terça-feira, 30 de maio de 2017

Fattoria di Fèlsina Berardenga — Chianti Classico Riserva "Rancia" '2010

Fèlsina está localizada no extremo sudeste da denominação Chianti Classico, entre as últimas esporas das colinas de Chianti e o início do vale de Ombrone. São 600 ha de terra, dos quais 95 plantados com vinha.

Este Rancia, proposta de categoria "reserva" do produtor, vem do vinhedo homónimo, situado na comuna de Castelnuovo Berardenga (este pdf contém um mapa que mostra as localizações das diferentes vinhas da exploração).

Trata-se de um monocasta Sangiovese, fermentado em inox, com maceração, durante 16 a 20 dias, a temperaturas entre 28 e 30°C. Em Março ou Abril do ano seguinte ao da vindima, o vinho novo é transferido para barricas novas de carvalho francês, onde estagia de 18 a 20 meses, antes de loteado e engarrafado.

Abri a garrafa e provei. Logo me passou pela mente o facto de, em função das circunstâncias, nos podermos deparar com vinhos menores que nos sabem pela vida e grandes vinhos que desapontam. Mas depois de basto arejamento, toda a tarde em decantador, as coisas mudaram.

E se, ao jantar, já não parecia o monólito de potencial por realizar que se mostrara antes, tão tenso e concentrado quanto objectivamente pobre em cheiro e sabor, exemplo perfeito de um vinho fechado, nunca deixou de parecer ter mais para dar que o mostrado no momento.

"Muito Chianti", trouxe consigo cereja amarga, framboesa e bagas pretas sobre fundo de barrica, esta sem fumo nem baunilha, coisa estranha para quem consome vinhos portugueses 99 em cada 100 vezes: estes cheiros não são cá da terra, faltam termos de comparação.

A complexidade? Anis estrelado, folha de tabaco, cabedal. Flores. Violetas, mas nada como as da nossa Touriga. Nem melhores nem piores, diferentes: mais terra, menos perfume. E moca, deliciosa, a espreitar no final.

Foi assim que este vinho longo e super limpo, com a acidez considerável que se espera dos bons exemplares do género, acabou por me cativar, apesar de ser daqueles vinhos que, reitero-o, não têm tendência para arrancar exclamações de espanto.

Ademais, apesar de ainda ter muitos anos pela frente, encontra-se já numa fase bastante abordável, dê-se-lhe tempo para se soltar — e esquecidas as expectativas, projecções pessoais para o futuro que, como aqui me pareceu ser o caso, muitas vezes não têm muito de concreto a que se agarrar. . . indubitavelmente agradável.

A S. não lhe perdoou a circunspecção, mas a S. gosta de alentejanos ricos.

35€.

18

sábado, 27 de maio de 2017

2.

Terá a manhã sempre que voltar? Não terminará jamais o poder da Terra? Agitação nefasta consome o celeste poisar das asas da Noite. Jamais ficará a arder sem fim a secreta oferenda do amor? O tempo da Luz é mensurável; mas o império da Noite é sem tempo e sem espaço. — Perene é a duração do sono. Sagrado sono, não sejas avaro de teus benefícios para todos os que nesta jornada terrena se consagram à Noite. Só os loucos te desconhecem, não sabendo de outro sono que a sombra que tu misericordiosamente sobre nós lanças no crepúsculo desta vera Noite. Eles não te sentem no dourado caudal das uvas — na maravilha do óleo de amêndoas, no suco escuro da papoila. Não sabem que és tu que pairando no contorno dos seios das tenras donzelas tornas o seu regaço o Céu — não supõem que tu, vindo de histórias antiquíssimas ao nosso encontro, vens para abrires o Céu e trazeres contigo as chaves das moradas dos bem-aventurados, mensageiro silente de infindáveis segredos.

Novalis, "Os Hinos à Noite"
Trad. de Fiama H. P. Brandão
Assírio & Alvim, 1988

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Quinta dos Termos — Colheita Seleccionada '2008

Diz o Prof. Virgílio Loureiro no contra-rótulo deste seu vinho que "... juntei à Touriga Nacional um pouco do melhor vinho de Trincadeira, depois acrescentei o Rufete e, por fim, um bocado de Tinta Roriz, que, em anos bons, fica com um aroma encantador".

Começou algo preso, insistente nas reminiscências de fumo, pimenta preta, coco e baunilha, tudo a apontar para um estágio em carvalho americano, que, sem assoberbarem o conjunto, acabaram por ganhar em definição, e assim sobrepor a sua presença ao "cheiro a vinho" predominante, coisa séria, austera, nada terciária, que só bastante tempo após a abertura começou a deixar perceber a alegria de certa frutinha negra, bonita, é certo, mas de expressão muito suave. Entretanto, cacau, em crescendo.

