quarta-feira, 3 de maio de 2017

O homem que tinha dado o nome de Bill Plantagenet mas primeiro se anunciara como s. s. Lawhill, acordou ao menos com a certeza de uma coisa: estava num barco. Caso contrário, que barulhos espaçados podiam ser aqueles, sons assim, de ferro a malhar em ferro? Identificou o correr de água nas escotilhas, os pesados passos que martelavam por cima dele a ponte, aquele incessante Frère Jacques que é o Frère Jacques das máquinas. Estava num barco, de volta à Inglaterra de onde não devia ter saído. Depois, teve consciência do seu estiraçado, trémulo e malcheiroso corpo. A luz do dia espetou-lhe as pálpebras com setas dolorosas. E ao abri-las viu três marinheiros negros a esfregarem vigorosamente a ponte. Voltou a fechá-las. "É impossível", pensou.

Se estava num barco, e pelos vistos no castelo da proa, a coxia que tinha o seu beliche na ponta por certo atravessava o castelo inteiro. Disparate, concluiu — e fazia-se ao mesmo tempo tão forte o som de corda ferida, que começou a magicar a hipótese de se encontrar deitado em cima do veio propulsor.

À medida que avançava o dia, tornava-se mais difícil suportar aquele ruído de um comboio a andar ali, no tecto, mesmo por cima da cabeça dele. Novamente se fez noite. O ruído ia aumentando e a tripulação, coisa estranha, parecia multiplicar-se. Homens e homens magoados e feridos, sempre bêbados, iam sendo expulsos da coxia pelos contramestres e batiam com a cara no chão, aos berros, ou adormeciam repentinamente nos beliches duros.

Mantinha-se acordado. Passara a noite a fazer o quê? A tocar piano? E essa noite tinha sido, realmente, a noite anterior? Talvez não. Sentia um remorso a roer-lhe as entranhas. E uma vontade de beber desesperada. Não chegava a perceber se estava de olhos abertos ou fechados. De baixo das mantas saltavam horríveis formas entregues a um indecifrável linguajar; vinham esfregar-lhe a cara com pêlos, mas não conseguiu reagir. E sentia qualquer coisa a tentar levantar-se debaixo da tarimba, precisamente um urso. Vozes, uma prosopopeia de vozes aparecia a murmurar-lhe coisas ao ouvido e afastava-se e voltava a aproximar-se e a sussurrar, ou então dava gargalhadas, gritos e grasnidos; eram vozes que o exortavam a nunca mais beber, a morrer, a ficar amaldiçoado para sempre. Uma multidão de espantosas sombras chegava junto dele para se afastar logo de seguida. Da parede jorrou uma cascata de água que invadiu o quarto. E uma gesticulante mão vermelha espicaçava-o. No flanco devastado de um monte corria uma torrente caudalosa que arrastava corpos sem pernas, a dar berros que saíam de órbitas enormes e sem olhos, mas cheias de dentes partidos. Uma música cresceu até ao grito, e depois cessou. Num edifício de fachada totalmente destruída, um escorpião enorme violava uma negra sem braços, numa cama ensanguentada e desfeita. Por breve instante viu a sua mulher de face triste e banhada em lágrimas, que logo se transformou em Ricardo III prestes a atirar-se a ele, para o estrangular.

Malcolm Lowry, "Lunar Caustic"
Trad. de Aníbal Fernandes
Assírio e Alvim, 1985