quarta-feira, 12 de abril de 2017

Velharias (42)

Tento cristalizar em termos perceptíveis este meu momento. Apesar de ter fumado bastante, sinto-me sóbrio e desperto, o que, perante o espelho, não deixa de surpreender: é uma pobre figura aquela que me enfrenta de olhar fixo, sem pestanejar, os músculos da face meio paralisados numa expressão idiota.

Consigo raciocinar com clareza e escrever depressa, mais depressa que o costume. Mas não chega. Gostava de escrever coisas que penso com destreza tal que o acto de registar não interferisse com o filme, mas temo que tal seja impossível. Registar também é uma tarefa.

Com a corrente de ideias perturbada pelo abrandamento que lhe é imposto pelo acto de registar, há sempre algo que se perde, e consigo a própria corrente. Fica imortalizado um esboço sem graça, nunca nada parecido com o que pretendia representar. Mas insisto em fazê-lo, não que tenha ilusões seja relativamente a produzir pepitas de sabedoria ou a alguma vez vir a conseguir registar algo para o qual não possuo uma linguagem completa e que se transforma e me leva consigo para onde eu não estava, por caminhos que não creio que fosse trilhar, assim que escrito ou dito. A auto-referência é só um de muitos desses demónios. 


Ei-la! Não era onde queria ir e voltar atrás não é permitido, por via da artificialidade. Já não é eu e onde estava a ir: projecção futura e momento presente, mas sim uma recordação revisitada. Por curiosidade, elaboremos sobre isso. Se por vezes o filme flui ligeiro, outras preocupam-me coisas mais pesadas.

E eu, babado ao espelho, antes de me desviar pelas linhas supra, estava ou estive algo atormentado com algo recorrente, que me acompanha não importa quão para trás olhe: acho que dependo de pessoas. A rapidez com que me farto da solidão relativa de quando me isolo dos outros leva-me a pensar que não suportaria viver absolutamente só.

Mesmo assim, evito frequentemente essas pessoas com quem tanto gosto de interagir. Porquê, não sei ao certo. Talvez por medo de não acompanhar as suas expectativas, embora não consiga ver qualquer bom motivo pelo qual havia de me forçar a isso. Ademais, é natural que o indivíduo julgue aquilo que vai conhecendo e de forma alguma isso o transforma automaticamente num inimigo.


Eu também o faço. Ao comprar bananas, escolho um conjunto de frutos que nunca antes tinha visto na vida em função de um julgamento baseado numa banana ideal, que nunca toquei ou comi, mas que ajuda a diferenciar uma "boa" banana de uma "má" banana. Ao conhecer a Joana, amiga de conhecidos que nunca antes tinha visto na vida, é natural que a avalie, por menos importante que esse juízo ou a própria Joana sejam no curso da minha vida: duas semanas depois do dia em que a conheci, encontrando casualmente a Joana na rua, já não é uma gaja sem nome, relativamente magra e loira, como tantas outras, que esteve durante uns segundos no meu campo de visão, mas sim a Joana, amiga do Mário que me vende haxixe, a Joana relativamente magra e loira que às vezes fala mais alto que o aconselhado pela situação e se escangalha a rir com coisas sem jeito nenhum.

Olá Joana. Olá Jorge. E cada um julgou e continuou a sua vida.

Parece-me, pois, algo injusto o tratamento que tantas vezes reservo àqueles que não são eu. Aparecer, não posso evitar. Mas podia, talvez, tentar contrariar o azedume que me tinge uma vez minado pela desconfiança. Podia tentar racionalizá-la. Podia, pelo menos, não a alimentar. Sei que o facto de alguém achar ou esperar algo de mim não implica sempre, necessariamente, que seja um antagonista, infiltrado ou declarado, mas opto por nunca dar o benefício da dúvida. Houvesse algum acontecimento traumático no passado a que pudesse agarrar-me como desculpa, poderia estar descansado, confortar-me-ia a pena de mim mesmo a esse respeito e recomeçaria o jogo. Mas não. Serei estúpido?

Estúpido ou mau? Ah! Sendo mau, é natural que pertença ao inferno, tanto que já lá esteja. Sim, que depender é um inferno e eu acabo por depender de tudo. Qualquer merda me magoa. E pensar "grow a pair, fag" não ajuda, magoa mais. Bah. Teria Kierkegaard razão quando afirmava ser a "doença mortal" o desepero? Porque não a falsa consciência de vida que nos leva tanto a ignorar que vivemos para a morte?

14/1/2002