Na boca, se o volume e o comprimento não se poderiam qualificar como mais que apenas "bonzinhos", era notória a substância, e talvez mais ainda, a coesão evidenciada. Como se, não obstante os quase nove anos volvidos sobre a data da colheita, este vinho ainda estivesse realmente por abrir — e a deixar as sementes da questão sobre se irá realmente fazê-lo . . . Por norma, os tintos de taninos firmes embirram com a acidez e gordura do queijo que, por sua vez, costuma entrar em rota de colisão com a fruta. Mas aqui pareceu-me já existir macieza suficiente e o seu intenso sabor, em concordância com o nariz, era de vinho, vinho mesmo, sem grande fruta, sem pingo de açúcar. Como se de um pequeno Vintage seco se tratasse.

Então resolvi consumir com ele uns quantos queijos maduros que por aí tinha: Stilton, Manchego e da Serra da Estrela, e não me pareceu que a ligação tenha corrido mal, de modo algum. Estava, enfim, contente. Mas quando vieram uns pãezinhos com patê de veado e Pedro Ximenez, de La Cacereña, deste, não consegui mais escapar à forma como o sabor do vinho, sem o ser, puxava maravilhosamente pelo animal, gamy, da carne. E foi como ver a luz.

9€.

16,5

domingo, 21 de maio de 2017







quinta-feira, 18 de maio de 2017

Convento da Tomina '2013

Fundado por Manuel de Jesus Maria, em 1686, o Convento da Tomina está localizado no sítio da Tomina, junto ao Ribeiro de Pai Joannes, em zona fronteiriça entre as localidades de Santo Aleixo da Restauração, do lado português, e Aroche, do espanhol, integrado na chamada Herdade da Contenda, a cujo respeito encontrei uma tese interessantíssima.

Em 1709, por decisão de D. João V, o Convento ficou adstrito à Congregação dos Clérigos Regulares dos Doentes, os chamados clérigos agonizantes, cuja principal missão consistia na assistência aos moribundos. De lá saíram os religiosos que fundaram, entre outros, o Convento de Nossa Senhora de Sacaparte, em Alfaiates, que já não me é estranho.

Feito com Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira e Alfrocheiro, sem passagem por madeira, este Convento da Tomina corresponde a um vinho que o produtor da zona de Moura, em tempos, vendia em garrafão, à porta da adega, e que era tão bom que várias pessoas próximas o terão tentado convencer a engarrafar, com sucesso. Ainda bem.

Porque já tinha saudades de um nariz tão puramente alentejano! Tem frutos pretos cozidos pelo sol e em marmelada, entre os quais pesa a inevitável ameixa, junto com flores e vegetal: aquilo que, há muitos anos, eu chamava "podrum alentejano", rapidamente seguido de — e completado por — sugestões ferrosas e sanguíneas. Xisto?! Mais para o fim, chocolate branco. Na boca, já bastante macia, corpo e persistência "médios mais", com algum álcool e acidez suficiente. E apesar do estilo generoso, não me parecesse que deixasse qualquer impressão de doçura residual no paladar.

A caminho dos quatro anos de idade, está um vinho fácil de entender, directo, franco. Simples, no bom sentido da palavra, e sólido também.

8€.

16

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Slint — Spiderland

Spiderland foi o segundo e último álbum dos Slint.



Goodnight, my love
Remember me as you fall to sleep.
Fill your pockets with the dust and the memory,
That rises from the shoes on my feet.

I won't be back here
Though we may meet again.

I know, it's dark outside
Don't be afraid.
Every time I ever cried for fear,
Was just a mistake that I made.
Wash yourself in your tears,
And build your church
On the strength of your faith.

Please,
Listen to me,
Don't let go,
Don't let this desperate moonlight leave me,
With your empty pillow,
Promise me
The sun will rise again.

I, too, am tired now
Embracing thoughts of tonight's dreamless sleep.
My head is empty,
My toes are warm.

I am safe from harm.



#4, Washer

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quinta da Fata — Touriga Nacional '2009

Outro velho favorito, o monocasta Touriga Nacional da Quinta da Fata, de Vilar Seco, Nelas.

Feito em lagar, com pisa a pé, estagiou, um ano, em barricas de carvalho francês. Abri a garrafa nº 1493, mas não consegui descobrir quantas foram produzidas.

Mais amplo que longo e muito macio, senhor de uma concentração a que não teve de ceder finura, apareceu ainda pouco terciário, rico em violetas e vívidas sugestões de bergamota, misturadas com fruta bem negra, a degenerar com a passagem do tempo em figos, tâmaras e frutos secos, junto com um pouco de chocolate de leite, mais presente no final.

Com oito anos, não me pareceu nada velho. Retém frescura e alegria — talvez, também, promessas para o futuro? Para já, foi pelo equilíbrio que se destacou, foi de equilíbrio a impressão que dele prevaleceu.

Empurrou um bife com batatas fritas, de acordo com esta interpretação do clássico.

18€.

17

terça-feira, 9 de maio de 2017

Filmes (80)

Fisshu sutôrî (Fish Story)





Este filme é a adaptação cinematográfica da novela de 1971 com o mesmo título, escrita por um japonês chamado Kotaro Isaka.




