Gostava de escrever coisas que penso com destreza tal que o acto de registar não interferisse com o filme, mas temo que tal seja impossível. Registar também é uma tarefa.

Com a corrente de ideias perturbada pelo abrandamento que lhe é imposto pelo acto de registar, há sempre algo que se perde, e consigo a própria corrente. Fica imortalizado um esboço sem graça, nunca nada parecido com o que pretendia representar. Mas insisto em fazê-lo, não que tenha ilusões seja relativamente a produzir pepitas de sabedoria ou a alguma vez vir a conseguir registar algo para o qual não possuo uma linguagem completa e que se transforma e me leva consigo para onde eu não estava, por caminhos que não creio que fosse trilhar, assim que escrito ou dito. A auto-referência é só um de muitos desses demónios. 


Ei-la! Não era onde queria ir e voltar atrás não é permitido, por via da artificialidade. Já não é eu e onde estava a ir: projecção futura e momento presente, mas sim uma recordação revisitada. Por curiosidade, elaboremos sobre isso. Se por vezes o filme flui ligeiro, outras preocupam-me coisas mais pesadas.

E eu, babado ao espelho, antes de me desviar pelas linhas supra, estava ou estive algo atormentado com algo recorrente, que me acompanha não importa quão para trás olhe: acho que dependo de pessoas. A rapidez com que me farto da solidão relativa de quando me isolo dos outros leva-me a pensar que não suportaria viver absolutamente só.

Mesmo assim, evito frequentemente essas pessoas com quem tanto gosto de interagir. Porquê, não sei ao certo. Talvez por medo de não acompanhar as suas expectativas, embora não consiga ver qualquer bom motivo pelo qual havia de me forçar a isso. Ademais, é natural que o indivíduo julgue aquilo que vai conhecendo e de forma alguma isso o transforma automaticamente num inimigo.


Eu também o faço. Ao comprar bananas, escolho um conjunto de frutos que nunca antes tinha visto na vida em função de um julgamento baseado numa banana ideal, que nunca toquei ou comi, mas que ajuda a diferenciar uma "boa" banana de uma "má" banana. Ao conhecer a Joana, amiga de conhecidos que nunca antes tinha visto na vida, é natural que a avalie, por menos importante que esse juízo ou a própria Joana sejam no curso da minha vida: duas semanas depois do dia em que a conheci, encontrando casualmente a Joana na rua, já não é uma gaja sem nome, relativamente magra e loira, como tantas outras, que esteve durante uns segundos no meu campo de visão, mas sim a Joana, amiga do Mário que me vende haxixe, a Joana relativamente magra e loira que às vezes fala mais alto que o aconselhado pela situação e se escangalha a rir com coisas sem jeito nenhum.

Olá Joana. Olá Jorge. E cada um julgou e continuou a sua vida.

Parece-me, pois, algo injusto o tratamento que tantas vezes reservo àqueles que não são eu. Aparecer, não posso evitar. Mas podia, talvez, tentar contrariar o azedume que me tinge uma vez minado pela desconfiança. Podia tentar racionalizá-la. Podia, pelo menos, não a alimentar. Sei que o facto de alguém achar ou esperar algo de mim não implica sempre, necessariamente, que seja um antagonista, infiltrado ou declarado, mas opto por nunca dar o benefício da dúvida. Houvesse algum acontecimento traumático no passado a que pudesse agarrar-me como desculpa, poderia estar descansado, confortar-me-ia a pena de mim mesmo a esse respeito e recomeçaria o jogo. Mas não. Serei estúpido?

Estúpido ou mau? Ah! Sendo mau, é natural que pertença ao inferno, tanto que já lá esteja. Sim, que depender é um inferno e eu acabo por depender de tudo. Qualquer merda me magoa. E pensar "grow a pair, fag" não ajuda, magoa mais. Bah. Teria Kierkegaard razão quando afirmava ser a "doença mortal" o desepero? Porque não a falsa consciência de vida que nos leva tanto a ignorar que vivemos para a morte?

14/1/2002

domingo, 9 de abril de 2017

Terra D'Alter — Alfrocheiro '2014 e '2015

Abertos na mesma noite que o do post anterior, estes Alfrocheiro da Terras D'Alter apareceram muito mais focados e intensos que ele. Definitivamente, não pertencem à mesma liga.


Ora, estes são dois vinhos jovens, cheios de fruta. Em ambos me pareceu a amora a nota dominante, gulosa, super sugestiva, acompanhada no 2014 de cereja negra, vestígios de terra, sangue e algum chocolate, e no 2015, ameixa, especiarias quentes e vegetal seco.


De volume e persistência apenas medianos, ambos assentam boa parte da sua capacidade de impactar em acidez afirmativa e sabor sumarento. Sem arder ou amargar, o de 2015 está algo capitoso, menos redondo que o seu predecessor.

São vinhos de prazer imediato que parecem, no entanto, poder vir a beneficiar de algum tempo em garrafa. Será?

5€, cada.

16, ambos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Château La Grange d' Orléan '2012

Tal como este Haut-Landon, que foi trazido do mesmo supermercado, o vinho de que trata o presente é um Blaye-côtes-de-bordeaux engarrafado por SAS Robin, que o Guide Hachette des vins et champagnes introduz assim:

Jean-François Réaud a repris en 1983 le vignoble du grand-père, créé en 1904 sous le nom de Domaine du Grand Moulin; il l'a largement restructuré et modernisé, et lui a donné le nom plus flatteur de "château".