O contra-rótulo inclui uma breve sinopse: "Fish Story weaves together several seemingly separate storylines taking place at different points in time over a 37-year span to explain how a little punk rock song can save the world."




E aparte o bizarro, que só pode ser bom, nem que seja pela diversidade que implica, não é que funciona?




Como o melhor dele é som e movimento, preferia trazer-vo-lo numa janela de vídeo. Mas, o dinheiro, os direitos! O Youtube não deixa.

sábado, 6 de maio de 2017

Herdade do Esporão — Quatro Castas '2012

Feito com Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Touriga Franca e Tinta Miúda, 25% de cada, vinificadas em separado. O Alicante estagiou, seis meses, em inox; as demais castas, por igual período, em carvalho francês e americano.

Nariz maduro, generoso nas notas evocativas de calor e doçura — preferindo não o afirmar muito alentejano no estilo, expressão a que não falta certa perversidade, digamo-lo, pelo menos, profundamente meridional.

E complexo. À fruta que predomina, a evocar ameixa, groselha preta e outros que tais, por vezes com toque lácteo, por vezes alicorado, juntam-se floral doce e reminiscências de barrica, como baunilha e caramelo de leite.

Na boca, corpo médio, de sabor intenso, com acidez moderada e taninos doces. Em termos de persistência, estará apenas entre o médio e o longo, mas não me pareceu essa a sua característica mais lisonjeira. Em todo o caso, um vinho em boa forma!

Há muito que não abria nenhuma garrafa da Herdade do Esporão; esta serviu para me lembrar que, por norma, vale a pena.

10€.

16,5

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O homem que tinha dado o nome de Bill Plantagenet mas primeiro se anunciara como s. s. Lawhill, acordou ao menos com a certeza de uma coisa: estava num barco. Caso contrário, que barulhos espaçados podiam ser aqueles, sons assim, de ferro a malhar em ferro? Identificou o correr de água nas escotilhas, os pesados passos que martelavam por cima dele a ponte, aquele incessante Frère Jacques que é o Frère Jacques das máquinas. Estava num barco, de volta à Inglaterra de onde não devia ter saído. Depois, teve consciência do seu estiraçado, trémulo e malcheiroso corpo. A luz do dia espetou-lhe as pálpebras com setas dolorosas. E ao abri-las viu três marinheiros negros a esfregarem vigorosamente a ponte. Voltou a fechá-las. "É impossível", pensou.

Se estava num barco, e pelos vistos no castelo da proa, a coxia que tinha o seu beliche na ponta por certo atravessava o castelo inteiro. Disparate, concluiu — e fazia-se ao mesmo tempo tão forte o som de corda ferida, que começou a magicar a hipótese de se encontrar deitado em cima do veio propulsor.

À medida que avançava o dia, tornava-se mais difícil suportar aquele ruído de um comboio a andar ali, no tecto, mesmo por cima da cabeça dele. Novamente se fez noite. O ruído ia aumentando e a tripulação, coisa estranha, parecia multiplicar-se. Homens e homens magoados e feridos, sempre bêbados, iam sendo expulsos da coxia pelos contramestres e batiam com a cara no chão, aos berros, ou adormeciam repentinamente nos beliches duros.

Mantinha-se acordado. Passara a noite a fazer o quê? A tocar piano? E essa noite tinha sido, realmente, a noite anterior? Talvez não. Sentia um remorso a roer-lhe as entranhas. E uma vontade de beber desesperada. Não chegava a perceber se estava de olhos abertos ou fechados. De baixo das mantas saltavam horríveis formas entregues a um indecifrável linguajar; vinham esfregar-lhe a cara com pêlos, mas não conseguiu reagir. E sentia qualquer coisa a tentar levantar-se debaixo da tarimba, precisamente um urso. Vozes, uma prosopopeia de vozes aparecia a murmurar-lhe coisas ao ouvido e afastava-se e voltava a aproximar-se e a sussurrar, ou então dava gargalhadas, gritos e grasnidos; eram vozes que o exortavam a nunca mais beber, a morrer, a ficar amaldiçoado para sempre. Uma multidão de espantosas sombras chegava junto dele para se afastar logo de seguida. Da parede jorrou uma cascata de água que invadiu o quarto. E uma gesticulante mão vermelha espicaçava-o. No flanco devastado de um monte corria uma torrente caudalosa que arrastava corpos sem pernas, a dar berros que saíam de órbitas enormes e sem olhos, mas cheias de dentes partidos. Uma música cresceu até ao grito, e depois cessou. Num edifício de fachada totalmente destruída, um escorpião enorme violava uma negra sem braços, numa cama ensanguentada e desfeita. Por breve instante viu a sua mulher de face triste e banhada em lágrimas, que logo se transformou em Ricardo III prestes a atirar-se a ele, para o estrangular.

Malcolm Lowry, "Lunar Caustic"
Trad. de Aníbal Fernandes
Assírio e Alvim, 1985