Constituem o lote 70% de Merlot, 20% de Cabernet Sauvignon e Franc, e 10% de Malbec, provenientes da vinhas de Annette Venancy, de Saint-Androny.

Savory, não fruit forward, com tabaco e especiarias em evidência.

Fresco e equilibrado, é "médio menos" em termos de presença, apenas firme o suficiente para não se desvanecer no nada . . . Agradável, mas sem grande história.

Embora Bordéus bom e barato não seja miragem, há que garimpar muito e a maior parte do que fica na peneira é cascalho.

Acompanhou cubos de pá de porco, estufada no slow cooker durante 12h, mais coisa menos coisa.  Mesmo no tempo quente, um prato que me sabe sempre bem.

4€.

14,5

segunda-feira, 3 de abril de 2017


Donner - Milic

1. d4, Nf6 2. c4, g6 3. g3, Bg7 4. Bg2, d5 5. cxd5, Nxd5 6. e4, Nb4 7. a3, N4c6 8.d5, Nd4 9. Nc3, c6 10. Nge2

After 10.Be3, White would have had a greater advantage.

10. ..., Bg4 11. O-O, Nxe2+ 12. Nxe2, O-O (12. ..., Qc8!) 13. h3, Bd7 14. Nc3, e6!

Black's last is an excellent move. The passed pawn is weak if anything, but I wanted to win, which would have been well-nigh impossible after a general exchange in the centre.

15. d6!??, e5! 16. Be3, Be6 17. Qd3, Nd7 18. f4, Nb6 19. Rf2!, f5?

Milic failed to understand the position. he should not relinquish files and squares surrounding the passed pawn on d6. With f6 he could have closed the position, condemning White to impotence. Now he ended up in a lost position.

20. fxe5, Bxe5 21. Bf4, Bxf4 22. Rxf4, fxe4 23. Rxf8+, Qxf8 24. Nxe4, Qg7 25. Nc5!, Bd5 26. Bxd5+, Nxd5 27. Re1!, b6


28. d7!, Qf7 29. Qe4, Rf8 30. Ne6, Qxd7

Too bad he did not play Nf6. When I asked him, he came up with some absurd line. Obviously, he hadn't noticed that White would have emerged a piece up with 31.d8=N!!

31. Nxf8, Kxf8 32. Qe6, Qc7 33. Qe8+, Kg7 34. Qe5+, Qxe5 35. Rxe5

Decent players resign in such a position. Black did not and managed a draw, of which I am so ashamed that I will not give the rest of the game. Et le pion noir dit au pion blanc: "Donner".

It was not the first time this happened to me. My repeated failures (until recently) against Wijnans were due to the same phenomenon. Always reaching winning positions, never winning. And the second game of my match against Euwe, in which I gave a pawn away in a drawn position, was something similar.

I love all positions. Give me a difficult positional game, I'll play it. Give me a bad position, I'll defend it. Openings, endgames, complicated positions and dull, drawn positions, I love them all and will give them my best efforts. But totally winning positions I cannot stand. There are other players in Holland who suffer from the same pathetic phenomenon, notably Van den Berg and Barendregt, who, as a result, are not really taken seriously and of whom it is mockingly said: "Just give a pawn away and you're sure to win." It is much better, in fact, to play an objectively less correct game but to be able to win once you've got a winning position, as is the case with Cortlever and Prins, for example.

And that is why I am writing all this under the heading "On the justice of chess". For it is indeed the strongest who will win: not the one who is objectively the best thinker, but the one who is the most tenacious fighter, as is also the case in life.

Club Magazine DD, Jul/Set 1950


Publicado pela New in Chess, "The King" é a tradução inglesa do clássico de 1987 "De Koning", uma antologia de artigos escritos pelo grande J.H. Donner, organizada por Tim Krabbé e Max Pam.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Monte da Ravasqueira — Vinha das Romãs '2013

O Monte da Ravasqueira é uma propriedade localizada perto de Arraiolos. Além de vinho, produz azeite e mel.

Este seu "Vinha das Romãs" foi feito com Syrah e Touriga Franca provenientes de uma parcela onde antes estava plantado um pomar de romãzeiras.

Da colheita de 2013, encheram-se 31538 garrafas em Junho de 2015, após 20 meses de estágio em barricas novas de carvalho francês.

Aberto para acompanhar um estufado de pá de porco feito na panela de cozedura lenta, foi servido directamente da garrafa e evidenciou, desde logo, grande presença.

Em primeiro plano, aroma doce de flores e fruta carnuda, preta e roxa, a cozer ao sol. Entretanto, tostados, baunilha e outras especiarias, chocolate de leite.

De peso/volume médio/grandes, mas acima de tudo macio, envolvente, mostrou-se longo e muito saboroso, com álcool discreto e acidez suficiente, por ora.

Deixei metade para o dia seguinte, dentro da garrafa, tapada com a rolha virada ao contrário, na porta do frigorífico, e ainda me pareceu mais ligado, a madeira melhor fundida na fruta, e mais solto, mais fragrante. Muito bom!

15€.

17,5

terça-feira, 28 de março de 2017